sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Paredes brancas

O fumo do cigarro ondulava no ar enquanto ele jazia nu sobre a cama.
Não.
Ele caminhava até mim com a graça da poesia nos seus movimentos lentos, e tudo o que eu podia fazer era suspirar.
Não, não.
Sentado na varanda, as faces coradas de lágrimas, e a lenta progressão do tempo marcada apenas pelo chilrear dos pássaros nas árvores.
Ainda não.
Ele saiu pela porta, eu parei e olhei para ele a correr na semiescuridão.
Não
Ele beijou-me suavemente, afundando-me na maciez da cama.
Quando me beijou, pensei: «Sim.» Guardar este momento, eternizar este segundo.
Quando ele me beijou eu sabia que era o fim.

Então, escrevi isto para não me esquecer. Escrevi isto para ti. É assim que eu me lembro. Esta é a forma como aconteceu.
Estou a vê-lo agora e vejo a sua maçã-de-adão, saliente do seu pescoço, cada vez mais perto à medida que o relógio se eterniza até ao próximo segundo. Então seus lábios encontram os meus. Os seus lábios estão cheios, redondos, uma quente sensualidade moldada numa fria cara de pedra. Em seguida, os lábios estão nos meus, pressionando levemente contra a minha boca e eu quero puxá-lo para mim até já não saber onde termina um e começa o outro.
Eu estava ser beijado, eu já não estava lá. Eu ouvia a pressa da chuva leve na árvore lá fora. Mas eu já não sentia o meu coração bater, o meu sangue pulsar ou as minhas lágrimas correr. Eu já não sentia o incómodo calor dos cobertores cobrindo o meu corpo. Naquele momento, eu não existia.

Podia dizer-te que apesar de não sentir tudo isso, apesar de não sentir o vento ou o toque da roupa no meu corpo, sabia que tudo existia. Que existia um mundo para além do que aqui te conto. Podia descrever-te o vácuo em que se transformou a minha mente no momento em que aqueles lábios se juntaram aos meus. Mas não o farei. Sei que não irias acreditar. Vou apenas contar-te o depois, quando regressei ao mundo dos vivos.
Os meus olhos estavam fechados. Quando ele saiu eu não vi, mas senti. Ouvi o lento ranger da porta e o som seco da madeira a embater no aro ao fechar.
Lentamente deixe de sentir o toque dos meus pés. Uma membrana impermeável cobria todo o meu corpo e eu estava consciente de não ser capaz de chegar a mim mesmo. As minhas mãos deslizaram por mim sentindo os braços, o tecido dos lençóis e o calor entre as pernas. As minhas mãos procuraram a familiar sensação de prazer, a corrida do sangue aos corpos cavernosos. Mas só senti novamente a estranha membrana que me separava de mim mesmo. Tentei novamente em desespero, violentamente. Belisquei-me como um médico faz a alguém vítima de paralisia. Nada.

Foi o beijo, Vês? Foi o beijo que me permitiu viajar para lá do desconhecido. Foi o beijo que me permitiu não sentir as teclas com que ritmadamente escrevo este texto. Sei que não estou louco. Sei que ainda vou beijar mais. Sei que ainda vou estar com muitos outros homens. Sei que nunca mais vou ter este desejo que me consome. Estou calmo. Estranhamente calmo, sentado na minha cama, os cobertores enrolados em mim, incapaz de parar o fluxo de palavras que jorram da minha mente para os meus dedos. Como, perguntas-me, foi ele capaz de provocar essa mudança? Imaginas com certeza um Apolo. Imaginas um Deus e também tu o desejas. Não. Ele não é um homem perfeito, não é o homem com quem vou envelhecer. Ele é um homem, não muito bonito, mas perfeito para mim. Ele é um homem. E isso é tudo. Quando partiu percebi que ele era perfeito para mim.
Mas e agora?, perguntas-me tu, verbalizando os teus próprios desgostos, os teus homens perfeitos, o que vais fazer agora?
Vou ficar aqui, de olhos fechados. A sonhar com o último beijo, com o homem perfeito.

Na minha cama de solteiro, no meu quarto de paredes brancas.

2 comentários:

BatRitinha disse...

«Ele é um homem, não muito bonito, mas perfeito para mim». Adorei!

Migueis disse...

Muito bom. Amei as metáforas. O encontro fortuito.
"Quando partiu percebi que ele era perfeito para mim"
É sempre assim, os amantes perdem-se na noite sem rosto nem nome, ás vezes fica um número de telemóvel para o qual nem sempre nos atrevemos a ligar.
O seu conto é (para mim) o mais bonito de todos aqui deste blog. Espero não ofender ninguém, mas este tocou-me profundamente.
Obrigado.