quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mentira Plausível de Helena João



És como uma onicomicose na minha vida. Sim, és como esse fungo que habita as unhas, que nelas expande as suas hifas e que delas retira abrigo e alimento. És como esse fungo que, em troca, apenas deixa os incómodos da comichão e mau cheiro. Sugas-me a energia, a felicidade e a boa disposição e, ainda assim, sou obrigado a amar-te. Não percebo por que lei ou ordem, inscrita num código genético, sou obrigado a amar-te. Partilhamos os mesmos pais, partilhámos o mesmo útero com uma diferença de meia dúzia de anos, a mesma casa e memórias de infância durante anos. Será que só isso basta? Não quero, não acho, não amo. Pronto.
Lembro-me daquele dia em que os pais saíram umas horas e tu ficaste, pela primeira vez, sozinha, a tomar conta de mim. Lembro-me da voz deles a dizer expressamente: «Não subas à macieira, Carlitos, que cais e magoas-te.» E lembro-me de ti a contares-lhes uma mentira qualquer sobre me teres empurrado da bicicleta. Qualquer coisa que justificasse aquele joelho em ferida e me livrasse do merecido castigo. Lembro-me disso.
E lembro-me de me telefonares a meio da noite a pedir para te ir buscar à esquadra.
«Não digas nada aos pais, Carlitos. Não é nada droga, Carlitos, são só uns charros. Emprestas-me 50 euros? Dou-tos para a semana, sem falta.»
Lembro-me disto tudo, mas não me lembro quando passei eu a ser os seis anos mais velho. Não me lembro quando estacionaste nos doze ou qualquer coisa do género. Não me lembro de te ter passado à frente, nem me lembro como é que cheguei aos trinta e quatro já com quarenta.
Não sei o que será ter filhos, mas não quero. Tu já me chegas. Às tantas também era obrigado a amá-los. Sei o que é ver a mãe pelos cantos a chorar e o pai a dizer: «Deixa lá a menina.» Sei que não quero isso para mim. Tu já me chegas. Quando me telefonas a meio da noite ou quando me pedes dinheiro que não tencionas devolver.
Não me parece que a unha ame o seu fungo. Não consegue livrar-se dele, mas não o ama mais por isso.
E eu não te amo.

2 comentários:

Aurora Lopes disse...

Muito muito bom ! Parabéns!

jomanlo disse...

É um conto que é uma doença:
Os laços de sangue são para toda a vida, quer se goste quer não se goste.
A onicomicose da vida que muitas vezes temos que aguentar.
Um conto em poucas palavras, que diz tudo.
Muito Bom
Célio Passos