quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Invulgar de Eliane F.C.Lima


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ - Brasil)

As calçadas estavam cobertas de flores lilases, que não se sentiam constrangidas por se esparramarem até o asfalto.
Na primavera – era primavera! –, as glicínias, que se estendiam por sobre todos os muros das casas, irreverentes e espaçosas, transbordavam para fora, tomando conta de tudo. O passante se sentia homenageado, tendo aquele tapete desdobrado para si.
A rua era famosa pelo colorido aveludado. Mas, nem por isso, abria mão de ser silenciosa e requintada. Vez ou outra passava um carro, caro, importado, da mesma gente que mantinha aqueles jardins cuidados, aquele silêncio perfumado e cromático.
Mas, nem por isso ainda, naquele dia, deixou de haver um corpo caído no meio das flores, atrevendo-se a manchar-lhes a suavidade lilás com seu vermelho impudico e derramado.
Mas não foi só: o atrevimento se estendeu aos carros de polícia que também ousaram quebrar o refinamento estabelecido para veículos e vieram se postar ao longo do meio-fio. E violentaram o silêncio dos requintados com suas sirenes obscenas.
E houve mais: as fotos da imprensa, que se avolumou nas calçadas, em volta das árvores, encostando-se nos muros violáceos, que quase se encolhiam com a ousadia.
E aqueles pés, atrevidos, pela primeira vez, coagiram as flores lilases, ofendidas ante a surpresa da invasão.
Agradeço ao site “Márcia Jardinagem” 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Melodia de um dia sem nome de Cristina Barbosa.


Uns metros adiante, parou o carro. O rapaz corria na sua direcção. Cansado, desapontado, prestes a perder as forças. Óscar vira-o pelo espelho retrovisor. Era noite, madrugada já, bem vistas as coisas. Assustava-o que pudesse ser um ladrão. As notícias a que todos os dias tinha acesso deixavam-no naturalmente alarmado.
Por isso mesmo, ponderava o que fazer. «Rápido» – exigia a si mesmo –, «que o rapaz havia de estar a aproximar-se.»
– Ora bolas, que raio de sorte a minha – vociferou Óscar.
Há muito que não fazia aquele turno até às duas da manhã e, logo na noite em que ficara, o que lhe havia de acontecer. Já não bastava não gostar de andar só durante noite. O seu horóscopo também não era muito favorável naquele dia. Procurava convencer-se de que não acreditava em previsões, mas, mesmo assim, algo havia que o atemorizava.
Viu um vulto surgir na curva. Sem hesitar, acelerou. Desapareceu daquele lugar num instante e, sem que pudesse reagir, algo se cruzou no seu caminho e voou sobre o capot.
Óscar encostou-se ao assento, assustado. Entre as mãos, segurava não o volante, mas a coberta da cama.
– Se eu pudesse, fazia o percurso a pé todos os dias – dizia um homem, na cama ao lado. – Mas tenho aqui um mal num pé que mo não permite – lamentou.
– Mas, se pudesse, havia de ir até ao hospital a pé – continuou, após alguns segundos em silêncio. – Olhe que vinha.
Óscar olhou-o e acenou positivamente com a cabeça, ainda que confuso. Não sabia exactamente onde estava nem percebia a razão pela qual o homem falava sozinho.
«Estarei num hospício», pensou, sorrindo animado. Procurava, assim, distrair-se.
– Dói-me muito este pé – disse o homem, apontando para o pé direito. Tinha tanto para dizer, sufocado que se sentia por aquele silêncio.
 – Mas aqui no hospital vejo que nada tenho, comparado com o mal dos que aqui estão.
Óscar anuiu com um «Pois, é verdade.»
– Imagine só – voltou o homem. – Na semana passada, queixei-me de uma faringite, afonia e alguma febre. Imagine! Do que nos queixamos nós.
Óscar reparou entretanto na melodia que se fazia ouvir pelo quarto. Incómoda. Como um choro verdadeiro, contido. Choro de mágoa e de dor. Certas melodias, pensava, carregavam um peso enorme. Como se suportassem e carregassem a dor do mundo.
Antes mesmo de Óscar pedir, o homem baixou o som.
– Boa música, esta – disse ainda assim.
Óscar nada respondeu. Nem sequer acenou com a cabeça, como fazia para fingir estar atento ao que o homem lhe dizia. Olhava o tecto e pensava. Não dormira naquela noite, mas tinha ainda esperanças de se reconciliar com o sono durante o dia.
– Avô! – ouviu-se bem alto, de repente. Uma menina correu, depois, na direcção do homem da cama ao lado, com duas flores na mão.
– São para ti! – disse, enquanto abraçava o homem, agarrada ao seu pescoço.
– Que bonitas! – exclamou o homem. – Onde as foste arranjar, minha querida?
A pequena afastou-se um pouco. Baixou a cabeça. Parecia ter uma confissão a fazer. Enrolou a pena esquerda na perna direita. Entrelaçou os dedos nervosos. Depois afastou ambas as mãos, voltando logo a cruzá-las.
– Humm… – balbuciou, por fim. – Apanhei num jardim aqui perto. Mas foram só duas, avô – disse, procurando desculpar-se.
O homem sorriu, divertido. Óscar sorriu também. Fossem todos os furtos como o daquelas duas flores.
– São para te animares, enquanto cá estás – continuou a pequena, com o seu melhor sorriso.
O homem puxou-a para perto de si e deu-lhe um grande abraço.
– São bonitas, minha querida!
– Óscar Peixoto?! – perguntou um homem, que se aproximara de Óscar, alheio e indiferente a toda aquela situação ternurenta que ali se vivenciava.
– Desculpe? – perguntou Óscar.
O homem, completamente vestido de negro, segurava os óculos escuros.
– O senhor não sabe o seu nome? – perguntou, ripostando.
Óscar nada disse. Não sabia o que fazer, nem sequer o que dizer. Pior que tudo, não conseguia recordar-se de quem era.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Vão-se os anéis, que fiquem os dedos de Helena João.


Manhã cinzenta e miudinha de chuviscos, aquela. Manhã triste, na cidade que teima em não abandonar o Inverno. Manhã triste, nela que leva a morte na alma. Mas só na alma leva a morte. Quem a observar, atentamente, vê uma septuagenária bem arranjada. Os cabelos brancos de prata estão apanhados num carrapito no alto da cabeça, ladeado por duas travessas. Uma echarpe, em tons de rosa seco, despreocupadamente enrolada à volta do pescoço, protege contra o vento que se faz sentir, enquanto, ao mesmo tempo, ajuda a ocultar as encorrilhas que a gravidade proporciona. O saia-casaco claro, dá-lhe ares de executiva e tira-lhe, pelo menos, uns quinze anos de cima. Os sapatos são rasos. Uma prótese de anca não combina com tacões agulha. Nem o semblante a denuncia. Não é carregado, como se espera em quem leva a morte na alma. Segue pela calçada, em passos decididos, esquecida do vento e da chuva. Esquecida da morte que leva na alma.
Chagando ao destino, estanca, só por uns segundos, à porta. Contempla aquele local onde o bisavô a levara tantas vezes, para apreciar velharias. Aquela loja de penhores é uma das mais antigas da cidade. Remonta ao século XIX, mas decerto já nasceu velha.
Entrou. Lá dentro o tempo não passa. Continua com o mesmo cheiro a  livros encadernados a couro e a folhas amarelecidas. Continua com o mesmo ar de desarrumação arrumada onde apenas o Sr. Zeferino se orienta. Ao fundo fica a estante. Um móvel de madeira de castanho, um pouco carcomido pelo caruncho e pejado de livros. Quem sabe, quantas primeiras edições não se escondem ali? Pelo meio, a divisão ampla, aloja pequenas mesas, cómodas, um ou outro armário camiseiro, secretárias e várias poltronas. Em cima destes móveis um outro mundo se desvenda: discos de vinil, brinquedos antigos, velhos eletrodomésticos, peças de louça, tudo numa amalgama ilógica e colorida. À direita, o balcão das joias. Respira fundo e avança na sua direção. Da bolsa retira algumas jóias que entrega ao velho Zeferino. Observa-o enquanto ele pesa aqueles pedaços do seu passado, um a um. No final, feitas as contas, ainda não chega. A hipoteca sobre a casa é grande, ainda não chega. Fecha os olhos, só por um momento e ouve a bisavó que lhe sussurra “deixa ir o trancelim”. O trancelim de ouro que o bisavô Eduardo dera à bisavó, como prenda de casamento. É passado pelas mulheres da família e agora é dela. E agora é do Sr. Zeferino. Com uma lágrima teimosa deixa ir o trancelim. Agora já chega.
Sai da loja e respira o ar frio da manhã cinzenta. Já não leva a morte na alma. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Fica a casa. E com ela fica o fantasma da bisavó, de braço dado com o bisavô Eduardo e o trancelim ao pescoço.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Vida cara de Eliane F. C. Lima


(Conto registrado no Escritório de Direitos Autorais - Rio de Janeiro - Brasil)

Sentada na cama, as tralhas ensacadas. Lágrimas, não há mais. O rosto inchado, apenas observa em volta. Tarefa simples: um armário de duas portas, dentro do cubículo. Calor insuportável no verão; umidade entrando nos ossos no inverno.
            Tinha criado a filha com muito esforço, solteira, ingênua que fora. Nunca se queixou. A menina enchia-lhe a vida. Pobre, muita faxina tinha alimentado suas bocas, pago seu quartinho, a roupa pouca, os livros da pequena. Estudo reduzido, mas muita honradez ensinada pela mãe.
Não tinha podido garantir sua velhice, contudo. Sobrava dinheiro para isso? A mocinha casara cedo, felizmente. Marido era um homem honesto, trabalhador. Nada faltava em casa. Mas sempre renegara a herança da mulher: a mãe.
            Naqueles anos todos, ela, “a velha”, como ele dizia, sem o menor acanhamento, tinha feito tudo para agradar ao genro: lavava as roupas dele, passava com carinho para ver se merecia ao menos consideração. Nada. O homem dizia que aquilo nem correspondia à parte do feijão comido. E o resto? Quarto – quarto? –, luz, água e tudo o mais? Que sina a dele ter de trabalhar o dobro para sustentar boca adicional!
            A filha, muito submissa, reclamava no quarto, à noite. As vozes se alteravam. A senhora se encolhia toda na cama.
            No dia seguinte, a própria mãe abraçava a outra, ambas lacrimosas, e aconselhava que não fizesse aquilo, imagine, atrapalhar sua felicidade. Os homens eram assim mesmo... e onde iria achar outro tão bom, cumpridor de seus deveres? A moça tentava acreditar.
            Agora ele tinha decidido e arranjado tudo. Descoberta uma prima dela, velha também e doente, no interior, tão longe, despachava a sogra para lá.
Saindo pela boca, já, a saudade de sua menina. Mas conformava-se, pensando que libertava a filha para ser feliz. Fosse o que fosse, nunca mais a moça engoliria aqueles desaforos e, afinal – deu um suspiro fundo –, a prima era uma pessoa boa e pacata.
            Um “Mãe, tá na hora”, resgatou-a dos devaneios. Levantou-se, condenado à morte, convocado por guardas e padre que lhe batem à porta.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Rua Onde Nasci de Manuel Vasquez.


A rua onde nasci fica situada em Lisboa, cidade do meu afecto, do meu amor e da virtude em ser hoje homem.
Foi naquela rua que aprendi a andar, a caminhar para ir para a escola e para a brincadeira e a jogar à bola. Foi também naquela simples rua que um dia parti o vidro da vizinha, que chorei uma paixão não correspondida e fui para a escola primária e mais tarde para o liceu e para a faculdade. Foi lá que me sentei na porta da minha antiga casa e esperei por minha mãe e meu pai, porque afinal nem a chave da porta tinha. Tantas coisas tem a rua onde nascemos que nem sequer as vemos, mas na minha rua até pedras, muros e formas eu conheço. Foi ali que senti calor, frio e chuva e andei de um lado para outro.
Eu tenho uma rua onde nasci e lembro-me dela, recordo-a como se fosse minha, pois no meu coração tem um canto que, ao vê-la, a sinto como se fosse familiar, amada e martírio. Vi por ela passar velhos, novos e miúdos, vi meu filho e minha filha aprenderem a andar. Foi ali mesmo em frente à minha porta que um dia fui noivo para a igreja e me casei e vi chegar tantas vezes meu pai e minha mãe. O que ela lavava e varria. Que saudades tenho da minha rua, tão bela, com as portas de todos os vizinhos que amo. Tenho a lembrança de suportar a dor de os ver também partir.
A rua de Lisboa é identificada, mas falta a história. Foi de pedra basalto, mais tarde alcatroada, esburacada com novos apetrechos e dotes de urbe ou capricho de engenheiro da câmara.
Todos os que por uma rua passam nem imaginam o que se passou e passa — zanga, paixão, dor, amor — e tanto sem ver se sente, nos muros, nas pedras e até nas ervas limpas pelo homem dos serviços municipalizados. As ruas eram lavadas, varridas e mantidas limpas, com lixos, bichos e outros, com muitas coisas e vida havia na rua e há por certo na rua onde nasci.
Recordo que observava de menino o formigueiro que por ali passava e as gentes, o comércio e a luta que despertava e me fazia ver que a vida é mais.
Na rua identificava o Sr. Costa, que numa carrinha Volkswagen, tipo pão-de-forma, vendia pão que eu também ia comprar. Nessa mesma rua vinha um casal — a D. Rosa e Sr. José — com a carroça, com uma égua sublime e forte. Vendiam fruta e legumes e riam, divertiam-me, e sabiam que eu um dia queria ser médico e sou. Também me lembro do homem do «pitrólio», do funileiro que concertava panelas e tachos. Do Ti Amolador e da sua gaita-de-beiços a anunciar chuva, a reparar e a amolar tesouras e facas. Recordo-os com saudade e gosto, todos eles foram meus heróis e vida de ser e gostar.
Quantas cores, odores e amores tive na simples rua e vi flores de Primavera, retive frio de Inverno, recebi granizo no pêlo, calor passei e tanto suei com a recomendação de minha mãe: «Usa sempre chapéu!»
Por aquela serena e discreta rua passaram trabalhadores, operários, presidentes, ministros e mais gente rica e pobre, honrada e imaculada e manchada pela desgraça. Nessa rua minha mãe ensinou-me sempre a olhar as gentes e dizer coragem, esperança, dar, ouvir e nem sempre desconfiar. Com meus pais aprendi o que sou, pois foi isso que aprendi na rua onde nasci.
Na minha rua meu irmão fugiu de uma vaca que se tinha escapado de um barco da zona ribeirinha e que até veio no jornal, colhida nem tanto e hoje esquecida, mas que assustou tudo e todos.
Aprendi ali a conduzir e a saber andar de bicicleta, mas também de patins, ali na minha rua caí e esfolei-me. Tantas coisas aconteceram: revolução, procissão e até conversa amena em noite de Verão. Sentados ao fresco, vizinhos e amigos, era a antiga Lisboa, eram gentes que vinham de fora e se integravam no mundo citadino. Ali havia pedreiros, carpinteiros, doutores e amigos, hoje nunca esquecidos, pois, se nos encontramos, festejamos e adoramos lembrar, ai lembrar, os tempos daquela simples rua de Lisboa.
Vi moças bonitas, casamentos e batizados, funerais e mais que me esqueci, mas houve um dia que chorei e me despedi da minha rua. Meu pai partiu, minha mãe também, fomos eu e meu irmão e chorámos tanto, abraçámo-nos naquela rua que foi nosso berço e embalo, doença e alegria e agora um adeus tenho de dar.
Volto e voltarei ali a passar e direi: «Morei aqui e amei.»
Lembrança forte e terna da rua onde nasci.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Velha de Célio Passos.


Numa vila do interior minhoto, vivia uma velha que ninguém sabia de onde é que tinha vindo. Não nascera na terra, não tinha parentes, e sobre a sua idade ninguém sabia, nem ela própria. Seu nome? Dizia que se chamava Maria. Maria quê? Com um olhar a perder-se no infinito, repetia: Maria!
Havia gente que simpatizava com ela, outras achavam que era uma bruxa, e desprezavam-na por nojo ou medo. Havia quem lhe pedisse conselhos dos mais variados: como tirar as nódoas de tinta de uma camisa e nódoas de sangue de uma blusa ou como se deviam tratar tais flores ou frutas, inclusive perguntavam-lhe como seria o tempo para os tempos próximos. A tudo isto respondia com precisão. Questionavam-lhe como é que sabia tanta coisa, e ela respondia que era dos anos que transportava às costas.
No seu corpo corroído pela idade, tinha umas mãos que mentiam a sua velhice. Eram umas mãos com poucas rugas, uns belos dedos, pele suave como seda. Era uma sensação maravilhosa tocar aquelas mãos. Tinham poderes curativos, diziam, mas ninguém nem os próprios curados confirmavam, talvez por receio. Foi o caso do rapaz que tinha os vulgarmente chamados “cravos” e que desapareceram de um dia para o outro quando ela passou as suas mãos pelas dele; ou da rapariguinha, já namoradeira, que tinha um vermelhão na pele que não havia remédio ou mezinha que lho tirasse. Ela acariciou-lhe a cara, os braços, o pescoço e o colo, e, dois dias depois, a jovem foi-lhe agradecer. Estava limpa de todo o mal.
Um casal também a procurou, pois a sua filha Carla de 9 anos tinha desaparecido. Mas a velha remeteu-se ao silêncio. Os pais não ousaram insistir, principalmente o pai, que estava com um ar comprometido e que arrancou à força a mulher de junto da velha.
Aparecia todas as manhãs, cedinho, empurrando uma carreta. Nos tempos frios vendia castanhas assadas e, nos de calor, flores de uma beleza sem par, ou fruta, das variedades menos conhecidas: dióspiros, romãs, kiwis, figos, maracujás, de uma qualidade insuperável. Tinha, sempre, algo para comercializar.
Os colegas vendedores, curiosos pela qualidade dos seus produtos, tentavam saber onde ela os adquiria. Na resposta, entre um belo sorriso que os anos não lho tiraram, dizia-lhes que era o Anjo. Pensaram os colegas que seria um lavrador lá da terra, o António Anjo, mas, quando lhe perguntaram, ele respondeu que nunca lhe vendera coisa alguma.
Comia a sua sopinha, todos os dias, na tasca do Sr. Manuel e, no final do dia, pegava na carreta e no banquinho onde se sentava, num recanto entre a cabina do posto de transformação da electricidade e uma casa desabitada, mesmo no centro da vila, onde semanalmente se fazia a feira, e dirigia-se por um caminho estreito enquadrado por sebes em direcção ao rio.
O rio não era largo, mas era profundo. Tinha uma tosca ponte de madeira. A velha, todos os dias, uma vez para cá, outra para lá, atravessava-a. Do outro lado, o terreno era diferente, perdia toda a geometria, só pedregulhos e mato. Diziam que existiam cavernas e covas onde feras disputavam o lugar.
Era um sítio que metia respeito, mesmo medo. Ninguém, a não ser a velha, se arrojava a atravessar o rio. Diziam também que andavam por lá almas penadas e espíritos malignos.  
O tempo escorria, e este ritual da velha era uma constante no dia-a-dia. A gente da terra gostaria de saber onde era a alcova da velha, mas ninguém tinha coragem ou ousadia de atravessar a ponte.
Até que um dia a velha escafedeu-se.
O Sr. Manuel, o tasqueiro, que se afeiçoara à velha, ousou procurá-la. Foi buscar coragem aos anos que era considerado um homem valente e, armado de um cajado, atravessou a ponte. Um estreito carreiro desmatado, marcado pelo rodado da carreta, subia em direcção a uns gigantescos penedos. Disfarçado por um emaranhado de trepadeiras, vislumbrou um buraco que era a entrada de uma caverna. Manuel entrou. O local era de médias dimensões. Era quente e limpo e o chão atapetado com flores silvestres, muito pequeninas. As paredes estavam secas e brilhantes, preenchidas de variedades de quartzo, leitoso e róseo. Era deslumbrante. A um canto encontrava-se um catre com roupa. Mais ao fundo pequenas volutas de fumo espiralavam restos de uma fogueira junto a uns utensílios de cozinha.
Ouviu uns sons sumidos no fundo da caverna. Aproximou-se. Em pequenas caixas de frutas, em caixotes de madeira ou mesmo em recipientes de plástico, forrados por macias folhas, estavam animais, principalmente gatos e cães, e até um raposinho, que estavam a ser tratados de ferimentos ou de doenças. Socorrendo-se de plantas medicinais que a velha era conhecedora, os animais estavam quase totalmente recuperados das suas maleitas. Era um autêntico hospital veterinário, na sua simplicidade, de que as coisas simples são feitas. A velha nutria um verdadeiro amor por estas criaturas. Na sua incredulidade, Manuel nem se apercebeu que alguém se aproximou dele. A velha colocou a mão sobre o seu ombro. Nada disseram, nem era preciso. A ausência estava justificada, aqueles seres vivos estavam a necessitar dos seus cuidados. De súbito ouviu a voz de uma criança. Atónito, viu que era a Carla que desaparecera da aldeia fazia tempo. A velha contou-lhe o que se passou com a menina. O pai abusava dela, e esta teve de fugir de casa. Pediu ao Manuel que a levasse à casa dos avós e que participasse o acontecimento à Guarda. Disse-lhe ainda que um dia regressaria e que havia mais animais e gente a precisar dos seus serviços.
A velha afastou-se de Manuel. Deu-se uma epifania. A caverna inundou-se de uma luz brilhante. Uma aura branca luminescente envolveu a velha. O brilho aumentou até que preencheu a totalidade do seu corpo. Esta deixou de ter forma humana e transformou-se num objecto tridimensional na forma de uma imagem. A imagem levitou e desapareceu por entre uma concavidade da gruta.   
Com decisão, Manuel pegou na criança ao colo e saiu da gruta. Adentrou-se pelo mato na procura do caminho que o levasse ao rio. Atravessou a ponte e com o auxílio de uma pesada vara ferro, que o destino ali lhe colocara, desfez a ponte. O rio que ia caudaloso fez o resto do serviço e arrastou a ponte feita em bocados. Tinha a plena convicção de que a velha não queria que aquela gruta fosse alvo de invasão ou se transformasse num lugar de culto.
Manuel foi fazer o que a velha lhe pediu: entregar a criança aos avós e de seguida foi à Guarda.
Taciturno, regressou à tasca. Ninguém lhe arrancou qualquer palavra.
Estranharam que a ponte tivesse deixado de existir. A falta da velha foi comentada e por alguns sentida. O tempo tudo esquece.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Ponteiros desorientados numa manhã de um hoje sem data de Cristina Barbosa


Correu rua abaixo. O autocarro estava atrasado, disse-lhe um velhote sentado na paragem. Esperou de pé. Lembrou-se de ter lido um dia que, para descansar, basta depois de morto. Sorriu ao pensar nisso. Algum sentido fazia, reconheceu. Cansou-se, porém, de esperar. Os minutos sucediam-se uns atrás dos outros. O velhote, por sua vez, olhava-a com atenção, procurando, a todo o custo, lembrar-se de onde a reconhecia.
Decidiu sentar-se, finalmente. O velhote ajeitou-se no banco, para que ela se sentisse bem. As pessoas à sua volta reclamavam, baixinho, o atraso do autocarro. Ela, porém, parecia distanciar-se de toda aquela confusão. Tivesse paciência e reclamaria também. Afinal, mal dormira de noite e, na verdade, aquele atraso não estava a ser uma boa forma de começar o dia.
O velhote olhou o livro que Carla segurava sobre as pernas. Fingiu interesse, não fosse alguém desconfiar que não sabia ler. Logo ele que – como se gabava – era «um dos tipos mais espertos que as pessoas algum dia poderiam conhecer». Mal sabia que aquele calhamaço mais não era do que um livro de economia que, nem mesmo assim, poderia resgatar o seu país da miséria.
– Olhe lá, ó jovem – disse ele, aproximando-se de Carla. – Pode dizer-me as horas?
– Oito e dez – respondeu ela, olhando-o fugazmente.
– Obrigado – agradeceu ele, desculpando-se logo depois:
– É que me esqueci do relógio.
À volta, maldizia-se ainda o atraso do autocarro, a subida de preços e o encerramento da fábrica lá da zona, que empurrara para o desemprego imensas pessoas. As perspectivas negras de cada dia. E o frio, perante aquele drama negro e de arrepiar, quase nem incomodava, naquela manhã de Novembro.
– Já não sei quem nos há-de valer – desabafou o homem, na direcção de Carla. – Haja saúde ao menos – salvaguardou.
Carla estava sem qualquer vontade de responder ou de iniciar ali uma conversa. Não queria, ainda assim, ser indelicada ou parecer mal-educada. Bem sabia que ninguém tinha culpa da sua má disposição matinal. Invejou, por momentos, a vizinha do andar de cima que, logo pela manhã, quando por ela se cruzava, era já com um belo sorriso no rosto. Em casa, já devia ter vestido os miúdos, feito o pequeno-almoço e deixado roupa a lavar. Teria, por certo, ideia do que seria o almoço. Adiantara, talvez, qualquer coisa. E, depois de tudo isso, saía de casa sorridente. Apesar de correr, atrasada, entre bons-dias apressados.
À frente da paragem, um carro travou inesperadamente. O miúdo, esse, ficou plantado na passadeira. Não sabia se devia recuar, correr, chamar pela mãe. O velhote levantou-se e reclamou contra a falta de prudência na condução. O homem que conduzia fingiu ignorar os gestos impetuosos e desmedidos de algumas pessoas que reclamavam.
– Cambada de idiotas! – berrou o velhote. – Não vêem por onde andam.
O miúdo, assustado, correu para o outro lado da estrada, onde ficava a escola. Se a mãe soubesse o que lhe tinha acontecido, não o deixaria ir para a escola sozinho durante uns bons tempos. E ele que pedira tanto, porque, afinal, já era um rapaz crescido. Desejou que a cena não tivesse sido presenciada por nenhum conhecido. Não tinha sido, de facto.
O autocarro havia tido um acidente, soube-se, entretanto. No escritório, a vizinha de Carla, que todas as manhãs sorria, chorava. Fora, sorrateira, para a casa de banho. Trancara-se lá dentro, depois do aviso que, juntamente com outros trabalhadores, recebera.
Já Carla, cansada de esperar, decidiu fazer o percurso a pé. Quando a viu levantar-se, o velhote pensou perguntar-lhe se era a filha do senhor Jerónimo, o padeiro. Aquela que, dizia-se, estava a estudar para ser economista. Não perguntou. Estava convencido de que era, realmente, ela. Até tinha semelhanças com a mãe, observou ele. Arrependeu-se, porém, de não lhe ter perguntado as horas, que o tempo, esse, passava a correr.