segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Velha de Célio Passos.


Numa vila do interior minhoto, vivia uma velha que ninguém sabia de onde é que tinha vindo. Não nascera na terra, não tinha parentes, e sobre a sua idade ninguém sabia, nem ela própria. Seu nome? Dizia que se chamava Maria. Maria quê? Com um olhar a perder-se no infinito, repetia: Maria!
Havia gente que simpatizava com ela, outras achavam que era uma bruxa, e desprezavam-na por nojo ou medo. Havia quem lhe pedisse conselhos dos mais variados: como tirar as nódoas de tinta de uma camisa e nódoas de sangue de uma blusa ou como se deviam tratar tais flores ou frutas, inclusive perguntavam-lhe como seria o tempo para os tempos próximos. A tudo isto respondia com precisão. Questionavam-lhe como é que sabia tanta coisa, e ela respondia que era dos anos que transportava às costas.
No seu corpo corroído pela idade, tinha umas mãos que mentiam a sua velhice. Eram umas mãos com poucas rugas, uns belos dedos, pele suave como seda. Era uma sensação maravilhosa tocar aquelas mãos. Tinham poderes curativos, diziam, mas ninguém nem os próprios curados confirmavam, talvez por receio. Foi o caso do rapaz que tinha os vulgarmente chamados “cravos” e que desapareceram de um dia para o outro quando ela passou as suas mãos pelas dele; ou da rapariguinha, já namoradeira, que tinha um vermelhão na pele que não havia remédio ou mezinha que lho tirasse. Ela acariciou-lhe a cara, os braços, o pescoço e o colo, e, dois dias depois, a jovem foi-lhe agradecer. Estava limpa de todo o mal.
Um casal também a procurou, pois a sua filha Carla de 9 anos tinha desaparecido. Mas a velha remeteu-se ao silêncio. Os pais não ousaram insistir, principalmente o pai, que estava com um ar comprometido e que arrancou à força a mulher de junto da velha.
Aparecia todas as manhãs, cedinho, empurrando uma carreta. Nos tempos frios vendia castanhas assadas e, nos de calor, flores de uma beleza sem par, ou fruta, das variedades menos conhecidas: dióspiros, romãs, kiwis, figos, maracujás, de uma qualidade insuperável. Tinha, sempre, algo para comercializar.
Os colegas vendedores, curiosos pela qualidade dos seus produtos, tentavam saber onde ela os adquiria. Na resposta, entre um belo sorriso que os anos não lho tiraram, dizia-lhes que era o Anjo. Pensaram os colegas que seria um lavrador lá da terra, o António Anjo, mas, quando lhe perguntaram, ele respondeu que nunca lhe vendera coisa alguma.
Comia a sua sopinha, todos os dias, na tasca do Sr. Manuel e, no final do dia, pegava na carreta e no banquinho onde se sentava, num recanto entre a cabina do posto de transformação da electricidade e uma casa desabitada, mesmo no centro da vila, onde semanalmente se fazia a feira, e dirigia-se por um caminho estreito enquadrado por sebes em direcção ao rio.
O rio não era largo, mas era profundo. Tinha uma tosca ponte de madeira. A velha, todos os dias, uma vez para cá, outra para lá, atravessava-a. Do outro lado, o terreno era diferente, perdia toda a geometria, só pedregulhos e mato. Diziam que existiam cavernas e covas onde feras disputavam o lugar.
Era um sítio que metia respeito, mesmo medo. Ninguém, a não ser a velha, se arrojava a atravessar o rio. Diziam também que andavam por lá almas penadas e espíritos malignos.  
O tempo escorria, e este ritual da velha era uma constante no dia-a-dia. A gente da terra gostaria de saber onde era a alcova da velha, mas ninguém tinha coragem ou ousadia de atravessar a ponte.
Até que um dia a velha escafedeu-se.
O Sr. Manuel, o tasqueiro, que se afeiçoara à velha, ousou procurá-la. Foi buscar coragem aos anos que era considerado um homem valente e, armado de um cajado, atravessou a ponte. Um estreito carreiro desmatado, marcado pelo rodado da carreta, subia em direcção a uns gigantescos penedos. Disfarçado por um emaranhado de trepadeiras, vislumbrou um buraco que era a entrada de uma caverna. Manuel entrou. O local era de médias dimensões. Era quente e limpo e o chão atapetado com flores silvestres, muito pequeninas. As paredes estavam secas e brilhantes, preenchidas de variedades de quartzo, leitoso e róseo. Era deslumbrante. A um canto encontrava-se um catre com roupa. Mais ao fundo pequenas volutas de fumo espiralavam restos de uma fogueira junto a uns utensílios de cozinha.
Ouviu uns sons sumidos no fundo da caverna. Aproximou-se. Em pequenas caixas de frutas, em caixotes de madeira ou mesmo em recipientes de plástico, forrados por macias folhas, estavam animais, principalmente gatos e cães, e até um raposinho, que estavam a ser tratados de ferimentos ou de doenças. Socorrendo-se de plantas medicinais que a velha era conhecedora, os animais estavam quase totalmente recuperados das suas maleitas. Era um autêntico hospital veterinário, na sua simplicidade, de que as coisas simples são feitas. A velha nutria um verdadeiro amor por estas criaturas. Na sua incredulidade, Manuel nem se apercebeu que alguém se aproximou dele. A velha colocou a mão sobre o seu ombro. Nada disseram, nem era preciso. A ausência estava justificada, aqueles seres vivos estavam a necessitar dos seus cuidados. De súbito ouviu a voz de uma criança. Atónito, viu que era a Carla que desaparecera da aldeia fazia tempo. A velha contou-lhe o que se passou com a menina. O pai abusava dela, e esta teve de fugir de casa. Pediu ao Manuel que a levasse à casa dos avós e que participasse o acontecimento à Guarda. Disse-lhe ainda que um dia regressaria e que havia mais animais e gente a precisar dos seus serviços.
A velha afastou-se de Manuel. Deu-se uma epifania. A caverna inundou-se de uma luz brilhante. Uma aura branca luminescente envolveu a velha. O brilho aumentou até que preencheu a totalidade do seu corpo. Esta deixou de ter forma humana e transformou-se num objecto tridimensional na forma de uma imagem. A imagem levitou e desapareceu por entre uma concavidade da gruta.   
Com decisão, Manuel pegou na criança ao colo e saiu da gruta. Adentrou-se pelo mato na procura do caminho que o levasse ao rio. Atravessou a ponte e com o auxílio de uma pesada vara ferro, que o destino ali lhe colocara, desfez a ponte. O rio que ia caudaloso fez o resto do serviço e arrastou a ponte feita em bocados. Tinha a plena convicção de que a velha não queria que aquela gruta fosse alvo de invasão ou se transformasse num lugar de culto.
Manuel foi fazer o que a velha lhe pediu: entregar a criança aos avós e de seguida foi à Guarda.
Taciturno, regressou à tasca. Ninguém lhe arrancou qualquer palavra.
Estranharam que a ponte tivesse deixado de existir. A falta da velha foi comentada e por alguns sentida. O tempo tudo esquece.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Ponteiros desorientados numa manhã de um hoje sem data de Cristina Barbosa


Correu rua abaixo. O autocarro estava atrasado, disse-lhe um velhote sentado na paragem. Esperou de pé. Lembrou-se de ter lido um dia que, para descansar, basta depois de morto. Sorriu ao pensar nisso. Algum sentido fazia, reconheceu. Cansou-se, porém, de esperar. Os minutos sucediam-se uns atrás dos outros. O velhote, por sua vez, olhava-a com atenção, procurando, a todo o custo, lembrar-se de onde a reconhecia.
Decidiu sentar-se, finalmente. O velhote ajeitou-se no banco, para que ela se sentisse bem. As pessoas à sua volta reclamavam, baixinho, o atraso do autocarro. Ela, porém, parecia distanciar-se de toda aquela confusão. Tivesse paciência e reclamaria também. Afinal, mal dormira de noite e, na verdade, aquele atraso não estava a ser uma boa forma de começar o dia.
O velhote olhou o livro que Carla segurava sobre as pernas. Fingiu interesse, não fosse alguém desconfiar que não sabia ler. Logo ele que – como se gabava – era «um dos tipos mais espertos que as pessoas algum dia poderiam conhecer». Mal sabia que aquele calhamaço mais não era do que um livro de economia que, nem mesmo assim, poderia resgatar o seu país da miséria.
– Olhe lá, ó jovem – disse ele, aproximando-se de Carla. – Pode dizer-me as horas?
– Oito e dez – respondeu ela, olhando-o fugazmente.
– Obrigado – agradeceu ele, desculpando-se logo depois:
– É que me esqueci do relógio.
À volta, maldizia-se ainda o atraso do autocarro, a subida de preços e o encerramento da fábrica lá da zona, que empurrara para o desemprego imensas pessoas. As perspectivas negras de cada dia. E o frio, perante aquele drama negro e de arrepiar, quase nem incomodava, naquela manhã de Novembro.
– Já não sei quem nos há-de valer – desabafou o homem, na direcção de Carla. – Haja saúde ao menos – salvaguardou.
Carla estava sem qualquer vontade de responder ou de iniciar ali uma conversa. Não queria, ainda assim, ser indelicada ou parecer mal-educada. Bem sabia que ninguém tinha culpa da sua má disposição matinal. Invejou, por momentos, a vizinha do andar de cima que, logo pela manhã, quando por ela se cruzava, era já com um belo sorriso no rosto. Em casa, já devia ter vestido os miúdos, feito o pequeno-almoço e deixado roupa a lavar. Teria, por certo, ideia do que seria o almoço. Adiantara, talvez, qualquer coisa. E, depois de tudo isso, saía de casa sorridente. Apesar de correr, atrasada, entre bons-dias apressados.
À frente da paragem, um carro travou inesperadamente. O miúdo, esse, ficou plantado na passadeira. Não sabia se devia recuar, correr, chamar pela mãe. O velhote levantou-se e reclamou contra a falta de prudência na condução. O homem que conduzia fingiu ignorar os gestos impetuosos e desmedidos de algumas pessoas que reclamavam.
– Cambada de idiotas! – berrou o velhote. – Não vêem por onde andam.
O miúdo, assustado, correu para o outro lado da estrada, onde ficava a escola. Se a mãe soubesse o que lhe tinha acontecido, não o deixaria ir para a escola sozinho durante uns bons tempos. E ele que pedira tanto, porque, afinal, já era um rapaz crescido. Desejou que a cena não tivesse sido presenciada por nenhum conhecido. Não tinha sido, de facto.
O autocarro havia tido um acidente, soube-se, entretanto. No escritório, a vizinha de Carla, que todas as manhãs sorria, chorava. Fora, sorrateira, para a casa de banho. Trancara-se lá dentro, depois do aviso que, juntamente com outros trabalhadores, recebera.
Já Carla, cansada de esperar, decidiu fazer o percurso a pé. Quando a viu levantar-se, o velhote pensou perguntar-lhe se era a filha do senhor Jerónimo, o padeiro. Aquela que, dizia-se, estava a estudar para ser economista. Não perguntou. Estava convencido de que era, realmente, ela. Até tinha semelhanças com a mãe, observou ele. Arrependeu-se, porém, de não lhe ter perguntado as horas, que o tempo, esse, passava a correr.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Paulinho co-autoria de Helena João e Maria José Azevedo


Da janela do meu quarto não a consigo ver. A lavandaria fica tapada pela azálea e pelo caramanchão. Consigo ouvi-la a trautear uma canção e sei que estende a roupa, de mangas arregaçadas pelo cotovelo e uma ou duas molas metidas na boca. As suas mãos ásperas, por uma vida inteira na água e tisnadas pelo sol, executam o ritual com a mestria de sempre. Primeiro as meias, cada uma ao lado do seu par, de seguida as cuecas e os soutiens, os guardanapos e panos de cozinha, as calças e saias, as camisolas, t-shirts e pólos e, por fim, as toalhas de mesa, as toalhas de banho e os lençóis. Tudo combina na perfeição, entre e si e com as molas. Como se, acaso a ordem fosse alterada, já não secassem da mesma forma.
Saio do quarto, fechando a porta atrás de mim. Desço as escadas calmamente. Os vinte e um degraus de sempre. Os vinte e um degraus que aprendi a contar, enquanto os subia de dois a dois. Ao fundo dos vinte e um degraus estão as malas. Já lá estão desde ontem. Prontas, fechadas e silenciosas. Contorno-as e sigo pelo corredor. Ignoro-as só por mais um momento. Vou ao seu encontro. Na certa já estendeu a roupa toda.
- Olá avó.
- Olá Paulinho.
É bom chegar aos 45 anos e ainda ser o Paulinho de alguém.
Fui muitas vezes Paulinho.
O Paulinho. Como no primeiro dia de escola. Cheguei à porta da escola pela mão da minha avó. Até ali a minha vida tinha decorrido entre o nosso pátio e o beco, entre o amor da minha avó, as brincadeiras com a rapaziada e o desatino da Pitecas, a nossa cadela coxa. A escola era a etapa incontornável. Atravessei o portão e fui rodeado pelos outros meninos que gritavam o meu nome: «Paulinho! Paulinho!» Foi a primeira vez que dei conta de ser o Paulinho fora de casa. E continuei Paulinho quando a professora me mandou sentar ali à frente, para ver bem para o quadro.
A segunda vez: «Paulinho, Paulinho, não vais passar sem levar uma boa sova, para aprenderes a não destruir os ninhos», disse D. Antónia, a catequista, naquela tarde tão primaveril, entre a recitação da salve-rainha e os pecados capitais. Nunca percebi a correlação entre o diminutivo e a força das palmadas. Afinal de contas, eram apenas ovos dentro do ninho, nem sequer havia passarinhos.
Desde aí, fui Paulinho inúmeras vezes, tantas, tantas, que não guardo especial memória, até hoje, em que ouvi pela milionésima vez o meu nome pronunciado pela minha avó. Mas não era o Paulinho de sempre, havia na sua voz um não-sei-quê de dramático, de triste, de muito triste. «Paulinho», «Paulinho». Pronunciado com tristeza e com um desalento que fazia dó. Palavra chorada. Palavra sem lágrimas. «Paulinho».
A minha avó não sabia ler nem escrever, só sabia trabalhar. Lavava roupa para fora. Dizia ela que era um trabalho limpo. Tinha a mania da ordem e da arrumação e tudo se encontrava nos devidos lugares, numa ordem obsessiva. Para a minha avó, não havia o meio-termo. Era o bem e o mal, o cozido e o cru, o cheio e o vazio. Não havia mais ou menos na sua vida, era sim, ou sopas. Ou era, ou não era. Fazia, ou não fazia, nunca fazia que fazia. Quando tomava uma decisão, estava tomada, não havia retorno. Hoje, engrenou na rotina como se fosse um dia igual aos outros. De diferente, apenas as malas ao fundo das escadas. Melhor dizendo, um pequeno saco e a mala. Uma mala pequena de couro, com fivelas. A mala que a avó tinha trazido da sua terra quando veio para a cidade e que agora ia levar para o lar, para onde nunca tinha querido ir.
- Avó, és feliz?
- Sou. Não. Era, fui. Hoje não. E a partir de hoje, mais não serei. Queres tirar-me da casa onde vivo há mais de 60 anos, onde fui feliz com o teu avô, que Deus o tenha. Queres tirar-me da casa onde fiz o teu pai, que diabos! Já sei que me esqueço das coisas mais do que antes, sei que dão a isso um nome de doença esquisita, mas ainda estou capaz de olhar por mim. Não conheço uma letra do tamanho de um boi, mas sei bem ler o que vai na alma das gentes e tu, meu menino, também não és feliz.
- Sou sim, filhinho. E tu?
A ironia no seu olhar e no tom com que pronunciou a palavra «filhinho» - que só usa em ocasiões de stress - diz-me que me está a mentir descaradamente. Orgulhosa, esta mulher que será sempre incapaz de me dizer o que realmente sente com esta mudança.
Mas tem de ser. Encontrá-la, por acaso, naquela tarde, a vaguear pela rua com ar perdido - «Eu queria ir ao cemitério, Paulinho, pôr flores ao teu avô, Paulinho» - matou-me um bocadinho por dentro. Estava a quase 2 km do cemitério e a caminhar na direcção oposta; onde iria parar, não nos tivéssemos nós cruzado? Portanto, tem de ser.
Vigia constante, ajuda e companhia, coisas que só lhe posso dar desta forma. Tem mesmo de ser.                                                 
-Também avó, também. Estás pronta?
- Estou pronta há 84 anos, Paulinho.
Entrámos no carro e arrancámos.
Eu, Paulo, miseravelmente infeliz e o corpo dela, a pálida sombra do que ontem era a minha avó. Ela, a alma da minha avó, e o Paulinho ficaram junto à azálea, a estender roupa.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Possiblidades de Eliane F. C. Lima


(Conto registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro - Brasil)

Ele se sentava num banco de praça do centro da cidade e olhava para um prédio enorme qualquer. E imaginava um corpo caindo dali. E o povo, que a princípio tinha corrido de susto, ia se aproximando para ver bem visto, curiosidade sádica de ser humano.
A mulher se chamaria Teresa, com certeza. Tinha sido traída pelo marido. A nonagésima vez, provavelmente. Nas outras, choro, gritos, no final, perdão. Para tomar fôlego, deixar o coração se recompor até a próxima. Embora passasse uns meses ainda com raiva, pensando numa vingança bem doída para ele.
A cada novo evento, o desejo aumentava, como dinheiro posto na poupança, crescia um pouquinho de nada, nunca, porém, ficava igual ao que era antes.
Dessa vez, Teresa não teria chorado. Havia passado o apartamento em que moravam e que tinha comprado antes do consórcio com o ingrato para o nome da cunhada, viúva de seu irmão, a quem Abreu não suportava e fizera um monte de desaforos, sem motivo algum, e tinha proibido a visita. Aquela não iria perdoar: sairia despejado sem dó nem piedade.
Tinha, também, raspado todo o dinheiro que tinha no banco, conta só dela, e depositado no nome do irmão de sua empregada, anonimamente, já avisada a outra do fato. Segredo entre os três. Abreu não teria como rastrear a quantia. Haveria de pagar, de seu bolso, o enterro dela.
Na imaginação do homem sentado na praça, Abreu chegaria, o safado. Viria com uma colega de trabalho – aquilo era colega, toda solicita com o susto dele e cheia de intimidade, parecia ter planos pela morte de Teresa?
Polícia, repórter, flashes, Abreu fingiria desespero e choro ao reconhecer o corpo da companheira para os policiais. A multidão, em volta, não perderia um lance, alguns não voltariam hoje de novo ao emprego, muitos retornariam no fim do expediente para conferir, o corpo ainda ali, plástico preto, que levantava com o vento, deixando ver a sandália e o pé bem-feito.
Com certeza, Abreu, iludido, contabilizaria logo a suposta herança. De seu banco de praça, o imaginador sorria, imaginando como o safardana, dali a alguns dias, odiaria Teresa ao descobrir que ela tinha premeditado tudo antes do gesto extremo.
Por enquanto, do banco, os olhos do homem seguiriam aquele nada, que, finalmente, iria em direção ao estacionamento além da esquina, já de mão dada com o outro nada, que, muito rebolativa em seus saltos altos, ousaria gargalhar, relaxada.

Agradeço ao blogue “Ai que chic” (link) a foto ilustrativa acima da Praça Paris, no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nem às paredes confesso de António Alvarez.


Capítulo IV – “Com um brilhozinho nos olhos”


Ouviu o chiar do eléctrico que passava cá fora na rua. Espreguiçou-se e olhou o sol que começava a entrar pela janela dentro. Sentiu passos na cozinha.
- Bom, parece-me que está na hora de me levantar! – pensou. Ainda que fosse domingo, não lhe apetecia ficar ali naquela madorna. Gostava de se levantar e ir para a rua passear e conhecer a cidade. Havia ainda tanto para conhecer.
- Então João, já acordaste? – o Álvaro já tinha ouvido o barulho das molas do velho colchão que se fazia ouvir naquela pequena casa.
- Bom dia Senhor Álvaro! Eu ainda a dormir e o senhor já levantado. Desculpe lá!...
- Não há problema. Hoje é domingo e sempre dá para dormirmos um pouco mais. Eu é que já tenho esta rotina no corpo e, quer seja de semana ou feriado, acordo “com as galinhas”! Já fui ao pão e já preparei o pequeno-almoço.
A mesa estava posta com a cafeteira do café, um púcaro com leite, pão fresco, manteiga e um naco de marmelada. As canecas estavam uma de cada lado da mesa. Pequenos bancos de madeira em frente de cada lugar. A cozinha não era muito grande mas dava perfeitamente para duas pessoas. Uma janela virada para o Tejo era o ex-líbris daquela pequena casa situada no Príncipe Real. Bom, não era propriamente uma casa, eram umas “águas-furtadas” de um prédio. Dois quartos, uma pequena sala, a cozinha e uma casa de banho, um pouco pequena, compunham as divisões. Mas só a vista era tudo...
[...]
Do lado da Misericórdia o eléctrico vinha em direcção ao Rato. Os dois caminhavam junto ao miradouro de S. Pedro de Alcântara. Poucos transeuntes se viam na rua. Apenas alguns idosos, uns cachorros que percorriam o jardim e o ardina, de bolsa à tiracolo, que apregoava o Diário de Notícias e A Bola. O domingo estava convidativo ao passeio pela cidade.
- João, estava a pensar irmos dar uma volta por Alfama – disse Álvaro enquanto acendia um cigarro SG Gigante. – É uma zona da cidade bem castiça e que de certeza vais gostar.
- Claro que vou gostar! Conheço ainda tão pouco e, além disso, tenho curiosidade em ver essa zona. Já ouvi falar tanto nela.
Desceram pelo lado do Chiado. O Álvaro ia-lhe chamando a atenção para as igrejas, para a Brasileira e para as casas de moda chique da cidade. Continuaram em direcção à Rua da Conceição e depois subiram direito à Sé Velha. A intenção de Álvaro era levá-lo ao Castelo de S. Jorge, donde se desfrutava uma magnífica vista sobre Lisboa, sobre o Tejo e sobre Cacilhas do lado de lá do rio.
- Depois de conheceres a cidade havemos de ir a Cacilhas comer uma caldeirada “regada” com um bom tinto. Isso tem de ser – disse-lhe Álvaro.
- Claro que havemos de ir! Apesar de eu não gostar lá muito de peixe... – respondeu o João.
- Comes outra coisa, não te apoquentes!...
A caminhada foi-se alongando por becos, travessas, calçadas e escadinhas da velha Alfama. Algumas velhas tascas ainda conservavam o ar de tempos idos. Com os carapaus fritos no prato, os queijos alinhados e encimados por uma rede mosquiteira, as sandes de torresmos e umas mesas com tampo de mármore já gasto do tempo. Dois ou três velhotes a beberricarem e a jogarem dominó.
- Eh lá Álvaro! – Ouviu-se uma voz por detrás dos dois.
Viraram-se os dois e Álvaro “disparou” em direcção ao homem da voz que o chamara.
- Ah grande Gândara! Estás mesmo bom? – abraçavam-se os dois enquanto, curioso, João observava a cena.
- Quem é esse aí? Não me digas que é teu filho?
- Não. É um amigo da minha terra a quem eu ando a mostrar a cidade.
E, voltando-se para João, apresentou-o:
- João, este é o Gândara!
- Muito gosto!
- Igualmente rapaz!
- Então, e tu como é que vão as coisas? – questionou Álvaro.
- Olha, cá se vai andando e desandando conforme os dias. Uns dias trabalha-se outros não.
Gândara tinha sido seu “camarada de armas” em Angola. Tinham partilhado muito “mata” e muita sede.
- Olha, vamos aproveitar este encontro e almoçar numa tasca “catita” que eu conheço. Que dizes?
- Vamos lá! Que dizes, João?
- Por mim, tudo bem!... – respondeu João bem-disposto.
Os três caminhavam lado a lado, sendo que o Gândara coxeava um pouco da perna esquerda. Ficara-lhe essa “recordação” dos tempos de guerra.  
[...]
A velha máquina de escrever Royal já tivera melhores dias. As teclas, de quando em vez, encavalitavam-se umas nas outras, o que o levava quase ao desespero. Sentado em frente de uma velha secretária de madeira, ouvia o “matraquear” das máquinas dos seus colegas de redacção. O artigo que lhe coubera em mãos era “Portugal - Um bom destino para reformados”.
- Então João, falta muito? Isso tem de estar pronto antes das 18 horas.
- Não se preocupe senhor Vasconcelos. Eu dou “conta do recado”!...
(continua)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Joia Rara de Eliane F. C. Lima



Conto dedicado a meu amigo José Andrade Lobo, do outro lado do oceano Atlântico.

Era um homem quieto. Uns olhos observadores e miúdos, guardando para si o que viam; os lábios finos, quase dois traços naquele rosto sereno; as orelhas ligeiramente grandes, testemunhas acabadas de um ser sem alarde. Apesar de tudo, não era feio, o todo uma harmonia das partes irregulares.
Coisa alguma denunciava o grande respeito que sua mulher e suas três filhas tinham por ele. Muito o amavam, as quatro.
Era ourives. Em um quartinho dos fundos da casa, não fabricava joias, criava obras-primas, Miguel Ângelo do subúrbio: era um gênio, coisa de deslumbrar críticos de arte, se a humanidade conhecesse o trabalho e seu autor.
Só poucas pessoas avaliavam-lhe o valor: a família e um dono de uma rede de joalherias, sofisticadíssimas, que vendia suas peças. Os clientes milionários não tinham a menor ideia de onde vinham e só a cadeia de lojas recebia as loas das revistas especializadas. Não foram poucos os prêmios que algumas de suas peças receberam.
De nada ele soube. E a parte que recebia dava para manter a família, com decência, é verdade, mas sem um excedente para um futuro mais promissor.
O que lhe enchia o coração, sorriso muito econômico, eram os louvores das suas mulheres: “Ele não deveria vender aquela, pelo menos aquela não.” E isso sempre dito a cada nova peça. Ele admirava de todos os ângulos e reprimindo a alma a transbordar de felicidade e orgulho, dizia, laconicamente, que precisavam comer.
A relação entre o ourives e o, agora, seu único comprador fora bastante ocasional, quando ainda fazia suas peças por encomenda.
Tendo ido ao fornecedor de matéria-prima, dono de um pequeno negócio, lá encontrou o rico negociante, amigo do outro de velhos tempos. O dono da lojinha contou que o desconhecido era ourives... e dos bons! O visitante ilustre guardou o endereço escrito a lápis em um pedaço de papel. Um dia, apareceu no distante bairro. Viu as joias, deslumbrado, mas não deixou transparecer sua emoção. Como se fizesse um favor, comprou-as, dizendo tentar “passar adiante”. Encomendou outras e, dali para a frente, o ourives só vendeu para ele.
A mulher do ourives, desconfiada, dizia-lhe que devia procurar saber quem era aquele comprador. Embora de táxi e vestido de maneira bem discreta, não escapava aos olhos perscrutadores da observadora senhora a elegância que emanava dele. Com os anos, ele já quase se tornara um velho conhecido, mas ela ainda mantinha uma dúvida na alma.
Um dia, saiu antes da rotineira visita e ficou esperando, perto de um ponto de táxi. Quando o veículo do negociante passou, ela mandou segui-lo. Boca aberta, viu, no bairro seguinte, o homem saltar e entrar em um carro particular com motorista e tudo. Sem pensar na despesa, mandou o outro atrás.
Pagou com o coração apertado. Com muita timidez, entrou na loja. Uma vendedora se aproximou dela e a mulher desconfiou que era para barrar sua passagem. Agradeceu e disse só pretender olhar um pouco. Um segurança ficou de longe a observá-la e, discretamente, ia seguindo seus passos.
Em uma vitrine especial, as joias de seu marido. Sobre o vidro imaculado, várias revistas abertas, em destaque, exibiam as fotos das peças, mas era outro o nome que estava lá.
Quis gritar que sabia quem criava aquelas maravilhas, o artista, o ser iluminado por Deus, toda exaltada. E o sofrimento escorreu pelo rosto abaixo.
Foi embora, tropeçando pela calçada, soluçando sem pudor pela rua, até conseguir perguntar a alguém por um ponto de ônibus.
Ao chegar a casa, encontrou o marido sentado diante da televisão, o pijama tão limpinho quanto aquela alma singela, que não tinha o direito de profanar. E temeu apagar de dentro dele aquele algo que ela não sabia de onde vinha e que criava o divino. Aquelas orelhas tão amadas não tinham sido feitas para ouvir as terríveis coisas humanas.
E se calou. Dali para a frente, trancava-se no quarto, quando o joalheiro vinha, chorando muito, revoltada por não poder falar.
Até que um dia o marido, discretamente como viveu, se foi. Não fosse pela presença das filhas, o imenso vazio não seria suportável.
Trancou a porta da oficina e escondeu a chave. No velório, pensou que agora a fonte estava seca. A quem o outro iria espoliar? E, para surpresa de todos que sabiam o quanto ela amava o marido, ela não chorou.
No dia seguinte, com a alma vestida de negro, entrou no mundinho do ourives. Sobre a mesa, a obra em que ele trabalhava justamente no momento do infarto. A seu lado, um caderno de desenho desconhecido. Abriu-o. E descobriu um marido ignorado: em cada página, um desenho, feito a grafite, magnífico, de mulher nua: era seu rosto, seus seios, seu sexo, a se contorcer de amor. E, embaixo de cada nova posição sensual, o esboço de cada obra que ele fizera, até a última, inacabada. Em um delírio de criação quase poética, metamorfose do gênio, do desenho a joia surgia, como um presente a ela.
Com o peito a latejar de orgulho dele, saiu do cômodo, trancando tudo que estava lá dentro, inclusive as joias, ritualisticamente, como faziam os súditos aos túmulos dos faraós.
E esperou, ansiosa e deliciada, agora que o marido não podia ouvi-la, a próxima visita do joalheiro.

(Agradeço ao site “Moacir joias” ( http://moacirjoias.com.br/blog/?p=701)  –  Brasil – a foto que ilustra este conto).

Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais – Rio de Janeiro – Brasil), 




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Conto do Bosque por Manuel Vasquez


Um dia fui ao bosque e procurei tanto e mais quero encontrar, pois a vida é tão triste e sem cor do bosque. No meu bosque há vida, árvores grandes, ervas de todos os cheiros, bichos de todas as cores, sons dos mais graves a agudos, sinfonia onde entra vento e brisa.
Ao bosque sempre recorro na alegria e na tristeza, pois foi nele que que aprendi que semente brota e cresce, que folha, animal e até papel com carta escrita se desfaz e renasce mais tarde em planta, árvore ou flor, comido por caracol e insecto voador.
Aos meus pais nunca disse, mas eles sabiam, e, quando me viam triste e cabisbaixo, diziam-me: «Vais para o teu bosque falar com amigos que só tu conheces e nem nos dizes?» Pois assim foi. Há muito tempo que conheci um ser estranho, com um vestido curioso e ilustrado, nem gente, nem animal, mas duende era por certo. Tinha ouvido falar dele em contos, em histórias contadas por minha tia, que eu julgava ser mentira, mas ele ali estava e disse-me: «Boa tarde amigo.»
Ao duende só à segunda vez lhe respondi e a medo perguntei-lhe: «Como te chamas.» Ele sorriu e disse: «Mais tarde te direi. Agora já me vês e reconheces-me das histórias de tua tia e minha amiga.» A pouco e pouco, fui-lhe contando as minhas desventuras e até sovas por ser malcriado e mentiroso. O duende, que hoje sei o nome e nunca vos direi, porque prometi segredo eterno, ouvia os meus desabafos entre raiva e choro e no final sempre me dizia: «Coragem rapaz, tu és forte e aguentas muito mais, é a tua escola de vida.»
Na escola tinha sucessos e insucessos, e esperava sempre o final das aulas e dos trabalhos bem feitos, pois esquecia-me de os aprontar. Meu amigo, nem aparecia. Lá vinha eu noutro dia e prometia-lhe que nunca mais acontecia e ele ria-se e dizia: «Sim, sim, pois então, o teu nariz irá crescer e de Pinóquio o sentirás em adulto.»
Fui crescendo e amadurecendo e vendo que o meu amigo duende também — ele mantinha-se apenas na mesma dimensão e nas vestes sempre limpas e belas. Quando triste estava e sentia medo, reconhecia-me e aquecia-me a alma e o coração com palavras meigas, sombras desvanecidas e as lágrimas pareciam boa rega de semente de esperança. As estrelas na noite nunca escondiam ser possível ultrapassar trevas, de manhã o Sol e em muitas noites uma Lua tão cheia que nos fazia impressão de ir aparentemente subir e rebentar no ar.
Hoje, sempre converso com o meu amigo duende e espero não ser apelidado de louco que efetivamente sou, mas de amor o reconheço e cultivo com o meu amigo e vos partilho um esboço de intuição e caminho. Esperança, amigos, e tolerância, a quem melhor estiver nada de soberba, a quem pior se mostrar nunca se engane e iluda que o meu duende saberá mais e vos dará na cabeça. A meninos, a velhos e gentes eternos sofredores de tempos passados, presentes e futuros, apenas vos direi o que aprendi com meu o meu amigo duende. Chorem, riam e desfrutem algo nem que seja o dia ou a noite do vosso encanto que é a vossa vida curta e bela. Este amigo, que por certo partilho com alguém e nem sei, sempre me ensina algo no dia e no momento de conversação. Com ele aprendi a aceitar o envelhecimento dos meus familiares e meu também. Com o duende discuti obras de literatura e poesia, e ele sabia muito mais do que eu, mas dizia-me que com mais de 300 anos teria de saber.
Perguntaram-me porque fazia segredo do nome deste duende, amigo e quem sabe imaginário será, pois nada mais simples, porque para o convocar e falar, apenas tenho de dizer o nome dele em voz baixa e ter o olhar e alma tranquilos, e se estiver só ou em companhia de alguém puro ou criança, ele mostrar-se-á e dirá: «Duende da minha vida e da minha esperança, apresento-o e mais tarde outras histórias contarei.»