segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Mensageiro de Célio Passos

1)


«Quando Cipriano saiu do Centro de Emprego estava a chover. Uma chuva miudinha que o povo intitula de ‘molha tolos’ e que condizia às mil maravilhas com a nossa personagem. Mais uma vez vinha feliz, com as mãos a abanar, perspectiva de emprego nenhuma e ainda bem. Sentia-se muito bem no fundo de desemprego. Já ia para dois anos que a situação se mantinha. Tinha mais com que se entreter do que com um trabalho. Enquanto o ‘pau vai e vem, folgam as costas’, mais um adágio popular para acrescentar ao seu extenso reportório de uma vida plena de ócio com um final de contornos de difícil previsão.
  Mas quem é Cipriano? O seu aspecto é tosco - cabeça arredondada com algum cabelo, preto, aparecendo já algumas cãs à volta das orelhas grandes e deslocadas da cabeça. Ostenta umas soberbas patilhas. Cara sobre o comprido, com queixo quadrado, olhos grandes e sobrancelhas fartas. Maças do rosto algo salientes. Boca grande, lábios grossos, com bigode contornando os cantos da boca. Barba rala e mal cuidada. Pescoço forte e musculado.
        Veste, sempre, um blusão de couro do antigo namorado da namorada.
       Nasceu em Massarelos há 42 anos e vive com os progenitores. O pai, estivador, é a honestidade em pessoa. Dá-se mal com ele. Uma das razões, entre várias, é o facto de ter feito um desfalque numa empresa. Outra são as discussões constantes pelo facto de ele não se empenhar em procurar emprego.  Tem um filho já com 11 anos, fruto de uma relação com uma namorada. Não aceita que o filho não trate do neto e nem se preocupe minimamente com ele. O neto anda ao Deus-dará e vai lá casa, não para ver o pai ou os avós, mas para matar a fome.
  Para a mãe, o filho é o resultado do desgoverno dos governos que não arranjam empregos para os jovens e os desempregados. É um martírio e uma fonte de preocupações para aquela mãe que não vê futuro para o filho, ainda mais com uma criança.»

Valdemar Souto parou de escrever. Salvou informaticamente o texto.
Valdemar Souto é escritor. A entrada no mundo das letras foi difícil. As editoras não aceitavam os seus escritos, apesar de muitos dos seus colegas considerarem as suas obras passíveis de publicação e de sucesso junto do público.
Por fim, uma editora resolveu aceitar a sua primeira obra e a partir daí o mundo dos livros abriu-lhe as portas e alguns críticos literários fizeram-lhe boas referências.
Não dependia da literatura para sobreviver, tem outras fontes de rendimento, mas escrever foi sempre o seu sonho. Tinha publicado já um segundo livro, há seis meses, que foi um sucesso.
Tinha começado a moldar a sua nova personagem, apanhada num supermercado quando fazia umas compras, ao reparar num indivíduo digno de ser alvo de um tratamento literário. Tinha potencial a figura, o modo de trajar, a sua postura desleixada, com certeza daria uma bela personagem.
Preparava-se para encerrar o computador quando viu na barra inferior uma mensagem no «Messenger». Abriu-a.

«Caro escritor. Não sou muito pra as escritas. Tenho deficuldade em escreber, mas não poço deixar de me indgnar do modo como vocemesse me descrebe. Poço não ser um beleza, mas não sou como você diz. O relacionamento com o meu pai e com o puto é mais culpa deles que minha. Debia ter mais cuidado com o que escrebe. Cipriano-F.»

Valdemar ficou estupefacto, não queria acreditar no que os seus olhos viam. Devia ser uma brincadeira de algum amigo. O endereço electrónico não era conhecido, não fazia parte da sua lista, e era mais do que evidente que se tratava de alguém que se devia chamar Cipriano; mas não conhecia nenhum Cipriano, a não ser o do seu conto.
Decidiu não levar o caso muito á sério.

Valdemar gostava de escrever de manhã, por vezes começava pelas sete da manhã a sua faina literária.
Abriu o computador. Leu novamente a mensagem do “Messenger” sem deixar de sorrir com o texto. Recomeçou a escrever:

«Quando Jorge entrou em casa do irmão, por volta das 11 horas, Maurício só berrava, gesticulava com o filho, pouco faltava para lhe bater. Jorge nunca tinha visto o irmão naquela desenfreada berraria. Jorge viu que escolhera mal o dia para ir visitar o irmão. O dia era propício, porque era o feriado de 15 de Agosto e também aproveitava para almoçar com o irmão, com a cunhada e com o sobrinho. A cunhada gostava de presentear Jorge com uns almoços. Constava entre os familiares que ela tinha um fraquinho desde jovem por Jorge, mas Maurício foi mais arrojado e o irmão foi arredado do caminho do amor.
 - Mas o que se passa? - perguntou Maurício em voz sussurrante à cunhada.
 - Não precisas de falar baixo – disse Maurício exaltado.- Este energúmeno, este borra-botas, este pulha, este ‘sei-lá-o-quê’, deu um desfalque no emprego onde trabalhava. Vê lá Jorge como eu me sinto, eu, que sou uma pessoa honesta e que sempre viveu cumprindo com as suas obrigações, ter um filho que é um ladrão.
       - Mas, pai, eu...- gaguejava Cipriano.
      - Nem eu, nem meio eu. Vais primeiro devolver o dinheiro ao teu patrão e humildemente, que é como nós te ensinamos, pedir desculpa, ou melhor, perdão, pelo que fizeste e é já!- disse o pai.
      - Nem penses. É o que faltava, não vou nem nunca irei. Aquele ‘gajo’ passou a vida a explorar-me. Este dinheiro é meu por direito. Aquele ‘gajo’ não me vai pôr mais o olho em cima. Vou aproveitar o convite do meu amigo Bernardo e vou até ao Algarve. Talvez arranje lá emprego e se isso acontecer nunca mais me vão pôr olho em cima.»

         Já era uma da tarde quando a esposa de Valdemar o chamou para o almoço.
        Preparava-se para desligar o computador quando repara que tem uma nova mensagem no “Messenger”.     Abre-a.
   
    “Meu caro escritor. Paresse que continuamos na mesma. Vocemesse passa a bida a contar a istória à sua maneira, e não a berdade. Antes que nos xatemos veja se não inventa, e eu não sou para vrincadeiras. Cipriano-F.»

        Valdemar ficou vermelho de raiva. Isto não poderia estar a acontecer. Era ele o escritor. Era ele que dava o  rumo a história, inventando, dentro de uma lógica por ele concebida, os acontecimentos que a sua personagem iria viver. Não podia permitir intromissões no seu trabalho por parte de ninguém. Mas quem era este «alguém»? Um amigo brincalhão, um internauta que entrou no seu computador e está a tentar a estragar o trabalho. O Cipriano, inventado, esse é que não podia ser, era no mínimo surreal e para mais só escrevia as mensagens com erros de ortografia.
      Mas sempre que fazia um capítulo da vida deste homem, havia sempre uma mensagem que aparecia. Em todos os capítulos que foi escrevendo: do AVC da mãe do Cipriano; da tatuagem que Cipriano fez no braço; o reencontro com o seu ex-patrão; a zanga com a namorada em que o filho levou um “enxerto de porrada”; quando foi trabalhador por conta de uma “máfia do leste” no estrangeiro; a fuga do cativeiro com um companheiro; o jantar na casa de uma condutora que teve um acidente e que Cipriano foi testemunha e tirou-a de apuros; a viagem ao Algarve em que foi preso por suspeita de um assalto a uma caixa multibanco, mas foi solto por se ter demonstrado que não tinha nada a ver com o acontecimento.
       Valdemar Souto andava desesperado, já não conseguia dormir em condições. Em sonhos aparecia-lhe a cara do Cipriano, com os olhos arregalados e a fazer ameaças. Acordava encharcado em suor, com vómitos, uma coisa horrorosa. O problema é que não sabia como dar a volta ao assunto. Desistir do conto? Satisfazer as pretensões do Cipriano? Não. Isso era violar o direito ao livre pensamento. E fazer a vontade ao Cipriano, quem quer que ele fosse, era uma derrota e ele não gostava de perder.
        De repente, uma luz iluminou a sua mente: sabia como resolver o problema e tinha a certeza que ia ser eficaz. Sentou-se na cadeira frente ao computador e começou a urdir a trama.
 
     “Bernardo, o condutor do TIR, ia regressar no dia seguinte ao Porto e avisou o Cipriano do facto.   Perguntou-lhe a que hora ia, porque já estava farto do Algarve, de tudo o que lhe tinha acontecido e aquelas terras não eram para ele, trabalhava-se muito, preferia o Alentejo, ou melhor, a casa de sua mãe; aí, sim, é que era vida.
    Na hora e sítio combinados, lá estava Cipriano com os seus parcos haveres pronto a seguir viagem.
          - Bom dia Cipriano. Tudo bem? - perguntou Bernardo.
         - Melhor que bem, óptimo. Já eram horas de voltar a casa – respondeu Cipriano.
       - Por acaso hoje não estou assim muito feliz. Ontem à noite meti-me nos copos e dormi mal ‘pra carago’.   
        - Tou com um sono!
        - Comigo não podes contar. Não sei guiar esta ‘choldra’ - esclareceu Cipriano 
        - Não há problema. Se tiver sono, paramos e durmo um pouco. A chatice é que amanhã
          tenho de voltar para baixo e por isso não posso parar muito tempo.
        E a viagem começou na melhor harmonia, com bom tempo, com Cipriano a contar as suas      desventuras, enquanto Bernardo, já farto de o ouvir, cabeceava com sono.
        - Bernardo, não será melhor parares, estás com sono? – disse  Cipriano.
        - Isto passa. Em Alcácer do Sal fazemos uma paragem - respondeu Bernardo.
        Atravessavam o Alentejo e o calor apertava. Cipriano não resistiu e adormeceu.
       Bernardo fazia um esforço tremendo para chegar a Alcácer sem adormecer. Mas bastou uma fracção  de segundo e Bernardo adormeceu, bateu com a cabeça no volante e o TIR, que rolava a uma velocidade razoável, descontrolou-se e bateu no separador central;  entretanto Bernardo acorda,  tenta endireitar o TIR, mas o “bicho” não correspondeu aos seus desejos, bateu novamente no separador central e capotou sobre a via contrária.
        Os bombeiros, a polícia e o 112 apareceram com a rapidez que tais momentos justificam.
 Foi preciso desencarcerar o Bernardo, que já se encontrava sem vida. O Cipriano tinha sido cuspido   da viatura e encontrava-se na berma maltratado, inconsciente. Os socorristas, com extremas cautelas  e habilidade, colocaram Cipriano na maca. O médico disse que estava vivo, mas num estado que  inspirava muitas reservas. Tinha fracturas múltiplas e provavelmente hemorragias internas, só no hospital e é que podiam diagnosticar o seu estado real.”

   Valdemar Souto parou de escrever. Iria terminar o seu conto deste modo? Não. Ia aguardar.
        Com os olhos pregados no monitor, aguardava a cada momento que aparecesse uma mensagem. 
       Mas nada. Uma hora, duas horas..., adormeceu... Acordou passado cinco horas e de mensagens nada. Riu-se  interiormente, afinal o Cipriano tinha sido derrotado neste jogo “mensageiro”.
      A esposa veio ter com Valdemar ao escritório, preocupada, porque o marido não tinha ido à cama. Valdemar disse que não se preocupasse porque estava óptimo e tinha vencido uma batalha. Dá-me o pequeno-almoço que estou com uma fome que comia que nem um Cipriano.
 Sentou-se à mesa, não era muito usual, mas nesse dia o Jornal de Notícias estava pousado à sua frente. Despertou-lhe a curiosidade esse facto. Abriu o jornal e na primeira página, não como notícia principal, havia a referência a um desastre de um TIR na A2 perto de Alcácer do Sal. A notícia, circunstanciada, vinha na página 12. Não esperou nem um segundo, folheou o jornal e reteve-se na página referida.

     «Na A2, perto do desvio para Alcácer do Sal, um TIR, carregado, despistou-se, embateu no separador central e capotou. Para além do condutor, de uma firma transportadora do Porto, um homem de 37 anos, que foi identificado como sendo Bernardo de Sousa, teve que ser desencarcerado e foi retirado sem vida. Deixa mulher e dois filhos pequenos. Para além do condutor, vinha também um outro indivíduo, que aparentava ter 40 anos, que foi cuspido da viatura e retirado da vala onde foi parar em estado muito grave, sendo transportado de helicóptero para o Hospital de São José, em Lisboa. Não tinha qualquer identificação e aguarda-se a qualquer momento que seja identificado. O trânsito esteve interdito na faixa de rodagem na direcção norte-sul durante mais de três horas.»
 
        Valdemar Souto pousou o jornal e nem queria acreditar no que tinha acabado de ler.
    
        PS – Foto-robot de Cipriano F.    

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mudar de Vida de António Alvarez


Deitado na cama olhava a janela onde surgiam os primeiros raios matinais. Não dormira quase nada e sentia o corpo todo dorido. Por isso deixava-se estar naquela serena madorna. Além disso o barulho também chegara cedo com a azáfama de mais um dia.
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- Hoje não irei trabalhar!... – Pensou relaxadamente. Ao fim de tantos anos de trabalho naquele escritório a ver as mesmas caras diariamente sentia um prazer quase “arrepiante” de não ter que ver aquele cenário uma vez mais. Repuxou a manta e afagou a cabeça na almofada…
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Depois dum pequeno-almoço que lhe soubera maravilhosamente bem saboreava agora o primeiro cigarro do dia. Caminhava placidamente, ao ar livre, olhando os outros à sua volta. Gostava de o fazer e não ser interrompido por alguém conhecido. Muitas vezes dera consigo a imaginar-se a viver numa ilha deserta. Como naquele filme do Tom Hanks… Não conseguia lembrar-se do nome. – Ah! – Recordou-se de repente - CastAway. Tinha sido um filme que o fascinara bastante. Chegara até a imaginar-se de barba grande, todo esfarrapado e a olhar aquele mar azul transparente à sua frente. Comeria, como ele fizera, frutos que conseguira apanhar e pescar com um artefacto como ele criara. Nada de computadores, telemóveis, trânsito, contas por pagar enfim… só ele ali na ilha deserta. E mulheres? – Lembrou-se – Que se lixe!… Já tenho a minha conta.
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Tinha pegado num livro que há muito tempo andara para ler. Olhou a capa e fixou a imagem reproduzida. Lembrava-lhe a imagem do filme com o Henry Fonda que vira uma vez num cartaz de cinema. Comprara aquele livro num alfarrabista por € 3,00 – “As Vinhas da Ira”. Impressionara-se com a imagem. Achava-a parecida com um dos desenhos do Álvaro Cunhal - Na certeza também ele lera aquele livro - Pensou. Sentou-se no banco corrido onde já se encontrava um outro individuo, mais ou menos da sua idade, entretido a ler um jornal. Se calhar também ele não lhe apetecera ir trabalhar. Abriu o livro e foi lendo serenamente. Não tinha pressa alguma em terminá-lo. Queria-o “compreender” na sua plenitude. Já ouvira falar do seu autor – John Steinbeck – um americano. Na capa em baixo dizia que aquele obra fora galardoada com o “Prémio Pulitzer”. Parou um bocado de ler e deu consigo a pensar quem seria Pulitzer – Deveria ser americano por certo… ou se calhar não!... -  
...
Olhou para o relógio e vendo as horas sentiu, quase de imediato, “um ratito” na barriga. Estava na hora do almoço. Levantou-se, colocou o livro debaixo do braço e caminhou vagarosamente. Queria ainda fumar uma “cigarrada” antes do almoço…
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Em frente à televisão assistia, com uma atenção especial, à reportagem que o telejornal da TVI transmitia. O assunto abordado tinha a ver com a “recessão da económica mundial” – assim dissera o jornalista – e com a actual conjuntura do país.Os entrevistados eram de vários extractos sociais e a repórter aparecia a entrevistar pessoas tanto do campo como das grandes cidades.Curiosamente achava que as mulheres expunham as suas opiniões mais abertamente. Achara que os homens tinham tido mais cuidado com o que diziam… sobretudo os das grandes cidades. Nos do campo essa diferença não era tão notória assim…
...
- O que é que achas disto? – Perguntou-lhe uma voz vinda detrás. Voltou a cabeça e viu que o seu interlocutor não era alguém que conhecesse. Tratava-se de um individuo vestido algo modestamente e com uma cara de “poucos amigos”. Parecia igualmente já estar um pouco embriagado.
- Sei lá!... – Respondeu-lhe secamente para não lhe dar aso a grandes conversas. Chateava-o estar concentrado numa coisa e que alguém o interrompesse. Geralmente, aquela hora, poucos eram os frequentadores daquele espaço e por isso tinha resolvido ir até lá. Não tornaria lá de novo… levantou-se e saiu de mãos nos bolsos. Cá fora a chuva miudinha caia. Subiu as abas do casaco e seguiu em passo apressado… com receio que o outro ainda viesse atrás dele aborrecê-lo com perguntas “chatas”…
...
A água morna tombava sobre a cabeça. Abrira a torneira do duche com pouca pressão. Apenas queria estar ali debaixo e lavar-se exteriormente e… interiormente. Sobretudo interiormente. Lavar e limpar a mente de uma vez por todas. Esquecer… isso mesmo esquecer!...
...
Escovou os dentes com a precisão de um autómato. Tinha um cuidado especial com a sua higiene oral. Como se costumava dizer: “Pela boca morre o peixe” e acrescentou para si: “e os homens também”. Era um dos seus tiques aquela preocupação de ter uma boca sã. Muitas vezes se lembrava da mãe o chamar à atenção para aquele hábito. E passados uns anos, mais do que um hábito, tornara-se quase numa obsessão. – Obsessão ou mania? – Questionou-se. – É quase a mesma coisa… - Também pode ser tara!... – Olhou-se fixamente no espelho da casa de banho e fez uma careta para si. – Tchi!… És feio pra burro. Arrumou cuidadosamente o copo e a escova e dirigiu-se para a cama. Apesar de não ter muito sono apetecia-lhe deitar-se. Ouvia as gotas da chuva que caíam no beiral da janela. E embalado por aquele som foi adormecendo suavemente.
...
- Qual é o seu nome completo?
- José Miguel Nunes Pereira da Silva.
- Idade?
- 47 anos.
- Profissão?
- Técnico-Administrativo.
- Há quantos anos trabalha na firma “Manuel Bernardes & Filhos, Lda.”?
- Fiz 24 anos no dia 12 de Setembro.
- Porque é que a partir dessa data nunca mais compareceu ao serviço?
- Porque… porque não me apeteceu!... – Respondeu desdenhosamente.
...
Ajeitou o chapéu e compôs a gravata. Achou-se vestido a preceito. Caminhou lentamente por entre a multidão compacta que o rodeava. Nada ouvia a não ser a sua voz interior. Alguém lhe abriu a porta de par em par e ele encaminhou-se resoluto em direcção à cadeira…
...
Abriu o jornal e leu a notícia palavra a palavra:
“O tribunal da Boa-Hora, condenou esta 2ª feira, a 25 anos de prisão José Miguel Silva acusado do homicídio em 1º grau de Manuel Bernardes dono e gerente da firma“Manuel Bernardes & Filhos, Lda.”. O autor do violento assassínio confessou ter perpetuado o crime em virtude do patrão o ter ameaçado despedir por ele se recusar a assinar um novo contrato de trabalho. Segundo o mesmo, com a assinatura desse novo contrato, “perderia todas as regalias de toda uma vida de trabalho dedicado”. O autor confesso vai cumprir a pena no estabelecimento prisional de Alcochete”.
Fechou o jornal e deitou-se suavemente na cama… da cela 253.

FIM

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

MEMÓRIAS DE CRISTALEIRA de Helena João


Sou um copo de vinho do Porto, único sobrevivente de um conjunto de copos de cristal da Atlantis que a minha actual proprietária herdou da avó.
Nasci no ano de 1944, numa das primeiras fornadas que a fábrica da Atlantis, outrora com outro nome, fabricou. A minha família mais chegada era composta por doze copos de água, doze de vinho, doze de Porto e doze taças de champanhe.
Recordo-me, como se fosse hoje, da emoção que sentimos ao sermos embalados sem sabermos ainda ao certo o nosso próximo destino. Ditou a fortuna que fôssemos parar a uma abastada família portuense - pai, mãe e três filhos pequenos - como prenda de anos de casados. Esmiuçados, em busca de algum defeito de fabrico, pelas mãos da senhora, passámos todos. Depois fomos lavados, secos e carinhosamente expostos na cristaleira.
Naquele tempo saía da cristaleira, juntamente com os meus companheiros, uma vez por semana, aos domingos. O domingo, dia de celebrar as refeições em família, era esperado por todos nós e pelos humanos da casa, com ansiedade. A azáfama da senhora, que fazia questão de preparar pessoalmente a refeição desse dia, era contagiante. De manhã bem cedo ela punha a mesa criteriosamente. Em cada lugar eram alinhados todos os pratos, todos os copos e todos os talheres possíveis de serem usados durante uma refeição. Ficávamos, assim, expostos num palco privilegiado para assistir aos acontecimentos. A pouco e pouco iam chegando os restantes familiares. Doze elementos ao todo. Seis adultos e seis crianças.
Por ser um copo de vinho do Porto, só era usado no final da refeição e podia permanecer, durante todo o tempo que esta durava, em cima da mesa. Ah, como eu gostava de observar os convivas, ouvir as suas histórias e as suas gargalhadas. Os meus companheiros iam sendo retirados da mesa à medida que a refeição avançava.
Eu não. Ficava sempre até ao fim. E na hora de sermos lavados, mais uma vez a senhora chamava a si essa tarefa. Mesmo quando, mais tarde, surgiu a primeira máquina de lavar louça da casa. Ela fazia questão de nos lavar à mão. «A máquina estraga o cristal», dizia. «Tira-lhe o brilho.»
Os anos foram passando e, excepção feita aos mais pequenos da família, fui útil a todas as pessoas. Mas gostava mais quando ficava ao serviço da senhora. Sempre me senti apreciado quando as suas mãos, que com o passar dos anos se tornaram nodosas, mas sempre gentis, me agarravam pelo pé. Os olhos dela penetravam no âmago do meu cristal e sentia que, por mais excelente que o vinho fosse, este sabia-lhe ainda melhor bebido através de mim. Lembrança desse ano longínquo, em que eu fora prenda por ocasião feliz, talvez. Lentamente, com o passar dos anos, os meus companheiros foram sendo partidos, escanados, estilhaçados... No fervor do convívio humano, foram sucumbindo, ao longo de mais de seis décadas de uso, até restar apenas eu. Sim, agora sou só eu. Já quase não saio da cristaleira. Sem os companheiros necessários para adornar uma refeição cerimoniosa, já não me põem na mesa. Apenas me retiram para limpar a prateleira ou quando à minha nova dona apetece um solitário Porto, ao final da tarde. Mas não me sinto pouco apreciado, não. Antes pelo contrário. Acho que, nessas alturas, ela sente saudades da avó e é por isso que me escolhe. As nossas vidas são diferentes e, no entanto, há um laço indelével que nos une. Ambos somos frágeis, quebráveis, mortais. Sobre ambos pesa o fio do tempo. E ambos partilhamos um ponto na origem das nossas existências. Somos, afinal, da mesma família. Nesses finais de tarde, juntos fitamos o vazio e viajamos para lugares distantes, só nossos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

400 ANOS DEPOIS DE ESCANDERLU de Célio Passos


Eurico de Matos olhou, mais uma vez, para o calendário, incrédulo. Como era possível já ter passado dez anos de reforma. Ainda se lembra do dia em que foi chamado à direcção de pessoal e proporem-lhe uma reforma antecipada, pelo facto de ele ter idade e anos de serviço para a reforma definitiva. O banco tinha excesso de pessoal e ele reunia as condições para tal. O banco podia, assim, reduzir o pessoal e livrar-se de um “peso-morto” que era Eurico. De fraca rentabilidade, sem dinamismo, sem iniciativa, apático perante o serviço, fosse ele muito ou pouco, o seu ritmo, diziam os colegas, era como a sua passada, metricamente igual, até diziam que a “passada do Eurico” era merecedora de estar em Paris, no Instituto Internacional de Pesos e Medidas.
Eurico de Matos, depois de ter finalizado o antigo 5.º ano dos liceus, veio para lá do Marão, desceu a serra e no litoral, graças a uns velhos conhecimentos do seu progenitor, uma secretária de uma instituição bancária esperava-o. Ia iniciar uma carreira de empregado bancário. Definitivamente, a vida de Eurico estava traçada.
Natural de uma aldeia perto de Vila Real, filho único de um casal de abastados lavradores, casou com o único namoro que teve, vizinha da sua aldeia, que frequentou igualmente o liceu em Vila Real, Maria Luísa Torres, de seu nome. Esta tirou o curso de letras e tornou-se professora de Português e Francês num liceu da cidade. Naqueles tempos, uma vida estável e profissão garantida.
Eurico de Matos tinha um aspecto reboliço, a cara arredondada, na cabeça elementos pilosos já tinham deixado de existir, tronco razoavelmente fornecido de gorduras e membros curtos, tanto de braços como de pernas, sorriso agradável e disponível. Era definido como um “tipo porreiro”, nada mais a acrescentar.
Desde muito jovem, tinha paixão pelas colecções. Tinha das mais variadas: de selos, de lápis, esferográficas, várias de cromos (da sua juventude que guardou religiosamente), cinzeiros (grande parte deles subtraídos), sacos de açúcar, caixas de fósforos, etc. Mas a sua maior paixão eram as miniaturas de barcos antigos – galés, galeras, galeotas, naus, veleiros, bergantins, caravelas de vários mastros, escunas, cuja única propulsão era o vento ou a força braçal. Tinha o prazer de as montar, mas também as comprava, quando não as conseguia desmontadas. Era um dos melhores presentes que lhe podiam dar. A sua esposa, quando ele não a acompanhava nas suas viagens turísticas, trazia-lhe sempre uns quantos exemplares para seu delírio. Esta paixão era complementada com uma colecção de livros especializada em aventuras, essencialmente sobre espadachins, corsários, piratas, flibusteiros e bucaneiros. Da juventude tinha guardado vários livros: A colecção completa de Sandokan – O Tigre da Malásia, de Emilio Salgari, o Robin dos Bosques, a Ilha do Tesouro, de Stevenson, biografias e livros de aventuras dos piratas Negro, Barba Azul ou Barba Roxa, narrações de aventuras de outros piratas célebres como o Capitão Kidd, o Capitão Morgan, o celebérrimo Transis Drake e também, porque não, dos portugueses António Faria, Simão de Andrade e do Bartolomeu.
                                                                                                                  
A sua outra paixão, a literatura, estava actualmente centrada nas obras de um autor espanhol, cujas personagens passaram para o seu rol de imaginários amigos, mais bem reais que os amigos e amigas da esposa que também os considerava seus, já que os antigos colegas de banco ou da sua terra para lá do Marão deixaram de frequentar a sua vida.

Na sua casa, herdada de uma tia-avó, uma casa antiga, Eurico tinha espaço para os seus passatempos. Tinha um aposento para um escritório-biblioteca e outro para as suas colecções e criações navais. No momento estava a montar três galés: a Mulata, a Caridad Negra e a Cruz de Rodas. Todas elas estiveram em Escanderlu, batalha de corsários espanhóis contra turcos otomanos que se travou quase há quatrocentos anos. Lendo artigos sobre estas embarcações, montava com os mais ínfimos pormenores as suas fantásticas galés, dando espaço às conversas dos seus embarcadiços, pelos relatos do escritor.
Agora, mais do que nunca, era com fervor que lia e trabalhava nas suas réplicas, talvez para esquecer a doença que o apoquentava.

Mente quem disser que nunca sentiu medo, pois não há coisa que não tenha o seu dia. E naquele amanhecer, diante das oito galés turcas que impediam a saída para o mar aberto, nos momentos que antecederam o confronto que hoje figura nas relações e livros de História como o combate de Escanderlu, ou do Cabo Negro, pude reconhecer a sensação, familiar de outras vezes, que me tensava o estômago até ao limite da náusea e fazia com que um estranho formigueiro me percorresse as virilhas. (1)

Pousou o livro. A empregada do consultório do Dr. Sousa chamou-o para a consulta marcada para aquela hora.
      – Então que tal vai isso, Sr. Eurico? – pergunta sacramental de médico para o habitual doente.
– Como Deus quer. Uns dias melhores outros dias menos bem – resposta óbvia de um doente cuja saúde já teve melhores dias.
      – Tem que pensar em ser operado. Quanto mais tarde pior. E digo-lhe sinceramente, de outro modo não o aconselhava, melhorava substancialmente a sua qualidade de vida, e hoje em dia essa operação tem uma elevada percentagem de sucesso. Claro! Uma operação é sempre uma operação, tem os seus riscos inerentes, como sabe - disse o médico.
      – Mas eu estou decidido em aceitar o seu conselho. Contudo, gostaria de fazer uma viagem com uns amigos e, depois disso, avançava. Vê algum inconveniente.
– E quando é essa viagem?
      – É já para a semana. É um cruzeiro pelas ilhas gregas, junto à Turquia. São quinze dias. O doutor vê algum inconveniente?
      – Claro que não. Não vejo nenhum inconveniente, antes pelo contrário, até virá com outra disposição e isso é bastante positivo. Desejo-lhe uma boa viagem e aguardo o seu regresso. Não se esqueça da medicamentação.                                                                                                           
                                                              
Deixou o consultório, entrou no carro que estava estacionado junto ao consultório e arrancou. A viagem foi curta, estacionou num parque junto ao emprego da esposa.
Enquanto esperava pela sua chegada, abriu de novo o livro. Sentiu-se confiante com a decisão tomada.

Procurei com os olhos o capitão Alatriste. Avistei-o finalmente na parte mais à proa do corredor, dispondo os arcabuzeiros na arrombada. Designado maioral na banda esquerda, tinha colocado Sebastián Copons como cabo de brega. Pareceu-me tranquilo, frio como de costume, com o chapéu inclinado sobre os olhos e o perfil aquilino, os polegares enfiados no cinto de onde pendiam espada e adaga, sobre o colete de pele de búfalo sulcado de marcas antigas estocadas. (1)

Entretanto, a esposa chegou.
– Vejo-te bem-disposto. A consulta correu bem? - perguntou a esposa
– Melhor do que pensava. Depois do cruzeiro vou ser operado, está decidido - disse confiante.
Quando chegou a casa foi directo para as suas construções. As galés estavam prontas  para entrar em combate.  “Por Santiago, Ekin, Ekin”.
O seu espírito estava em Escanderlu, viu o alferes Labajos morrer a meio do combate, bastante acossado pelos turcos, ao repelir a enésima abordagem ao toldo da «Mulata», onde também ficou ferido o capitão Urdemalas. Apoiado na coluna do toldo, com todo o corpo dorido, limpando o sangue da cara e das mãos com água do mar – ardia nos arranhões e nas pequenas feridas – Diego Alatriste viu como se deitavam pela borda os mortos que estorvavam na coberta desfeita, caos de tabuagem partida, enxárcia destroçada, sangue e homens exausto (1).
Ficou preocupado com as duas outras galés, a Caridad Negra e a Cruz de Rodas, não sabia o que se teria passado.
Voltou às suas embarcações e teve dificuldade em colar um mastro no Cruz de Rodas, era sinal de mau agoiro. Tentou mais uma vez e reparou que o mastro caía. 
Não foi jantar, a esposa levou-lhe algo para comer, e noite dentro Eurico não deixou de trabalhar e ler sobre este combate entre galés espanholas e otomanas.

Maria Luísa chamou-o uma vez mais. O táxi já estava a aguardar para levá-los ao aeroporto, de onde embarcariam até Atenas. Aí, começava o cruzeiro pelas ilhas gregas e pela costa turca da Anatólia. Abandonou o local do seu fascínio, meteu o livro debaixo do braço, e de relanço olhou mais uma vez para a Cruz de Rodas.

O deck do navio estava deserto, apesar de um sol que merecia ser gozado. Eurico aproximou-se da amurada. Pousou os cotovelos no madeirame e com as mãos em concha pousou a cara. O mar estava “chão”, sem ondas e não se avistavam outras embarcações, o navio deslizava suavemente naquele mar azul. Vindos da ilha de Lesbos, dirigiam-se para o porto de Esmirna e passavam naquele momento no golfo de Çandarli, outrora chamado golfo de Escanderlu, na costa da Anatólia.
A imaginação de Eurico vogava naqueles mares de antanho, ali passaram-se grandes batalhas.                                                                                                                                                                                                                                                                    
Finalmente, podia abrir sossegado o seu companheiro de viagem.

Depois de a «Cruz de Rodas» ter investido contra a linha turca e imediatamente se ter visto preso nela, a «Caridad Negra» aproveitou o espaço para manobrar e atravessar as linhas turcas. (1)
Mas a Cruz de Rodas, o que se teria passado com ela? Apertada irremediavelmente pelas galés turcas enquanto outras se aproximavam a bom remar, ainda aguentou três abordagens. (1)
Ouviu o estouro de um canhão, e mais outro, as colubrinas disparavam sem cessar, mas sentiu que o destino da Cruz de Rodas estava traçado, não demorou muito que, desfeita e incendiada, se afundava num mar de sangue, entre corpos semidesfeitos, entre o madeirame que outrora fazia parte da galé.

O mar continuava calmo, azul profundo, não se via embarcações e do ar começou a cair uma poalha, uma fuligem negra. Sentiu-a a cair sobre o barco e sobre o seu corpo. Curiosamente, mal chegava ao chão desaparecia, talvez por não pertencer ao presente mas sim a um passado remoto.

– Uma moeda pelos teus pensamentos – disse a esposa de Eurico, Maria Luísa.
– Estava a pensar nos acontecimentos que se deram aqui nos anos de 1627, terríveis batalhas, cujos testemunhos se encontram, para sempre, no fundo deste mar. A vida naquele tempo não valia nada. Lutava-se por ideais que hoje a maior parte das pessoas acham ridículos, eu não. Havia a honra, a amizade, a luta por um ideal, a fidelidade pela palavra dada, não se deixavam abater por uma pequena contrariedade. Claro que havia aspectos negativos, os escravos, os saques, mas hoje também os há com outros nomes mais subtis. O capitão Diego Alatriste esteve aqui e sobreviveu, era um herói, um grande homem. De certeza que não teria medo de fazer uma operação como a que vou fazer. Se calhar até a fazia sem anestesia.
– Deixa de pensar nisso. Vamos jantar?- perguntou Maria Luísa.
– Claro. Vou já. Deixa-me despedir dos meus amigos - disse Eurico
– Quais amigos? Quiseste vir sozinho comigo neste cruzeiro. Os nossos amigos até vão ficar admirados quando souberem – disse Maria Luísa.
– Isso é o que tu pensas! - respondeu calmamente.
Maria Luísa disse que se ia arranjar e que o esperava no camarote.

Observou atentamente o mar calmo, e ouviu: O apito do comitre que martirizava-nos os ouvidos, ao mesmo tempo que o chicote esfolava as costas da chusma e a galé voava sobre o mar. Pois aquele apito intermitente, rápido, marcava a distância que nos separava da morte ou do cativeiro.
Era tudo um pandemónio de disparos, setas que passavam e se cravavam nos paveses, nos mastros ou na carne, gritos e maldições. E quando o nosso timoneiro, com o capitão Urdemalas gritando-lhe ordens directamente ao ouvido – parecia o diabo nos autos do Corpus – metia a cana para uma banda para não acertar na galé amiga «Caridad Negra», que guinava arrastando pela água a antena do seu  mastro truncado, a galé inimiga alcançou-nos com o seu esporão quase até aos
bancos da popa. Saltaram em pedaços três ou quatro remos, por entre uma algaravia de gritos turcos, lamentos de galeotes e Santiagos daqueles que acorríamos para repelir a abordagem. (1)

Estava preocupado. A batalha não estava a favor dos seus amigos. Não descansou. Folheou mais uma vez o livro com ansiedade.

Na manhã seguinte, ao amanhecer de Deus, os turcos já lá não estavam. A gente de guarda acordou-nos, apontando para o mar vazio, onde, à nossa volta, somente se viam restos de combate. E ainda incrédulo, olhando para todas as direcções sem ver rasto dos otomanos, a felicidade era enorme. (1)

Fechou o livro, e as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Gente daquela têmpera já não existe. Regozijava-se com a vitória conseguida pelo capitão Alatriste, com Udermales e com a chusma exausta das galés sobreviventes –“Por Santiago, Ekin, Ekin”
Agora, já podia dormir o longo sono honrado de que gozam os homens valentes. (1)

Tinha que se ausentar. Eurico olhou para o mar, bem distante, e passou em revista os seus amigos  – capitão Diego Alatriste,o jovem Iñigo Balboa, Lope de Balboa, Copons, Labajos, Contrairás, capitão Urdemalas, general Pimentel, Gorostiola, para além do poeta D. Francisco Quevedo, o conde de Gualmedina, Álvaro de La Marca, conde de Olivares, Vicunã, tenente Saldaña, o contador Olmedilla e a  Lebrijana, estes amigos de outras aventuras. Pardeus! Se me olvidei de algum, com certeza, eles foram tantos, desculpai-me, a doença tem destas coisas.
O sol descia no horizonte e Eurico olhou o mar mais uma vez, levantou os dois braços e acenou um adeus. Em voz quase inaudível, Eurico disse: Hasta la vista, compañeros, o até a eternidad; desceu as escadas que conduziam ao camarote.

Deitado na cama do hospital, os enfermeiros preparavam Eurico para a operação. Estava muito calmo, a esposa é que demonstrava algum nervosismo.
Findos os preparativos, os enfermeiros saíram informando que dentro de dez minutos vinham buscá-lo para o levarem para o bloco operatório
-        Maria Luísa. Podias fazer-me um favor! – disse Eurico.
-        Claro. Diz o que pretendes! – respondeu a esposa.
            - Tens muita habilidade para o desenho e eu tenho ali no casaco uma caneta que escreve muito bem na pele. Desenhas-me o logótipo do capitão Diego Alatriste na palma da mão? É simples: é um “A” estilizado atravessado por uma espada. Gostava que o meu amigo estivesse comigo durante a operação. A sua presença confortar-me-ia, e eu ia sentir-me mais acompanhado.
Eurico ia travar uma batalha, também de vida ou de morte, contudo ter ao lado o seu imaginário amigo considerava que a mesma estava antecipadamente vencida. Pardeus se ele se enganou!                                                                                          

(1)    As Aventuras do Capitão Alatriste – Corsários do Levante, de Arturo Pérez-Reverte.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

PONTE PARA O PASSADO - de Helena João

Chegada da sua viagem de dois anos ao Afeganistão, Isabel Gomes retoma o seu cargo de professora de Inglês na Escola Secundária Filipa de Vilhena.

Sempre gostara da cultura muçulmana, pelo que, logo após o seu divórcio, resolvera pedir uma licença sem vencimento e partir à aventura. Agora, passado esse tempo, sente-se uma mulher nova, disposta a ocupar o seu lugar no mundo ocidental.

Decide, então, organizar uma viagem a Londres com as suas turmas, nas férias da Páscoa. Sim, parece-lhe uma boa ideia.

Em Heathrow tudo cheira a novo. A imensidão do aeroporto é de tal ordem que parece que Londres inteira cabe ali. À saída, o céu, cinzento e demasiado baixo, relembra o que havia sido aprendido nos bancos da escola. O tempo é sempre mau, seja Abril, seja Julho, e o smog pesa nos ombros. Chegados ao centro, os seus olhos, com 12 anos e apenas as imagens do Porto gravadas na retina, sentem-se em casa. Não sabe se é o Thames que lhe recorda o Douro, se é o intenso barulho do trânsito, ou se é o cheiro dos escapes de centenas de carros a circular na via errada, mas sente-se em casa. Seguramente que viver ali todos os dias não será o mesmo que vaguear entre o Big Ben e as Houses of Parliament como turista. Mas de certeza que os pombos que residem à volta do Lord Nelson em Trafalgar Square comem o mesmo milho que os companheiros do Almeida Garret, nos Aliados. Hora do almoço e, tal como prometido, não há nada de jeito para comer. Assim, esta viagem oferece mais uma estreia. Afinal ainda não havia McDonald’s no Porto. Mal sabia ela que, uma semana depois, já estaria farta de hambúrgueres e, por incrível que pareça, de batatas fritas. À tarde é altura de visitar a London Tower e as jóias da Coroa. «Keep moving, keep moving», dizem aqueles britânicos emproados a um grupo de jovens que não teriam mais do que 6 anos. A coroa da rainha Vitória é gira, mas, no geral, todas aquelas jóias parecem mais imponentes na televisão. Já está farta de estar ali. Quando é que irá ver o Buckingham Palace? E os famosos guardas da rainha, de farda vermelha, chapéu preto e olhar distante? «Já é tarde, isso fica para amanhã», diz-lhe a professora de Inglês. Vão de metro para o hotel e àquela hora milhares de pessoas tiveram a mesma ideia. «Next station, Victoria Station. Mind the gap.» A voz - sempre da mesma senhora - e o sotaque permanecem no seu subconsciente até hoje.

Essa mesma voz desperta-a agora do estado semi-comatoso em que se encontra. Heathrow já não lhe cheira a novo. Em Londres já não se sente em casa. A multidão que, apressadamente, entra e sai do metro não lhe parece mais do que um conjunto de autómatos. Pessoas mecanizadas, emersas num dia-a-dia sempre igual, sempre vazio. Sabe-as indiferentes ao que as rodeia, almas perdidas sem fio condutor.

Ela era assim. Tal e qual. Embutida na sua própria existência sem sentido. Sente-se feliz por ter escapado. Por ter aberto os seus horizontes à verdade universal. Alá é Deus e só nas suas palavras encontra conforto e alento.

Deixa os alunos no hotel. Já é tarde para passeios, diz-lhes. Sai à procura de uma mesquita. Precisa de forças para o que há a fazer. Sabe que vai ser mal interpretada por todos no mundo ocidental, mas também sabe que faz isto por eles.

Está pronta. Dirige-se ao local combinado e recebe do irmão de fé o colete carregado com explosivos. Sem hesitar, segue para o London Eye. Sente-se enebriada pela multidão. Tanta gente, tantas vidas. Perdidas, todas elas, longe da verdade. Já falta pouco. Subitamente, mesmo em frente ao London Aquarium, avista um grupo de crianças em idade pré-escolar. Riem alto, ansiosas por entrar e começar a visita. O sentimento é-lhe familiar. Aquela garota de 12 anos, espírito selvagem e olhar atento, irrompe no seu pensamento e enche-a de dúvidas. Mas onde está ela agora? Em que momento se perdeu? Algures entre o finalizar do curso e o casamento apressado para calar pais conservadores, perdeu-se. Nunca tirou aquele ano para fazer voluntariado.

Nunca viajou pelo mundo como planeado. Possivelmente, também não é debaixo dos pés dela que corre a Westminster Bridge. A explosão ocorre assim que o seu corpo mergulha nas frias águas do Thames.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

COMO É BELO O TEJO! - António Alvarez


"Gosto desta música do Patxi Andion!"comentou Luís para a colega que se encontrava em frente a si. Helena, que folheava uma revista, anuiu com a cabeça.

Tinha resolvido fazer a rota das “aldeias de xisto”. Durante alguns meses tinha planeado várias hipóteses de fazer umas “férias diferentes” do habitual. Como que por acaso, numa conversa banal com o amigo Dinis, falaram de lugares onde gostariam de viver e veio “à baila” umas férias que ele passara numa aldeia chamada Janeiro de Baixo. O amigo comentara com todos os pormenores e com grande exuberância a paisagem e a vida que ali descobrira. A praia fluvial do rio Zêzere, o silêncio da noite, as caminhadas por entre penedos e vales. Tudo era belo… Tudo era divinal. Dizia ele olhando para o céu:
- Parece o paraíso… Não gostarias de fazer umas férias diferentes? – perguntou à sua amiga. E sem a deixar responder acrescentou:
– Este ano vou de férias para Janeiro de Baixo.
– Mas que raio de sitio é esse? – perguntou Helena.
– É uma aldeia que fica junto ao rio Zêzere e cujas casas ainda são construídas em xisto. Paisagem maravilhosa, ar puro, sossego e praia fluvial. Que mais se pode pedir?
– Não… Não estou muito virada para aí. Gosto mais de praia de mar – respondeu. – E além disso já marquei férias em Armação de Pêra.
– Ah… Ok. Tudo bem! – respondeu algo desapontado.
Luís tinha um “fraquinho” pela aquela sua colega. Mas tímido como era nunca tivera coragem de se lhe declarar. Trabalhavam há vários anos naquela empresa de publicidade e tinham entrado ao mesmo tempo. Helena tinha 36 anos, menos dois que Luís, e possuía um caracter bem vincado. Não se poderia dizer propriamente que fosse uma “estampa de mulher” mas compensava com o “charme” que tinha no falar e no vestir. Nascera em Lisboa, na Maternidade do Dr. Alfredo da Costa, freguesia de São Sebastião da Pedreira, como uma grande parte dos “alfacinhas”. Oriunda de uma família da “meia-burguesia”, crescera sem problemas de maior. Luís, ao contrário, tinha nascido no Alentejo, na Aldeia de Casa Branca, concelho de Sousel. A sua infância fora passada naquela aldeia do interior do Alto Alentejo. Filho do barbeiro da aldeia, o “Ti” Joaquim, e da D. Maria Adelaide, que trabalhara na Adega do Mouchão. Estudara na escola da aldeia até que um primo um dia o levou para Lisboa com promessas de lhe dar “melhor vida”. Trabalhara de dia e estudara à noite. Custara-lhe bastante mas tinha conseguido formar-se.
Aquela leitaria lembrava-lhe tempos idos. Leitaria Académica era o nome que conservava desde que ele se lembrava. Ali bem no Largo do Carmo, bem pertinho da antiga Escola Comercial Veiga Beirão. Dali se partia para todo o lado. Para a Baixa, para o Chiado, para o Bairro Alto e para a Trindade. Belas amizades tinha feito naquela escola. Depois, algumas delas prolongaram-se pela faculdade e tinham chegado até hoje.
Bem ao contrário, tinha sido a sua entrada no mundo do trabalho. O primo Luís António, quando tinha falado com ele, ainda na terra, deixara-lhe uma imagem cor-de-rosa do que iria encontrar. Rapidamente essa imagem passou a miragem. O seu primeiro emprego tinha sido como ajudante de motorista numa empresa de distribuição de bebidas. Ajudante implicava ter de carregar e descarregar sozinho a carga. O Paulo, que era o nome do motorista, pouco o ajudava. Segundo ele, por duas razões. A primeira: “É que motorista é para conduzir e não para acartar” e a segunda é que ele era coxo. Todos os outros motoristas da firma eram normais mas só a ele lhe coubera em sorte um coxo…
Os armazéns ficavam perto da Estação de Santa Apolónia, o que amenizava um pouco os dias de trabalho mais duro. É que ele desde miúdo que gostava de comboios. Às vezes, ao fim do dia, ia ver chegar e partir os comboios. O que mais o impressionava era o Sud Express. Imaginava-se a viajar nele até Paris. Chegou até a pedir um horário de partidas e chegadas, bem como saber quanto custava a viagem em 1.ª classe. Sabia quase tudo acerca da história desse lendário comboio. Muitas vezes dava consigo a imaginar-se como um passageiro no final do século XIX. E assim muitas horas dentro daquela gare se passavam sem ele dar por isso.
Também em Casa Branca havia uma estação de comboios. Era ali que se iniciava o ramal de Évora. Aos domingos, quando o pai não tinha trabalho e ele era um gaiato, pedia-lhe para irem ver os comboios. De mão dada atravessavam a aldeia e, praticamente sem falarem, dirigiam-se para lá. À medida que se aproximavam daquele edifício o seu coração pulava de alegria dentro do peito. Na sua pequenez aquele apeadeiro era gigante. Destacava-se no meio do pequeno casario branco e azul alentejano. Ele entrava no cais e ficava especado a olhar o comboio. Que grande lhe parecia. Dava a ideia que cabia nele o que na aldeia havia.
Os anos entretanto foram passando e ele começara a estudar à noite. Com que sacrifício, muitas das vezes, ia ele para as aulas. O corpo cansado dos dias de trabalho, uma bucha comida à pressa e lá ia ele “fazer-se doutor”. O primo via-o de quando em vez. E com o tempo foram rareando os encontros.
Também ele no princípio escrevia com assiduidade aos pais mas, depois de alguns meses passados, a frequência com que o fazia foi diminuindo.
– Ouve Helena, não queres ir mesmo fazer umas férias comigo? – perguntou de supetão.
– Não! – respondeu-lhe quase sem olhar para ele.
– É que… – começou a ficar “vermelho” e quase a gaguejar – eu fazia muito gosto em que tu viesses… Sabes…
– O quê? – perguntou-lhe ela.
– Nada… Deixa estar! – a coragem faltara-lhe novamente.
– Bom, eu tenho de me ir embora – disse-lhe quase que a medo.
– Ok! Até amanhã.
Saiu de lá cabisbaixo e enraivecido consigo – Mas por que é que eu não consigo dizer que a amo? – ia-se questionado baixinho.
Seguiu a rua até ao fundo, com os olhos fixos no chão, como se quisesse esconder o seu olhar dos outros com quem se cruzava. Tinha 38 anos e imaginava-se a viver sozinho o resto dos seus dias. Até ser velhinho...
Ainda com a mala na mão, procurou nos bolsos e encontrou as chaves. Abriu a porta e entrou em casa. As luzes estavam apagadas.
- Hoje vou jantar sózinho! - pensou.
Despiu o casaco e atirou-se para cima do sofá. Pegou no comando da televisão e foi passando os canais sem prestar muita atenção no que estava a fazer. Não lhe apetecia ler e ficou a “olhar” o canal História. As imagens dum documentário sobre a II Guerra Mundial iam desfilando na sua frente. Mas a sua mente estava muito longe dali. Via-se com a Helena a passear, de mão dada, em Belém, junto ao Tejo. Via sorrir naquele sorriso que só ela tinha. E deixou-se assim ficar até adormecer lentamente.
Acordou algo estremunhado e olhou o relógio, que marcava 21,48 horas.
«Bom, vou preparar alguma coisa para comer», pensou para consigo.
Levantou-se e foi directo à cozinha. Acendeu a luz e o seu corpo tombou inanimado no chão.
Passados uns breves instantes abriu os olhos e sentiu dores na face e no braço esquerdo. Foi com a mão direita ao bolso das calças donde tirou o telemóvel. Marcou 112 e disse a morada…
– Bom dia amor!
Os olhos custavam a abrir e por mais esforço que fizesse só via “escuro”. Uma máscara de oxigénio encontava-se fixada na sua cara. Sentiu também uns tubos presos na mão e no braço.
– Como é que se sente hoje o meu “gatinho”?
Era a voz da Helena que lhe falava. Tudo lhe pareceu estranho, somente aquela voz doce lhe era familiar.
Fez um esforço para abrir os olhos e quando o fez tudo estava toldado à sua volta.
Sentiu um barulho de tacões de sapatos de mulher a afastar-se rapidamente. Tentou falar mas da sua boca nada saía.
Ouviu novamente o barulho dos tacões aproximar-se juntamente com outros sons de sapatos.
Sentiu umas mãos sobre as arcadas dos olhos e uma luz intensa sobre um olho e depois outro. Alguém disse: “Temos homem!”
Do outro lado via-se Cacilhas e o pequeno cais da Trafaria. Helena caminhava ao seu lado agarrada ao seu braço. Um pouco mais à frente uma pequena criança corria num vaivém sem descanso. «Como é belo o Tejo!», pensou em voz alta. Helena olhou para si e sorriu. A criança chamava-se Hugo e era o seu filho.
Tinham-se passado quase dois anos que estivera em coma. A sua Helena sempre estivera ali. Tudo não passara de recordações vividas em tempos idos.
E repetiu: “Como é belo o Tejo!”