sexta-feira, 28 de junho de 2013

Vão-se os anéis, que fiquem os dedos de Helena João.


Manhã cinzenta e miudinha de chuviscos, aquela. Manhã triste, na cidade que teima em não abandonar o Inverno. Manhã triste, nela que leva a morte na alma. Mas só na alma leva a morte. Quem a observar, atentamente, vê uma septuagenária bem arranjada. Os cabelos brancos de prata estão apanhados num carrapito no alto da cabeça, ladeado por duas travessas. Uma echarpe, em tons de rosa seco, despreocupadamente enrolada à volta do pescoço, protege contra o vento que se faz sentir, enquanto, ao mesmo tempo, ajuda a ocultar as encorrilhas que a gravidade proporciona. O saia-casaco claro, dá-lhe ares de executiva e tira-lhe, pelo menos, uns quinze anos de cima. Os sapatos são rasos. Uma prótese de anca não combina com tacões agulha. Nem o semblante a denuncia. Não é carregado, como se espera em quem leva a morte na alma. Segue pela calçada, em passos decididos, esquecida do vento e da chuva. Esquecida da morte que leva na alma.
Chagando ao destino, estanca, só por uns segundos, à porta. Contempla aquele local onde o bisavô a levara tantas vezes, para apreciar velharias. Aquela loja de penhores é uma das mais antigas da cidade. Remonta ao século XIX, mas decerto já nasceu velha.
Entrou. Lá dentro o tempo não passa. Continua com o mesmo cheiro a  livros encadernados a couro e a folhas amarelecidas. Continua com o mesmo ar de desarrumação arrumada onde apenas o Sr. Zeferino se orienta. Ao fundo fica a estante. Um móvel de madeira de castanho, um pouco carcomido pelo caruncho e pejado de livros. Quem sabe, quantas primeiras edições não se escondem ali? Pelo meio, a divisão ampla, aloja pequenas mesas, cómodas, um ou outro armário camiseiro, secretárias e várias poltronas. Em cima destes móveis um outro mundo se desvenda: discos de vinil, brinquedos antigos, velhos eletrodomésticos, peças de louça, tudo numa amalgama ilógica e colorida. À direita, o balcão das joias. Respira fundo e avança na sua direção. Da bolsa retira algumas jóias que entrega ao velho Zeferino. Observa-o enquanto ele pesa aqueles pedaços do seu passado, um a um. No final, feitas as contas, ainda não chega. A hipoteca sobre a casa é grande, ainda não chega. Fecha os olhos, só por um momento e ouve a bisavó que lhe sussurra “deixa ir o trancelim”. O trancelim de ouro que o bisavô Eduardo dera à bisavó, como prenda de casamento. É passado pelas mulheres da família e agora é dela. E agora é do Sr. Zeferino. Com uma lágrima teimosa deixa ir o trancelim. Agora já chega.
Sai da loja e respira o ar frio da manhã cinzenta. Já não leva a morte na alma. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Fica a casa. E com ela fica o fantasma da bisavó, de braço dado com o bisavô Eduardo e o trancelim ao pescoço.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Vida cara de Eliane F. C. Lima


(Conto registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro - Brasil)

Sentada na cama, as tralhas ensacadas. Lágrimas, não há mais. O rosto inchado, apenas observa em volta. Tarefa simples: um armário de duas portas, dentro do cubículo. Calor insuportável no verão; umidade entrando nos ossos no inverno.
            Tinha criado a filha com muito esforço, solteira, ingênua que fora. Nunca se queixou. A menina enchia-lhe a vida. Pobre, muita faxina tinha alimentado suas bocas, pago seu quartinho, a roupa pouca, os livros da pequena. Estudo reduzido, mas muita honradez ensinada pela mãe.
Não tinha podido garantir sua velhice, contudo. Sobrava dinheiro para isso? A mocinha casara cedo, felizmente. Marido era um homem honesto, trabalhador. Nada faltava em casa. Mas sempre renegara a herança da mulher: a mãe.
            Naqueles anos todos, ela, “a velha”, como ele dizia, sem o menor acanhamento, tinha feito tudo para agradar ao genro: lavava as roupas dele, passava com carinho para ver se merecia ao menos consideração. Nada. O homem dizia que aquilo nem correspondia à parte do feijão comido. E o resto? Quarto – quarto? –, luz, água e tudo o mais? Que sina a dele ter de trabalhar o dobro para sustentar boca adicional!
            A filha, muito submissa, reclamava no quarto, à noite. As vozes se alteravam. A senhora se encolhia toda na cama.
            No dia seguinte, a própria mãe abraçava a outra, ambas lacrimosas, e aconselhava que não fizesse aquilo, imagine, atrapalhar sua felicidade. Os homens eram assim mesmo... e onde iria achar outro tão bom, cumpridor de seus deveres? A moça tentava acreditar.
            Agora ele tinha decidido e arranjado tudo. Descoberta uma prima dela, velha também e doente, no interior, tão longe, despachava a sogra para lá.
Saindo pela boca, já, a saudade de sua menina. Mas conformava-se, pensando que libertava a filha para ser feliz. Fosse o que fosse, nunca mais a moça engoliria aqueles desaforos e, afinal – deu um suspiro fundo –, a prima era uma pessoa boa e pacata.
            Um “Mãe, tá na hora”, resgatou-a dos devaneios. Levantou-se, condenado à morte, convocado por guardas e padre que lhe batem à porta.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Rua Onde Nasci de Manuel Vasquez.


A rua onde nasci fica situada em Lisboa, cidade do meu afecto, do meu amor e da virtude em ser hoje homem.
Foi naquela rua que aprendi a andar, a caminhar para ir para a escola e para a brincadeira e a jogar à bola. Foi também naquela simples rua que um dia parti o vidro da vizinha, que chorei uma paixão não correspondida e fui para a escola primária e mais tarde para o liceu e para a faculdade. Foi lá que me sentei na porta da minha antiga casa e esperei por minha mãe e meu pai, porque afinal nem a chave da porta tinha. Tantas coisas tem a rua onde nascemos que nem sequer as vemos, mas na minha rua até pedras, muros e formas eu conheço. Foi ali que senti calor, frio e chuva e andei de um lado para outro.
Eu tenho uma rua onde nasci e lembro-me dela, recordo-a como se fosse minha, pois no meu coração tem um canto que, ao vê-la, a sinto como se fosse familiar, amada e martírio. Vi por ela passar velhos, novos e miúdos, vi meu filho e minha filha aprenderem a andar. Foi ali mesmo em frente à minha porta que um dia fui noivo para a igreja e me casei e vi chegar tantas vezes meu pai e minha mãe. O que ela lavava e varria. Que saudades tenho da minha rua, tão bela, com as portas de todos os vizinhos que amo. Tenho a lembrança de suportar a dor de os ver também partir.
A rua de Lisboa é identificada, mas falta a história. Foi de pedra basalto, mais tarde alcatroada, esburacada com novos apetrechos e dotes de urbe ou capricho de engenheiro da câmara.
Todos os que por uma rua passam nem imaginam o que se passou e passa — zanga, paixão, dor, amor — e tanto sem ver se sente, nos muros, nas pedras e até nas ervas limpas pelo homem dos serviços municipalizados. As ruas eram lavadas, varridas e mantidas limpas, com lixos, bichos e outros, com muitas coisas e vida havia na rua e há por certo na rua onde nasci.
Recordo que observava de menino o formigueiro que por ali passava e as gentes, o comércio e a luta que despertava e me fazia ver que a vida é mais.
Na rua identificava o Sr. Costa, que numa carrinha Volkswagen, tipo pão-de-forma, vendia pão que eu também ia comprar. Nessa mesma rua vinha um casal — a D. Rosa e Sr. José — com a carroça, com uma égua sublime e forte. Vendiam fruta e legumes e riam, divertiam-me, e sabiam que eu um dia queria ser médico e sou. Também me lembro do homem do «pitrólio», do funileiro que concertava panelas e tachos. Do Ti Amolador e da sua gaita-de-beiços a anunciar chuva, a reparar e a amolar tesouras e facas. Recordo-os com saudade e gosto, todos eles foram meus heróis e vida de ser e gostar.
Quantas cores, odores e amores tive na simples rua e vi flores de Primavera, retive frio de Inverno, recebi granizo no pêlo, calor passei e tanto suei com a recomendação de minha mãe: «Usa sempre chapéu!»
Por aquela serena e discreta rua passaram trabalhadores, operários, presidentes, ministros e mais gente rica e pobre, honrada e imaculada e manchada pela desgraça. Nessa rua minha mãe ensinou-me sempre a olhar as gentes e dizer coragem, esperança, dar, ouvir e nem sempre desconfiar. Com meus pais aprendi o que sou, pois foi isso que aprendi na rua onde nasci.
Na minha rua meu irmão fugiu de uma vaca que se tinha escapado de um barco da zona ribeirinha e que até veio no jornal, colhida nem tanto e hoje esquecida, mas que assustou tudo e todos.
Aprendi ali a conduzir e a saber andar de bicicleta, mas também de patins, ali na minha rua caí e esfolei-me. Tantas coisas aconteceram: revolução, procissão e até conversa amena em noite de Verão. Sentados ao fresco, vizinhos e amigos, era a antiga Lisboa, eram gentes que vinham de fora e se integravam no mundo citadino. Ali havia pedreiros, carpinteiros, doutores e amigos, hoje nunca esquecidos, pois, se nos encontramos, festejamos e adoramos lembrar, ai lembrar, os tempos daquela simples rua de Lisboa.
Vi moças bonitas, casamentos e batizados, funerais e mais que me esqueci, mas houve um dia que chorei e me despedi da minha rua. Meu pai partiu, minha mãe também, fomos eu e meu irmão e chorámos tanto, abraçámo-nos naquela rua que foi nosso berço e embalo, doença e alegria e agora um adeus tenho de dar.
Volto e voltarei ali a passar e direi: «Morei aqui e amei.»
Lembrança forte e terna da rua onde nasci.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Velha de Célio Passos.


Numa vila do interior minhoto, vivia uma velha que ninguém sabia de onde é que tinha vindo. Não nascera na terra, não tinha parentes, e sobre a sua idade ninguém sabia, nem ela própria. Seu nome? Dizia que se chamava Maria. Maria quê? Com um olhar a perder-se no infinito, repetia: Maria!
Havia gente que simpatizava com ela, outras achavam que era uma bruxa, e desprezavam-na por nojo ou medo. Havia quem lhe pedisse conselhos dos mais variados: como tirar as nódoas de tinta de uma camisa e nódoas de sangue de uma blusa ou como se deviam tratar tais flores ou frutas, inclusive perguntavam-lhe como seria o tempo para os tempos próximos. A tudo isto respondia com precisão. Questionavam-lhe como é que sabia tanta coisa, e ela respondia que era dos anos que transportava às costas.
No seu corpo corroído pela idade, tinha umas mãos que mentiam a sua velhice. Eram umas mãos com poucas rugas, uns belos dedos, pele suave como seda. Era uma sensação maravilhosa tocar aquelas mãos. Tinham poderes curativos, diziam, mas ninguém nem os próprios curados confirmavam, talvez por receio. Foi o caso do rapaz que tinha os vulgarmente chamados “cravos” e que desapareceram de um dia para o outro quando ela passou as suas mãos pelas dele; ou da rapariguinha, já namoradeira, que tinha um vermelhão na pele que não havia remédio ou mezinha que lho tirasse. Ela acariciou-lhe a cara, os braços, o pescoço e o colo, e, dois dias depois, a jovem foi-lhe agradecer. Estava limpa de todo o mal.
Um casal também a procurou, pois a sua filha Carla de 9 anos tinha desaparecido. Mas a velha remeteu-se ao silêncio. Os pais não ousaram insistir, principalmente o pai, que estava com um ar comprometido e que arrancou à força a mulher de junto da velha.
Aparecia todas as manhãs, cedinho, empurrando uma carreta. Nos tempos frios vendia castanhas assadas e, nos de calor, flores de uma beleza sem par, ou fruta, das variedades menos conhecidas: dióspiros, romãs, kiwis, figos, maracujás, de uma qualidade insuperável. Tinha, sempre, algo para comercializar.
Os colegas vendedores, curiosos pela qualidade dos seus produtos, tentavam saber onde ela os adquiria. Na resposta, entre um belo sorriso que os anos não lho tiraram, dizia-lhes que era o Anjo. Pensaram os colegas que seria um lavrador lá da terra, o António Anjo, mas, quando lhe perguntaram, ele respondeu que nunca lhe vendera coisa alguma.
Comia a sua sopinha, todos os dias, na tasca do Sr. Manuel e, no final do dia, pegava na carreta e no banquinho onde se sentava, num recanto entre a cabina do posto de transformação da electricidade e uma casa desabitada, mesmo no centro da vila, onde semanalmente se fazia a feira, e dirigia-se por um caminho estreito enquadrado por sebes em direcção ao rio.
O rio não era largo, mas era profundo. Tinha uma tosca ponte de madeira. A velha, todos os dias, uma vez para cá, outra para lá, atravessava-a. Do outro lado, o terreno era diferente, perdia toda a geometria, só pedregulhos e mato. Diziam que existiam cavernas e covas onde feras disputavam o lugar.
Era um sítio que metia respeito, mesmo medo. Ninguém, a não ser a velha, se arrojava a atravessar o rio. Diziam também que andavam por lá almas penadas e espíritos malignos.  
O tempo escorria, e este ritual da velha era uma constante no dia-a-dia. A gente da terra gostaria de saber onde era a alcova da velha, mas ninguém tinha coragem ou ousadia de atravessar a ponte.
Até que um dia a velha escafedeu-se.
O Sr. Manuel, o tasqueiro, que se afeiçoara à velha, ousou procurá-la. Foi buscar coragem aos anos que era considerado um homem valente e, armado de um cajado, atravessou a ponte. Um estreito carreiro desmatado, marcado pelo rodado da carreta, subia em direcção a uns gigantescos penedos. Disfarçado por um emaranhado de trepadeiras, vislumbrou um buraco que era a entrada de uma caverna. Manuel entrou. O local era de médias dimensões. Era quente e limpo e o chão atapetado com flores silvestres, muito pequeninas. As paredes estavam secas e brilhantes, preenchidas de variedades de quartzo, leitoso e róseo. Era deslumbrante. A um canto encontrava-se um catre com roupa. Mais ao fundo pequenas volutas de fumo espiralavam restos de uma fogueira junto a uns utensílios de cozinha.
Ouviu uns sons sumidos no fundo da caverna. Aproximou-se. Em pequenas caixas de frutas, em caixotes de madeira ou mesmo em recipientes de plástico, forrados por macias folhas, estavam animais, principalmente gatos e cães, e até um raposinho, que estavam a ser tratados de ferimentos ou de doenças. Socorrendo-se de plantas medicinais que a velha era conhecedora, os animais estavam quase totalmente recuperados das suas maleitas. Era um autêntico hospital veterinário, na sua simplicidade, de que as coisas simples são feitas. A velha nutria um verdadeiro amor por estas criaturas. Na sua incredulidade, Manuel nem se apercebeu que alguém se aproximou dele. A velha colocou a mão sobre o seu ombro. Nada disseram, nem era preciso. A ausência estava justificada, aqueles seres vivos estavam a necessitar dos seus cuidados. De súbito ouviu a voz de uma criança. Atónito, viu que era a Carla que desaparecera da aldeia fazia tempo. A velha contou-lhe o que se passou com a menina. O pai abusava dela, e esta teve de fugir de casa. Pediu ao Manuel que a levasse à casa dos avós e que participasse o acontecimento à Guarda. Disse-lhe ainda que um dia regressaria e que havia mais animais e gente a precisar dos seus serviços.
A velha afastou-se de Manuel. Deu-se uma epifania. A caverna inundou-se de uma luz brilhante. Uma aura branca luminescente envolveu a velha. O brilho aumentou até que preencheu a totalidade do seu corpo. Esta deixou de ter forma humana e transformou-se num objecto tridimensional na forma de uma imagem. A imagem levitou e desapareceu por entre uma concavidade da gruta.   
Com decisão, Manuel pegou na criança ao colo e saiu da gruta. Adentrou-se pelo mato na procura do caminho que o levasse ao rio. Atravessou a ponte e com o auxílio de uma pesada vara ferro, que o destino ali lhe colocara, desfez a ponte. O rio que ia caudaloso fez o resto do serviço e arrastou a ponte feita em bocados. Tinha a plena convicção de que a velha não queria que aquela gruta fosse alvo de invasão ou se transformasse num lugar de culto.
Manuel foi fazer o que a velha lhe pediu: entregar a criança aos avós e de seguida foi à Guarda.
Taciturno, regressou à tasca. Ninguém lhe arrancou qualquer palavra.
Estranharam que a ponte tivesse deixado de existir. A falta da velha foi comentada e por alguns sentida. O tempo tudo esquece.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Ponteiros desorientados numa manhã de um hoje sem data de Cristina Barbosa


Correu rua abaixo. O autocarro estava atrasado, disse-lhe um velhote sentado na paragem. Esperou de pé. Lembrou-se de ter lido um dia que, para descansar, basta depois de morto. Sorriu ao pensar nisso. Algum sentido fazia, reconheceu. Cansou-se, porém, de esperar. Os minutos sucediam-se uns atrás dos outros. O velhote, por sua vez, olhava-a com atenção, procurando, a todo o custo, lembrar-se de onde a reconhecia.
Decidiu sentar-se, finalmente. O velhote ajeitou-se no banco, para que ela se sentisse bem. As pessoas à sua volta reclamavam, baixinho, o atraso do autocarro. Ela, porém, parecia distanciar-se de toda aquela confusão. Tivesse paciência e reclamaria também. Afinal, mal dormira de noite e, na verdade, aquele atraso não estava a ser uma boa forma de começar o dia.
O velhote olhou o livro que Carla segurava sobre as pernas. Fingiu interesse, não fosse alguém desconfiar que não sabia ler. Logo ele que – como se gabava – era «um dos tipos mais espertos que as pessoas algum dia poderiam conhecer». Mal sabia que aquele calhamaço mais não era do que um livro de economia que, nem mesmo assim, poderia resgatar o seu país da miséria.
– Olhe lá, ó jovem – disse ele, aproximando-se de Carla. – Pode dizer-me as horas?
– Oito e dez – respondeu ela, olhando-o fugazmente.
– Obrigado – agradeceu ele, desculpando-se logo depois:
– É que me esqueci do relógio.
À volta, maldizia-se ainda o atraso do autocarro, a subida de preços e o encerramento da fábrica lá da zona, que empurrara para o desemprego imensas pessoas. As perspectivas negras de cada dia. E o frio, perante aquele drama negro e de arrepiar, quase nem incomodava, naquela manhã de Novembro.
– Já não sei quem nos há-de valer – desabafou o homem, na direcção de Carla. – Haja saúde ao menos – salvaguardou.
Carla estava sem qualquer vontade de responder ou de iniciar ali uma conversa. Não queria, ainda assim, ser indelicada ou parecer mal-educada. Bem sabia que ninguém tinha culpa da sua má disposição matinal. Invejou, por momentos, a vizinha do andar de cima que, logo pela manhã, quando por ela se cruzava, era já com um belo sorriso no rosto. Em casa, já devia ter vestido os miúdos, feito o pequeno-almoço e deixado roupa a lavar. Teria, por certo, ideia do que seria o almoço. Adiantara, talvez, qualquer coisa. E, depois de tudo isso, saía de casa sorridente. Apesar de correr, atrasada, entre bons-dias apressados.
À frente da paragem, um carro travou inesperadamente. O miúdo, esse, ficou plantado na passadeira. Não sabia se devia recuar, correr, chamar pela mãe. O velhote levantou-se e reclamou contra a falta de prudência na condução. O homem que conduzia fingiu ignorar os gestos impetuosos e desmedidos de algumas pessoas que reclamavam.
– Cambada de idiotas! – berrou o velhote. – Não vêem por onde andam.
O miúdo, assustado, correu para o outro lado da estrada, onde ficava a escola. Se a mãe soubesse o que lhe tinha acontecido, não o deixaria ir para a escola sozinho durante uns bons tempos. E ele que pedira tanto, porque, afinal, já era um rapaz crescido. Desejou que a cena não tivesse sido presenciada por nenhum conhecido. Não tinha sido, de facto.
O autocarro havia tido um acidente, soube-se, entretanto. No escritório, a vizinha de Carla, que todas as manhãs sorria, chorava. Fora, sorrateira, para a casa de banho. Trancara-se lá dentro, depois do aviso que, juntamente com outros trabalhadores, recebera.
Já Carla, cansada de esperar, decidiu fazer o percurso a pé. Quando a viu levantar-se, o velhote pensou perguntar-lhe se era a filha do senhor Jerónimo, o padeiro. Aquela que, dizia-se, estava a estudar para ser economista. Não perguntou. Estava convencido de que era, realmente, ela. Até tinha semelhanças com a mãe, observou ele. Arrependeu-se, porém, de não lhe ter perguntado as horas, que o tempo, esse, passava a correr.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Paulinho co-autoria de Helena João e Maria José Azevedo


Da janela do meu quarto não a consigo ver. A lavandaria fica tapada pela azálea e pelo caramanchão. Consigo ouvi-la a trautear uma canção e sei que estende a roupa, de mangas arregaçadas pelo cotovelo e uma ou duas molas metidas na boca. As suas mãos ásperas, por uma vida inteira na água e tisnadas pelo sol, executam o ritual com a mestria de sempre. Primeiro as meias, cada uma ao lado do seu par, de seguida as cuecas e os soutiens, os guardanapos e panos de cozinha, as calças e saias, as camisolas, t-shirts e pólos e, por fim, as toalhas de mesa, as toalhas de banho e os lençóis. Tudo combina na perfeição, entre e si e com as molas. Como se, acaso a ordem fosse alterada, já não secassem da mesma forma.
Saio do quarto, fechando a porta atrás de mim. Desço as escadas calmamente. Os vinte e um degraus de sempre. Os vinte e um degraus que aprendi a contar, enquanto os subia de dois a dois. Ao fundo dos vinte e um degraus estão as malas. Já lá estão desde ontem. Prontas, fechadas e silenciosas. Contorno-as e sigo pelo corredor. Ignoro-as só por mais um momento. Vou ao seu encontro. Na certa já estendeu a roupa toda.
- Olá avó.
- Olá Paulinho.
É bom chegar aos 45 anos e ainda ser o Paulinho de alguém.
Fui muitas vezes Paulinho.
O Paulinho. Como no primeiro dia de escola. Cheguei à porta da escola pela mão da minha avó. Até ali a minha vida tinha decorrido entre o nosso pátio e o beco, entre o amor da minha avó, as brincadeiras com a rapaziada e o desatino da Pitecas, a nossa cadela coxa. A escola era a etapa incontornável. Atravessei o portão e fui rodeado pelos outros meninos que gritavam o meu nome: «Paulinho! Paulinho!» Foi a primeira vez que dei conta de ser o Paulinho fora de casa. E continuei Paulinho quando a professora me mandou sentar ali à frente, para ver bem para o quadro.
A segunda vez: «Paulinho, Paulinho, não vais passar sem levar uma boa sova, para aprenderes a não destruir os ninhos», disse D. Antónia, a catequista, naquela tarde tão primaveril, entre a recitação da salve-rainha e os pecados capitais. Nunca percebi a correlação entre o diminutivo e a força das palmadas. Afinal de contas, eram apenas ovos dentro do ninho, nem sequer havia passarinhos.
Desde aí, fui Paulinho inúmeras vezes, tantas, tantas, que não guardo especial memória, até hoje, em que ouvi pela milionésima vez o meu nome pronunciado pela minha avó. Mas não era o Paulinho de sempre, havia na sua voz um não-sei-quê de dramático, de triste, de muito triste. «Paulinho», «Paulinho». Pronunciado com tristeza e com um desalento que fazia dó. Palavra chorada. Palavra sem lágrimas. «Paulinho».
A minha avó não sabia ler nem escrever, só sabia trabalhar. Lavava roupa para fora. Dizia ela que era um trabalho limpo. Tinha a mania da ordem e da arrumação e tudo se encontrava nos devidos lugares, numa ordem obsessiva. Para a minha avó, não havia o meio-termo. Era o bem e o mal, o cozido e o cru, o cheio e o vazio. Não havia mais ou menos na sua vida, era sim, ou sopas. Ou era, ou não era. Fazia, ou não fazia, nunca fazia que fazia. Quando tomava uma decisão, estava tomada, não havia retorno. Hoje, engrenou na rotina como se fosse um dia igual aos outros. De diferente, apenas as malas ao fundo das escadas. Melhor dizendo, um pequeno saco e a mala. Uma mala pequena de couro, com fivelas. A mala que a avó tinha trazido da sua terra quando veio para a cidade e que agora ia levar para o lar, para onde nunca tinha querido ir.
- Avó, és feliz?
- Sou. Não. Era, fui. Hoje não. E a partir de hoje, mais não serei. Queres tirar-me da casa onde vivo há mais de 60 anos, onde fui feliz com o teu avô, que Deus o tenha. Queres tirar-me da casa onde fiz o teu pai, que diabos! Já sei que me esqueço das coisas mais do que antes, sei que dão a isso um nome de doença esquisita, mas ainda estou capaz de olhar por mim. Não conheço uma letra do tamanho de um boi, mas sei bem ler o que vai na alma das gentes e tu, meu menino, também não és feliz.
- Sou sim, filhinho. E tu?
A ironia no seu olhar e no tom com que pronunciou a palavra «filhinho» - que só usa em ocasiões de stress - diz-me que me está a mentir descaradamente. Orgulhosa, esta mulher que será sempre incapaz de me dizer o que realmente sente com esta mudança.
Mas tem de ser. Encontrá-la, por acaso, naquela tarde, a vaguear pela rua com ar perdido - «Eu queria ir ao cemitério, Paulinho, pôr flores ao teu avô, Paulinho» - matou-me um bocadinho por dentro. Estava a quase 2 km do cemitério e a caminhar na direcção oposta; onde iria parar, não nos tivéssemos nós cruzado? Portanto, tem de ser.
Vigia constante, ajuda e companhia, coisas que só lhe posso dar desta forma. Tem mesmo de ser.                                                 
-Também avó, também. Estás pronta?
- Estou pronta há 84 anos, Paulinho.
Entrámos no carro e arrancámos.
Eu, Paulo, miseravelmente infeliz e o corpo dela, a pálida sombra do que ontem era a minha avó. Ela, a alma da minha avó, e o Paulinho ficaram junto à azálea, a estender roupa.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Possiblidades de Eliane F. C. Lima


(Conto registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro - Brasil)

Ele se sentava num banco de praça do centro da cidade e olhava para um prédio enorme qualquer. E imaginava um corpo caindo dali. E o povo, que a princípio tinha corrido de susto, ia se aproximando para ver bem visto, curiosidade sádica de ser humano.
A mulher se chamaria Teresa, com certeza. Tinha sido traída pelo marido. A nonagésima vez, provavelmente. Nas outras, choro, gritos, no final, perdão. Para tomar fôlego, deixar o coração se recompor até a próxima. Embora passasse uns meses ainda com raiva, pensando numa vingança bem doída para ele.
A cada novo evento, o desejo aumentava, como dinheiro posto na poupança, crescia um pouquinho de nada, nunca, porém, ficava igual ao que era antes.
Dessa vez, Teresa não teria chorado. Havia passado o apartamento em que moravam e que tinha comprado antes do consórcio com o ingrato para o nome da cunhada, viúva de seu irmão, a quem Abreu não suportava e fizera um monte de desaforos, sem motivo algum, e tinha proibido a visita. Aquela não iria perdoar: sairia despejado sem dó nem piedade.
Tinha, também, raspado todo o dinheiro que tinha no banco, conta só dela, e depositado no nome do irmão de sua empregada, anonimamente, já avisada a outra do fato. Segredo entre os três. Abreu não teria como rastrear a quantia. Haveria de pagar, de seu bolso, o enterro dela.
Na imaginação do homem sentado na praça, Abreu chegaria, o safado. Viria com uma colega de trabalho – aquilo era colega, toda solicita com o susto dele e cheia de intimidade, parecia ter planos pela morte de Teresa?
Polícia, repórter, flashes, Abreu fingiria desespero e choro ao reconhecer o corpo da companheira para os policiais. A multidão, em volta, não perderia um lance, alguns não voltariam hoje de novo ao emprego, muitos retornariam no fim do expediente para conferir, o corpo ainda ali, plástico preto, que levantava com o vento, deixando ver a sandália e o pé bem-feito.
Com certeza, Abreu, iludido, contabilizaria logo a suposta herança. De seu banco de praça, o imaginador sorria, imaginando como o safardana, dali a alguns dias, odiaria Teresa ao descobrir que ela tinha premeditado tudo antes do gesto extremo.
Por enquanto, do banco, os olhos do homem seguiriam aquele nada, que, finalmente, iria em direção ao estacionamento além da esquina, já de mão dada com o outro nada, que, muito rebolativa em seus saltos altos, ousaria gargalhar, relaxada.

Agradeço ao blogue “Ai que chic” (link) a foto ilustrativa acima da Praça Paris, no Rio de Janeiro.