
Meteu as mãos aos bolsos à procura de algum cigarro esquecido, mas só encontrou o cotão sujo e molhado. Abrigou-se junto de um beiral de uma padaria. De lá vinha o quentinho saboroso do forno do pão. Como seria bom ter agora um daqueles pãezinhos para comer com um bocadinho de manteiga. Bastar-lhe-ia isso para tapar a fome que lhe vinha de dentro. Que raio de coisa esta! Ter fome e arrotar, pensava de si para si.
Há muitos anos, mesmo muitos, saboreara o que era a felicidade. Toda a família sentada à volta da lareira a contar histórias de outros tempos. Relembravam-se episódios ocorridos em invernos e natais idos, a avó contava as estórias já recontadas noutras vezes, mas que todos escutavam como se da primeira vez se tratasse. O pai, recostado na sua cadeira, ia fumando e olhando para todos nós com um olhar vago e protector. Sentia-lhe no puxar do cigarro e num ajeitar de cadeira a alegria que lhe ia na alma. Raramente era dado a carícias, mas o seu ser e estar irradiavam brandura de coração… a mãe dava a volta ao lume e aproveitava-o para ir assando umas castanhas que nos ia distribuindo.
— Boa noite, ó Chico, por acaso não tens por aí um cigarrito?
«Acordou» do sonho das castanhas e olhou para cima. Era o seu «companheiro» de jornada… o «Colas». Nunca soubera o seu verdadeiro nome… toda a gente o tratava assim. «Colas» prà qui, «Colas» prà li e «Colas» ficara.
— Nã… nem uma beata — respondera.
— E tu tens algum naco que se «trinque»? Tou cheio da «galga»…
— Pega! — e estendeu-lhe um saco com um pacote de bolachas e outro de leite.
— Lembras-te da semana passada termos «gamado» um frango da churrascaria do Zé «Barbudo»? O gajo ainda hoje está para saber quem foi — e continuou. — Aquilo é que foi um «avio»… o «sacana» do frango era grande e bem gordinho… até os ossos «chupámos» — deu um estalo com a língua como que a relembrar o sabor do dito.
— Este ano está mau! O pessoal anda nas «encolhas». Também com um governo destes que só f… o mais pequeno… não admira. Vi ontem na televisão que os «gajos» estão a pensar aumentar outra vez os impostos. Filhos da p…, a maioria do pessoal já anda a «berrar» que nem uns desalmados, agora com mais «isto», não sei… — e calou-se.
— Sabes o que e que isto está a precisar? É duns malucos «quaisqueres» sacarem duma «fusca» e limparem o «sebo» a meia-dúzia deles. Acabava-se logo a «peçonha». Assim «cum’ássim» o pessoal já anda de «tanga» e de certeza que pior não ficava.
A porta abriu-se-lhes nas costas.
— Então pessoal, vamos «abancar» aqui esta noite? — perguntou-lhes um dos empregados da padaria.
— Não! Nós só «tamos» à espera que a padaria abra. — respondeu o «Colas» com aquele seu «ar» malandreco.
— Vá, toca a «bazar», que isto aqui não é repartição pública!
Levantaram-se ambos e «entre dentes» prometeram-lhe dar-lhe uns «bons cacetes» quando o apanhassem a jeito. Atravessaram a avenida e depois de andarem algumas ruas abrigaram-se debaixo da entrada de um prédio. Fazia um pequeno recanto que os abrigava da chuva, já que do frio não podiam.
— Ó Chico, e que tal «a gente» irmos até lá abaixo ao cais? Sempre víamos lá «pessoal» conhecido que nos podia «orientar» qualquer coisa… uma «bejeca» ou …
— Cala-te e dorme, ó Colas! Amanhã vemos isso…
— Ok, «meu»! Mas depois não me lixes a «carola» a pedir «morfes».
«Aconchegados» costas com costas, adormeceram cada um a sonhar… sonhos de vida melhor.
Com a mão no queixo e o olhar pregado na velha televisão, uma velhota enrolava, de quando em vez, o lenço de assoar que tinha preso às mãos. A D. Joana, outrora peixeira, vivia numa dessas casas velhinhas de Alfama. Da vida ficara-lhe uma pequena reforma que mal chegava para a comida e medicamentos. Sim, porque o reumatismo lhe ia tolhendo cada vez mais os movimentos. O seu companheiro «anichara-se» junto a ela. Um pequeno gato malhado que ela tinha apanhado junto à sua porta ainda bebezinho e ao qual dera o nome de Fadista. Também ela já tivera uma família grande, agora restava-lhe, na noite de passagem de ano, uma «sopinha», o seu gato e um filme português que lhe ajudava a passar o tempo. «Coitados daqueles que ainda estão pior que eu!» — o filme falava-lhe ao coração. Dois rapazes como tantos que andam por esse «mundo fora». Um sono leve assomou-lhe e abruptamente tombou a cabeça no maple já gasto. Só o gato deu conta daquele movimento brusco e descoordenado…
Naquela manhã a rua estava mais «radiante». O céu azul, um sol vermelho e um friozinho reconfortante debaixo do sobretudo novo. O Sr. Gonçalves sempre fora madrugador e hoje não tinha trabalho à espera. Levantara-se bem-disposto após a noite do dia anterior. Os filhos, os netos, a mulher, todos juntos, como ele tanto gostava.
Junto à porta da D. Joana ouviu o miar de um gato. «Ou muito me engano ou é o Fadista!»
Bateu à porta.
— Bom dia, Ti Joana, e bom ano!
De dentro só lhe chegou o som de um televisor ligado e um gemido de gato…