segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

O REINO DE MARGARIDA

Cabelos timidamente finos e esbranquiçados, carentes de força e determinação, reforçavam a aparência frágil daquele rosto seco e chupado que deambulava pela sala atendendo os clientes numa postura de inferioridade, quase humilhação.
Calças pretas, velhas, camisola de gola alta escura coberta de borboto. Roupas negras a quem os anos retiraram o vigor vestiam-lhe o corpo falto de carnes e reflectiam-lhe a alma vazia de felicidade.
Solidão ambulante servindo sorrisos tristes e olhares amargos. Cada chávena de café continha um pedido tímido de compreensão:
«Por favor, não me gozem. Basta! Não sou o Toninho, aquele ser insignificante que se acostumaram a vexar, a submeter. O meu nome é ANTÓNIO, estão a ouvir. ANTÓNIO!»
O café era sorvido mecanicamente por dezenas de bocas estupidamente iguais que digeriam a súplica do António com a indiferença esmagadora de quem faz do quotidiano o seu pensar. É a cegueira de quem vê, de existir apenas com o minuto, a hora, o exterior, e não com o que — sem nome — de bom e importante há em nós e deveria ser a seiva da nossa vivência, o sumo a brotar dos nossos actos.
Se cada homem é único, se não existem duas pessoas iguais, não deixa de ser admirável que, frequentemente, a força do hábito se sobreponha, domine, não hesitando em eleger vítimas que satisfaçam os rituais diários que a comunidade interiorizou como normais!
Era justamente o caso do António. Indivíduo frágil, inseguro, tristonho, incapaz de se defender, de reagir, tornou-se ao longo dos anos no alvo preferido da chacota dos que frequentavam o bar da Sociedade Recreativa Luz e Vida. No exercício das suas funções de empregado do bar, amiudadas vezes se dirigiam a si, zombando com o facto de, apesar dos seus 35 anos, nunca lhe ter sido conhecida qualquer companhia feminina.
«Oh Toninho, traz aí mais três surbias. Quando o bar fechar, vamos os dois às meninas. É hoje que vais perder os três! Ou será que preferes meninos?», gritava um sujeito que, acompanhado de outros dois, ria efusivamente ao canto da sala.
Prestimoso, António serviu as três cervejas.
«Não te preocupes, Toninho. Eu pago! Se convido… pago. Até te pago uma francesinha, homem. Tens que comer rapaz. Tu de frente pareces que estás de lado.» As gargalhadas vindas daquela mesa contagiavam os presentes, e, num instante, todos troçavam do António. Até o Sr. Joaquim, que era quem explorava o bar e fazia o favor de o empregar — em respeito à memória do seu falecido pai —, alinhava pela cretinice geral.
As piadas, embebidas em álcool, saltavam de barrigas proeminentes à mesma velocidade com que estas emborcavam garrafas de cerveja, e as gargalhadas feitos soluços irrompiam de peitos mamalhudos que ameaçavam rebentar os botões das camisas.
António, que continuava a servir obedientemente, desaparecia aos poucos, envergonhado, sorvido por aquele redemoinho de imbecilidade.
Os idiotas que escarneciam dele não sabiam que António descendia de uma rara estirpe de homens que durante milénios souberam resistir e vencer as dificuldades que a vida lhes colocava. Descobriram o fogo, a roda, o amor, o silêncio, o conceito de bem e de mal, até que chorar é a melhor forma de aliviar a dor. São os sobreviventes.
Na sua imensa necessidade de galgar sobre o sofrimento, de alcançar a felicidade — ou apenas um pouco dela —, António desenvolveu e apurou a mais peculiar das capacidades: a de se tornar invisível.
— O António? Alguém o viu? — perguntava o Sr. Joaquim. — Não me digam que foi embora outra vez. Vocês gozam com ele e eu pago as favas, que fico aqui sozinho a atender a clientela. Logo agora que a casa está cheia!
— Não sei por que o aguenta aqui. Não falta quem queira trabalhar! — observou um indivíduo encostado ao canto do balcão.
— O pai dele ajudou-me numa altura em que muito precisava. Nunca o hei-de esquecer. Manter aqui o Toninho é o meu agradecimento. Vou ligar-lhe para o telemóvel, mas se for como o costume, não me vai atender. Gostava de saber para onde ele vai! Para casa não é de certeza; uma vez mandei um miúdo chamá-lo e não estava lá ninguém.
O telemóvel tocou, mesmo nas costas do Sr. Joaquim, pousado junto a uma garrafa de aguardente.
— Pronto, hoje não volta mais — murmurou o Sr. Joaquim desanimado.
Enquanto isso, metido na casa de banho, António completava o seu processo de transformação. Sentia-se leve, em paz! Percorriam-lhe o corpo sensações cromáticas de enorme beleza: verde, mar, puro; azul, céu, lúcido. O som à sua volta desaparecera e os indivíduos no bar não eram mais que sombras, esboços sem forma ou definição sobre quem planava complacente. Afinal, graças a eles alcançara aquele estado de pureza que algum prazer lhe proporcionava.
Na sua condição de incorpóreo não conseguia ver as pessoas ou o que quer que tivesse sido feito por elas, no entanto, curiosamente, desfrutava com facilidade de tudo que a natureza lhe oferecia.
Abandonou o Luz e Vida e dirigiu-se para um dos seus locais preferidos: a zona da Foz do Douro e o Parque da Cidade. Desceu Valbom, deitou-se sobre a corrente do rio. Pernas esticadas, mãos cruzadas sob a nuca, assim efectuou a curta viajem, saboreando o hálito tépido da água a acariciar-lhe a pele e a luz das estrelas brilhando para si. De vez em quando, na brincadeira, perguntava ao rio se estava cansado ou se demoraria muito a alcançar a foz. Claro que depois de tanto tempo a correr apertado entre duas margens, este só lhe poderia responder resmungando um chocalhar negro e zangado.
Chegado à foz, despediu-se do rio, pediu desculpas ao mar por não o cumprimentar devido à sua baixa temperatura, e, seguidamente, dirigiu-se ao parque da cidade.
Era um dos locais onde melhor se respirava, tudo parecia impoluto, mais saudável. Sentado na relva, junto ao lago, ficou observando em redor. Naquela noite o parque estava bastante animado. De vez em quando vislumbrava silhuetas disformes movendo-se de mãos dadas, cerca de cinco metros à sua direita outras duas rebolavam abraçadas, sôfregas, aquecendo o ar à sua volta até se transformarem numa só.
A lua bonacheirona, grávida de felicidade, incidiu a sua luz plácida sobre o corpo invisível de António como se lhe quisesse confidenciar algo. A relva fresca e húmida, a morna brisa do vento, uniram-se ao luar em círculos irresistíveis que como uma auréola, verticalmente, lhe impregnaram os sentidos de laxação. Então, o seu corpo caiu para trás suave e melancólico, abrindo os membros em V, soçobrando, prestes a adormecer… assim, inteiro, exposto ao mundo.
Estava quase a entrar no reino do subconsciente quando alguém tropeçou em si e se estatelou mesmo ao seu lado. Não via ninguém, porém sentia a sua presença! Seria que estava a sonhar?
— Desculpe se o acordei — disse-lhe uma voz doce de mulher.
António ainda não percebera bem o que estava a acontecer, mas instintivamente respondeu:
— Não, não, eu é que peço perdão porque a fiz cair — murmurou incrédulo.
— Com certeza está a duvidar do que está a ouvir. Suspeita que está a sonhar, não?
— Efectivamente estou um pouco confuso — respondeu António receoso.
— Lamento — retorquiu decidida. — Lamento que alguém tão raro seja também um parvo incapaz de acreditar nos seus próprios sentidos.
Afastou-se determinada. António sentiu-lhe a presença distanciar-se. Num impulso, levantou-se e correu até ela. Pousou a mão onde lhe pareceu que seria o ombro e pediu que não se afastasse já.
— Entenda o meu comportamento. A não ser para se divertirem às minhas custas, habitualmente não falam muito comigo, jamais quando estou assim… sabe… invisível. Por favor fique um pouco mais. Diga-me o seu nome.
— Margarida. Princesa Margarida.
— Desculpe a impertinência majestade, mas é princesa em que reino? — perguntou António em tom jocoso.
O facto de sentir a sua presença, quase lhe sentir o corpo, ouvir a sua voz, já era suficientemente inacreditável para o fazer descrer. Princesa então, era demais!
«Provavelmente é alguma idiota com quem todos gozam e sucede-lhe o mesmo que a mim. Agora que a sua voz é meiga e sensual, disso não há dúvida!»
O seu pensamento foi interrompido pela resposta de Margarida.
— Presumo que esteja a brincar comigo. Talvez pense que sou louca, que não sei o que digo, que sendo irónico poderá talvez desforrar-se das agruras do seu dia-a-dia. Sim, porque em toda a minha vida, com excepção do meu caso, nunca conheci ninguém que fosse feliz e gostasse de ser invisível — a voz deixara de ser doce!
— Uma vez mais peço que me perdoe. Se existe alguém que sabe o que é ser vítima do preconceito, sou eu! — respondeu António denotando alguma dor na sua voz.
Margarida enterneceu-se com a sua franqueza. Carinhosamente depositou-lhe um beijo na face.
— Sentiu? — perguntou Margarida. — Não fique corado, foi só um beijo — observou sorrindo.
— Senti! Não entendo o porquê, mas realmente senti. Os seus lábios são muito bonitos — atreveu-se a observar. — Como sabe que estou corado?
— É fácil, o ar que contorna seu rosto está cálido.
— Será por isso que começo a entender melhor as formas do seu corpo. Será que também está mais quente!
Margarida sorriu e disse:
— Voltemos à questão que me colocou. Gostaria de conhecer mais detalhes sobre o meu reino?
— Sim, adoraria — respondeu António compenetrado.
— Sentemo-nos, pois ficaremos mais confortáveis — ciciou afectuosamente. — O meu reino é — fez uma pausa prolongada, sacudiu os cabelos para trás altivamente e uma aragem acariciou as folhas das árvores que se moveram delicadas a salientar o gesto — onde eu quiser.
Enquanto António a escutava encantado, a voz de Margarida ia assumindo contornos melódicos de rara beleza e num misto de canto e declamação, continuou:

O meu reino é numa nuvem de algodão,
Numa bola de sabão,
É numa folha de papel
Ou na ponta de um pincel,
É na cauda de um cometa,
Nas asas de uma borboleta,
É a voz de um cantor,
No seu bairro do amor.
É nas pétalas de uma margarida,
É no coração de quem me deu a vida.

Margarida fez uma pausa e respirou fundo. A sua voz entristeceu, como que tocada pela nostalgia.
— Não ligue. Lembrei-me dos meus pais — disse abanando-se para sacudir a tristeza.
— O seu reino parece não ter fim — observou António.
— As fronteiras do meu reino são os limites da minha imaginação e essa, felizmente, é interminável. Sabe que até hoje muitos são os que me visitam. Permanecem em mim por algum tempo, deixam lá a sua marca e depois desaparecem; existem os que nunca mais voltam e os que regressam repetidas vezes. São os meus súbditos! Os meus meninos a quem carinhosamente trato por Margaridos. No entanto, é a primeira vez que abandonei o meu reino em busca da pessoa certa. Aquele a quem quero pedir o mais importante dos favores. Essa pessoa, António, é você! Posso contar consigo?
— Sim, claro. Será uma honra.
— Antes de partir, deixo-lhe algo que lhe imploro faça o favor de entregar na morada que lhe vou dizer. Por favor, não falhe, disso depende a minha felicidade plena — Margarida segredou a morada a António, pousou-lhe um suave beijo na testa e desapareceu.
No instante seguinte António regressou à sua forma natural. Ao seu lado, uma linda margarida olhava para si. Pegou nela e seguiu para casa, sentia-se cansado, precisava dormir e retemperar forças. Sempre que ocorria esta metamorfose, ficava esgotado, muito mais desta vez, após as emoções vividas com a fantástica Margarida.
Estava determinado a cumprir o pedido da sua amiga. Levantou-se manhã cedo, fez a higiene diária, tomou o pequeno-almoço e saiu. Apossara-se de si um nervoso miudinho, uma espécie de frenesim. «O que iria encontrar por detrás daquela porta? Quem seriam as pessoas a quem tinha que entregar a flor?»
Subiu as velhas escadas de madeira do prédio antigo, parou no primeiro direito, suspirou, ganhou coragem, agarrou no batente em ferro — tinha a forma de um punho cerrado — e duas vezes bateu-o contra a porta. Alguns segundos depois esta abriu-se e surgiu um senhor idoso. Era de estatura baixa, o corpo um pouco dobrado pelo peso da vida, cabelos fartos, grisalhos, do rosto enrugado sobressaíam os olhos doces, porém esmorecidos.
— Bom dia. O que deseja? — perguntou o velho senhor.
— O senhor não me conhece, mas — António não sabia bem o que dizer — ontem conheci uma pessoa muito especial que me pediu que viesse a esta morada entregar-lhes esta flor. Essa pessoa chama-se Margarida.
António entregou a flor à esposa do senhor, que entretanto se aproximara dele e lhe apertara a mão com força.
— Por favor, entre e sinta-se como em sua casa — disse o homem com a voz embargada pela emoção.
— Como está ela? Está bem? — perguntou a senhora com os olhos humedecidos pelas lágrimas.
Ao mesmo tempo comovido e admirado, António respondeu:
— É a pessoa mais feliz que conheço. Quase me atrevo a afirmar que será a mais feliz do mundo.
O casal sorriu! Olharam um para o outro por um breve momento e abraçaram-se ternamente… em silêncio.
— Obrigado. Muito obrigado. Não sabemos como lhe agradecer. Não imagina como nos fez feliz ao trazer-nos notícias da nossa filha há tantos anos desaparecida — disse a senhora, que se levantou e abraçou António.
— Também pediu que lhes dissesse uns pequenos versos — observou António com meiguice.

O meu reino é numa nuvem de algodão,
Numa bola de sabão,
........................................
É a voz de um cantor,
No seu bairro do amor.

António viu-se interrompido pelas suas vozes comovidas.
— É nas pétalas de uma margarida — murmurou o pai.
— É no coração de quem me deu a vida — sussurrou a mãe.

A DERROCADA


I

A chuva tinha caído copiosamente durante todo o dia. O vento puxado a sul fazia a água bater em bátegas nos telhados zincados das casas que se enfileiravam junto a uma ravina à saída de uma aldeia do Alto Minho.
Zé Zeferino tinha deixado o café do Tinoco mais cedo que o habitual e, ao ouvir na televisão que o tempo ia piorar mais e antes que isso acontecesse, decidiu regressar a casa e aproveitaria para pôr em ordem algumas coisas da sua loja.
A loja que recebera do patrão Samuel, de uma maneira um pouco estranha, segundo diziam as más-línguas, resultante de um suborno, já que a verdadeira herdeira, a esposa, apesar de o ter deixado, segundo constava, nunca veio reivindicar a posse da loja após a sua morte.
A loja era uma casa de dois pisos. No rés-do-chão era a loja do tipo tem tudo, desde ferragens, tintas, madeiras, plásticos, etc., separada por uma tosca parede de um outro local, destinado a um pequeno mercado alimentar, com artigos de primeira necessidade.
O andar superior era destinado a habitação. Vivia neste local já ia para cima de quarenta anos. Primeiro, num dos quartos que o patrão lhe cedera quando deixou a casa paterna e veio trabalhar para a loja e, depois, como senhor de todo o espaço habitacional comercial. Toda a sua vida praticamente resumia-se à volta desta loja, mas, justiça lhe seja feita, conseguiu, à custa de muito trabalho e de algumas habilidades, fazer da loja a mais conhecida de toda a aldeia.
Zé Zeferino rondava os 60 anos, constava que ainda tinha os seus pais vivos, mas nunca se referia a eles, e amigos que se conhecesse poucos ou nenhum.
O vento e a chuva redobravam de intensidade, Zé Zeferino arrumava numa das prateleiras umas latas de tinta que tinha recebido de um fornecedor. A prateleira cismava em não aceitar as latas e, sempre que ele colocava uma, esta deslizava e caía no soalho. Soalho que reparou, num misto de espanto e medo, e que se encontrava inclinado; a casa estava a ceder. Alguns artigos, juntamente com as latas de tinta, tinham-se precipitado em direcção à porta das traseiras, acumulando-se à saída.
O vento zunia e relampejava, ouviu-se um forte trovão, a luz apagou-se e a casa cedeu. Zé Zeferino, aos apalpões, procurou a porta da frente que dava para a estrada. Não teve oportunidade de lá chegar, ela veio ter consigo. O estrondo foi tremendo, o terreno cedeu e a casa foi-se desfazendo pela ravina abaixo, sendo acompanhada nesta derrocada pelas casas vizinhas. Zé Zeferino, aos trambolhões dentro da casa, foi arrastado nesta viagem, breve no espaço mas longa no tempo, até ao fundo da ravina.
Depois da queda e das réplicas das derrocadas parciais, o silêncio pousou sobre os destroços. Agora, só se ouvia a chuva e o vento que parecia querer abrandar. Pouco a pouco o silêncio foi substituído pelas vozes dos habitantes da aldeia que vinham em socorro das prováveis, quase certas, vítimas.
Os primeiros habitantes que chegaram ao local depararam com uma cena terrível. A casa de Zé Zeferino e as casas contíguas tinham desaparecido da beira da estrada e, apesar da fraca iluminação pública, vislumbrava-se no fundo da ravina aquilo que, momentos antes, eram casas daquela aldeia minhota.
Zé Zeferino tinha sobrevivido à queda mas ficara preso entre os destroços. Deitado de costas sobre uns rolos de rede de capoeira que vendia na loja, um barrote de madeira do travejamento da casa tinha-lhe aprisionado os dois pés e um outro tinha-lhe passado perto da cabeça e atravessado no peito, prendendo o braço esquerdo contra o que restava da porta das traseiras da casa. O outro braço tinha ficado debaixo do que restava da prateleira onde tentara, momentos antes, colocar as latas de tinta. Zé Zeferino estava imobilizado.
O soalho que fora do quarto de dormir tinha-o acompanhado intacto durante a queda da casa e ficou incrivelmente preso entre os escombros por cima da cabeça, escorando toda a terra desprendida das paredes da ravina, evitando que tivesse sido esmagado. O soalho, agora a fazer de tecto, encontrava-se a uma distância razoável, permitindo que permanecesse naquele local com ar suficiente aguardando salvamento. O lugar estava horrivelmente escuro.
As buscas à procura de sobreviventes começaram. Os bombeiros voluntários da vila que foram chamados ao local do sinistro chegaram com a rapidez habitual, mas não estavam preparados para uma situação do género. Costumavam apagar fogos e não resolver problemas de derrocadas, mas como estavam empenhados em fazer algo pelos seus conterrâneos soterrados, instalaram uns holofotes para iluminar o local e desceram pela ravina, para analisar a situação. Pouco podiam fazer, o amontoado de destroços era de tal maneira que era necessário a presença de uma grua. Começaram a chamar pelas pessoas na expectativa de identificar os locais onde pudessem estar sobreviventes. Algumas vozes ouviram-se mas Zé Zeferino, entretanto, desmaiara.


II

O dia estava despontar, a chuva tinha parado por completo e o sol começava timidamente a aparecer entre as nuvens, confirmando o velho ditado: «Depois da tempestade a bonança.»
Os bombeiros, com a ajuda dos habitantes, já tinham, durante a noite, resgatado dos escombros algumas pessoas, umas com vida, outras infelizmente sem a mesma sorte.
Zé Zeferino recuperou os sentidos, encontrava-se um pouco baralhado, o local onde continuava preso era de difícil acesso, mas apesar de tudo o ar estava a ser renovado e uma luminosidade estriada estava-lhe a chegar.
Não sabia por quanto tempo esteve inconsciente, o corpo estava tremendamente frio, tremia, tinha um sabor a sangue por causa de alguns dentes que se partiram na queda. Não conseguia gritar a pedir socorro, estava afónico, talvez de medo ou de alguma pancada que levara na cabeça quando da queda. Chamou, em silêncio, pela mãe, Maria, e pelo pai, José.
Meus pais, ajudai-me nesta aflição, não me deixem morrer, podia não ter sido bom filho, ter-vos abandonado quando vocês precisaram de mim, mas eu sou vosso filho, não me podem deixar neste desespero, neste túmulo, nesta escuridão, sem poder mexer-me, não é possível que vocês não façam nada para me tirarem deste sítio. E, sem as desejar, as lágrimas começaram a correr pelas faces.
E os meus vizinhos? Se calhar já foram salvos, e agora vão-me encontrar! Ou será que já desistiram? Não ouço barulho, será que estou também surdo? Tentou gritar, mas da sua boca não saiu nenhum som. Começou a chorar convulsivamente. Eu não mereço morrer, talvez tivesse feito muitas coisas erradas, mas se tenho que pagar os meus erros, que seja vivo e não morto.
Zé Zeferino não conseguia saber quanto tempo já tinha passado, se minutos, se horas, se dias. Ouvia o movimento dos bombeiros e dos seus conterrâneos na tentativa de retirar os destroços. Sentia o corpo todo dorido dos trambolhões que dera. Ouvia passos no tecto na sua actual alcova de desgraça. Era esquisito porque os sons que lhe chegavam não lhe pareciam de pás, sacholas ou outros utensílios habitualmente usados para remover terra ou destroços. Pareciam passos, como quando alguém está no andar superior de uma casa e ouvem-se as passadas no andar inferior. Eram passos estranhos, pesados, estereotipados e prenunciadores de algo que não se coadunava com a situação real. Ficou à escuta, os passos deixaram-se de ouvir.
Quem quer que fosse estava a deslocar uma tábua do soalho. Ia ser libertado? Ficou ansioso! A tábua deslocou-se e apareceu a cara de uma mulher de meia-idade, com contornos luminescentes, com uns rolos a enfeitar a cabeça, debaixo de uma rede de cabelo. Fixaram o olhar um no outro. A cara afivelou um sorriso. Ele conhecia aquela mulher; era Isaura, a falecida do seu também falecido patrão. Mas como era possível ela estar ali? Já tinha morrido há tantos anos, ele até tinha ajudado o marido a enterrá-la naquela noite fatídica! Estava ali para gozar com a sua desgraça ou vinha para se vingar, o estupor da velha. Eu não tive culpa nenhuma, relembrou-se. A cara deslizou para o local onde se encontrava Zé Zeferino, acompanhando-a um corpo desproporcionado, demasiado pequeno para tamanha cabeça, mas que se foi transformando na passagem para o outro lado, tornando-se num corpo de uma velha, pesado, gordo, todo vestido de preto. A velha já não sorria, ria-se talvez da situação em que se encontrava o seu antigo empregado. Sentou-se no barrote atravessado no peito, com todo o peso do seu avantajado corpo, isso apavorou-o. Isaura nada dizia e não era preciso. Zé Zeferino adivinhava os seus pensamentos.
Era já noite, mais uma vez Samuel chegava a casa bêbado, a discussão com a mulher mais uma vez ia acontecer. Zé Zeferino, no seu quarto, gozava o espectáculo, não gostava de Isaura. Ouvia tudo, insultos, gritos, pancada, pedidos de socorro e por fim choro e silêncio; todas as noites sempre a mesma cena. Mas naquela noite estava a ser diferente. Nem insultos, nem gritos, nem choro, Samuel só dizia que ia acabar com ela, não se ouvia Isaura. Zé Zeferino, perante o inesperado da situação, foi espreitar para ver o que realmente se passava. Samuel agarrava a esposa pelos cabelos e empunhava uma faca numa das mãos. Com os braços abertos, Isaura aguardava auxílio do seu empregado. Este, mudo e quedo, ficou estático à porta do quarto. O pedido de socorro não chegou a sair da garganta degolada de Isaura. Podia ter evitado o assassínio, mas não o fez, por medo, por pensar que o patrão era incapaz de o fazer, ou por não gostar de Isaura; nunca chegou a uma conclusão. O patrão, ébrio, diz que o ajude a levar o cadáver para o quintal. Hesita, fica confuso perante a inopinada situação, nunca tinha visto um morto, quanto mais transportá-lo. O patrão ameaça despedi-lo se não o ajudar. Zé Zeferino recua e prepara-se para fugir, não sabe para onde, nem porquê. Samuel diz para ele não se ir embora que não se ia arrepender. Não percebeu o sentido daquelas palavras, mas não foi preciso perguntar nada. O patrão promete que se ele se calar e o ajudar, quando morrer a loja será sua. Enrolam o corpo num cobertor e arrastam-no para o quintal. Samuel entrega-lhe uma pá para fazer uma cova, enquanto vigia. A cova foi escavada em três tempos. Não demorou muito para que Isaura repousasse na sua última morada. Por cima da campa, junto à laranjeira, pespegaram a casota do cão; o desgraçado uivou toda a noite inteira. Ninguém desconfiou do que se tinha passado naquela noite, mesmo no dia seguinte, quando perguntaram por Isaura, Samuel inventou a história que tinha a sogra muito doente e que ela a foi tratar. O tempo foi passando, dias, meses, e Isaura caiu no esquecimento.
Agora Isaura estava de volta para se vingar dele. Continuava sentada no barrote, todo o seu corpo brilhava, olhava sinistramente o seu ex-empregado. O corpo pesava cada vez mais, cada vez era maior. Isaura retirou o xaile que tinha à volta do pescoço e o que se via não era nada agradável. O pescoço, cortado, gotejava gotas brilhantes de sangue. Na mão de Isaura aparece uma faca. Zé Zeferino não quer assistir ao que se vai passar, fecha os olhos e quando Isaura espeta a faca no peito do cúmplice da sua morte, desaparece. A dor foi temível, mais moral que física. Quando abre os olhos, uma faca feita luz estava espetada no seu peito e, perante tal visão, desmaia.



III

Acordou do torpor que se encontrava e reparou que no seu peito não estava espetado qualquer objecto luminoso, tinha sido uma visão. Os seus pensamentos fervilhavam com tão estranho acontecimento. A claridade que lhe chegava dava para ver que a situação não se tinha modificado, continuava preso sem se puder mexer. À sua volta tudo se mantinha num equilíbrio instável.
Começou a sentir-se sonolento, até bocejou, os pés e as mãos estavam inchados, a cabeça, essa, continuava quente talvez pelo excesso de pensamentos dos mais variados que lhe ocorriam, mas o que lhe estava a incomodar mais era a boca, que continuava, por causa dos dentes partidos, com sabor a sangue e a dificultar-lhe a respiração. Foi por causa deste acre sabor que lhe veio à memória o Dr. Mário Peixoto, mais conhecido por Peixotinho, derivado à sua estatura. Nado e crescido na aldeia minhota que só abandonou quando foi estudar para a universidade, regressando mais tarde, já formado, médico dentista, estabelecendo consultório na vila perto da aldeia. Mas a sua verdadeira vocação era a política, na oposição, no «reviralho», como era conhecido na altura, intervindo como estudante em abaixo-assinados e protestos estudantis na «era marcelista», valendo-lhe alguns espancamentos e passagens pela PIDE / DGS.
Foram bons amigos, tinham aproximadamente a mesma idade, mais ano menos ano, e até jogaram futebol no clube da terra, ele a extremo-esquerdo e o Peixotinho a médio. Mas por causa da triste ideia do médico querer montar um supermercado na aldeia, foi motivo de uma zanga que os colocou de costas voltadas. O supermercado, segundo Zé Zeferino, ia fazer concorrência à sua loja que recentemente tinha recebido do seu patrão que fora encontrado morto em estranhas circunstâncias. Como tal tentou demover o médico das suas intenções, mas como este entendia que era um meio de se tornar mais conhecido e que politicamente o podia projectar para um dia vir a concorrer a um lugar político, quando a ditadura caísse e não demoraria muito, foi com a ideia para a frente.
Zé Zeferino, perante este desaforo, não esteve com meias medidas, denunciou-o a um «bufo» da PIDE que parava na barbearia da aldeia. Disse-lhe que o médico e mais uns quantos indivíduos comunistas reuniam-se todas as sextas-feiras no seu consultório, em reuniões clandestinas para conspirar contra o regime. Na sexta-feira seguinte três carros com agentes irromperam, já passava da meia-noite, pelo consultório e prenderam todos os hipotéticos conspiradores. Passados alguns meses, foram todos libertados, mas o Dr. Mário Peixoto nunca mais voltou à vila nem à aldeia, abandonando o país a salto.
Zé Zeferino esqueceu-se rapidamente deste acontecimento. Que foi aborrecido ele ter sido preso, talvez fosse, mas quem semeia ventos colhe tempestades. Estes acontecimentos passados há tantos anos e a situação presente misturavam-se estranhamente na sua cabeça, já não conseguia discernir se estava a viver o presente ou o passado, tudo estava muito confuso na sua febril cabeça.
Na sua mente desfilava aquele jogo de futebol em que estavam a derrotar a equipa da aldeia vizinha por um retumbante resultado. As costas estavam a atormentá-lo devido ao imobilismo do corpo.
O campo estava cheio de gente, a equipa estava em plena força. A assistência incitava as duas equipas, os treinadores davam instruções para dentro do campo. Ouve um barulho do seu lado esquerdo, parece que estão a escavar… afinal não é verdade, silêncio de novo. Mais um ataque da sua equipa, Peixotinho, num passe magistral, mete a bola em profundidade para o lado esquerdo para Zé Zeferino, que foge à marcação do defesa, tem meio campo para correr em direcção à baliza adversária; corre, corre, corre… a bola está a tornar-se incompreensivelmente cada vez mais pequena, até que desapareceu. A assistência pára de gritar, um silêncio de morte paira no campo, Zé Zeferino parou estupefacto, olha para os colegas, para os adversários e para a equipa de arbitragem, todos estão vestidos de negro com uns paus na mão, começaram a correr na sua direcção, Zé Zeferino também corre em direcção à baliza contrária, não tem bola mas corre, corre, corre… de uma corrida desenfreada passou a saltos, cada vez maiores, salta por cima da baliza adversária, a negra multidão ululante começa também a saltar por cima da baliza, é uma enorme vaga humana, Zé Zeferino salta o muro que veda o campo, continua a correr, salta valas, atravessa vinhedos, pomares, os frutos caem à sua passagem, rebentando, espargindo, um líquido vermelho pegajoso, chega à linha de caminho-de-ferro, olha para trás e vê a negra multidão a persegui-lo com os paus levantados, não percebe porquê, até estava a jogar bem, olha para a frente e depara com um comboio a alta velocidade a vir ao seu encontro, olha para trás e a negra multidão já ali não está, começa a correr desesperadamente em sentido contrário, o comboio apita, Zé Zeferino corre, corre, corre… a linha parece que vai acabar, olha para trás, o comboio desaparecera, mas a negra multidão voltou de novo ainda mais agressiva. Chegara ao fim da linha, aos seus pés tinha um enorme precipício, as nuvens estão a umas dezenas de metros abaixo, não se vislumbra o fundo, pairam aves de rapina sobre as nuvens, a negra multidão aproxima-se numa frente alargada de muitos metros, todos com os paus em riste, na frente o árbitro do jogo com o Peixotinho de um lado e do outro um indivíduo, cara chapada de Isaura, talvez irmão, param junto dele, agarram-no, faz-se silêncio… o árbitro apita e Zé Zeferino é lançado no abismo perante a multidão aos gritos, Zé Zeferino cai, cai, cai… e acorda com o corpo coberto de suor e o coração a bater desenfreadamente. A situação encontrava-se na mesma.


IV

O tempo passava, Zé Zeferino continuava preso há largas horas no seu cárcere de terra, madeira e pedras. Entre desmaios, consciência mal desperta, alucinações e pesadelos, vai passando o filme da sua vida, presente e passado, num frenesim de emoções, medos, remorsos e esperanças.
Meu Deus, porque me estais a abandonar, eu sei que não tenho sido bom cristão, que fiz muitas coisas erradas na vida, juro-Te que me vou emendar, irei novamente à missa e cumprirei todos os sacramentos da Vossa Santa Igreja. Ave-maria, cheia de graça, bendita sois vós… já não me lembro do resto da oração, que interessa isto agora, eu voltarei a aprender todas as orações: meu Deus, tirai-me daqui.
Ouve um estrondo por cima da sua cabeça, o barulho foi aumentando, as coisas à sua volta estavam-se a mover, o seu corpo estava a soltar-se, mas ao mesmo tempo deslizava, o terreno todo se movia. O corpo rodou sobre si, a cabeça passou à frente das pernas, tudo era movimento, acompanhado com toda a espécie de coisas que por ali se encontravam. Leva uma forte pancada na cabeça com o barrote que momentos antes lhe prendia os pés. Esta nova derrocada chamou a atenção dos bombeiros que por perto removiam destroços e, numa procura mais atenta, descobrem o corpo de Zé Zeferino, mal tratado, inconsciente mas com vida; rapidamente é transportado para o hospital da vila.
Tinha sobrevivido milagrosamente ao desastre, mas a verdade é que definhava a olhos vistos.


Epílogo

Sentado numa cadeira de rodas, Zé Zeferino olhava o horizonte através da janela do quarto. O quarto, pintado com cores de hospital, tresandava a desinfectante.
O seu estado de saúde piorava de dia para dia. Os médicos não conseguiam explicação plausível para o seu estado. Não lhe foi detectada qualquer lesão grave. A pancada que levou na cabeça não passava de um hematoma sem problemas. Não conseguiam diagnosticar qual o motivo da apatia revelada pelo doente. Tinha sobrevivido milagrosamente ao desastre, mas a verdade é que definhava a olhos vistos.
A enfermeira passou pelo doente e arranjou o cobertor que lhe cobria as pernas e ameaçava cair ao chão, mas este não manifestou qualquer reacção.
O seu olhar distante procurava recordações de um passado distante ou recente? Era indiferente, tanto um como outro não lhe traziam boas recordações. Poucos foram os momentos de felicidade, se é que os teve. Um infância sem carinho, uma juventude sem ilusões, e quando se tornou homem, só o trabalho foi a única coisa que lhe restou. Alguns acontecimentos da sua vida, durante o cativeiro forçado, e que lhe amarguravam a sua existência, foram revividos de uma forma muito intensa. Arranjou sempre justificações para os seus actos, mesmo os mais vis. Os pais, Maria e José, Isaura e Mário Peixoto, entre outros, talvez até o tivessem perdoado, cada a um a seu modo, mas a sua consciência tinha agora dificuldade em aceitar. Fosse na forma de visões ou de pesadelos ou mesmo numa semiconsciência, os factos que ocorreram despertaram em si uma severa crítica ao seu comportamento passado. Estaria a pagar o mal que fez aos outros? Os trágicos acontecimentos nada tinham a ver com o seu passado? Mesmo assumindo os seus erros, poderia ele viver em paz? As ressurgidas dúvidas estavam a consumir-lhe a sua existência.
Retira o cobertor que lhe cobre as pernas e do seu corpo algo o abandona. Zé Zeferino paira sobre o quarto, tudo era de cor branca. Vê-se na cadeira de rodas que abandonara momentos antes. A cabeça pendia sobre o peito. Todo o quarto é luz. Uma inexplicável paz interior acolhe-o. Zé Zeferino percorre um túnel de luz, incomensurável, intemporal e silencioso.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Génese

Era o local mais secreto do planeta.
Um feixe de luz imenso emergia do centro da sala de controlo. Era uma espécie de broca luminosa, de um branco gélido e rodopiante. Atravessava vários andares inferiores e ali irrompia imponente, projectando-se numa enorme cúpula cristalina. Para o exterior estendiam-se dezenas de pequenos braços de luz, que se perdiam na atmosfera recolhendo toda a energia necessária.
Naquela sala, naquele momento, viviam-se minutos terríveis de pânico e apreensão.
– Rápido, precisamos de toda a energia possível. Ainda não temos pressão suficiente. Quero toda a gente concentrada no que está a fazer, olhos nos monitores. Não se preocupem, vai tudo correr bem.
– Dr. Zorki, estamos a absorver demasiada energia, tenho todos os indicadores no vermelho, os cristais da cúpula podem fragmentar.
– Temos que continuar, Purski – respondeu o Dr. com os olhos pregados nos dados do computador. – É a nossa única hipótese, ainda não temos potência suficiente para sairmos daqui. Dêem-me o tempo exacto para o impacto.
- Temos quinze minutos.
– Informa todas as secções. Contagem decrescente em dez minutos. Eu vou ao laboratório enviar a “encomenda”.
A “encomenda” era um projecto altamente secreto, desenvolvido em tempo recorde pelo Dr. Zorki, com a colaboração do seu assistente Purski, e pelas Dr.as Merchii e Phandora.
– Dr.ª Merchii, está tudo preparado? O tempo escasseia.
– Ia agora mesmo chamá-lo, Dr. Zorki. Temos aqui um problema. Está tudo pronto para o envio, mas estive agora a rever os últimos dados e a informação que tenho é que existe uma anomalia nos cérebros.
– Anomalia nos cérebros? – interrogou-se Zorki cravando um olhar ansioso nos dados do monitor. – Como é isto possível? Estava tudo perfeito.
– É realmente incompreensível – respondeu Merchii apontando no monitor uma série de informações. – A verdade é que, segundo estes números, os cérebros irão funcionar apenas parcialmente, embora com algumas possibilidades de desenvolvimento.
– Continuo a não perceber o que aconteceu… – balbuciava o doutor, com a cabeça enterrada nas mãos. – Mas não temos tempo para correcções. Vamos…ah…vamos enviá-los mesmo assim.
– Mas Dr. Zorki, é a continuidade da nossa espécie que está em causa…
– É a nossa única hipótese, vamos enviar, não temos tempo para mais nada.
Ao fundo da sala, em frente a outro monitor, Phandora esboçava um furtivo sorriso vitorioso.
– Dr.ª Merchii – perguntou Zorki impaciente. – Os restantes dados fisiológicos estão correctos?
– Estão. Com excepção do cérebro, todos os sinais estão estáveis.
– E os valores da cápsula criogénica? – perguntou ele, correndo para junto da Dr.ª Phandora.
– Todos os valores correctos – respondeu Phandora.
– Óptimo. Preparar para envio em dez segundos. Dr.ª Merchii, faça a contagem.
– Dez, nove, oito..., zero, enter.
Precipitaram-se numa correria até uma pequena vigia de controlo. Por momentos ficaram extasiadamente imóveis, observando emocionados a pequena cápsula que se afastava lentamente, deslizando suavemente na atmosfera como uma pequena nuvem.
– Vai ser uma longa viagem – suspirou Zorki. – Deus vos acompanhe.
Os seus pensamentos foram subitamente interrompidos. O seu assistente Purski entrava no laboratório a correr.
– Dr. Zorki – gritou com o semblante visivelmente alarmado. – Não podemos esperar mais. Temos que partir já.
– Já temos toda a energia necessária? – perguntou ansioso.
– Não, mas não temos tempo para absorver mais.
– Ok, vamos tentar mesmo assim. Faz a comunicação, vamos partir de imediato.
Em alguns segundos a enorme nave sacudiu e começou a elevar-se devagar. Libertava-se do solo que a tinha mantido secreta durante tantos anos. Tinha uma altura de cinquenta andares e deixava para trás um buraco do tamanho de uma cidade média.
Na sala de controlo reinava o silêncio. Estavam todos muito apreensivos. A nave continuava a deslocar-se muito lentamente.
De repente, o alarme. A nave sacudia violentamente e sem controlo. A enorme cúpula de abastecimento de energia estilhaçou, deixando entrar uma espécie de vento ciclónico devastador. Entre gritos e berros desesperados, tudo foi sendo destruído e arrancado do seu lugar num enorme turbilhão. A força centrífuga era enorme, projectando a quilómetros milhares de fragmentos. Era uma onda mortífera e avassaladora que tudo varria num enorme turbilhão.
Em segundos tudo estava terminado. Destruição total.

xxx

Os enormes painéis espelhados que revestiam todos os edifícios reflectiam a generosidade de mais um belo dia de sol naquela cidade. As construções alinhadas ao longo de uma simetria irrepreensível distribuíam-se uniformemente em cada um dos lados das amplas e arborizadas avenidas, numa conjugação de grande efeito estético e de plena harmonia. Tudo era calmo, quase matematicamente tranquilo. Era uma cidade pequena, a mais moderna de toda a colónia. Fora projectada essencialmente para ser um centro de pesquisa e governação de uma sociedade muito evoluída e superiormente inteligente. No centro, imponente, um enorme edifício cilíndrico impunha-se austero. Era o centro de comando de toda a colónia.
Naquela manhã Zorki levantou-se mais cedo que o habitual. Um súbito sinal sonoro tinha-lhe interrompido o sono.
Uma mensagem? A esta hora?, interrogou-se, ainda meio atordoado, de quem será?
Carregou num botão de comando, e a mensagem apareceu de imediato numa espécie de painel de vidro colocado no fundo do seu quarto.
Ficou incrédulo.
Uma mensagem do centro de comando?, pensou apreensivo, O Grande Vortwon quer falar comigo… com urgência?! Tenho que me despachar.
Zorki preparou-se rapidamente, e entrou apressado no elevador.
– Garagem – disse ele.
A sua cabeça cogitava dezenas de interrogações, mas não fazia ideia qual o assunto urgente, pelo qual tinha sido chamado pelo Grande Vortwon.
Chegou à garagem e entrou num pequeno e estranho veículo. Tinha rodas estreitas e parecia feito de plástico. Era um material novo, leve mas muito resistente e completamente reciclável, desenvolvido por cientistas daquela cidade. No tejadilho possuía um painel vidrado que lhe fornecia toda a energia necessária para se movimentar. Era silencioso e não poluente. Todos os veículos que circulavam na cidade utilizavam aquela tecnologia.
Zorki introduziu o código das coordenadas do centro de comando, e o veículo arrancou de imediato.
Graças a um complexo programa de controlo por satélite, os veículos circulavam sem ser necessário conduzi-los. Todos tinham as suas coordenadas de destino inseridas, e o computador geria o tráfego em função desses valores. Era um sistema completamente seguro. Em caso de qualquer anomalia, a energia era cortada automaticamente e activava-se um campo de forças electromagnéticas que imobilizava de imediato todos os veículos.
Zorki chegou ao centro de comando.
– Bom dia, sou o Dr. Zorki – cumprimentou ele a recepcionista. – Fui chamado para vir cá…
– Sim, o Grande Vortwon aguarda-o. Coloque aqui o pulso para validar a sua identificação – disse ela apontando o scanner.
Todos os habitantes da colónia possuíam um chip inserido no pulso, que era colocado à nascença e que os acompanhava a vida toda. A memória do chip armazenava toda a informação referente a cada indivíduo, todos os dados pessoais, acessos, cadastros, licenças, pagamentos. Não existia moeda e não havia pagamentos de impostos directos. No preço de cada produto adquirido estava incluída uma percentagem que se destinava às contribuições para a colónia.
– Está tudo certo – disse a recepcionista, sob o olhar atento de dois seguranças. – Pode subir Dr. Zorki.
Zorki subiu três andares no elevador, acompanhado de um segurança. Percorreram um longo corredor cilíndrico muito branco, completamente despojado, e pararam junto a uma enorme porta blindada. O segurança falou para um pequeno monitor.
– Grande Vortwon, está aqui o Dr. Zorki.
– Pode entrar – ouviu-se uma forte e autoritária voz.
Com um suspiro pneumático, a porta abriu-se e Zorki entrou.
– Entre, entre, doutor – ordenou o Grande Vortwon –, sente-se aqui.
Zorki acomodou-se hesitante, numa espécie de cadeira insuflável sem pés nem qualquer base de apoio.
– Estou a ver que as experiências sobre o controlo da gravidade já estão a ter alguma aplicação prática – disse Zorki, timidamente.
– Não tenha medo que não deve cair – disse Vortwon esboçando um sorriso fugaz. – Ainda estão em estudo. Mas não foi para falar de cadeiras que o chamei cá.
– Calculo que não, confesso que estou um pouco apreensivo – respondeu Zorki, enquanto se tentava equilibrar na cadeira.
– O assunto é grave, muito grave, podemos até falar no extermínio eminente da nossa sociedade, mas vou chamar a Dr.ª Phandora para participar na nossa reunião.
– Ela também está cá?
– Não, ela está a trabalhar num projecto na nave, mas vai juntar-se a nós através de holograma.
E, de repente, surgiram no meio da sala os contornos tridimensionais da Dr.ª Phandora.
– Bom dia, Grande Vortwon, bom dia, Dr. Zorki.
– Bom dia, doutora. Vocês já se conhecem sobejamente, e eu vou directo ao assunto. De acordo com as informações que eu tenho, vocês são os mais prestigiados cientistas da nossa colónia em matéria de engenharia molecular. Graças aos avanços da nanotecnologia, a nossa sociedade é hoje muito mais desenvolvida e saudável. No entanto, apesar da nossa esperança de vida actualmente ser estimada em cento e cinquenta anos, corremos o sério risco de não vivermos nem mais um.
– Mas qual é o problema? – perguntou Zorki, visivelmente chocado.
– Deixem-me continuar – disse Vortwon, colocando solenemente as duas mãos em cima da mesa. Os nossos conhecimentos de manipulação da matéria átomo por átomo levaram-nos a construir máquinas fantásticas, máquinas superminúsculas, computadores do tamanho de uma célula, processadores pequenos e ultrarápidos e variados dispositivos que ajudam a controlar a nossa saúde. As microssondas para testes sanguíneos e os nanodispositivos de recuperação celular são disso um bom exemplo.
– Se me permite – interveio Phandora –, a esse nível desenvolvemos também pequenas máquinas que circulam na corrente sanguínea, e que se destinam a corrigir doenças genéticas, alterando o DNA de cada célula…
– Sim, – interrompeu Vortwon –, o problema está exactamente nessas pequenas máquinas. Sabíamos que esta ciência do muito pequeno tinha alguns riscos. A nanotecnologia, manipulada por mãos criminosas, poderia ser fatal para a nossa sociedade.
– Mas todos os cientistas têm um código de honra e ética que cumprem escrupulosamente no desenvolvimento dos seus projectos – disse Zorki com segurança na voz. – São projectos profícuos que se destinam essencialmente ao desenvolvimento e bem estar da nossa sociedade.
– Eu sei o que se passa na nossa colónia – continuou Vortwon –, mas não conseguimos controlar os projectos das outras colónias do planeta. Os cientistas da colónia Zedi foram demasiado ambiciosos. Queriam desenvolver um exército mais sólido, invadiram o corpo dos soldados com pequenas máquinas celulares para os tornar mais fortes e resistentes. Um autêntico nanoexército.
– Mas isso é uma grande imprudência – exclamou Zorki, alarmado. – O excesso de células manipuladas pode levar a…
– A um descontrolo completo – completou Vortwon. – Foi precisamente isso que aconteceu. Um risco que nós conhecíamos. As próprias máquinas reproduzem-se. Os soldados transformaram-se em autênticas máquinas de guerra, e para eles todos são o inimigo.
– Mas, não os podemos atacar? – perguntou Phandora. – Todas as colónias do planeta têm os seus exércitos.
– Tarde demais – disse Vortwon baixando a cabeça. – Eles têm uma arma poderosíssima que já foi activada.
– Uma arma? Mas que arma? – perguntou Zorki, pondo-se de pé.
– É uma bomba de grande efeito devastador – respondeu Vortwon.
– Mas devastador até que ponto? – perguntou Phandora, entre algumas interferências na transmissão.
Vortwon fez uma longa pausa, observando uma fotografia da sua família que estava em cima da sua secretária.
– Devastador ao ponto de…- hesitava ele com a voz embargada – ao ponto de eliminar toda a população do planeta.
Um silêncio aterrador e circunspecto interrompeu a conversa naquela sala.
– Mas não há hipótese de neutralizar essa bomba? – perguntou Zorki com ingenuidade. – Não a podemos destruir?
– Não, está escondida no subsolo, protegida com um escudo protector, nenhuma das nossas armas lhe causaria qualquer dano. A bomba está neste momento num processo de armazenamento de energia. Quando atingir o seu nível máximo será libertada, varrendo o nosso planeta de uma ponta à outra.
– Como é que tem tanta informação sobre essa bomba? – perguntou Phandora.
– Porque nós também tem… – calou-se de repente Vortwon atrapalhado.
– Ia dizer… – insistiu Zorki – que temos,…por favor, não nos esconda nada.
– Pronto, está bem – acedeu um pouco embaraçado. – Nós próprios também temos uma bomba secreta desse tipo. Foi uma espécie de acordo feito entre todas as colónias. Todas desenvolveriam a sua própria bomba, de potência idêntica, para assim assegurarem a soberania e território de cada uma delas. Nunca imaginámos que isto pudesse vir a acontecer.
– Mas não estou a entender porque nos chamou aqui – disse Phandora ainda não refeita da confissão.
– Tem razão – disse ele, endireitando-se na cadeira. – Pelas contas dos nossos técnicos, devemos ter um mês até sermos atingidos. Como sabem, a nave secreta onde está a Dr.ª Phandora a trabalhar neste momento pode transportar duas mil pessoas e manter-se no espaço durante um ano. Está já a ser feita uma selecção das pessoas mais imprescindíveis e competentes para participarem nessa viagem, assim como um grande grupo que irá assegurar a continuidade da espécie. O objectivo é voltarmos mais tarde, quando o planeta estiver estabilizado, para recomeçarmos a construção de uma nova colónia. Não irá ser tarefa fácil, mas com os nossos conhecimentos e os óptimos recursos da nave julgo que iremos conseguir.
– Ainda não percebo onde é que nós entramos – impacientou-se Zorki.
– Dr. Zorki, Dr.ª Phandora – disse ele solenemente –, o plano que lhes acabei de explicar não é absolutamente seguro, existe o risco de não conseguirmos voltar por variadíssimas razões. Permanecem obscuros alguns imponderáveis. Como segurança e garantia da continuidade da espécie, o que eu pretendo de vocês é… é que construam dois seres, dois pequenos seres semelhantes a nós, dois bebés de sexos diferentes para serem enviados para outro planeta. Iriam recomeçar uma nova civilização. Se tudo correr bem, num futuro longínquo poderia mesmo existir contacto entre os dois planetas, seriam uma espécie de planetas irmãos. O que é que vocês me dizem?
Zorki e Phandora estavam estupefactos.
– Grande Vortwon – perguntou Zorki, intrigado –, mas que planeta seria esse?
– Existe um planeta que tem condições climatéricas e atmosféricas muito idênticas às nossas. Tem 77% de nitrogénio e 21% de oxigénio, com traços de argônio, dióxido de carbono e água. Tem o elementar para conseguirem sobreviver.
– Mas como enviamos as crianças? – perguntou Phandora.
– Já percebi – interrompeu Zorki, batendo com a mão na cabeça. – Numa cápsula de viagem, não é? Mas isso vai demorar uma eternidade a chegar lá. Vão ser alguns anos.
– Mais precisamente dezoito anos – disse Vortwon. – Chegarão já como adultos. A minha equipa já fez os cálculos. Está agora tudo nas vossas mãos. Vocês são os mais competentes, encontrem-me soluções.
– Vamos precisar de mais técnicos a trabalhar nisto – replicou Zorki. – O prazo é escasso.
– Se tiverem alguém de inteira confiança, não me oponho – aquiesceu Vorthon –, mas atenção, este projecto é altamente sigiloso.
– Não se preocupe com isso – assegurou Zorki. – O segredo fica bem guardado. Vou precisar do meu assistente e de uma pessoa muito competente em clonagem, a Dr.ª Merchii.
– A Merchii? – perguntou Phandora visivelmente desagradada. – Porquê ela?
– Sabe bem que ela é a melhor nesta área – explicou-lhe Zorki. – Precisamos mesmo dela.
– Está bem, tem razão, doutora – acedeu Phandora resignada.
– Pronto, então estamos combinados – concluiu o Grande Vortwon. – A reunião acaba aqui. Bom trabalho e mantenham-me a par da evolução do projecto.
Zorki abandonou o edifício completamente perturbado. A sua cabeça era naquele momento um carrossel de pensamentos vertiginosos e muitas dúvidas. As revelações tinham sido surpreendentes e inesperadas. Pensava no destino do planeta, nas inúmeras cidades da colónia e nas suas populações. Ao longo dos anos tinham construído uma sociedade justa e evoluída, muito moderna e avançada tecnologicamente. Tinham desenvolvido os materiais mais nobres, resistentes, práticos e recicláveis. Descobriram novas fontes de energia poderosas, inócuas e mais eficazes. Revolucionaram a electrónica e tudo era controlado por minúsculos computadores. Desenvolveram máquinas voadoras simples e eficientes. Construíram naves gigantes, utilizadas nos percursos mais longos e, se necessário, manterem-se no espaço por vários meses. Era uma sociedade equilibrada, limpa, onde quase não existia criminalidade; graças ao chip introduzido no pulso, facilmente se identificava e localizava qualquer pessoa que eventualmente tivesse cometido algum crime ou infracção.
Zorki não podia acreditar que tudo iria desaparecer rapidamente.
No dia seguinte, encontrou-se no laboratório da nave com os restantes elementos da equipa, para iniciarem o projecto. Tiveram uma longa reunião.
– A técnica que vamos utilizar é relativamente simples e portanto exequível – explicou a Dr.ª Merchii. – Utilizamos uma célula de um indivíduo adulto que será fundida com um óvulo enucleado, ou seja, sem núcleo. O embrião gerado irá possuir o conteúdo genético da pessoa que doou a célula, e inicia o seu desenvolvimento ainda no laboratório. Posteriormente será transferido para o útero de uma fêmea receptora, onde se desenvolverá até ao nascimento. Conto com a vossa tecnologia para iludir o tempo que demoraria todo este processo normalmente…
– Quanto a isso não há problema – interrompeu a Dr.ª Phandora. – Temos toda a tecnologia necessária para acelerar todo o processo. A doutora faz a sua parte, nós faremos a nossa.
– Ainda temos a questão dos dadores para resolver – lembrou Purski, o assistente do doutor. – Quem irá fornecer as células?
– Numa situação normal recorreríamos ao nosso banco de dadores – explicou Zorki. – Neste caso isso não será possível, teremos que resolver entre nós.
Zorki já tinha esse assunto bem resolvido na sua cabeça. Phandora era uma cientista muito inteligente e competente, mas tinha uma personalidade estranha e quezilenta. Zorki não queria o clone fêmea, portador de tão mau feitio. A Dr.ª Merchii era o oposto. Afável e simpática, também muito inteligente e competente, e extremamente bonita.
– Os dadores – continuou Zorki – serão a Dr.ª Merchii e eu.
– A Dr.ª Merchii?! – vociferou Phandora –, mas porquê ela?
– Não vamos continuar esta discussão – ordenou Zorki. – Sou o responsável pelo projecto e quem decide sou eu. Vamo-nos concentrar no essencial e começar a trabalhar.
Phandora não se conformava, e saiu do laboratório encolerizada. Zorki olhou Merchii nos olhos. Havia ali alguma ternura dissimulada.
Apesar de tudo, Phandora empenhou-se no seu trabalho e o projecto foi crescendo. Ao fim de três semanas e meia nasceram os bebés.
Nova reunião.
– O projecto foi um sucesso – declarou Zorki satisfeito. – Estamos todos de parabéns.
– A cápsula criogénica também está pronta – disse Purski.
– É imprescindível que fiquem congelados até saírem da órbita do planeta – disse Merchii. – O excesso de temperatura iria destruí-los.
– Purski, assegurou-se que têm alimento suficiente para todos estes anos? – perguntou Zorki.
– Sim – anuiu Purski. – Serão alimentados por via intravenosa.
– Dr.ª Phandora, da sua parte está tudo pronto, presumo.
– Sim, doutor. Após a saída de órbita, a temperatura da cápsula será regulada automaticamente para valores ideais para o seu crescimento. Os microcomputadores celulares dos clones irão manter estável a sua saúde e corrigirão qualquer problema. Também os manterão a dormir até ao fim da viagem. Foram programados com uma validade de dezoito anos, depois disso destruir-se-ão.
– Muito bem – reconheceu o doutor. – De outra forma correríamos o mesmo risco, essas máquinas poderiam reproduzir-se e alterar toda a genética dos novos seres. Vou comunicar ao Grande Vortwon. A “encomenda” está pronta a ser enviada.
No dia seguinte Zorki entrou na sala de controlo. O Grande Vortwon ficou tão impressionado com o sucesso do projecto que o encarregou de comandar os destinos da nave. No meio da sala, o enorme tubo de luz continuava a armazenar energia. Precisavam de muita. O suficiente para um ano.
De repente o enorme painel vidrado iluminou-se. Apareceu a imagem do Grande Vortwon. Estava com um ar alarmado.
– Dr. Zorki, está a ouvir-me? – perguntou.
– Estou a ouvir, Grande Vortwon, pode falar.
– Houve um terrível engano nos cálculos da minha equipa. A bomba já foi despoletada, e começou a sua cavalgada destruidora. Algumas colónias do planeta já foram destruídas, e não deve demorar muito até sermos atingidos. Preparem tudo para partir, eu vou já para aí.
– Mas ainda não estão cá todos os seleccionados – disse Zorki.
– Não podemos esperar mais, partimos com os que temos.
– De acordo.
Zorki informou Merchii e Phandora sobre a evolução dos acontecimentos.
– Tenham tudo preparado – disse-lhes. – Eu vou já ter convosco.
Phandora teve naquele momento um acesso de raiva. Nunca esqueceu o facto de Zorki ter escolhido Merchii para dadora. Aproveitando um momento de distracção de Merchii, Phandora acercou-se do computador que controlava os clones e foi alterando aleatoriamente alguns dados.
Algum tempo depois Merchii dava um grito alarmada.
– Como é que é possível? Estes valores estão errados…

xxx

A onda devastadora provocada pela bomba arrasou todo o planeta.
Já nada restava.
Alheia a toda a destruição, a cápsula continuava afoita a sua solitária e derradeira viagem.
Chegava finalmente ao fim de dezoito anos.
A porta do receptáculo abriu-se a uma nova luz e os clones despertaram. Saíram, confusos, deslizando como cobras. Gatinharam até um pequeno ribeiro, descobrindo com espanto o reflexo das suas feições. Olharam um para o outro e esboçaram um sorriso inocente.
Iriam começar juntos uma nova vida, um novo planeta.
A cápsula iniciou um processo de autodestruição e foi desaparecendo muito lentamente. Nas letras desvanecidas ainda se podia ler: «Projecto Adam e Evha».

DEIXEM-ME VIVER!

A partir do final do Inverno, quando o Sol começava a aparecer e a aquecer os corpos fartos de frio e das chuvas, ela começava a passar os finais da tarde naquele jardim. Senhora de uns bons 70 anos de idade, cabelos grisalhos, para muitos, o princípio do fim, para outros, um símbolo de sabedoria. Da sabedoria ganha com os anos, mais uma etapa que se vence de quem se sente a envelhecer, mas, acima de tudo, com vida.
Sentava-se no banco de ripas de madeira, pintado de verde, bem junto ao lago com a fonte no centro, e cheio de peixes vermelhos, enormes, quase tão velhos como ela, que se passeavam indolentes pela paisagem sempre igual. Levava pedaços de pão do dia anterior, e entretinha-se a alimentar os peixes, jurando a pés juntos que eles a reconheciam quando chegava. Tinha dado nomes a todos, e conseguia distinguir cada um deles, simplesmente pela maneira de nadar, ou pelas peculiaridades das barbatanas. Os cisnes e os patos-reais já a reconheciam pelo andar, e, mal a divisavam, vinham a nadar graciosamente até ela, esperando receber o pão que escapava aos peixes. Cada um deles tinha recebido também um nome, e ela acariciava-lhes suavemente a cabeça enquanto desabafava as novidades dos filhos e dos netos.
Os meninos da escola em frente vinham ter com ela no intervalo grande, esperando ouvir alguma história do tempo antigo, em que vendia gelados e balões na Feira Popular. Ela sempre adorara crianças, e agora que os netos já eram quase adultos, vinha matar saudades com estes meninos, sempre ávidos de a ouvir.
Às vezes trazia milho, e isso era o que os miúdos mais adoravam. Ela colocava uns grãos nas suas mãos abertas e enrugadas, e dezenas de pombos rodeava-os, alguns pousando inclusivamente nas mãos estendidas que se ofereciam. No princípio os meninos tinham medo, retraíam-se e fechavam as mãos e os olhos, evitando o contacto de tanto susto. Mas com o passar do tempo, habituavam-se ao toque estranho dos patinhos, e riam-se com gosto quando ficavam cobertos de pombos até à cabeça. Era uma alegria imensurável.
E todas as tardes as crianças ajudavam a mascarar a sua solidão.
Os filhos tinham vidas ocupadas, trabalhavam muito para manter um nível de vida confortável, não tinham tempo para conversar com a velha mãe e ouvir as mesmas histórias repetidas até ao infinito.
Os netos estudavam ainda e ela bem sabia como a faculdade era exigente, despendendo bastante tempo na preparação dos exames, e há que estudar muito para estar pronto para a vida adulta.
Por vezes vinham visitá-la, preocupados com a saúde. Sugeriam-lhe um lar, dos melhores, cheio de comodidades, enfermeiras solícitas e ambiente limpo, onde não teria de se preocupar com as limpezas da casa, com a preparação das refeições e onde cuidariam dela com todos os pormenores. Mas ela dizia sempre que não.
Preferia ficar na sua casa, mesmo sozinha, mas onde se sentia livre e senhora da sua vida. Livre para passear por onde quisesse, para alimentar os peixes, patos e pombos do velho jardim, para animar as crianças da escola e encher as suas vidas de sonhos, com histórias distantes de animais que só podiam ver no jardim zoológico. Ensinar os nomes de cada bicho, de onde vinham, como cada um era importante e especial, tal como cada menino que se cruzava com ela na vida.
Todas as tardes era assim, não se fartava de contar mais uma história e nessa tarde contou uma história que todos gostavam de ouvir a pedido de um dos meninos:
— Senhora, conte a história do «Pintainho Bailarino».
E todos a escutavam em silêncio e admiração.
«A ninhada da galinha Sofia tinha doze ovos. Ela estava muito contente aguardando o nascimento dos filhinhos. Numa manhã fria, os pintainhos começaram a quebrar a casca do ovo, olhando para fora muito curiosos, como vocês.»
Os meninos riram e perguntaram:
— E que mais, senhora?
A senhora retomou: «E, feliz, Sofia acariciava os filhos colocando-os debaixo das asas, para aquecê-los. Mas de repente percebeu que um ovo não havia quebrado. Esse pintainho preferiu ficar lá dentro: dobrou as pernas e resolveu tirar uma soneca. Ela começou a ficar aflita e resolveu chamar o galo Mendonça, pai da ninhada. De tão preocupado até cantou fora de horas... O ovo mexia-se para um lado e para o outro quando Mendonça cantava. O alvoroço e a barulheira chamaram a atenção de Alberto e Sílvia, os donos do galinheiro, ficando impressionados com aquele ovo que se mexia.
— Ele dança ballet — disse a Sílvia.
— Que engraçado! — comentou Alberto.
Na verdade, o pintainho só acordava quando ouvia o canto de Mendonça. Achava a melodia carinhosa e balançava-se quando o ouvia.» Só que as crianças acreditavam de verdade que ele estava dançando e, para eles, o pintainho estava tão contente dentro do ovo que aprendeu a dançar. Imaginavam que abria e fechava o bico, saltava, fazia ziguezague, inventava passinhos, ficava na ponta dos pés, dobrava os joelhos e dava um pulinho. Agitava a asa, balançava a outra. Mexia os pés para a frente e para trás.
Dizia a senhora: «No dia seguinte, o pintainho dançou tanto que o ovo acabou rolando e quebrou-se. Ele olhou pelo buraco da casca, piou um olá para toda a gente e sacudiu o resto da casca. Todos festejaram, os irmãos acharam bonito e também começaram a pular, seguindo a mãe Sofia pelo galinheiro, até pareciam verdadeiros bailarinos.»
Terminava mais um dia belo desta velha senhora. Regressava a sua casa cansada, mas feliz pelo dever cumprido, de ver aqueles meninos contentes e preenchidos de carinho.
Naquela noite a velha senhora, D. Clara de seu nome, remeteu-se aos seus pensamentos:
«Ultimamente tenho dado por mim a fugir ao pequeno mundo e a olhar para as outras pessoas. Eu tenho medos, ansiedades, desejos e sonhos, mas raras são as vezes em que olho para os outros e consigo considerar a possibilidade de que sentem as coisas da mesma forma que eu (a maior parte das vezes parecem figurantes).
O que desejam? Irão algum dia cumprir os seus objectivos mais íntimos?
Olhando para fora acabo sempre a olhar para dentro... e eu?
Sei que aquilo que mais desejo é durar mais uns anos de vida, com vontade de viver.
Gostava de ter uma máquina do tempo, quero ver mais, quero saber mais, se conseguirei aquilo que desejo, a resposta daquela dúvida que sobe acima de todas as outras.
Sinto-me jovem em pensamentos e espírito, até pareço uma adolescente de 15 anos a questionar a sua existência. Se visse e soubesse que nunca esse objectivo iria, ou melhor, irei alcançar, valeria a pena continuar a viver?
Não consigo ver o meu futuro, o meu futuro muito próximo, sempre que penso no que virá acontecer, vejo escuridão, um enorme vazio, dor, solidão. Sinto um profundo desespero.
Meti as mãos na cabeça e comecei a sentir as lágrimas a acumularem-se nos olhos, à espera da ordem para atacar, e chorei.
Mais uma noite mal dormida e um coração endurecido, os dias passam, as noites passam, os anos passam, o sonho permanece e obscura a visão do presente, mas gosto de me deixar voar, gosto de imaginar outras pessoas, outras vidas, outras tristezas, outras alegrias. Gosto de me perder enquanto penso.
Às vezes deito-me com o receio de que no outro dia não vou acordar. Será frio? Será quente? Será esse nada assim tão mau? Queria arranjar uma forma de explicar!
A ansiedade de adormecer para deixar de pensar nas coisas que nos atormentam, mas existe sempre aquele momento em que, mesmo antes de fechar os olhos, estamos sós, como se apenas existisse só eu no meio da escuridão, no meio do nada. Sinto-me amparada. Encolho-me na cama, aperto a almofada. Sinto-me em paz. É assim que me sinto. Em paz, no meio do nada, aconchegada, amparada. O mais surreal nisto é de sentir-
-me assim quando tudo me devia empurrar na direcção oposta, o vértice de pensamentos autodestruidores. Não sei porque estou a sorrir agora, ao mesmo tempo que sinto os meus olhos a ficar húmidos, não sei mesmo. Estou farta de levar os meus pensamentos para o álbum de recordações e de navegar no mar das lembranças.
Sinto-me estranha!
A minha vida enche-se de significado, de um brilho especial, quando compartilho as minhas histórias com aquelas crianças e a alegria com que as vejo a correr para mim ainda dão mais sentido e significado à minha vida, recebo e dou.

Pela manhã fui fazer umas compras ao centro e, enquanto caminhava, deparei, ao passar na frente de uma obra, com vários trabalhadores da construção civil trabalhando, na seguinte cena: dois pedreiros estavam a construir um muro. Apesar de ser o mesmo muro, havia uma diferença notável: a parte de um estava baixa, enquanto a do outro era quase duas vezes maior.
O primeiro estava com aparência resignada e carrancuda, com evidente má vontade. O outro, ao contrário, estava alegre e feliz, até assobiava, com vontade de trabalhar.
Fiquei bastante intrigada e perguntei ao primeiro o que estava a fazer, ao que me respondeu: «Não vê? Estou construindo um muro.» Voltei a perguntar: «E para quê?» Ele respondeu imediatamente: «Ora, para ganhar a vida.» Perguntei a seguir a mesma coisa ao outro trabalhador e este, com um grande sorriso nos lábios, respondeu: «Um muro que parece um castelo.»

E lá segui o meu caminho pensando: «Como é bom ter entusiasmo para continuar a viver e a desejar intensamente estar viva e feliz.»

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Bartolomeu

Breve introdução


Na aldeia do Arripiado dá vontade de passear de mão dada, ou não fosse o seu nome inspirado numa história de amor. Diz a lenda que no tempo das invasões mouras habitava no castelo de Almourol um casal que tinha uma filha que se chamava Ari. A jovem apaixonou-se por um rapaz cristão, mas este namoro não era aceite pelos seus pais. Para impossibilitar a fuga de Ari, o seu pai mandou colocá-la na mais alta torre da fortaleza. E para que não tentasse fugir, conta a lenda, pearam-na, isto é, ataram-na pelos pés. Ari peada morria de saudades do seu amado.
Certo dia, entrou na fortaleza uma pomba branca que trazia consigo a notícia de que o amado de Ari tinha sido morto. A jovem morreu de desgosto. A sua alma voou no corpo da pomba e foi poisar na campa do amado, frente ao Tejo, no cemitério da localidade que o povo passou a chamar de Aripeada, hoje a povoação do Arripiado.

É nesta aldeia que se inicia este pequeno conto. Numa aldeia à beira Tejo bem perto de Almourol. Os portugueses viveram muitos séculos voltados para o mar. Povo que se lançou no Atlântico e procurou noutras paragens o que em Portugal não tinha. A grande maioria nem sequer chegou a voltar.


I

Bartolomeu tinha nascido numa aldeia à beira Tejo, mais propriamente na aldeia do Arripiado, junto ao castelo de Almourol.
Apesar de a maior parte do povo da aldeia ser pescador, o seu pai seguira a profissão do seu avô – sapateiro. Como era o único no seu mister o trabalho ia dando para a “bucha”. Além disso tinham uma pequena horta onde cultivavam as batatas, o feijão, as alfaces e tantas outras pequenas coisas que ajudavam ao sustento da família.
No entanto, Bartolomeu ambicionava outra vida. Ir para a capital e daí para o “resto do mundo”. O “seu” Tejo levá-lo-ia um dia até lá.
Não queria seguir a profissão do pai nem a de pescador. Era uma vida dura e de pouco dinheiro. O seu pai bem o tentava convencer:
– Bartolomeu, se “nã” queres ser sapateiro como eu, então tens de ser pescador. Aqui na nossa terra “nã” há muito por onde escolher.
– “Nã” “mê” pai! Nem sapateiro nem pescador – e continuava. – Quero ir para Lisboa e de lá por esses “mares fora” à procura de outra fortuna. Vocemessês depois logo hão-de ver-me! – enchia o peito e bamboleava-se. – Hei-de trazer uma “arca cheiinha de caruto”. “Ósdepois” até compro a aldeia “intêra” – e ria-se do seu dizer.
– O “tê” mundo é aqui ao pé dos “tês” pais – retornava a mãe.
– “Nã se apreocupem quê hê-de” voltar. Mas voltar como um fidalgo. “Fêto” o Sr. D. José de Atayde.
– “Qu’é” lá isso moço! Tem mas é “tino” nessa cabeça. Pareces quase uma tainha de rio com vontade de ser garoupa – dizia-lhe o pai, meio a sério meio a sorrir.
Às vezes, ao fim da tarde, Bartolomeu sentava-se junto ao cais e olhava as barcaças que desciam o Tejo. O seu pensamento ia com elas e imaginava-se a chegar ao Cais das Colunas a desembarcar em pleno Terreiro do Paço. De Lisboa partia-se para o mundo...
Esse desejo foi crescendo com a idade.
Entretanto ia aprendendo a faina dos pescadores. Nas madrugadas de invernia levantava-se, comia uma “bucha” e ala que se faz tarde.
O batel do “Manel da Arruda” esperava-o no cais. Faziam-se rio abaixo em busca das enguias “gordas e fartas”. Eram um “pitéu” que os habitantes da capital apreciavam muito.
Nem sempre o rio era “generoso”. Havia dias que nada calhava na rede. Voltavam então cabisbaixos e de semblante carregado. Vingavam-se na taberna à volta de um jarro de tinto. Conversavam e diziam-se perseguidos pela “má sorte”. Muitas vezes as vozes alteravam-se e então era “porrada que fervia”.
Bartolomeu era bem constituído e como tal acabava sempre por “dar mais do que levar”. A “fama” foi crescendo e ao fim de um par de anos todos lhe tinham “respeitinho”. Ninguém ousava “desdizer” a sua verdade. Se tal acontecia, o corpo do infeliz sentia as agruras de uma mão pesada e habituada a bater.
Em jeito “dengoso” passeava-se pela aldeia lançando olhares lânguidos às moçoilas. Estas desviavam o olhar mas o coração, esse, batia descompassadamente.
O “tamanho” de Bartolomeu já pedia outras fronteiras. Era tempo de ir para a capital. Se muito o pensou depressa o fez. Num domingo de manhã tomou a resolução:
– “Mê” pai... vou “prà” Lisboa. Já “nã” consigo viver aqui. Parece que “inté arrebento” por dentro. Sou um “home” e um “home” tem de se fazer à vida.
O pai olhou-o longamente de alto a baixo, devagar voltou-lhe as costas e saiu para a rua sem proferir palavra.


II

Um verdadeiro formigueiro humano trabalhava dia e noite nas Tercenas da Porta da Cruz (1). Bartolomeu e o seu amigo Manuel Soeiro trabalhavam na “tenência” (1). O trabalho era árduo, mas compensador. Além disso, estava na capital, a um passo de concretizar o seu sonho.
Tinha conhecido o “Manel” no Rossio junto ao Hospital de Todos-os- Santos. Andava por ali a deambular “sem rei nem roque” quando se viu metido numa rixa de rua. Eram três a “malhar” no desgraçado e ele “não foi de modas”. Ao estalo e murro fez sair dali o “Manel” com algumas nódoas negras mas sem ossos partidos.
Após esse episódio e explicada a razão da sua ida para Lisboa, o Manuel Soeiro logo tratou de arranjar mister para o seu amigo Bartolomeu. A partir dessa altura tornaram-se companheiros inseparáveis.
Durante noites a fio vaguearam pela cidade, percorrendo os recantos mais sórdidos e mal-afamados. Foi tomando consciência desse seu “novo mundo” e esquecendo, a pouco e pouco, a sua pequena aldeia.
Entre baiucas e carvoarias foi conhecendo outros de ambições iguais às suas. O vinho jorrava a rodos e as conversas e amizades foram crescendo.
Tal como Bartolomeu havia tantos outros que procuraram “venturas” noutras paragens. Lisboa era a “porta aberta” para o mundo. Para lá do cabo das Tormentas havia outras gentes, outras terras e muito ouro. Falava-se do reino de Preste João (2), onde havia “homens com cabeça de cão”. A lenda já vinha do tempo de D. João II e muitos ainda andavam à sua procura...


III

Os vagalhões eram mais que muitos e os marinheiros andavam, qual bêbados, aos tombos pelo convés. Muitos choravam enquanto outros rezavam à Virgem que os salvasse daquela tormenta. Ao fim de várias horas de “luta” com o mar a tempestade foi abrandando e o mar serenou.
A “esfrangalhada” nau entrou no mar das Caraíbas. Bartolomeu e o seu companheiro Manuel Soeiro nunca tinham visto mar assim tão azul e transparente.
O comandante e o imediato encontravam-se doentes e com poucas forças para tomarem conta da embarcação e da tripulação. Bartolomeu, apercebendo-se da situação, tomou para si as rédeas da embarcação. O grupo que então tinha formado durante a viagem era-lhe totalmente fiel, pelo que depressa tomou o lugar de comandante.
A ambição rapidamente lhe subiu à cabeça. Mandou matar os que se lhe opunham e tornou-se pirata por oportunidade.
Com a força do seu lado e depois de se ter abastecido nas costas do Haiti, embarcou numa aventura em que terminaria “nas maiores misérias do mundo”. Antes de isso acontecer atacou várias embarcações e planeou saques a seu bel-prazer. Acabou preso mas em virtude de uma tempestade conseguiu fugir. Reunindo de novo os seus homens, acabou por se apoderar do navio que o tinha conduzido preso.
Ficou conhecido pelo estabelecimento de um código de regras que mais tarde seria apelidado de “código da pirataria” (3).


Epílogo

Ninguém sabe a verdadeira “história” deste pirata português. Tudo é pura ficção, mas poderia tudo ter acontecido assim ou... talvez não.



(1) As Tercenas da Porta da Cruz – criadas ou melhoradas por D. Manuel I – constituíam um verdadeiro formigueiro humano trabalhando dia e noite. Nelas se construía toda a espécie de barcos utilizados na época. Ao mesmo tempo, foram estabelecidos depósitos para guardar e conservar o material de guerra, e montadas oficinas para a fabricação de pólvora. Convém lembrar que, ao tempo, o fabrico da pólvora e da artilharia estava em grande parte a cargo de particulares. As Tercenas da Porta da Cruz estendiam-se por uma zona que hoje se poderia assim definir, aproximadamente: a norte, pela Rua dos Remédios; a oeste, pelo largo do Museu de Artilharia; a sul, pelo rio Tejo (que nos princípios do século XVI avançava mais para norte, estendendo-se até próximo dos locais em que hoje se encontram os edifícios do Museu e da CP), e a leste, pela Calçada do Forte e Largo dos Caminhos de Ferro.
(2) O Preste João foi um lendário soberano cristão do Oriente que detinha funções de patriarca e rei, correspondendo, na verdade, ao imperador da Etiópia. “Preste” é uma corruptela do francês Prêtre, ou seja, padre. Diz-se que era um homem virtuoso e um governante generoso.
No seu reino condensavam-se o reino cristão-monofisita da Abissínia e os cristãos nestorianos da Ásia Central. Diz-se também que era descendente de Baltasar, um dos Três Reis Magos. Como as notícias palpáveis desse império cristão eram escassas, dilatava-se a fantasia em redor do seu reino: falava-se de monstros vários (entre os quais os homens com cabeça de cão), paisagens edílicas, etc. O Inferno e o Paraíso num só território.
As notícias (em forma de lenda) do Preste João chegavam à Europa pela boca de embaixadores, peregrinos e mercadores, sendo depois confirmadas pelo infante D. Pedro, que viajara “pelas sete partidas do mundo”, e ainda pelo seu inimigo D. Afonso, conde de Barcelos, que fizera peregrinação à Terra Santa.
Em 1487, D. João II envia Afonso de Paiva para investigar a localização do mítico reino (que corresponde à actual Etiópia), na tentativa de torná-lo aliado numa possível expedição para a Índia, em fase de planeamento.
(3) Bartolomeu Português foi um pirata português do século XVII. Foi o responsável pelo estabelecimento do primeiro código de regras popularmente conhecido como “código da pirataria”, usado posteriormente por piratas como John Philips, Edward Low e Bartholomew Roberts.

O livro dos dias

“Agarra!”

“Ladrão!”

Os gritos seguiam-no enquanto corria pela rua de paralelepípedos escorregadios, mas prestava-lhes pouca atenção. O céu estava coberto de nuvens de tempestade e a chuva estava cada vez mais forte, não o iam apanhar, não, graças à tempestade. O livro que havia roubado momentos antes estava em segurança sob a sua roupa. Ele não sabia nada do livro ou do seu conteúdo, sabia apenas que há já muito que não tinha nada para ler. O vento fustigava-lhe os fios de cabelo negro para os olhos, turvando-lhe a visão através da chuva intermitente. Não foi fácil fugir assim às cegas, mas em pouco tempo ficou bem longe do ponto de partida, bem longe da livraria. Ali não havia ninguém, naquelas ruas desertas, enquanto a tempestade aumentava rapidamente. Entrou no beco, para dentro do buraco a que chamava casa, onde o esperava um gasto cobertor, um velho candeeiro a petróleo e uma muda de roupa seca. Suspirou numa relativa felicidade retirando o livro debaixo da velha camisa.

Foi então que o pôde ver bem. Uma capa de couro preto macio com adornos de bronze nos cantos. Estendeu a mão e acariciou o negro couro, um arrepio, uma forte sensação a pele, levou-o a retirar a mão imediatamente. Há já tanto tempo que ele não tocava em pele, na pele de alguém. As páginas ligeiramente amareladas da idade eram de um papel bom, de qualidade. Secou as mãos no cobertor, encostou-se na parede de tijolo e abriu a capa. Na primeira página o título numa perfeita caligrafia que ele impacientemente ignorou, avançando uma série de páginas. Nunca fora um “homem” de prefácios. No mesmo tipo de letra perfeito lia-se:

“Roubou-me no meio de uma tempestade. Se eu não o soubesse, diria que vinha um dilúvio a caminho. Foi um roubo básico, ninguém no seu perfeito juízo iria para a rua perseguir um ladrãozeco no meio daquela chuva e daquele vendaval. Ele agarrou-me, meteu-me debaixo da camisa e fugiu daquela livraria. Já não era sem tempo. Gostava de saber quando é que ele vai perceber.”

A frustração abateu-se sobre ele. Roubara um livro chato com uma história chata. Avançou para o final, mas encontrou-o em branco. Folheava para a frente e para trás, mas, por mais que folheasse, lia sempre a mesma passagem. Atirou-o fora, ali mesmo, para o beco e para o meio da tempestade. Afinal qual fora a ideia, mais valia ter roubado algo de útil. Ainda pensou que o podia usar para acender uma pequena fogueira para se aquecer, mas decidiu que não valia a pena. Enrolou-se no cobertor e deixou que o som da chuva a embater nas pedras da calçada o arrastasse para o sono.

Não dormiu bem naquela noite. De manhã acordou e descobriu-se com a cabeça apoiada na pele preta do livro, aparentemente sem que a tempestade o tivesse sequer tocado. Não se lembrava muito bem da noite anterior. Gemeu. Sentia-se horrivelmente mal, dorido. Mesmo com a fraca alimentação e as míseras condições de vida, raramente ficava doente. O céu era de um deprimente cinzento-chumbo, o que correspondia na perfeição à sua disposição. Esfregou as mãos para as aquecer na disposição de tentar encontrar algo para o pequeno-almoço.

Mas antes tinha de tratar do livro. Era algo que estava a começar a incomodar-lhe. Agora, plenamente acordado, lembrava-se perfeitamente de o ter atirado fora na noite anterior. Mas como é que ele encontrou o caminho até sob a sua cabeça? Parou no meio da rua e abriu-o. Um calafrio percorreu a sua espinha quando viu mais uma página cheia com a mesma caligrafia elegante. Aquilo não estava lá na noite anterior.

“Tentou deitar-me fora na noite passada. Acho que ele ainda não compreendeu que agora faço parte da sua vida, até que assim o deseje. O que mais me diverte é ele pensar que detém o controlo. Mas ele não sabe que não é o primeiro, não, não é o primeiro e definitivamente não será o último.”

Correu para o rio o mais rápido que os seus velhos sapatos conseguiram, tropeçando várias vezes ao longo do caminho. Quando chegou estava ofegante, sujo e enlameado, mas isso não importava, não tanto como esse livro sinistro e assustador.

Num gesto largo atirou-o ao ar, aterrou na água num turbilhão de salpicos de água, lama e detritos. A sua atenção no entanto foi atraída para um bando de pombos que a alguns metros dali arrulhavam em volta de qualquer coisa. Esperava que fosse um pouco de pão duro ou fruta pisada, o que daria um excelente pequeno-almoço. Avançou até lá agitando os braços e gritando para os afugentar. O que viu não só o fez perder o apetite, como o choque de tal visão o fez petrificar ainda em andamento - livro. Mas, não. Ele tinha acabado de o atirar fora. No rio, ele tinha-o visto cair, tinha ouvido o barulho, o spash...

Com cuidado pegou nele pelas decorações de bronze de um dos cantos, evitando tocar o couro da capa, como se ele o pudesse queimar.

“Tentou desfazer-se de mim outra vez. Quando é que ele vai perceber? Talvez com o tempo, mas aí já será tarde de mais... Devo descartar-me da criança. O seu tempo esgota-se, mas a questão é quando. E como. Em breve, deixará de ser útil para mim.
O rapaz está-me a aborrecer. Tentou queimar-me esta manhã e destruiu o candeeiro ao fazê-lo. Palerma. Não tenho tempo para mais jogos infantis. Acho que o rio vai ser um lugar apropriado, vou ver-me livre dele tal como tentou ver-se livre de mim.”

Tinha fome e frio e o sono queria tomar conta de si à viva força. Já lá iam três dias desde o incidente com o candeeiro e ele não tirava os olhos do livro do diabo desde que este decidira que se iria afogar. Não se afastou dele nem um milímetro, não podia, não, ele estava imerso naquela caligrafia. Leu e releu aquelas páginas, mesmo depois de o sol se pôr com a ajuda de uns cotos de vela que tinha encontrado. Folheava constantemente aquelas páginas na obsessão de encontrar algo mais quando reparou que a luz desapareceu rapidamente. De forma desastrada tentou acender um dos cotos com os pequenos fósforos, queimando-se várias vezes. Em poucos minutos ficou mais escuro, o negrume fechou-se sobre si e nem as velas ajudavam. Pegou no pequeno coto e segurou-o a alguns centímetros de distância da página, com muito cuidado para não a queimar, mal conseguia distinguir as letras, com a tinta ainda húmida:

“Fim.”

Um vento gelado soprou pelo pequeno vão de escada, arrancando um pedaço de cartão que servia de parede e apagando as pequenas velas. Ele não conseguia respirar. Se pudesse, teria gritado. Caiu nas pedras da calçada, numa inefável agonia.
O livro tombou ao seu lado. Algo húmido, suave e frio o submergiu, arrastando-o. Rezou e esperou pelo fim que lhe havia sido prometido.

Quando, três dias depois, o seu corpo sem vida foi encontrado em alto mar por um pescador, as autoridades ficaram perplexas. Não havia uma única evidência de danos físicos ou evidências lógicas para a morte deste rapaz. Segundo o pescador, a única coisa que tinha com ele era um livro. Um livro ao qual estava abraçado. Uma capa de couro preto macio com adornos de bronze nos cantos e páginas ligeiramente amareladas de um papel de boa qualidade.
O que impressionou mais a polícia, o mais estranho, era que o livro não tinha o mais pequeno sinal de ter estado na água todo aquele tempo. Estava perfeito. Perfeito até de mais.

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

INVULGAR COINCIDÊNCIA


A infância de Anselmo Arturo fora extremamente difícil, mesmo trágica. Nasceu em Milão, quando os pais, casados, o espanhol Raúl Gelmires e a bela Alessandra Locatelli, italiana de Bassano di Grappa, fugiram da perseguição movida pelos «vermelhos» na Guerra Civil de Espanha. Eram simpatizantes do fascismo, mas com a morte do Duce, em 1945, tiveram novamente de fugir, desta vez para Budapeste, cidade onde uns amigos de ideologia que combatiam a ocupação soviética os acolheram. Raul, Alessandra e os seus amigos magiares apoiavam Imre Nagy na revolta contra o domínio soviético, quando, no trágico dia de 4 de Novembro de 1956, o exército soviético invadiu a Hungria, entrando em Budapeste e semeando o terror e a morte. Entre os 20 000 mortos jaziam os pais de Anselmo. A Europa Ocidental condenou este acto de agressão e levantou-se uma onda de solidariedade para com aquele povo e os seus órfãos. Anselmo e muitos como ele tiveram famílias portuguesas que os acolheram; Anselmo teve, para além de uma família, uma fortuna à sua espera.
Como o casal que o acolheu, já nada novos, não tinha filhos, Anselmo foi o herdeiro universal de uma fortuna colossal e de uma mansão recheada de obras de arte, local que adoptou como sua principal residência.
Possuidor de uma inteligência acima do normal, tirou várias licenciaturas, mas a sua habilidade nata para os negócios fez aumentar o seu património empresarial e imobiliário de forma considerável, mas em especial aquele que mais se dedicava com maior paixão — a arte.
Possuidor de obras de arte, em especial quadros, era também conhecido pelas suas variadas colecções de porcelanas, cristais, selos valiosíssimos, esculturas e livros. Tinha uma espectacular biblioteca, com algumas primeiras edições mundialmente cobiçadas.
E era na área da literatura que a sua paixão ocupava os momentos mais predominantes. Foi autor de alguns romances e, como não conseguiu que lhos editassem, as suas incursões na arte da escrita foram publicadas como obras de autor, numa editora em que tinha uma quota, cujo lucro, se houve, foi investido na editora para garantir a possibilidade, caso quisesse, de novo publicar.
Com tantos interesses em jogo, e difíceis de gerir, Anselmo decidiu formar um grupo empresarial, a que chamou “Grupo Anselmo A”, e, para administrar esta panóplia de empresas, nomeou administradores os seus três filhos: Herculano, economista, Pedro, engenheiro, e Catarina, licenciada em Gestão de Empresas, ficando ele como administrador geral.
Os filhos foram fruto de amores descontinuados de Anselmo. Apaixonado por cruzeiros e pelos idílios marítimos que daí resultaram, Anselmo envolveu-se, em três dos cruzeiros realizados pelas ilhas gregas, Caraíbas e países nórdicos, com três jovens, cada qual mãe de um dos seus filhos, paternidade que assumiu sem titubear, ficando a sua relação amorosa por este assumido acto.
Com os destinos das empresas entregues nas mãos dos filhos e as mães destes com chorudas pensões, Anselmo ansiava dedicar a vida à literatura. Renascia-lhe novamente o desejo incontido de escrever. Ansiava voltar de novo passar ao papel ideias que retinha na memória há vários anos. Não eram temas sociológicos, que era a sua especialidade, desses ainda fez alguns artigos para revistas da especialidade, mas contos principalmente que fugissem ao quotidiano das pessoas, talvez surrealistas, góticos ou fantásticos. Mas recentemente surgiu-lhe uma ideia que o estava a apaixonar; um conto voyeur, no sentido lato ou extensivo da palavra, e não só no significado restrito da palavra francesa, talvez isso até não chegasse a acontecer.
Escolheria um indivíduo, seguiria os seus passos, perscrutaria os seus gostos — os sexuais e os outros —, buscaria nos meandros da sua vida os seus segredos, qualidades e defeitos. Seria isto possível? Tinha fé que sim. Seria um conto diferente.
Aonde é que poderia encontrar a personagem que pretendia para o seu conto? Tinha que ser uma personagem real, acontecimentos reais, locais verdadeiros, nada de ficção. Era um desafio à sua capacidade de observador. Iria transformar-se num espião, ou melhor, num detective particular, não um Sherlock Holmes ou um Poirot, que desvendavam mistérios, mas um daqueles indivíduos que perseguem as pessoas sem serem vistos, vigiando na sombra, atrás de um jornal, com uns óculos escuros, usando uns binóculos, uma câmara fotográfica ou um bigode postiço. A ideia estava a seduzi-lo e a transformar-se numa sombra que perseguiria a sua personagem, noite e dia. Teria com certeza de recorrer a outras pessoas para seguir os seus movimentos quando ele não pudesse ou para recolher informações de interesse.
Na sua mente as estratégias estavam a tomar forma. Precisava de tratar de arranjar a personagem. Seria uma pessoa real, extraída da massa humana que circula na rua, no dia-a-dia, com os problemas, alegrias e tristezas do comum humano.
Iria procurá-la, talvez, num terminal de um aeroporto, numa estação de caminhos de ferro ou de autocarros, num restaurante, num café, numa livraria, num cinema, num espectáculo desportivo ou simplesmente na via pública. A única coisa que seria fictícia era os nomes. Não podia arriscar que a pessoa escolhida e outros intervenientes, que de qualquer modo se envolvessem com ela, sentissem que estavam a devassar as suas vidas sem autorização. Isto podia criar-lhe problemas. O nome da sua personagem já tinha sido escolhido: Vasco Rei.
Pediu ao seu motorista que o levasse ao aeroporto. Talvez um local óptimo para começar a sua busca.
Dirigiu-se para as chegadas. As partidas, pensou, não valia a pena, porque, nas partidas, a personagem que escolhesse, talvez, o mais certo, seria levantar voo.
Vários voos estavam a chegar: Rio de Janeiro, Nova Iorque, Caracas e outros destinos do outro lado do continente. Sentado no bar do aeroporto, Anselmo observava quem chegava; homens de negócios, turistas, um inevitável grupo de orientais, com certeza japoneses. Não escolheria, por razões óbvias, um estrangeiro e por isso debruçou-se a analisar os portugueses. Um casal de noivos, sem interesse; um par de rapazes dos seus 25 anos, quase de certeza estudantes, numa universidade americana, de férias, igualmente sem interesse; um casal de idosos que vinha visitar alguém, esse alguém apareceu, excitadíssimo a acenar-lhes, sem interesse; um grupo de turistas portugueses vindos de uma visita à Big Apple, sem interesse; uma equipa desportiva com atletas de alta estatura, provavelmente de basquetebol, também sem interesse. Anselmo estava quase a desistir por aquele dia, quando reparou num homem dos seus 35 a 40 anos, impecavelmente bem vestido, fato escuro de marca, cabelo bem aparado, bem barbeado, camisa branca, sem gravata, óculos escuros de marca, sapato polido, nem parecia que tinha efectuado uma viagem transatlântica. Talvez fosse uma personagem a explorar.
O indivíduo parou no meio do átrio do aeroporto como à espera de alguém. Anselmo aproximou-se discretamente, ficando a uma insuspeita distância da personagem. Esta retirou do bolso um telemóvel, marcou um número e aguardou. Anselmo também aguardou. Ouvi-o a falar em português, mas, como passavam uns italianos perto deles a falarem, como costume em voz alta, não conseguiu ouvir o teor da conversa. Desligou o telemóvel e dirigiu-se para a saída, na direcção da postura dos táxis. Anselmo seguiu-o e comunicou por telemóvel ao motorista para o ir buscar ao mesmo local.
Quando a personagem já tinha saído da aerogare e estava perto da paragem dos táxis, um indivíduo, vestido totalmente de preto, de óculos escuros e de forte compleição física, veio ao seu encontro, cumprimentou-o respeitosamente e, pelos gestos que fez, apercebeu-se que este ia buscar o automóvel. Saiu a correr enquanto a personagem aguardava, Anselmo dirigiu-se para o seu automóvel, que já estava à sua espera.
Um Mercedes 350 SL parou mesmo atrás do seu e a personagem entrou, o automóvel ultrapassou o seu, e ele mandou o motorista segui-lo à distância. Apontou o número da matrícula, achou oportuno, talvez mais tarde fizesse jeito.
O automóvel dirigiu-se para o centro da cidade. A uma distância que não levantava suspeitas, Anselmo seguia-o.
O automóvel da personagem, curiosamente, parou a um quarteirão da sua casa, num prédio de construção moderna, conhecido na zona por ser onde viviam gente de dinheiro, homens de negócios, empresários, políticos, pessoas que não tinham dificuldades na vida, pelo menos aparentemente. A personagem saiu do carro e este arrancou. Anselmo disse ao motorista para parar. Saiu do carro e ainda deu para ver qual a caixa de correio que ele abrira para recolher o correio. Como a porta da rua não se fechara totalmente, deu para entrar e ver qual o apartamento: apartamento 7-B. Não tinha indicação do proprietário.
No dia seguinte, tentaria saber o número do telefone e nome do proprietário.
Depois de jantar, Anselmo sentou-se à secretária, ligou o computador e começou a escrever.

«Vasco Rei desceu do avião que o tinha trazido de Nova Iorque. À espera encontrava-se o seu segurança particular ao volante de um Mercedes 350 SL. Vasco Rei entrou no automóvel no lugar junto ao motorista e deu indicação que o levasse para casa. Morava no centro da cidade, num vasto apartamento, numa zona residencial, escolhida pelos empresários, políticos e outros indivíduos, cujo dinheiro não fazia parte das suas preocupações. Berto, o motorista e guarda-costas, deixou-o à entrada do prédio de apartamentos e arrancou. Antes de subir no elevador foi levantar a correspondência que estava na caixa do correio.»

Anselmo entrou na pastelaria onde, por coincidência, a personagem se encontrava a tomar o pequeno-almoço. Cheirava a tinta fresca, o dono tinha dado um refrescamento ao estabelecimento, dos altifalantes, estrategicamente colocados nas paredes, saía o som de uma canção dos Coldplay muito em voga. Anselmo abriu o jornal comprado momentos antes na tabacaria da esquina e pôs-se a ler. A personagem estava a falar ao telemóvel. Tentou apurar o ouvido para tentar ouvir a conversa mas não foi possível. Concluída a conversa, chamou o empregado, pagou a despesa e saiu. Como tinha alguma confiança com o dono da pastelaria, arriscou a fazer-lhe uma pergunta:
— Sr. Sousa, desculpe, conhece aquele sujeito que acaba de sair?
— Muito mal. É frequentador há já algum tempo da pastelaria, mas nem sei o seu nome nem o que faz. Mas porque é que pergunta?
— Simples curiosidade, tenho impressão que o conheço de qualquer lado, mas não consigo lembrar-me.
Solícito, o Sousa, que até gostava de bisbilhotar a vida dos outros, ofereceu-se:
— Mas, se quiser, eu tento saber alguma coisa.
— Não, não vale a pena.
— Se eu souber alguma coisa, digo-lhe — acrescentou.
— Está bem. Se souber alguma coisa, agradeço.
Anselmo saiu da pastelaria, olhou por cima do ombro e reparou que o Sousa estava a olhar para ele com ar desconfiado. Atravessou a rua para tentar disfarçar, e, logo que sentiu que estava fora do alcance do olhar inquisitivo do Sousa, acelerou o passo e ainda conseguiu ver a personagem meter-se num BMW 3Z, cuja matrícula fixou. Tinha um amigo que trabalhava nos registos de automóveis e talvez conseguisse saber o nome do proprietário do veículo.
Nesse dia tinha destinado ir a um leilão de arte nos arredores da cidade. Entre muitas peças de valor que gostaria de adquirir, encontrava-se um quadro de Vieira Portuense. O leilão estava concorrido, muitos dos seus amigos e frequentadores destes leilões estavam presentes. Trocou algumas palavras de circunstância com alguns deles, pegou num catálogo e foi sentar-se quase no fundo da sala. Para seu espanto, a personagem também estava presente. Sentiu o coração a pulsar mais rápido perante este acontecimento. Felizmente que foi sentar-se longe dele. O leilão começou com as licitações de várias peças de cristal, depois de porcelanas, e Anselmo reparou que a personagem não fazia qualquer licitação. Distraído a observá-lo, Anselmo quase que ia deixar passar o objecto que ali o tinha feito ir. O quadro começou a ser leiloado, e Anselmo tinha fixado um valor até ao qual iria. Não foi preciso esperar muito tempo, o último lanço que fez desmobilizou a concorrência, os presentes acharam que o quadro não merecia aquela quantia, e o leiloeiro rematou o quadro a seu favor. No final do leilão, Anselmo foi efectuar o pagamento e, como era normal, deixava a sua morada para que a leiloeira entregasse o objecto comprado em sua casa, porque esse transporte era efectuado por empresas de segurança. Mas desta vez decidiu levar o quadro consigo. Um empregado da leiloeira transportou-o até ao parque de estacionamento e depositou-o no porta-bagagem do automóvel. Anselmo agradeceu, meteu-se no automóvel e saiu do parque de estacionamento.
O seu motorista tinha um problema familiar para resolver, com certa urgência, e Anselmo disse que o deixasse na casa da filha e que fosse à sua vida que depois ele mesmo levaria o automóvel para casa.
Foi deixado na casa da filha Catarina, que morava muito perto de si, para cumprir a missão de dar de comer à gata Sissi, porque a filha tinha-se ausentado, por duas semanas, para realizar um cruzeiro de férias.
Abriu a porta de acesso ao átrio e subiu de elevador até ao sétimo andar. O apartamento estava em silêncio absoluto e teve que chamar pela gata por várias vezes até que esta se lembrou de aparecer, ronronando.
Foi até à janela da sala de estar e abriu a cortina. A sala dava para os jardins do condomínio, por sinal uma paisagem magnífica. Quando se apercebeu que em frente ao andar da filha, e segundo as suas contas, rememorando a localização do prédio da sua personagem, estaria exactamente frente ao seu andar, cerca de cinquenta metros. Esta situação deixou-o excitadíssimo, porque dali podia bisbilhotar a vida da sua personagem. O andar era amplo, tinha três enormes janelas com cortinados abertos, onde se podiam ver as divisões. Tudo às claras, a sua personagem parecia não querer guardar segredos. Tinha em casa uns binóculos que iriam ajudá-lo muito.
Em pensamentos, ensaiou vários esquemas, mas todos lhe pareciam demasiado audaciosos. Abandonou o apartamento mas voltou atrás porque se tinha esquecido de dar de comer à gata.
Quando chegou ao automóvel notou algo de esquisito. O porta-bagagem parecia mal fechado. Pressionou o comando da chave que abria as portas e o porta-bagagem e o sinal característico de abertura acendeu. Quando o abriu, reparou que o quadro tinha sido roubado. Quase que desfalecia, não só pelo valor do quadro, mas por ser um quadro que há muito procurava para preencher uma parede de uma suas salas que só tinha quadros de autores portugueses. Fechou a mala do carro, com o auxílio de um lenço, e não tocou em nada. Chamou um táxi e foi à Polícia Judiciária apresentar queixa. A Polícia deslocou-se ao local para retirar possíveis impressões digitais. Feito o serviço, Anselmo foi para casa desanimadíssimo com a promessa da Polícia de que logo que tivessem novidades o informariam.

No dia seguinte levantou-se cedo e foi tomar o pequeno-almoço à pastelaria do Sousa. Fez de propósito, talvez o Sousa tivesse alguma novidade. Entrou e sentou-se no fundo da sala num sítio bastante recôndito. A sala estava com mais dois clientes que liam o jornal. O Sr. Sousa mal o viu, saiu do balcão e veio ter com ele.
— Bom dia. Antes de mais, Sr. Anselmo, pretende beber e comer alguma coisa?
— Um café e uma torrada, mas com pouca manteiga — disse Anselmo.
Antes de ir satisfazer o pedido do cliente, Sousa disse:
— Tenho novidades sobre aquele assunto que ontem me falou.
Enquanto aguardava pelo pedido, Anselmo tentava adivinhar o que o Sousa teria para lhe dizer.
Sousa regressou com o pedido, colocou-o sobre a mesa, puxou de uma cadeira e sentou-se. Parecia muito excitado.
— A empregada doméstica que trabalha na casa do tal senhor, que se chama Samuel Queirós, dá-se muito bem com a minha mulher e por vezes vem fazer umas tarefas aqui na pastelaria e eu pedi-lhe para saber algumas coisas sobre o dito cujo, claro, sem levantar muitas suspeitas. Mas a empregada é um livro aberto, até desconfio que disse mais do que é na realidade. Resumindo: o Queirós é casado, mas a esposa vive nos Estados Unidos, em Chicago, é raro vir a Portugal. Claro, o Queirós tem todo o caminho aberto, é um mulherengo de alta classe, só coisa fina. Tem na Baixa, num dos melhores locais, uma óptima ourivesaria, com clientela da melhor, e ao lado tem uma perfumaria, também de grande categoria. Aparentemente, isto é o que se sabe, mas a vida que leva não pode ser proveniente só dos ganhos da ourivesaria e da perfumaria, não acredito. Viaja muito entre Portugal e os Estados Unidos e, por vezes, é visto com uns indivíduos de aparência muito pouco recomendável. Anda sempre com um guarda-costas, isto quer dizer que a sua vida deve andar sempre em pleno sobressalto. Deve ter outros negócios pouco recomendáveis, penso eu, mas não consegui saber mais nada.
— E já foi muito — respondeu Anselmo. — Isto é mesmo de detective — acrescentou
O Sousa ficou embevecido com a lisonja.
— Como lhe disse era simples curiosidade, conheço-o de qualquer lado, mas não sei de onde. Espero, pelo que o Sr. Sousa me disse agora, que ele nunca se cruze comigo.

Anselmo saiu da pastelaria com uma ideia na cabeça; ir a casa da sua filha Catarina, mas com o objectivo de dar de comer à gata.
Sentou-se num sofá, na sala de estar da filha, com os cortinados entreabertos, com a luz apagada e os binóculos numa mesinha junto ao sofá. Colocou um computador portátil ligado sobre os joelhos. No apartamento da personagem havia movimento.

«O dia estava muito quente, o apartamento de Vasco Rei estava todo aberto, com as janelas corridas, que davam para uma varanda ao correr de todo o apartamento. Havia luzes no interior do andar, e pressentia-se movimentos. Passados nem dez minutos, Vasco apareceu numa das janelas. Vestia um roupão branco, andava descalço e estava a beber, pelo formato do copo, seria um uísque. Acendeu a luz da sala de estar, fechou a janela, ligou a televisão e deitou-se num dos sofás. Mal se tinha deitado, a campainha tocou. Vasco foi abrir a porta. Era uma jovem, loura, alta, com cerca de 25 anos, trajando um vestido preto de alças, justo ao corpo, realçando as belas formas que se adivinhavam por baixo. Ao pescoço trazia um adorno de ouro e no decote, bastante atrevido, tinha o seu nome — Miranda — desenhado com pequenas pedras brancas. A jovem trazia um embrulho, que pousou no sofá. Vasco deu um beijo na cara da jovem. Sentaram-se no sofá e Miranda abriu o embrulho. Tratava-se de um cofre de prata, de certeza muito antigo, uma obra-prima em filigrana. Vasco pegou nele e ficou a olhar maravilhado. Miranda cruzou as pernas e a saia subiu perigosamente, mas não fez caso. Vasco pousou o cofre numa cadeira à sua frente, olhou para Miranda, aproximou-se e pousou um beijo nos seus lábios. Miranda riu-se e agarrou amorosamente a cabeça de Vasco. Audaciosamente, Vasco puxou a alça do vestido para baixo e beijou o pescoço e o ombro de Miranda. Atrevidamente Miranda meteu a mão por baixo do roupão de Vasco e este deu um salto. Miranda levantou-se e Vasco agarrou-a pela cintura e beijou-a apaixonadamente, a que esta respondeu. Vasco pegou em Miranda ao colo e levou-a para o interior da casa.»

Anselmo desligou o computador. Deu de comer à gata e deixou o apartamento.
Olhou para o relógio, era quase meio-dia e tinha um encontro marcado com o Ventura, que era um detective particular. Eram amigos de há longos anos, empregou os seus filhos numa das suas empresas, e já tinha feito uns serviços para ele de natureza vária. Contudo, neste caso, era bastante diferente. Tinha-lhe pedido que soubesse o que fosse possível sobre a personagem e as razões porque o pretendia saber, facto que Ventura estranhou pela sua bizarria.
O encontro deu-se na casa de Anselmo. Ventura apareceu pontualmente.
— Ventura, você nem parece português com esta pontualidade inglesa — elogiou Anselmo.
— É uma questão de princípio. Eu até acho um vício a minha mania de cumprir escrupulosamente os horários — respondeu Ventura.
— Eu penso que é uma questão de educação — disse afirmativamente Anselmo. — Vamos então às novidades.
— Tenho algumas, mas existem muitas falhas na investigação. O indivíduo é uma caixinha de surpresas, é difícil fazer o trabalho. Chama-se Samuel Queirós. Movimenta-se muito, tem muitas actividades, algumas estranhas, tem uma série de homens e mulheres a trabalhar para ele, penso, que até fazem de «testas-de-ferro» para certas actividades. Como actividade legal visível tem uma ourivesaria e uma perfumaria.
— Isso já eu sabia — disse Anselmo.
— Interessa-se por arte, a mulher tem uma galeria de arte em Chicago, nos Estados Unidos, e muitas das peças expostas vão daqui de Portugal e da Europa. A Polícia Judiciária anda a investigar, mas o indivíduo é como uma enguia, é escorregadio. Mulheres não lhe faltam; três delas fazem parte do ciclo de interesses, uma loura esbelta, uma morena e uma brasileira de parar o trânsito, não consegui saber, ainda, o nome delas. O que elas fazem, para além do óbvio, são uma espécie de «colaboradoras». Talvez o termo não esteja muito correcto, mas francamente não arranjei melhor. Consta que a tal loura frequenta o jet-set e subtrai peças de valor das casas para onde é convidada; tem umas mãos de fada. Depois ele deve despachar rapidamente o material, fica aqui em Portugal ou vai para Chicago. A brasileira tem um bar, montado por ele, já foi visitado várias vezes por entidades fiscalizadoras e pela polícia, mas não apanharam nada. Não se trata de um bar de alterne, até é muito bem frequentado, consta que é droga e da pesada. Como ele faz não se sabe. O homem continua limpo. A outra loura é colaboradora na parte da ourivesaria, não como empregada, desloca-se frequentemente ao estrangeiro, dizem, para fazer encomendas para a loja. Ele por vezes vai com ela, mas o segredo destas viagens é tráfego de peças de arte ou lavagem de dinheiro. Mas também nada de concreto, somente suspeitas. O indivíduo é muito seguro.

Estava Anselmo no seu posto de observação, na casa da filha, escrevendo ao computador algumas passagens do conto, quando viu movimentos no apartamento da personagem. Para melhor observar o que se passava, pegou nos binóculos e perscrutou o ambiente da sala de estar.
Tocou o telemóvel, era o Ventura. Disse que sabia mais alguns pormenores, mas que não eram muito relevantes, contudo, tinha tido a informação que a personagem ia ausentar-se do país, dentro em breve, para contratar um especialista para a realização de um golpe que ia efectuar no nosso país. Qual era a natureza do golpe andava a tentar descobrir, que seria difícil, mas, logo que soubesse algo mais, o informaria de imediato. Desligou o telemóvel e recomeçou a observação.


«Vasco Rei vestia umas calças azul-escuras, uma camisa cor-de-rosa sem gravata. Preparava uma mala de viagem. Introduzia nesta peças de vestuário interior, algumas camisas, uma camisola, um par de calças de cor escura, o estojo de toilette, um livro e uns embrulhos cujo conteúdo era impossível identificar. Entretanto Berto, o motorista e guarda-costas de Vasco Rei, aguardava que o patrão terminasse as operações. Vasco vestiu o casaco e enrolou uma gravata grená, que meteu no bolso. Berto fechou a mala, pegou nela, apagou as luzes do apartamento e ambos saíram.»

O motorista de Anselmo estava à porta do apartamento da filha aguardando ordens do patrão. Anselmo arrumou rapidamente o computador e saiu do apartamento. Alguma coisa se ia passar com a sua personagem e não queria perder a oportunidade de observar.
Entrou no carro e deu indicações ao motorista, que rapidamente deu a volta ao quarteirão para fazer a perseguição à distância. Quando entraram na rua onde estava localizado o apartamento, o automóvel da personagem pôs-se em movimento. O motorista de Anselmo, por sua indicação, seguiu o automóvel. Pela direcção que tomava, tudo indicava que o destino ia ser o aeroporto. Assim aconteceu. Estacionado o veículo num parque, a personagem e o seu guarda-costas dirigiram-se à aerogare. Anselmo disse ao motorista que o deixasse numa das entradas.

«Vasco Rei, acompanhado de Berto, dirigiu-se aos balcões do check-in. O placard indicava como destino Bogotá (Eldorado), com escala em Newark. Vasco retirou do bolso uma papelada, que entregou à funcionária. Berto depositou a mala no local destinado à pesagem das bagagens e afastou-se. A funcionária colocou a cinta de papel na mala com o destino, esta movimentou-se no tapete rolante e desapareceu para o interior, Vasco recebeu o bilhete e deu lugar a outro passageiro. Vasco e Berto trocaram algumas palavras, foram até a um dos bares do aeroporto e sentaram-se numa mesa. Vasco pediu a Berto que fosse comprar um café e umas águas com gás e que para ele comprasse o quisesse.»

Anselmo não queria deixar de observar mas uma necessidade fisiológica premente obrigava-o ir aos lavabos. Iria num pé e voltaria noutro. Mas apesar de ter feito a operação no menos tempo possível, quando chegou, Vasco e Berto tinham desaparecido. O café e as águas continuavam na mesa, intactos, assim como o sumo que deduziu que era para Berto. Olhou para todos os lados e não os viu. Dirigiu-se para a porta de embarque e, apesar de naquele momento estarem poucos passageiros, não o viu na zona de controlo da alfândega. Correu para a zona dos bares e observou, a pente fino, pelos vidros que davam para a zona das portas de embarque, mas também não o viu. Estava desolado, voltou aos bares, cirandou pelos espaços prováveis e improváveis que pudesse estar mas nada resultou. Estava atento ao que os altifalantes anunciavam, na tentativa de ouvir o nome da personagem ser chamado para se apresentar rapidamente na porta de embarque. A hora de saída do avião com destino a Bogotá chegou. No televisor que anunciava as saídas lia-se «Voo fechado». Passados alguns momentos, o destino de Bogotá desapareceu, dando lugar a outro destino. Foi à companhia que procedia a esses voos e arriscou perguntar se o passageiro Samuel Queirós tinha embarcado no voo para Bogotá. A funcionária, muito simpática, foi consultar no computador a listagem dos passageiros e informou que o Sr. Samuel Queirós não tinha embarcado. Ficou perplexo perante esta notícia e pediu à funcionária para conferir, e ela confirmou o que anteriormente tinha dito.
Anselmo, desolado, abandonou o aeroporto e uma pergunta bailava-lhe na cabeça: onde se teria metido a sua personagem?
O seu conto estava já muito adiantado, com todos os ingredientes, reais, que entendia serem necessários, agora com este desaparecimento inopinado iria atrasar um final que esperava encontrar em breve
Quando chegou a casa, a empregada informou-o de que tinha telefonado da Polícia Judiciária o inspector Mendes, que disse que tinha urgência em falar com o Sr. Anselmo, hoje mesmo, se possível, e tinha apontado o número do telefone.
Anselmo dirigiu-se para o escritório, ligou para o inspector e este pediu-lhe se podia dirigir-se à Polícia. Perante a insistência, Anselmo não hesitou, dirigiu-se para lá de imediato, especulando durante o percurso o que se estaria a passar que justificasse esta chamada urgente.
Quando entrou na sala de estar que antecedia o gabinete do inspector, encontrou sentados a sua personagem e o seu guarda-costas. Ambos fixaram Anselmo, que se sentiu constrangido. O inspector nem o deixou sentar, introduziu-o de imediato no seu gabinete.
— Sr. Anselmo, faça o favor de se sentar — disse o inspector.
Anselmo sentou-se um pouco nervoso porque passou-lhe pela cabeça que a sua personagem ter-se-ia sentido, possivelmente, vigiado, perseguido e como tal, como qualquer cidadão, apresentou queixa.
— O Sr. Anselmo conhece algum daqueles senhores que estão ali fora sentados.
— Penso que já os vi em qualquer lado, mas, para falar francamente, não me recordo muito bem — resposta enviesada dada por Anselmo.
— Para já informo-o de que o seu quadro apareceu — disse o inspector.
— Fico satisfeito em saber. E onde o encontraram? — perguntou.
— Foi encontrado na casa de uma senhora chamada Adriana Teles, colaboradora de um dos senhores que se encontra aí fora e que se chama Samuel Queirós.
«A Miranda, pensou Anselmo.»
— E como foi possível? — perguntou Anselmo.
— Andávamos a uns tempos a vigiar a vida deste senhor. É um traficante, burlão e ladrão de alto gabarito. Ao senhor o roubo do quadro seria o primeiro golpe. O seu gangue preparava-se para assaltar a sua moradia, para roubar tudo o que fosse possível. E o assalto estaria para breve. A ida a Bogotá era para ir contratar um especialista em sistemas de segurança, porque sabia que a sua moradia tem um sistema sofisticado de alarmes e ele sabia de um especialista colombiano que conhece estes sistemas muito bem. Talvez aproveitasse para fazer, também, outros negócios.
Anselmo estava sem palavras. Afinal estava a ser alvo de um «voyeurismo» ou, «portuguesmente» falando, de um acto de «mixoscopia», pensando que era ele que estava assumir esse papel.
O inspector disse que não precisava, de momento, de mais nada, que se podia ir embora e que depois telefonava-lhe para lhe entregar o quadro. Foi encaminhado para a saída, mas por outra porta, para não se encontrar com a sua personagem.
Anselmo nem queria acreditar no que estava a ser preparado contra si e contra o seu património, contudo, uma coisa o tornou feliz, tinha finalmente um final, inesperado sem dúvida, para o seu conto.