quinta-feira, 26 de julho de 2012

A última folha de Célio Passos


Sebastião, como era seu costume, levantou-se cedo. Foi espreitar pela janela da sala que dava para o pomar para verificar se a última folha do diospireiro tinha caído. Continuava teimosamente há mais de duas semanas presa à árvore. Algo de enigmático se passava. Até o gato Alcibíades, que honrava o nome de um guerreiro de antanho, não entendia, no seu pensamento felino, a razão de tal fenómeno. Tudo o resto eram dióspiros maduros, dependurados como lâmpadas, alguns já tinham caído e outros eram apanhados com muita ternura por Sebastião para oferecer à sua patroa. 
Sebastião tinha sido empregado, motorista, jardineiro, e tudo o mais que fosse preciso fazer, para satisfazer as ordens do patrão, o Eng.º Rogério Morgado, já falecido, pai de Teresinha Morgado, filha única e herdeira da quinta com uma bela e enorme mansão. Vivia com a sua inseparável empregada, Colorinda, depois da morte do marido. Teresinha já tinha a venerável idade de 82 anos, tantos como Sebastião.
O pai gostava imenso de Sebastião, criou-o desde quase de nascença, após a morte trágica dos pais, e considerava-o como um filho. Teresinha teve que jurar, junto ao leito de morte do pai, que nunca abandonaria Sebastião.
Sebastião vivia no que chamavam “a casa do caseiro”, apesar de nunca ter existido caseiro. A casa situava-se no extremo de uma alameda de terra batida, de cerca cinquenta metros, rodeada de sebes, à entrada da quinta e defronte para a moradia. Era constituída por um rés-do-chão, que servia para arrumar as alfaias e produtos agrícolas, e na parte superior constava de um quarto, uma pequena cozinha, um rudimentar quarto de banho, uma sala comum, que servia para as refeições, mas igualmente para repouso, tudo isto ao longo de uma varanda com telhado, um sítio espectacular para desfrutar a beleza da quinta. Ao lado da casa havia uma pequena horta onde Sebastião plantava produtos agrícolas de primeira necessidade. Por detrás da casa havia um pomar, com árvores de fruta de várias qualidades, em especial um diospireiro, pelo qual nutria um especial carinho, plantado, já lá vai um bom par de anos, por Teresinha, com sua ajuda. Era a árvore preferida dos dois.
O ritual matinal de Sebastião consistia sempre no mesmo. Depois de se lavar, ia à cozinha, tomava a sua cevada com leite e comia uma peça de fruta. Em seguida ia até à horta e fazia algum trabalho que fosse necessário. Depois perto do meio-dia, entrava na casa, lavava-se e ia até à sala e no velho gira-discos, oferta de Teresinha, colocava no prato um disco de Tony de Matos — Vendaval. Ia para a janela a olhar para a quinta e para a mansão, esperando por Teresinha. 
Tony de Matos, a voz romântica que tanto seduziu gerações de portugueses; Sebastião foi um deles. Tony cantava e Sebastião suspirava:
             O vendaval passou, nada mais resta
                        A nau do meu amor tem outro rumo
                                                Igual a tudo aquilo que não presta
                                                O amor que me prendeu desfez-se em fumo 
                                       ……………………………………………………
                                                Junto da cais ficou a tua imagem...
                                                 imagem... imagem... imagem...

Aqui, o disco encravava e o cantor não avançava na canção. Sebastião levantava a agulha e colocava-a um pouco mais à frente. Esta “ imagem”, que se repetia, era uma imagem que Sebastião guardava na memória. Uma imagem que o acompanhou toda a sua vida, quando a única pessoa que amou não estava presente. No passado, apesar da diferença social, ainda teve vãs esperanças; hoje, a paixão fora substituída por uma amizade profunda, admiração, ternura, o prazer de usufruir da sua companhia. Nunca confessou este amor, mas a pessoa que era alvo deste sentimento sabia-o.
Teresinha aparecia, acompanhada de Colorinda, no fundo da alameda. Colorinda trazia um cesto de vime e Teresinha caminhava ao seu lado, apoiada numa bengala. 
- Carpem diem, Sebastião – dizia Teresinha, quando chegava, acompanhada a meia voz por Colorinda.
- Bom dia D. Teresinha e Colorinda – respondia Sebastião.
- Trouxemos uma comida de que gostas muito e uma sopinha para logo à noite — revelava D. Teresinha.
Enquanto Sebastião comia a refeição posta na mesa de madeira por Colorinda, Teresinha sentava-se numa cadeira de balanço e pegava num livro. Era formada em Germânicas e gostava muito de alemão e latim. Lia textos em latim para Sebastião, que ouvia atentamente, apesar de não perceber nada do que ela dizia, mas por respeito não se atrevia a fechar os olhos, muito menos bocejar. Por vezes Teresinha traduzia, e foi assim que soube o significado de carpem diem. De vez em quando, lia um livro de autores portugueses: Camilo, Eça ou Júlio Dinis, enquanto Colorinda tratava das roupas de Sebastião. Este era o dia-a-dia daqueles três velhos. Por vezes, os três davam uma volta pela quinta.
Sebastião observava Teresinha. À sua mente vieram imagens que já tinham mais de sessenta anos.
“ O pai de Teresinha não autorizou que ela fosse ao baile dos finalistas do liceu. Teresinha ficou muito triste, para além do facto de que tinha começado a namoriscar o colega Vítor Guerra, que anos mais tarde fora seu marido. Teresinha pediu auxílio a Sebastião, sabendo de antemão que ele ia ajudá-la. Somente tinha que levá-la no Dodge do pai e trazê-la no fim da festa. Sairia pela janela do escritório, que era baixa, e depois Sebastião ajudava-a a entrar. Com o cuidado que a situação exigia, Sebastião retirou da garagem o automóvel no máximo silêncio, sem o ligar, empurrando-o até à alameda para ninguém ouvir. Depois foi ter com Teresinha, que estava a sair pela janela do escritório, de tal maneira que caiu nos braços de Sebastião. Ainda hoje sente aquele corpo nos seus velhos braços. Depois do baile, Sebastião ajudou-a a entrar, de novo, pela janela do escritório. Nunca ninguém soube deste atrevimento, esta cumplicidade foi um segredo que os dois guardaram, sem nunca mais falarem dele. ”
Sebastião passou toda a vida servo das vontades e caprichos de Teresinha. Não era preciso dar ordens, ao mínimo desejo, Sebastião já estava disponível ou então, mesmo antes de pedir, o desejo já estava realizado. Era uma paixão sem retorno. Quando Teresinha casou com o Dr. Vítor Guerra foi um dia triste para Sebastião; Teresinha ia pertencer a outro homem. Pelas complicadas veredas da vida, o Dr. Vítor despendia-a na estúrdia, revelou-se um mau marido; jogador, bebedor e mulherengo. Quantas vezes, a pedido de Teresinha, Sebastião ia resgatá-lo a uma mesa de jogo, ou a um antro de mulheres de vida fácil, totalmente embriagado. Quando faleceu, num desastre de viação, foi um alívio para aquela casa, apesar de o Dr. Vítor ser uma pessoa simpática, com boa formação, mas nunca esteve ao nível social e intelectual que Teresinha merecia. Nunca mais se falou daquele homem; tinha morrido mesmo para o todo sempre.
- Hoje apetece-me dar uma volta pela quinta. Quero ir ver como está a correr a vindima lá para os lados do campo do lameiro - disse Teresinha.
Sebastião mandou um trabalhador assalariado tratar da charrete que o engenheiro trouxera de uma quinta que teve no Ribatejo. Era de quatro lugares, puxada pelo Brioso, um cavalo já de certa idade, mas que cumpria muito bem a tarefa.
Sentados os três nos assentos de couro, lá foram, a passo de passeio, quinta fora. Às tantas, Teresinha, com uma voz pousada, falou:
- Falei ontem com o Dr. Queiroz, meu advogado testamenteiro, e, caso eu desapareça de um momento para o outro, a vossa situação está salvaguardada.
Sebastião e Colorinda ficaram calados e ao mesmo tempo apreensivos. Seria o pródromo de algo que se ia passar em breve? Por que motivo vinha aquela conversa à baila?
- A Teresinha sente-se mal? Está a padecer de algum mal?- perguntou Sebastião.
- Não propriamente. São oitenta e dois anos! Já não sou aquela jovem que tanto acarinhaste, Sebastião - disse Teresinha com aquela gentileza que lhe era peculiar.
Os dois ficaram muito calados e dos olhos de Sebastião ressumaram duas gotas salgadas, que disfarçadamente limpou com os dedos.
Era quase meio-dia, pela alameda ensolarada vinha somente Colorinda. O coração de Sebastião ficou apertado. Foi à janela e viu que a folha do diospireiro tinha caído. Para Sebastião era um sinal. Mal Colorinda entrou em casa, Sebastião interpelou-a:
- Por que é que a D. Teresinha não veio? – perguntou ansioso Sebastião.
- Estava maldisposta e foi-se deitar – respondeu Colorinda.
- Não me mintas Colorinda! Passa-se alguma coisa com a patroa?
- Não tem nada, só está maldisposta! – respondeu Colorinda fugindo aos olhares instigadores de Sebastião.
Sentaram-se calados. Enquanto comia, Sebastião olhava de soslaio para Colorinda e algo lhe dizia que se passava alguma coisa de grave.
Colorinda, após a refeição, disse que se tinha de ir embora, talvez a patroa precisasse dela. Meteu as marmitas da comida rapidamente na cesta, e despediu-se sem demoras. Sebastião passou o dia alterado.
Quando acordou, Sebastião sentiu que algo se passava, o seu coração assim o dizia. Foi à janela e olhou para a mansão. As janelas do quarto de D. Teresinha, da sala de jantar e da sala de estar, que àquela hora do dia estavam habitualmente abertas, encontravam-se encerradas. Esteve para se deslocar à casa da patroa, mas não teve coragem. Era perto do meio-dia e já Sebastião estava plantado à janela. Os olhos estavam pregados na alameda que conduzia à mansão de Teresinha. O inesperado aconteceu. Colorinda vinha mais uma vez sozinha. Teresinha não a acompanhava como habitualmente. Mal Colorinda entrou, Sebastião questionou:
- D. Teresinha está melhor?
Colorinda não respondeu. Colocou o almoço na mesa enquanto Sebastião insistia na pergunta.
Colorinda, com os olhos marejados de lágrimas, virou-se para Sebastião, fez uma pequena pausa e disse:
- Sebastião, D. Teresinha nunca mais voltará a esta casa.
O mundo parecia desabar. Sebastião sentou-se numa cadeira com a cabeça entre as suas rudes mãos e chorou. Na sua mente passava o filme da sua vida, cuja personagem central era Teresinha. Todos os momentos felizes, os menos felizes, desde a sua meninice, juventude, idade adulta e velhice, repassavam como se fosse tudo presente. Os pormenores mais ínfimos agigantavam-se, tomavam relevo, tomavam brilho.
Sebastião não comeu o dia todo. Sentou-se à janela, virado para a mansão de D. Teresinha, que, sendo já noite, estava toda iluminada. Os carros entravam na quinta e estacionavam junto à casa. Nunca se tinha observado tantos carros como naquele dia. Sebastião não teve força nem coragem de ir ver Teresinha. Queria guardar na sua mente a imagem dela viva.  
Amanheceu e Sebastião continuava colado à janela. Por volta das onze horas, o cortejo fúnebre saiu da quinta rumo ao cemitério. Sebastião não foi. Com dificuldade, levantou-se, foi à sala e colocou no gira-discos o disco de Tony de Matos. Voltou de novo para a janela e encostou a cabeça à vidraça a olhar para o quarto de Teresinha. A quinta estava deserta, tal como a sua alma. Na sala silenciosa só se ouvia o zunido das varejeiras. A música do vendaval, como de costume, encravou. Tony de Matos repetia incessantemente «imagem... imagem... imagem». Sebastião não se levantou, alguém viria para desligar o gira-discos. Uma última estrelinha vagueava na faixa do horizonte. Sebastião susteve no seu coração aquela imagem e caiu como a última folha diospireiro.
                                                                                                       Fim.   

1 comentário:

António Patxi disse...

Um conto nostálgico que nos enleva suavemente...