Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

A Notificação de Célio Passos.


Sexta-feira, 18 horas, finalmente o fim-de-semana chegava. José Augusto fechou à chave a porta do escritório de contabilidade onde trabalha há vinte anos, cumprindo escrupulosamente as ordens do patrão. Algumas pareciam-lhe duvidosas ou mesmos ilegais, mas, como simples escriturário que era, estava ali para cumprir ordens e não para dar opiniões; esse era o lema dos colegas e também o dele.
O seu trabalho consistia num ritual diário, semanal, mensal, anual, demasiado repetitivo, estupidificante, que só os fins-de-semana, quando não tinha de trabalhar, cortavam o ritmo monocórdio da sua vida cheia de papéis, números, de contas recheadas de dinheiro que sonhava um dia vir a ter, mas irrealizável com um emprego daqueles.
Agora que já tinha ultrapassado os quarenta anos, as paixões, se na realidade as teve — ser um actor de teatro ou cinema —, esfumavam-se, tal como a sua vida sentimental. Nunca teve uma namorada, também ninguém se interessou por ele, talvez pelo aspecto físico ou pela timidez que o fazia refugiar-se em casa a ver televisão e a beber cerveja, tendo por companhia o seuRottweiler, que cumpria, em pleno, a velha máxima — o cão é o melhor amigo do homem.
Apanhou o autocarro da linha 32 cuja paragem era mesmo em frente do escritório.
Quando chegou ao prédio onde habitava foi ver a caixa do correio, talvez entre a publicidade, tivesse uma carta dos seus “velhos” que viviam numa aldeia perto de Freixo de Espada à Cinta, e, de longe a longe, escreviam ou enviavam-lhe alguns produtos caseiros.
À entrada e a tocar nas campainhas do prédio para um dos andares estava um polícia. Ao ver chegar José Augusto, perguntou:
- Boa noite, o senhor mora neste prédio?
- Sim – disse.
- Por acaso conhece um senhor chamado José Augusto Silva.
- Sou eu, porquê?
- É que tenho aqui uma notificação para lhe entregar.
E sem demoras passou-lhe a notificação para as mãos, pedindo-lhe para assinar um recibo.
- Mas de que se trata? – perguntou curioso.
- Do que se trata não sei. Só posso dizer-lhe que o senhor terá que estar na próxima segunda-feira às 10 horas na Polícia Judiciária – acrescentou.
E, sem mais nada dizer, despediu-se.
José Augusto ficou a olhar para a notificação, estupefacto. Nunca lhe tinha acontecido semelhante coisa. Prestar declarações na Judiciária? Não tinha feito nada que justificasse uma ida à Polícia, não assistiu a nada, não é testemunha de ninguém, a sua vida era estupidamente igual todos os dias. O que é que eles queriam dele?
Meteu-se no elevador e premiu o botão para o 5.º andar, onde habitava. Conforme ia subindo a preocupação também. Tirou as chaves do bolso e abriu a porta do andar. Rommel, ao aperceber-se da chegada do dono, veio dar-lhe as boas vindas, ficando sentado nas patas traseiras a olhar à espera que o dono lhe fizesse as habituais festas. José Augusto reparou que o cão tinha sangue na boca. Ter-se-ia ferido com alguma coisa? Observou-o e reparou que tinha algo entre os dentes, parecia um bocado de pano, se calhar tratou de lhe estragar alguma peça de roupa que estava a secar no terraço que confronta com as outras habitações do andar. Já não era a primeira vez que isto acontecia com Rommel. Limpou-lhe a boca e pensou que tinha de mandar o cão para casa dos pais, porque, para além de não ter condições para o ter ali, ainda podia arranjar algum problema com os vizinhos. 
Sentou-se no sofá da sala de estar, nervoso, a sua cabeça fervilhava com este acontecimento inesperado.
Lembrou-se do Rui Costa, um amigo de infância. Andaram os dois na escola primária, ele agora era inspector da Judiciária e talvez o pudesse ajudar. Pegou na lista telefónica, folheou algumas páginas até à letra C e localizou o número de telefone desejado. Pegou no telefone e discou o número. Ninguém atendeu. Talvez fosse ainda cedo, tentaria mais tarde.
Não estava para cozinhar, decidiu ir comer fora.
Dirigiu-se para o elevador mas verificou que não estava a funcionar. Não havia outra solução, tinha que ir pelas escadas. Começou a descer e quando chegou ao patamar do 3.º andar encontrou o vizinho do 3.º direito, que, contra o que era habitual, não o cumprimentou e, fingindo que não o viu, entrou rapidamente em casa. Foi de propósito ou fora mero acaso? Teria alguma coisa contra ele? Ou seria a vizinha do rés-do-chão, o raio da mulher passa a vida a meter-se na vida dos outros e se calhar foi-lhe dizer alguma coisa sobre ele..., mas o quê? Diabos levem a mulher!
Tomou o caminho em direcção ao snack-bar a remoer o que se tinha passado momentos antes.
Entrou no snack-bar. Não conseguia comer. A comida não passava na garganta. Pagou a despesa e saiu.
Decidiu ir à casa do amigo inspector. Enquanto se dirigia à casa de Rui Costa, José Augusto ia arquitectando as perguntas que iria fazer ao amigo da Judiciária. Ia primeiro tentar saber se conhecia o inspector com que ia falar; se sabia do que se poderia tratar; o que se iria passar; se teria que lá voltar; se demoraria muito tempo; se estava mais gente presente; se podia vir logo embora; se era melhor falar com um advogado, etc.
Quando se apercebeu, já estava junto ao prédio do inspector. Tocou para o andar que tinha apontado no papel que trouxe de casa. Ninguém atendeu. A porta do prédio estava encostada, empurrou, entrou e acendeu a luz das escadas. Começou a subir as escadas com um ar furtivo, receoso. Chegou ao andar do amigo, encostou o ouvido na porta, não ouvia barulho. Pelo sim e pelo não, tocou à campainha mas ninguém respondeu. No andar da frente a porta entreabriu-se e uma cabeça de uma velha assomou. Tinha o cabelo branco, desgrenhado, e nas mãos transportava um terço de grandes dimensões e pela sua atitude adivinhava-se que andava a rezar pela casa. Era o protótipo da vizinha que sabe da vida de toda a gente do prédio. Olhou para José Augusto e disse:
- Se procura o Sr. Rui, ele não está. Foi passar o fim-de-semana para a terra da mulher. Só vem na segunda-feira - disse numa voz que parecia vir do fundo dos tempos.
- Obrigado – agradeceu.
Dado o recado, a velha refugiou-se em casa fechando a porta muito devagarinho.
José Augusto ficou desorientado. O mundo parecia estar contra ele. A luz apagou-se. Tacteou a parede à procurar do interruptor da luz. Acendeu-a e começou a descer as escadas quase a correr, como se alguém fosse atrás dele. Saiu do prédio, fechando a porta. Começou a andar em direcção a casa num passo apressado a olhar para todos os lados, como se alguém andasse a espiar os seus movimentos.
Entrou em casa, Rommel não apareceu, devia estar sentido com o dono. Foi para a sala comum e sentou-se no sofá. Os seus olhos foram parar à estante onde uma pasta de couro de cor castanha repousava. Era a pasta que fora esquecida por um passageiro no comboio numa viagem entre Lisboa e Porto, quatro meses antes, e que se tinha sentado ao seu lado. Na pasta encontravam-se vários cheques ao portador que totalizavam a quantia de cem mil euros e mais uma papelada que identificava o proprietário da pasta. Nunca tinha entrado em contacto com o dono. Negociou com um agiota os cheques mediante uma comissão percentual.
O dinheiro regularizou-lhe umas situações aflitivas que na altura enfrentava. Teria o indivíduo participado à polícia e agora as investigações tinham chegado até ele? Não, não era possível. Ele não tinha endossado os cheques, por isso, não podiam acusá-lo de nada. O safado do indivíduo a quem passou os cheques não pode provar que fora ele que lhos deu.
Deitou-se cedo, mas não conseguiu dormir. Virou-se e revirou-se na cama, ouviu o relógio da sala tocar as horas e as meias horas pela noite dentro. Durante o fim-de-semana só saiu de casa para efectuar umas pequenas compras, passou o tempo a perspectivar a ida à Judiciária; a responder a hipotéticas perguntas; a elaborar respostas evasivas; a treinar atitudes, inclusive a sugerir soluções ao inspector para o caso. Seleccionou a roupa que ia levar, o fato, a camisa, a gravata, as meias, os sapatos e até a roupa interior. Sentou-se à mesa a idealizar como iam decorrer as declarações; o inspector sentado à sua frente, corpulento, com ar enfastiado de quem se sente mal pago, vestindo um blusão de couro, por cima de uma camisa aos quadrados, donde se vislumbrava por baixo uma t-shirt branca, calças de ganga e umas botas de tacão. Tratava-o por “tu isto”, “tu aquilo”. Fazia perguntas impertinentes, queria saber coisas que não tinham nada com o caso (que ainda não sabia qual era), mas que entendia que não devia responder, só na presença do seu advogado, que não tinha, só se fosse constituído arguido, acusado de um acto que talvez tivesse praticado, sabia lá!    
Eram 9 horas e 30 minutos quando José Augusto chegou à Judiciária. Dirigiu-se ao balcão de atendimento, apresentou a notificação, identificou-se e entregaram-lhe um cartão plastificado, que pendurou no bolso superior do casaco.
Dirigiu-se para o gabinete do inspector Abel situado ao fundo de um corredor ladeado por paredes pintadas de amarelo claro e portas com vidros martelados com letreiros afixados, ao lado das portas, que indicavam os nomes dos diversos inspectores. Bateu, a porta entreabriu-se, e verificou que ninguém se encontrava no gabinete. Encostou-se à parede e aguardou. Passados alguns minutos, um indivíduo de estatura acima do normal, esguio, de cabelo branco que já rareava, vestindo uma gabardina cinzenta esverdeada, por cima de um casaco que se adivinhava grande, uma camisa desabotoada de tamanho que não era o seu, e uma gravata preta com um nó meio desfeito; parecia uma personagem saída de um quadro de El Greco. Cumprimentou José Augusto e entrou no gabinete, voltou atrás e estendeu a mão, perguntando:
- É o Sr. José Augusto Silva.
- Sim – respondeu apertando a mão ao inspector.
      - Faça o favor de entrar e sente-se - fazendo um gesto convidativo com a mão.
      - Obrigado – agradeceu.
 Não era esta gentileza o que estava à espera. O inspector sentou-se na secretária e abriu a capa de um processo. Analisou, por breves momentos, a documentação e perguntou:
- O Sr. José Augusto Silva é natural de Mirandela?
- Não, sou natural de Freixo de Espada à Cinta.
- O seu pai é o Sr. Ambrósio Silva e a sua mãe Maria das Dores Silva?
- Não, os meus pais não têm esses nomes.
- O Sr. Silva mora na Urbanização da Cidade Nova, edifício D, 5.º andar esquerdo?
     - Sim – respondeu.
          - Há quanto tempo mora nesse prédio?
          - Há mais ou menos vinte dias.
          - Então o senhor entrou no mesmo dia que o anterior inquilino saiu?
          - Creio que sim. O andar estava mobilado. Ele saiu de manhã e eu entrei à tarde.
          - Que idade tem, Sr. Silva? – perguntou o inspector já um pouco intrigado.
     - Quarenta e dois.
     - Curioso! O processo que tenho aqui é sobre um Sr. José Augusto Silva, que mora no referido    
 andar, tem trinta anos e é natural de Mirandela, portador do bilhete de identidade... Não se importa de me mostrar o seu bilhete de identidade? – solicitou o inspector.
    José Augusto entregou-lhe o bilhete de identidade.
  - Os números não coincidem – disse.
Efectivamente os dados não coincidiam. José Augusto ficou ainda mais nervoso, não sabia o que  
    dizer.  As situações que tinha idealizado não estavam a acontecer.
   - O prédio tem porteiro? - perguntou o inspector.
    - Sim.
    - Provavelmente o porteiro é capaz de confirmar o que o senhor disse.
  - Penso que sim! Talvez!
  - Tem o número do telefone dele?
- Sim.
- Qual é?
      Deu o número do telefone e o inspector ausentou-se por momentos da sala. Ia provavelmente telefonar para ele.
Voltou passados alguns minutos e sentou-se.
- Efectivamente o porteiro confirmou o que Sr. Silva disse. O inquilino anterior ao senhor tinha curiosamente o nome igual ao seu, por isso a confusão que se estabeleceu, as minhas desculpas.  
Ainda bem para o senhor por que o caso é bastante complicado, até lhe digo: muito “chato”.  
Precisamente há um mês, no dia que anterior inquilino saiu e o senhor entrou, um cão de raça Rottweiler, que se encontrava no seu andar, atacou um seu vizinho, um velhote, mordendo-o, provocando-lhe ferimentos graves. O velhote estava sozinho em casa, e a filha e o genro só apareceram por volta das dez da noite, e viram o familiar, inconsciente, ensanguentado com extensas mordeduras. Não se sabe a que horas isso aconteceu. Chamaram o 112 e o velhote foi para o hospital em estado de coma. O senhor morreu a semana passada, resultado desses ferimentos e a família apresentou queixa.
- Por acaso o Sr. Silva também tem algum cão?
- Sim.
- Rottweiler?- perguntou o inspector.
- Não, pastor alemão – mentiu receando alguma pergunta que o colocasse em situação duvidosa.
- Sr. Silva não quero demorá-lo mais. Renovo as minhas desculpas por este equívoco e lamento tê-  
-lo feito perder, com certeza, o seu precioso tempo – disse o inspector levantando-se e estendendo a mão, à guisa de despedida.
José Augusto quando saiu da Judiciária parecia outro. Sentia-se como um actor que tinha feito uma
performance  genial, como um dos actores que admirava. Com um sorriso nos lábios, pensava com os seus botões: «Oinspector não contava com a minha postura, tinha dominado a situação.»Durante o interrogatório apercebeu-se que ele estava surpreendido com a forma clara, directa, com que respondia às perguntas, pensou mesmo, algo fulgurante. «Ainda bem que tinha estudado o caso no fim-de- semana. Julgava ele que me ia atrapalhar, como é costume fazer com os outros desgraçados que vão lá prestar declarações, metem os pés pelas mãos, e, quando menos esperam, já estão na ‘choldra’. A mim seria muito difícil isso acontecer, até diria, impossível. Embaracei o inspector, forcei-o a representar um papel secundário. A vida de vez em quando gosta de nos pregar uma partida.»
Perante o sucedido, decidiu que o momento era para comemorar, não ia almoçar ao local habitual,   
muito menos iria trabalhar.   Dirigiu-se a um restaurante conhecido, como local frequentado por homens de negócios, tinha a fama de ser caríssimo, não importava, dias não são dias. Empertigou-se mais do que estava, deu um jeito à gravata e entrou. O chefe de mesa veio ter consigo.
- O senhor tem mesa marcada – perguntou.
- Não. Porquê? Era preciso?
- Não necessariamente. Faça o favor de me seguir.
O restaurante não tinha muita gente. Algumas mesas estavam com clientes, homens de negócio com certeza. José Augusto pediu um uísque e perguntou se tinham cigarrilhas. Trouxeram-lhe o que pediu. O almoço incluiu do melhor que havia na ementa. Não bebeu cerveja, como de costume, mas sim um vinho tinto alentejano do mais caro. Estava com aquela sensação que a sua vida ia mudar, deixava de pertencer à categoria de homem vulgar. Almoçou lautamente. Pediu a conta e perguntou ao empregado se podia pagar em dinheiro, uma vez que se tinha esquecido do cartão de crédito, que nunca teve, no escritório.
 Passou o resto do dia a deambular pela cidade, entrou em lojas de moda, não comprou nada mas experimentou tudo. Visitou livrarias, mexeu e remexeu numa quantidade infinita de livros, em especial, sobre os que tratavam temas de marketing e negócios, mas não comprou nenhum. Olhava as pessoas com desdém, altivo, distante, sentia-se extasiado.
Já o astro-rei ia lentamente desaparecendo no horizonte quando José Augusto decidiu regressar a casa.
À porta do prédio e a tocar para um dos andares, estava um polícia. José Augusto parou, pelo corpo passou-lhe um arrepio de frio, as mãos ficaram húmidas, recuou, contornou o prédio e afastou-se.
 Decidiu não ir para casa, pelo menos de imediato, a noite iria servir para repensar o seu futuro; além do mais, gente importante deita-se tarde.    
                                                                           Fim

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Anjo Negro de Luis Fernandes


Distraído, entrou num bar sem se aperceber. Ao fundo do balcão estava uma TV ligada, mas sem som, a transmitir um jogo de futebol da liga espanhola. Era um balcão corrido com bancos altos ocupados quase banco sim, banco não. As paredes do bar estavam repletas de merchandising de um clube espanhol – cachecóis, bandeiras, camisolas, galhardetes, tudo naquele espaço era alusivo ao clube. Adepto de um pequeno clube marroquino, não o espantava a obsessão aparente que tomava conta de quem servia e de quem era servido. Todos aguardavam a final da partida que era transmitida pela televisão e que daria lugar ao jogo da Taça do Rei que tanto ansiavam. Em poucos minutos o leve ruído que se fazia ouvir transformou-se numa algazarra encimada pelo som da televisão aos berros e pelos comentários animados da dezena de pessoas que olhava para o televisor como se estivesse num camarote.

                                                            ***
Umas horas antes…

Naquela manhã Omar acordara calmo mas decidido. Era, sem dúvida, um óptimo dia para morrer. Porque não? E se não fosse hoje, seria com certeza nos dias que se seguiriam. Na noite anterior tinha-se despedido dos pais e anunciara a sua decisão de morrer pela causa islâmica, podendo assim honrar a sua família e elevar-se a mártir – um orgulho para os pais e para todos os seus. Omar fazia naquele dia 19 anos e achava que não podia adiar mais o seu destino. Tinha uma quantidade considerável de explosivos, que guardava debaixo da cama, os quais tinha herdado de um companheiro de escola que vira a sua vida acabar devido a um momento de distracção - tinha morrido atropelado sem ter conseguido cumprir o destino a que se entregara. Omar questionava-se agora qual seria o alvo do seu atentado. Não queria cair no esquecimento. A publicidade que rondaria o seu acto era um dos seus objectivos. Queria ser falado e servir de exemplo aos seus conterrâneos mais novos – queria ser lembrado como herói.

Omar afagava a sua vasta cabeleira e perfilava a sua barba apesar de ainda imberbe. Os seus olhos negros, profundos, faziam a delícia das mulheres nórdicas, que, com os seus loiros cabelos, quase incolores, se prostravam diante dele na esperança de que aquele homem de aspecto agreste se deixasse entregar em seus braços. Esperança vã, já que para Omar não obedecer à castidade estava fora de questão. Omar desconhecia o prazer e facilmente fugia aos olhares lascivos daquelas fêmeas provocadoras e dos sorrisos convidativos que deixavam adivinhar uma noite de sexo selvagem.

O futuro mártir habitava num pequeno apartamento nos subúrbios de Madrid, que partilhava com mais três árabes. Os companheiros raramente estavam em casa, mantendo rotinas completamente diferentes das dele, o que lhe permitia muito tempo de calma e reflexão. O seu principal passatempo era engendrar diversas formas de assassinar o Primeiro-Ministro Israelita.

Não tinha passado muito tempo desde que fora perseguido na rua e espancado, com bastões de basebol, por um grupo de cabeças rapadas que ostentavam orgulhosamente suásticas ao peito e envergavam roupas negras coladas ao corpo, assim como botas militares, que lhes transmitiam um ar violento e assustador. Na altura Omar não se deixou intimidar, o que lhe valeu a cabeça aberta e diversas escoriações por todo o corpo. Aqueles actos eram cada vez mais frequentes nos bairros pobres da periferia e começavam a espalhar o pânico entre as comunidades muçulmanas. Não seria mal pensado pôr cobro a isso arquitectando um ataque suicida ao “quartel-general” destes pseudoguerreiros, que se juntavam diariamente num barracão abandonado, onde decidiam o raio de acção para cada dia. Mas teria um impacto de pouca extensão.

Omar pouco conhecia da história europeia. Lembrava-se das Cruzadas levadas a cabo pelos fidalgos cavaleiros, que empreendiam, na altura, uma guerra santa em nome da razão cristã. Odioso perante tal lembrança, esboçou um esgar cínico, que culminou com um soco sonoro na parede. Lembrou-se do Eusébio, essa pantera negra, que enchia de excitação a sua faceta de “futebolista castrado”. Esse homem devia ter sido muçulmano, pensava Omar em voz alta! Um ser fisicamente tão brilhante nunca poderia ter um deus diferente do dele. Nisto decidiu-se! O seu alvo seria um estádio de futebol cheio de adeptos a assistirem a um jogo. Não era original, mas seria eficaz e grandioso.Bastava-lhe agora escolher o estádio maior da Europa ou, quem sabe, a equipa de futebol mais cara da Europa. O país, ou a cor política do governo do mesmo, era pouco importante.

Naquele dia teria lugar um grande jogo na cidade. Sem dúvida um alvo apetecível, mas uma contrariedade fez frente aos seus intentos – os bilhetes estavam esgotados e não tinha dinheiro para adquirir um no mercado negro.

Depois de várias tentativas sem êxito, deambulou pelas ruas sem qualquer destino aparente.
                                                           ***

Omar, encostado a uma máquina de flippers, observava a “fauna” que fazia daquele bar um lugar imundo e impuro e a visão causava-lhe náuseas. Acabou por pedir um chá de menta, que sorvia como um acto sagrado, enquanto o jogo, iniciado há quinze minutos, lhe ia prendendo a atenção e aos poucos se sobrepunha ao intento que o fizera sair de casa.

Eram perto das nove da noite quando entrou pela porta uma mulher jovem e atraente, com feições árabes, que fugia sem dúvida de alguma coisa. Imediatamente Omar prendeu a sua atenção nela. Seria prostituta? Omar não queria sequer admitir que uma mulher com as suas raízes frequentasse um lugar conspurcado daqueles. Não sendo prostituta, só poderia estar em apuros e mesmo isso não seria razão para quebrar tais regras. E não se enganou: numa correria e algazarra perturbantes, perseguiam-na seis seus velhos conhecidos – os cabeças rapadas que o tinham sovado e que travaram de imediato assim que o viram. Em pouco tempo dividiram-se em dois grupos. Dois foram em direcção da jovem e os restantes quatro trataram de encurtar cautelosamente a distância que os afastava de Omar, enquanto este recuava rosnando entre dentes palavras impercetíveis em árabe. Lançou a mão ao bolso traseiro das calças e de forma subtil alcançou a ponta e mola que tinha adquirido após a sova aplicada pelos skins. Conseguiu desviar-se do primeiro bastão e investiu de navalha reluzente na mão, deixando um dos agressores dobrado sobre o abdómen. Lançou-se ainda em fúria sobre o segundo agressor, que se esquivou, sendo apenas golpeado de raspão junto à boca.

Omar dividia a sua atenção entre a luta e a rapariga assustada e ameaçada pelos outros skins. Num golpe de cintura, fugiu aos murros desajeitados dos dois skins que restavam intocados e precipitou-se sobre os que amedrontavam a rapariga. Nessa altura sai de trás do balcão, de barra de ferro em punho, o barman, provavelmente o próprio dono do estabelecimento, que aos berros se dirigiu rapidamente aos skins. Omar ficou a saber que também para este homem os cabeças rapadas eram velhos conhecidos, que, à força da destruição que tinham causado em visitas anteriores, o punham completamente fora dele. E foi com a cegueira da fúria que conseguiu correr com eles para fora do estabelecimento, ajudado por Omar e dois outros clientes já turvados pelo álcool que anulava o medo e a consciência. Quando por fim tudo tinha acalmado, Omar reparou que a jovem árabe já não se encontrava entre eles, mas por mero acaso também reparou num pequeno bilhete esquecido numa mesa que dizia apenas “obrigada”. Pagou o chá e saiu a correr desconhecendo que direcção deveria seguir para tentar interceptar a jovem. Andou sem rumo até se cansar e, por fim, decidiu rumar a casa utilizando o metro para o fazer. Assim que entrou na carruagem e as portas se fecharam, viu passar na direcção contrária a jovem que tanto interesse lhe tinha causado.

Cabisbaixo, subiu as escadas do prédio em que morava e, metendo a chave à porta, dirigiu-se ao seu quarto com o intuito de fazer uma breve leitura do seu livro religioso. Mas o seu pensamento não parava sossegado e deambulava pelas lembranças breves que mantinha dos acontecimentos daquela tarde, acabando por se encostar e adormecer.

Eram já cinco da manhã quando acordou esfomeado e, saltando da cama, enquanto preparava algo para comer, deparou-se novamente com as insistentes lembranças. Aquela que se cruzara com ele naquela tarde era com certeza muito especial. Aquela obsessão nova tinha feito adormecer a anterior. Já não queria morrer. Já não pensava sequer na sua condição de futuro mártire já nem sequer lhe apetecia perder mais tempo a engendrar vinganças religiosas. Não sabia como poderia encontrá-la, mas iria tentar.

Daí em diante todos os seus minutos livres eram dedicados de forma obstinada à procura da rapariga árabe. Palmilhava quilómetros pelas ruas de Madrid na esperança vã de a voltar a encontrar e… voltou... Meses mais tarde, enquanto distraidamente atravessava uma rua fora da passadeira, só teve tempo de olhar o condutor e cravar a sua atenção no rosto sublime da sua obsessão antes de ser mortalmente atropelado. Tal como o amigo que lhe deixara em herança os explosivos que guardava em casa, também ele via a sua vida a esquivar-se pelos dedos da mão da mesma forma. E foi a mesma visão que os acompanhou no derradeiro adeus – uma mulher árabe que ocupara todos os seus pensamentos nos últimos meses de vida.

Outros herdaram os explosivos e todos esses outros morreram com a mesma visão.

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

Epifânia de Helena João.

O badalar dos sinos soa metalicamente na minha cabeça, confundindo-se com a dor que já lá se instalou. O cortejo inicia-se e eu assisto a tudo, pairando sobre mim mesmo, numa estranha experiência extracorpórea. Dezenas de pessoas seguem atrás de mim e daquele estranho objecto onde ela foi posta. Morreu. A palavra repetida dezenas de vezes não faz qualquer sentido. Morreu. Abandonou-me. A mim e ao filho que também é dela.
Mais meia hora e está tudo acabado. Sete palmos de terra. Flores. Pêsames. Abraços sinceros e outros de conveniência. Acabou tudo. Ouve-lhe a voz que lhe diz «até já». Vê-a parada, sentada no carro, a olhar para cima, para a sua janela. A última vez.
Conhecera-a anos antes por um mero acaso. No preciso momento em que regressava a casa da entrevista daquele que viria a ser o seu primeiro emprego, a sua caixa de e-mail recebia uma notificação. Era uma notificação de uma dessas redes sociais, às quais se adere numa tarde onde não há mais nada para fazer e parece boa ideia expor assim um pedacinho do íntimo de cada um. Já há meses que não abria essa página de perfil, esse local onde meia dúzia de fotografias suas jazia. Sozinhas, isoladas, perdidas no ciberespaço. Nunca se dispôs a cancelar essa conta, apesar de não saber bem porquê. A verdade é que, por um acaso qualquer, essa conta não foi terminada e era dela que recebia agora a notificação. Alguém tinha comentado uma fotografia sua. Abriu a conta e clicou no link que indicava que havia «new comments». Debaixo daquela fotografia ela tinha escrito «Are you the king of the world?» A fotografia era uma das suas preferidas. Tinha sido tirada em Sintra, no Convento dos Capuchos, já cá fora, depois da visita ao que é o mais claustrofóbico ponto turístico que visitou. E gostava dela, não por ser uma séria candidata ao Pulitzer, mas porque essa fotografia espelhava a sua felicidade. Não se via o seu rosto, mas sabia que estava feliz. Nessa fotografia estava em cima de um rochedo, de braços bem abertos e a olhar para o céu, como que a abraçar toda a vida, toda a força que sentia possuir. De certa forma, sim, sentira-se o rei do mundo.
- É melhor deixares o menino cá em casa comigo esta noite. Para descansares, para teres tempo de arrumar tudo.
- Está bem, mãe.
Assim que rodei as chaves na fechadura e entrei, o espaço de todos os dias olhou-me pela primeira vez. Está tudo como umas horas antes, o bonsai e a orquídea, os livros na mesa da televisão, o comando esquecido no sofá, a persiana meia corrida, na janela ainda sem cortinas. Pertence tudo a uma outra casa, a uma outra vida. Sinto-me intruso.
Recorda a derradeira noite, quando ela finalmente lhe contou. Chegou a casa, sem a mochila e ele soube que algo de errado se passava. Arrastava os pés, pendia-lhe a cabeça e os ombros encolhiam-se como que a evitar o inevitável. Numa das mãos trazia um presente. Trazia sempre um presente. Um embrulho feito por ela, à pressa, mas sempre com o menino no pensamento. Desta vez era um livro.
Sentada no sofá, olha para ele e as lágrimas escorrem-lhe sem esforço. Não soluça, não produz qualquer som. Apenas aquela dor transborda sob a forma de rio salgado a desprender-se de uma nascente de castanho. E, calmamente, conta-lhe tudo. Conta-lhe como numa manhã de Abrilresolveu ir, finalmente, ao médico e investigar a dor de cabeça que já há meses a atormentava. Conta-lhe como após uma exaustiva passagem por vários departamentos do hospital, a informaram do diagnóstico. Conta-lhe o prognóstico que esse diagnóstico acarreta.
Em Abril! E a mim conta-me em Julho! Dá-me o facto como consumado. Sentença proferida após julgamento à revelia. Já não há nada que eu possa fazer. Odeio esse sentimento! Odeio sentir que me retiram o controlo dos meus sentimentos. Odeio-a neste momento. Ou quero odiá-la e não consigo. Odeio-me porque nem sequer quero pensar no que ela sente.
Negação, raiva e negociação, os três estádios em cinco minutos. Vai ficar sem ela. Não! Porquê? Resta-lhe uma eternidade para viver o quarto. Depressão.
Olha a porta do escritório, sem a abrir. Sente lá dentro a cadeira dela, o portátil fechado, mas ligado em cima da mesa. Ouve-a a pedir-lhe um café dos nossos. Entra no quarto e deita-se na cama. Fita o infinito sob a forma de tecto pintado de amarelo e assim permanece. Não sabe quanto tempo passou. O menino não ficou com a mãe apenas aquela noite, mas ele perdeu a noção do tempo. Não sabe se passaram dias, semanas ou meses. Mas sabe que o tempo nunca passa no tempo certo. Tempo que passou depressa demais quando ela era dele e não lhe morria nos braços. E agora não passa, agora não corre célere. Agora não o transporta ao esquecimento.
Já fiz tudo o que me era exigido fazer. Despejei as gavetas, coloquei tudo em caixotes e tirei-os de casa. Mudei a cor das paredes da sala e os móveis do escritório. Só a orquídea permanece.
Divide os dias entre a dor da perda e a raiva. Raiva por ela o ter deixado tanto tempo na ignorância. Sente-se traído. Talvez ela apenas o quisesse proteger. Talvez esperasse encontrar uma solução. Sente-se traído, é indiferente.
Quer desintoxicar-se dela. Reabilitar-se. Mas não sabe como. Tenta não pensar. Porque pensar é não compreender. O Mundo não se fez para pensarmos nele. Pensar é estar doente dos olhos. Que sábio sempre lhe pareceu Alberto Caeiro… E olhando à sua volta ele vê. Vê o menino que cresce sozinho, sem ela, mas, mais grave do que isso, sem ele, que é o seu pai. Vê a mãe preocupada com a vida que sente que se apaga dentro dele. Vê os amigos. Esses de sempre e aqueles, mais recentes, em esforços vãos de lhe devolver o sorriso. Vê no espelho uma pessoa que não reconhece. Vê aquilo em que não se quer tornar. E percebe que não se escolhe aquilo que acontece na vida de cada um. Mas que pode escolher-se como lidar com isso, escolher o que isso vai fazer de nós. Decide que tem de parar de procurar respostas no tecto pintado de amarelo e levanta-se da cama. Talvez não haja respostas. Talvez não tenha que ser tudo científico. Talvez seja possível viver sem perceber. Percorre novamente as divisões do T3. Falta-lhe vida. Faltam-lhe brinquedos espalhados pelo chão e risos de criança. Faltam cortinas na janela da sala. É tempo de tratar disso. E de fazer os furos na parede para as fotografias. Lentamente a dor dentro da sua cabeça começa a desvanecer-se. Vai sendo substituída por projectos de futuro. Afinal, parar é morrer. A dor no coração não se vai embora já. Mas a pouco e pouco também muda de nome. Passa a chamar-se saudade e fica arrumada numa gaveta dentro da alma.
Entro no quarto do menino. Não perdeu a aura de santuário, continua a ser o espaço protegido de brincadeiras e risos, de parede pintada com desenhos de carrinhos e super-heróis e a estante cheia de livros. Pego no casaco castanho, aquele que lhe vesti no dia em que fomos ao Zoo ver as focas.
- Anda filhote, vamos.
- Trazes uma prenda?
- Não, mas, se te portares bem, compro-te uma no caminho.
O Sol não se vai pôr ainda, não me faz uma desfeita dessas. Ainda há tempo. Nas próximas duas horas vai passar devagar, mas isso não importa. O menino corre com o cão pelo areal até caírem os dois e, a rebolarem, se confundirem com a paisagem. As gargalhadas de sempre ecoam desenterrando memórias. Afinal ainda estou vivo. Ou renasci. Juntos somos uma unidade.
No caminho de casa compra-lhe um livro. Aceitação.


Quarta-feira, 21 de Março de 2012

Nem às paredes confesso de António Alvarez

Capítulo I – A outra margem

O tempo estava frio e ali parado, no cais daquela velha estação de comboios, sentia o corpo ainda mais arrepiado. Bem puxava a gola do velho sobretudo para cobrir a face, mas a aragem que corria penetrava por todo o seu corpo causando-lhe desconforto. Naquele corpo magro o sobretudo baloiçava à menor aragem e dava-lhe um ar caricato, quase de “espantalho”. É verdade que já lhe chegara às mãos depois de muitos invernos passados noutras costas, mas era o único agasalho que tinha para dias como este.
Enquanto andara para a frente e para trás calcorreando o cais, parecia não estar assim tão desagradável. Mas agora que parara sentia mais o frio. Tirou uma das mãos do bolso e olhou o relógio. Marcava 7,26h, mais dois minutos que o velho relógio da estação. Bateu com os pés uma vez mais para aquecê-los epuxou de um cigarro para ajudar a passar o tempo. O comboio partiria às 7,40h. Ainda pensou em ir beber mais uma bica mas hesitou, calculando que com isso se poderia atrasar e deixar passar o comboio. Não é que o tempo de beber um café fosse assim tanto, mas, sei lá, poderia estar muita gente e depois não ter tempo de pagar. E de maneira nenhuma queria passar por “caloteiro”. Isso não!
- Bom dia! Por acaso o senhor tem lume? – rodou a cabeça para o seu lado esquerdo e deparou-se com um rapaz ainda jovem, de farta cabeleira, e com uns óculos redondos de aros cor de tartaruga na cara.
- Sim! – e passou-lhe o isqueiro para as mãos.
- Obrigadinho! – disse-lhe o jovem afastando-se um pouco mais do local onde ele se encontrava.
Olhou para o lado do castelo e observou as ruínas da “Torre da Má-Hora” lá ao fundo. Iria vê-la de mais perto quando fosse no comboio. O apito estridente efetuado pelo chefe da estação trouxe-o de novoà realidade.Pegou na mala e aproximou-se mais da beira do cais. A velha composição ronceira vinha-se chegando à velha estação e os poucos passageiros iam-se aproximando mais para o local de embarque. Dali iriam até à Torre da Gadanha, onde apanhariam o comboio vindo de Beja para o Barreiro.
Sentou-se à janela do lado onde veria a vila a ficar para trás. Os bancos não eram muito confortáveis mas a viagem também seria curta até à próxima estação. Traçou a perna e pousou a cabeça na mão, em concha, encostado ao vidro da janela.
- Custa partir não é?
Olhou em frente e era o mesmo jovem que lhe pedira lume e que agora se lhe dirigia. Pouco tinha reparado nele, a não ser talvez a sua cara. Tentava agora adivinhar-lhe a idade. Talvez 19 ou 20 anos! Vestia-se como qualquer outro jovem da sua idade. Umas calças de ganga, uma camisa de flanela azul e vermelha, tendo por cima uma camisola de lã com gola em bico, e um casaco, também de ganga, completavam a indumentária simples. Nos pés usava umas botas de carneira já com aquele castanho bem forte do uso contínuo. Ao seu lado no banco, uma mochila, daquelas que se usavam na tropa, bem ataviada.
- Eu sempre aqui vivi com a minha avó – continuou o rapaz .– Nunca conheci os meus pais! Morreram os dois num acidente e depois a decisão do tribunal foi a de me entregaremà minha avozinha – reparou que olhos do jovem brilhavam quando falava da avó. – Desculpe! Nem sequer me apresentei! Sou o João Manita – e lançou a mão na sua direcção.
- Prazer João! Eu chamo-me Álvaro Fontes – foi tudo o que acabou por lhe dizer.
- Também vai para Lisboa? – perguntou-lhe o jovem.
- Sim rapaz! Moro lá – e endireitou-se no banco do comboio.
- Mora lá? Então talvez me saiba dizer onde fica o Largo de Camões. É que eu…
- Já sei… Nunca foste a Lisboa! Não é isso? – perguntou-lhe simplesmente.
- É isso mesmo. Não conheço mesmo nada! – respondeu como se estivesse a desculpar-se da ignorância de não conhecer a capital.
- Fica descansado que dir-te-ei onde fica... Quando lá chegarmos!
Entretanto Montemor-o-Novo ia ficando para trás, cada vez mais pequeno, no que o seu horizonte visual alcançava. Não tardariam muito a chegar à Torre da Gadanha. Ali teria de esperar mais trinta e cinco minutos pelo comboio vindo de Beja.
Junto à estação havia um pequeno café que àquela hora apresentava pouca freguesia. Como não tinha tomado a sua “bica”, aproveitou o tempo de espera e dirigiu-se para lá.
- Não se importa que o acompanhe? – perguntou o seu “companheiro” de viagem.
- Claro que não. Vem daí!
Caminharam lado a lado silenciosos até ao café. A tabuleta, já gasta, indicava o nome do estabelecimento: “O Cantinho da Gadanha”. Condizia com o tamanho do lugar. Um pequeno balcão, quatro pequenas mesas e oito bancos de madeira era todo o mobiliário que possuía. Na parede um quadro do Benfica e um rádio, já antigo, cujo som deixava um pouco a desejar. Nas prateleiras garrafas de várias bebidas e em cima do balcão uma pequena vitrina, de madeira e vidro, que deixava ver alguns queijos e torresmos. Ao lado um prato com bolos, que, pelo aspeto, deveriam ser do dia anterior.
- Ora então muto bons-dias! O que é vai ser? – perguntou o dono do estabelecimento.
- Eu tomo um café. E tu João?
- Para mim pode ser também um cafezinho bem quentinho! – respondeu o jovem enquanto esfregava as mãos uma na outra.— A ver se aqueço, que isto está agreste Sr. Álvaro.
O comboio atravessava a planície alentejana em direção ao Barreiro. Calculava que por volta das 14,30h chegaria ao Terreiro do Paço. O João adormecera entretanto. Olhava para ele e vinham-lhe à memória recordações de si com aquela idade. Vivera intensamente como se o “mundo lhe fugisse das mãos”.
Um pouco antes de a composição entrar na gare do Barreiro, Álvaro deu um pequeno safanão no ombro de João.
- Estamos a chegar rapaz!
João quase que deu um salto no banco – Eh! Sr. Álvaro, isto é que foi “ferrar” bem no sono! – respondeu esfregando os olhos com as mãos. Entretanto espreguiçou-se um pouco.
- João, temos de nos despachar que o barco é daqui a um quarto de hora – disse-lhe Álvaro. Ao mesmo tempo foi tirando a pequena mala da bagageira que se encontrava por cima dos bancos.
Tinham escolhido um lugar à proa do barco. Aí podiam fumar e olhar a paisagem de um lado e do outro. Lisboa ia ficando cada vez mais perto. O seu olhar já divisava as muralhas do Castelo de São Jorge e as torres da Sé Velha.

 
- Vês aquelas muralhas lá no alto? É o Castelo de S Jorge – e apontava o dedo de modo  que o João o seguisse com o olhar.
- Eh, Sr. Álvaro, isto é que é um “mar”! É só água e mais água – observava o jovem.
- Aqui ainda não é mar! É só rio. É o rio Tejo. Mas lá grande é ele na verdade!
Um barco igual aproximava-se em sentido contrário. Vinha de Lisboa em direção ao Barreiro. As buzinas soaram quando se cruzaram: “booooooooommm…, booooooooommm..., booooooooommm”. As ondas criadas pelo rasgar dos cascos batiam de lado no barco fazendo-o oscilar. Algumas pingas bateram na face e sobre os lábios um sabor a sal que lhe trouxe à memória outros lugares bem longe dali...

Continua...