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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Não era uma escadaria qualquer de Helena João.


Aquela escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como fito universal servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria das escadarias, mas, no que àquela diz respeito, não.
Aquela escadaria que habitava a casa antiga da avó servia para muito mais. Nela fui polícia, subindo os degraus quatro a quatro atrás do larápio que roubou as joias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido com um clipe desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém dar por nada. E era vital que, em especial, a avó não desse por nada.
Havia ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os elementos da família. As cópias suplentes, as chaves de segurança, caso alguém um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?

Naquela escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha armadilha. Uma corda presa, lá em cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas, ou minutos, a segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na cidade do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as escadas quatro a quatro, escorrega pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A Agenda Mágica de Helena João.


Saiu intempestivamente e bateu com a porta. Não tinha sorte nenhuma com os homens, de facto. Aos 35 anos, Mariana ainda não encontrara aquilo que todos procuram, muitos acham que encontram e alguns, felizardos nascidos sob o auspício de uma boa estrela, realmente encontram.
Quando regressou a casa, já era noite e ele já partira levando as suas coisas e uma parte da alma dela. Decidiu sacudir a monótona tristeza que pressentia já a instalar-se navegando na internet. Gostava de viajar no mundo dos blogues, lendo outras vidas, incansáveis como a sua, num blogue diferente. Chamava-se jannetbyjannet  e  lá  se  mostravam  os  criativos  talentos  de uma  mulher  com  gosto  pelos  trabalhos  manuais.  Todas as peças eram únicas e era-lhes emprestado pela autora um cunho pessoal de amor e ternura. Sem se dar conta, Mariana viajou de volta à infância, tempos de inocência e despreocupação, tempos em que ela própria adorava fazer a roupa das suas bonecas. Perdida nas memórias e pensamentos, continuou a navegar pelo blogue e deparou-se com o projeto da autora para o Natal desse ano. As agendas transportaram-na, desta vez, para a adolescência, altura em que adorava escrever e manter diários. Resolveu encomendar uma, como presente de si para si, um miminho que também merecia! Enviou o e-mail da encomenda e foi dormir. Nessa noite dormiu abraçada a boas recordações e conseguiu pôr de lado a amargura de se sentir sem rumo.

A encomenda chegou duas semanas depois. Abriu a caixa com o cuidado de quem pega no primeiro filho e de lá retirou a agenda. Com o mesmo cuidado maternal, folheou-a e abriu-a no mês de Junho. Segunda-feira, dia 10, fará as 40 semanas. Poderá nascer um bocadinho antes ou um bocadinho depois. Não importa. Vai ser uma menina e a agenda será dela.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Vão-se os anéis, que fiquem os dedos de Helena João.


Manhã cinzenta e miudinha de chuviscos, aquela. Manhã triste, na cidade que teima em não abandonar o Inverno. Manhã triste, nela que leva a morte na alma. Mas só na alma leva a morte. Quem a observar, atentamente, vê uma septuagenária bem arranjada. Os cabelos brancos de prata estão apanhados num carrapito no alto da cabeça, ladeado por duas travessas. Uma echarpe, em tons de rosa seco, despreocupadamente enrolada à volta do pescoço, protege contra o vento que se faz sentir, enquanto, ao mesmo tempo, ajuda a ocultar as encorrilhas que a gravidade proporciona. O saia-casaco claro, dá-lhe ares de executiva e tira-lhe, pelo menos, uns quinze anos de cima. Os sapatos são rasos. Uma prótese de anca não combina com tacões agulha. Nem o semblante a denuncia. Não é carregado, como se espera em quem leva a morte na alma. Segue pela calçada, em passos decididos, esquecida do vento e da chuva. Esquecida da morte que leva na alma.
Chagando ao destino, estanca, só por uns segundos, à porta. Contempla aquele local onde o bisavô a levara tantas vezes, para apreciar velharias. Aquela loja de penhores é uma das mais antigas da cidade. Remonta ao século XIX, mas decerto já nasceu velha.
Entrou. Lá dentro o tempo não passa. Continua com o mesmo cheiro a  livros encadernados a couro e a folhas amarelecidas. Continua com o mesmo ar de desarrumação arrumada onde apenas o Sr. Zeferino se orienta. Ao fundo fica a estante. Um móvel de madeira de castanho, um pouco carcomido pelo caruncho e pejado de livros. Quem sabe, quantas primeiras edições não se escondem ali? Pelo meio, a divisão ampla, aloja pequenas mesas, cómodas, um ou outro armário camiseiro, secretárias e várias poltronas. Em cima destes móveis um outro mundo se desvenda: discos de vinil, brinquedos antigos, velhos eletrodomésticos, peças de louça, tudo numa amalgama ilógica e colorida. À direita, o balcão das joias. Respira fundo e avança na sua direção. Da bolsa retira algumas jóias que entrega ao velho Zeferino. Observa-o enquanto ele pesa aqueles pedaços do seu passado, um a um. No final, feitas as contas, ainda não chega. A hipoteca sobre a casa é grande, ainda não chega. Fecha os olhos, só por um momento e ouve a bisavó que lhe sussurra “deixa ir o trancelim”. O trancelim de ouro que o bisavô Eduardo dera à bisavó, como prenda de casamento. É passado pelas mulheres da família e agora é dela. E agora é do Sr. Zeferino. Com uma lágrima teimosa deixa ir o trancelim. Agora já chega.
Sai da loja e respira o ar frio da manhã cinzenta. Já não leva a morte na alma. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Fica a casa. E com ela fica o fantasma da bisavó, de braço dado com o bisavô Eduardo e o trancelim ao pescoço.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Paulinho co-autoria de Helena João e Maria José Azevedo


Da janela do meu quarto não a consigo ver. A lavandaria fica tapada pela azálea e pelo caramanchão. Consigo ouvi-la a trautear uma canção e sei que estende a roupa, de mangas arregaçadas pelo cotovelo e uma ou duas molas metidas na boca. As suas mãos ásperas, por uma vida inteira na água e tisnadas pelo sol, executam o ritual com a mestria de sempre. Primeiro as meias, cada uma ao lado do seu par, de seguida as cuecas e os soutiens, os guardanapos e panos de cozinha, as calças e saias, as camisolas, t-shirts e pólos e, por fim, as toalhas de mesa, as toalhas de banho e os lençóis. Tudo combina na perfeição, entre e si e com as molas. Como se, acaso a ordem fosse alterada, já não secassem da mesma forma.
Saio do quarto, fechando a porta atrás de mim. Desço as escadas calmamente. Os vinte e um degraus de sempre. Os vinte e um degraus que aprendi a contar, enquanto os subia de dois a dois. Ao fundo dos vinte e um degraus estão as malas. Já lá estão desde ontem. Prontas, fechadas e silenciosas. Contorno-as e sigo pelo corredor. Ignoro-as só por mais um momento. Vou ao seu encontro. Na certa já estendeu a roupa toda.
- Olá avó.
- Olá Paulinho.
É bom chegar aos 45 anos e ainda ser o Paulinho de alguém.
Fui muitas vezes Paulinho.
O Paulinho. Como no primeiro dia de escola. Cheguei à porta da escola pela mão da minha avó. Até ali a minha vida tinha decorrido entre o nosso pátio e o beco, entre o amor da minha avó, as brincadeiras com a rapaziada e o desatino da Pitecas, a nossa cadela coxa. A escola era a etapa incontornável. Atravessei o portão e fui rodeado pelos outros meninos que gritavam o meu nome: «Paulinho! Paulinho!» Foi a primeira vez que dei conta de ser o Paulinho fora de casa. E continuei Paulinho quando a professora me mandou sentar ali à frente, para ver bem para o quadro.
A segunda vez: «Paulinho, Paulinho, não vais passar sem levar uma boa sova, para aprenderes a não destruir os ninhos», disse D. Antónia, a catequista, naquela tarde tão primaveril, entre a recitação da salve-rainha e os pecados capitais. Nunca percebi a correlação entre o diminutivo e a força das palmadas. Afinal de contas, eram apenas ovos dentro do ninho, nem sequer havia passarinhos.
Desde aí, fui Paulinho inúmeras vezes, tantas, tantas, que não guardo especial memória, até hoje, em que ouvi pela milionésima vez o meu nome pronunciado pela minha avó. Mas não era o Paulinho de sempre, havia na sua voz um não-sei-quê de dramático, de triste, de muito triste. «Paulinho», «Paulinho». Pronunciado com tristeza e com um desalento que fazia dó. Palavra chorada. Palavra sem lágrimas. «Paulinho».
A minha avó não sabia ler nem escrever, só sabia trabalhar. Lavava roupa para fora. Dizia ela que era um trabalho limpo. Tinha a mania da ordem e da arrumação e tudo se encontrava nos devidos lugares, numa ordem obsessiva. Para a minha avó, não havia o meio-termo. Era o bem e o mal, o cozido e o cru, o cheio e o vazio. Não havia mais ou menos na sua vida, era sim, ou sopas. Ou era, ou não era. Fazia, ou não fazia, nunca fazia que fazia. Quando tomava uma decisão, estava tomada, não havia retorno. Hoje, engrenou na rotina como se fosse um dia igual aos outros. De diferente, apenas as malas ao fundo das escadas. Melhor dizendo, um pequeno saco e a mala. Uma mala pequena de couro, com fivelas. A mala que a avó tinha trazido da sua terra quando veio para a cidade e que agora ia levar para o lar, para onde nunca tinha querido ir.
- Avó, és feliz?
- Sou. Não. Era, fui. Hoje não. E a partir de hoje, mais não serei. Queres tirar-me da casa onde vivo há mais de 60 anos, onde fui feliz com o teu avô, que Deus o tenha. Queres tirar-me da casa onde fiz o teu pai, que diabos! Já sei que me esqueço das coisas mais do que antes, sei que dão a isso um nome de doença esquisita, mas ainda estou capaz de olhar por mim. Não conheço uma letra do tamanho de um boi, mas sei bem ler o que vai na alma das gentes e tu, meu menino, também não és feliz.
- Sou sim, filhinho. E tu?
A ironia no seu olhar e no tom com que pronunciou a palavra «filhinho» - que só usa em ocasiões de stress - diz-me que me está a mentir descaradamente. Orgulhosa, esta mulher que será sempre incapaz de me dizer o que realmente sente com esta mudança.
Mas tem de ser. Encontrá-la, por acaso, naquela tarde, a vaguear pela rua com ar perdido - «Eu queria ir ao cemitério, Paulinho, pôr flores ao teu avô, Paulinho» - matou-me um bocadinho por dentro. Estava a quase 2 km do cemitério e a caminhar na direcção oposta; onde iria parar, não nos tivéssemos nós cruzado? Portanto, tem de ser.
Vigia constante, ajuda e companhia, coisas que só lhe posso dar desta forma. Tem mesmo de ser.                                                 
-Também avó, também. Estás pronta?
- Estou pronta há 84 anos, Paulinho.
Entrámos no carro e arrancámos.
Eu, Paulo, miseravelmente infeliz e o corpo dela, a pálida sombra do que ontem era a minha avó. Ela, a alma da minha avó, e o Paulinho ficaram junto à azálea, a estender roupa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mentira Plausível de Helena João



És como uma onicomicose na minha vida. Sim, és como esse fungo que habita as unhas, que nelas expande as suas hifas e que delas retira abrigo e alimento. És como esse fungo que, em troca, apenas deixa os incómodos da comichão e mau cheiro. Sugas-me a energia, a felicidade e a boa disposição e, ainda assim, sou obrigado a amar-te. Não percebo por que lei ou ordem, inscrita num código genético, sou obrigado a amar-te. Partilhamos os mesmos pais, partilhámos o mesmo útero com uma diferença de meia dúzia de anos, a mesma casa e memórias de infância durante anos. Será que só isso basta? Não quero, não acho, não amo. Pronto.
Lembro-me daquele dia em que os pais saíram umas horas e tu ficaste, pela primeira vez, sozinha, a tomar conta de mim. Lembro-me da voz deles a dizer expressamente: «Não subas à macieira, Carlitos, que cais e magoas-te.» E lembro-me de ti a contares-lhes uma mentira qualquer sobre me teres empurrado da bicicleta. Qualquer coisa que justificasse aquele joelho em ferida e me livrasse do merecido castigo. Lembro-me disso.
E lembro-me de me telefonares a meio da noite a pedir para te ir buscar à esquadra.
«Não digas nada aos pais, Carlitos. Não é nada droga, Carlitos, são só uns charros. Emprestas-me 50 euros? Dou-tos para a semana, sem falta.»
Lembro-me disto tudo, mas não me lembro quando passei eu a ser os seis anos mais velho. Não me lembro quando estacionaste nos doze ou qualquer coisa do género. Não me lembro de te ter passado à frente, nem me lembro como é que cheguei aos trinta e quatro já com quarenta.
Não sei o que será ter filhos, mas não quero. Tu já me chegas. Às tantas também era obrigado a amá-los. Sei o que é ver a mãe pelos cantos a chorar e o pai a dizer: «Deixa lá a menina.» Sei que não quero isso para mim. Tu já me chegas. Quando me telefonas a meio da noite ou quando me pedes dinheiro que não tencionas devolver.
Não me parece que a unha ame o seu fungo. Não consegue livrar-se dele, mas não o ama mais por isso.
E eu não te amo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Epifânia de Helena João.

O badalar dos sinos soa metalicamente na minha cabeça, confundindo-se com a dor que já lá se instalou. O cortejo inicia-se e eu assisto a tudo, pairando sobre mim mesmo, numa estranha experiência extracorpórea. Dezenas de pessoas seguem atrás de mim e daquele estranho objecto onde ela foi posta. Morreu. A palavra repetida dezenas de vezes não faz qualquer sentido. Morreu. Abandonou-me. A mim e ao filho que também é dela.
Mais meia hora e está tudo acabado. Sete palmos de terra. Flores. Pêsames. Abraços sinceros e outros de conveniência. Acabou tudo. Ouve-lhe a voz que lhe diz «até já». Vê-a parada, sentada no carro, a olhar para cima, para a sua janela. A última vez.
Conhecera-a anos antes por um mero acaso. No preciso momento em que regressava a casa da entrevista daquele que viria a ser o seu primeiro emprego, a sua caixa de e-mail recebia uma notificação. Era uma notificação de uma dessas redes sociais, às quais se adere numa tarde onde não há mais nada para fazer e parece boa ideia expor assim um pedacinho do íntimo de cada um. Já há meses que não abria essa página de perfil, esse local onde meia dúzia de fotografias suas jazia. Sozinhas, isoladas, perdidas no ciberespaço. Nunca se dispôs a cancelar essa conta, apesar de não saber bem porquê. A verdade é que, por um acaso qualquer, essa conta não foi terminada e era dela que recebia agora a notificação. Alguém tinha comentado uma fotografia sua. Abriu a conta e clicou no link que indicava que havia «new comments». Debaixo daquela fotografia ela tinha escrito «Are you the king of the world?» A fotografia era uma das suas preferidas. Tinha sido tirada em Sintra, no Convento dos Capuchos, já cá fora, depois da visita ao que é o mais claustrofóbico ponto turístico que visitou. E gostava dela, não por ser uma séria candidata ao Pulitzer, mas porque essa fotografia espelhava a sua felicidade. Não se via o seu rosto, mas sabia que estava feliz. Nessa fotografia estava em cima de um rochedo, de braços bem abertos e a olhar para o céu, como que a abraçar toda a vida, toda a força que sentia possuir. De certa forma, sim, sentira-se o rei do mundo.
- É melhor deixares o menino cá em casa comigo esta noite. Para descansares, para teres tempo de arrumar tudo.
- Está bem, mãe.
Assim que rodei as chaves na fechadura e entrei, o espaço de todos os dias olhou-me pela primeira vez. Está tudo como umas horas antes, o bonsai e a orquídea, os livros na mesa da televisão, o comando esquecido no sofá, a persiana meia corrida, na janela ainda sem cortinas. Pertence tudo a uma outra casa, a uma outra vida. Sinto-me intruso.
Recorda a derradeira noite, quando ela finalmente lhe contou. Chegou a casa, sem a mochila e ele soube que algo de errado se passava. Arrastava os pés, pendia-lhe a cabeça e os ombros encolhiam-se como que a evitar o inevitável. Numa das mãos trazia um presente. Trazia sempre um presente. Um embrulho feito por ela, à pressa, mas sempre com o menino no pensamento. Desta vez era um livro.
Sentada no sofá, olha para ele e as lágrimas escorrem-lhe sem esforço. Não soluça, não produz qualquer som. Apenas aquela dor transborda sob a forma de rio salgado a desprender-se de uma nascente de castanho. E, calmamente, conta-lhe tudo. Conta-lhe como numa manhã de Abrilresolveu ir, finalmente, ao médico e investigar a dor de cabeça que já há meses a atormentava. Conta-lhe como após uma exaustiva passagem por vários departamentos do hospital, a informaram do diagnóstico. Conta-lhe o prognóstico que esse diagnóstico acarreta.
Em Abril! E a mim conta-me em Julho! Dá-me o facto como consumado. Sentença proferida após julgamento à revelia. Já não há nada que eu possa fazer. Odeio esse sentimento! Odeio sentir que me retiram o controlo dos meus sentimentos. Odeio-a neste momento. Ou quero odiá-la e não consigo. Odeio-me porque nem sequer quero pensar no que ela sente.
Negação, raiva e negociação, os três estádios em cinco minutos. Vai ficar sem ela. Não! Porquê? Resta-lhe uma eternidade para viver o quarto. Depressão.
Olha a porta do escritório, sem a abrir. Sente lá dentro a cadeira dela, o portátil fechado, mas ligado em cima da mesa. Ouve-a a pedir-lhe um café dos nossos. Entra no quarto e deita-se na cama. Fita o infinito sob a forma de tecto pintado de amarelo e assim permanece. Não sabe quanto tempo passou. O menino não ficou com a mãe apenas aquela noite, mas ele perdeu a noção do tempo. Não sabe se passaram dias, semanas ou meses. Mas sabe que o tempo nunca passa no tempo certo. Tempo que passou depressa demais quando ela era dele e não lhe morria nos braços. E agora não passa, agora não corre célere. Agora não o transporta ao esquecimento.
Já fiz tudo o que me era exigido fazer. Despejei as gavetas, coloquei tudo em caixotes e tirei-os de casa. Mudei a cor das paredes da sala e os móveis do escritório. Só a orquídea permanece.
Divide os dias entre a dor da perda e a raiva. Raiva por ela o ter deixado tanto tempo na ignorância. Sente-se traído. Talvez ela apenas o quisesse proteger. Talvez esperasse encontrar uma solução. Sente-se traído, é indiferente.
Quer desintoxicar-se dela. Reabilitar-se. Mas não sabe como. Tenta não pensar. Porque pensar é não compreender. O Mundo não se fez para pensarmos nele. Pensar é estar doente dos olhos. Que sábio sempre lhe pareceu Alberto Caeiro… E olhando à sua volta ele vê. Vê o menino que cresce sozinho, sem ela, mas, mais grave do que isso, sem ele, que é o seu pai. Vê a mãe preocupada com a vida que sente que se apaga dentro dele. Vê os amigos. Esses de sempre e aqueles, mais recentes, em esforços vãos de lhe devolver o sorriso. Vê no espelho uma pessoa que não reconhece. Vê aquilo em que não se quer tornar. E percebe que não se escolhe aquilo que acontece na vida de cada um. Mas que pode escolher-se como lidar com isso, escolher o que isso vai fazer de nós. Decide que tem de parar de procurar respostas no tecto pintado de amarelo e levanta-se da cama. Talvez não haja respostas. Talvez não tenha que ser tudo científico. Talvez seja possível viver sem perceber. Percorre novamente as divisões do T3. Falta-lhe vida. Faltam-lhe brinquedos espalhados pelo chão e risos de criança. Faltam cortinas na janela da sala. É tempo de tratar disso. E de fazer os furos na parede para as fotografias. Lentamente a dor dentro da sua cabeça começa a desvanecer-se. Vai sendo substituída por projectos de futuro. Afinal, parar é morrer. A dor no coração não se vai embora já. Mas a pouco e pouco também muda de nome. Passa a chamar-se saudade e fica arrumada numa gaveta dentro da alma.
Entro no quarto do menino. Não perdeu a aura de santuário, continua a ser o espaço protegido de brincadeiras e risos, de parede pintada com desenhos de carrinhos e super-heróis e a estante cheia de livros. Pego no casaco castanho, aquele que lhe vesti no dia em que fomos ao Zoo ver as focas.
- Anda filhote, vamos.
- Trazes uma prenda?
- Não, mas, se te portares bem, compro-te uma no caminho.
O Sol não se vai pôr ainda, não me faz uma desfeita dessas. Ainda há tempo. Nas próximas duas horas vai passar devagar, mas isso não importa. O menino corre com o cão pelo areal até caírem os dois e, a rebolarem, se confundirem com a paisagem. As gargalhadas de sempre ecoam desenterrando memórias. Afinal ainda estou vivo. Ou renasci. Juntos somos uma unidade.
No caminho de casa compra-lhe um livro. Aceitação.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sexta-feira de Helena João



Sexta-feira. Ou talvez um bocadinho antes. Sexta-feira começou a amá-lo. Mas talvez um bocadinho antes tenha começado a reparar que seguia, inevitavelmente, nessa direcção.
Quando chegou ao café já ele lá estava, sentado ao lado do amigo de ambos. À sua frente um café, na mão um cigarro prestes a terminar. Debaixo da mesa um joelho que não parava de tremer. «Raios!», é fumador, pensou. Também não interessa. Não está interessada em ninguém neste momento. Do que precisa é de paz e sossego. Adiante.
Dez minutos de conversa casual e é tempo de voltar ao trabalho. E o estranho, moreno, de olhar vivo e sorriso sedutor, não lhe sai da cabeça.
Nas semanas seguintes, os encontros repetiram-se. Primeiro, fugazes, unicamente um café depois do almoço. Coisa de quinze minutos, não mais. Pouco depois, alargando-se ao almoço, partilhado na casa dos amigos. Quatro humanos e dois gatos compõem a família feliz. Nesses almoços fala-se de tudo. Passados, presentes e futuros. Livros lidos e - que falha imperdoável - livros por ler. Ainda por cima, os clássicos. Ele leu-os todos antes de completar uma década de vida, ela não leu nem um terço nas três que já viveu. Há uma cumplicidade estranha que se instala e, lentamente, a ideia de estender os encontros a um jantar, seguido de um copo num bar simpático, surge-lhe na mente. Não sabe porquê. Só sabe que lhe parece ser uma boa ideia. Os dias vão passando sem que engendre uma maneira de combinar esse jantar e não dar azo à óbvia interpretação. Quer mesmo estar com ele, acima de tudo sem um limite horário imposto por um qualquer regresso pós-prandial ao trabalho.
- Então, quando é que vamos todos jantar umas francesinhas? - lá arranja coragem de dizer, ao início de mais um desses almoços.
- Por mim pode ser já neste fim-de-semana. Sexta-feira, que tal? - diz ele, ao mesmo tempo que se levanta do sofá e deixa a flutuar na atmosfera mais um travozinho ao delicioso perfume.
Sexta-feira amanheceu cinzenta, como qualquer outra manhã de finais de Novembro. Entre internados, cirurgias e consultas, consumiram-se as horas que a separavam do tão desejado encontro ao almoço.

Quando chegou a casa dos amigos já ele lá estava, com o gato ao colo, afagando-o, ao bom estilo do número um da Spectre.
- Logo a que horas sais? - perguntou ele.
- Às sete.
- Porreiro, eu também. Dás-me boleia para baixo?
A última meia hora até às sete da tarde foi passada a olhar para o relógio com uma cadência assustadoramente perfeita. Mas nem isso fez o pequeno ponteiro avançar mais depressa. O tempo tem destas coisas. Teimoso no seu ritmo de passar. Ora depressa, ora devagar, mas nunca no ritmo certo da nossa vontade. Ainda assim, na sua inevitabilidade, chegaram as sete horas. Correu para trocar de roupa, correu para o carro, acelerou até ao ponto de encontro. Lá estava ele. A sua silhueta recortava-se no escuro típico desta época do ano. Apenas um brilhozinho vermelho se distinguia ao longe. Mais um cigarro. Estacionou o carro e saiu.
- Vens?
- Deixa-me só acabar o cigarrinho – diz-lhe enquanto saltita de um pé para o outro como que a enganar o frio.
A noite prolongou-se, deliciosamente, até já ser demasiado tarde para quem no dia seguinte tem que trabalhar. Não se beijaram, mal se tocaram sequer. Apenas o brilhozinho nos olhos de ambos denuncia o que se passa lá onde reina a alma. Não passa despercebido nem ao observador mais incauto. A cumplicidade estranha já lá está. Instalada e para ficar. Há tempo para viver o que se segue.
O bebé vai nascer numa sexta-feira. Ou talvez um bocadinho antes.