segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A Tatuagem de Célio Passos.


Desde muito novo que Ângelo gostava de tatuagens. Era vê-lo maravilhado, principalmente no tempo de verão, quando nas praias via aqueles corpos brilhantes, tatuados, com imagens, desenhos, traços e cores, preenchendo, por vezes, grandes partes do corpo dos jovens. Foram diversas as vezes que Ângelo pediu aos pais que o deixassem fazer uma pequena, mesmo muito pequena, tatuagem num dos braços. Os pais, principalmente o pai, indivíduo de outros tempos, não aceitava, de modo algum, aquelas modernices.
Contudo, quando Ângelo fez 18 anos, sentiu-se emancipado para fazer da vida aquilo que entendia, e, ao arrepio das ordens paternais, foi a uma casa de tatuagens fazer a sua primeira tatuagem. No momento, a tatuagem desejada era a de um corvo de asas abertas e olho amarelo atento, que abrangia quase as duas omoplatas. O tatuador nunca tinha feito tal obra, mas aplicou o melhor do seu saber e técnica e fez uma obra que satisfez Ângelo. Em casa, reduziu-se ao silêncio, sabendo quais as reações que adivinhava por este gesto irreverente. Foi para o quarto e, utilizando dois espelhos, admirou a obra do seu tatuador. Mas, “não há bela sem senão”, e Ângelo começou a sentir que algo de estranho se passava com o “seu corvo”. O animal não se acomodava quando espartilhado entre a roupa do seu dono. Ângelo sentia que a tatuagem se queria desprender do seu corpo. Foi falar com o tatuador, que verificou que havia partes da tatuagem que estavam levantadas, parecia que se queria libertar. O artista nunca tinha visto tal coisa e fez umas reparações. Contudo, de regresso a casa, a situação piorou. Foi para o quarto e pôs-se em tronco nu. Já não aguentava com os movimentos do “seu corvo”, que parecia querer soltar-se daquele cativeiro corporal. Assim, e perante o espanto de Ângelo, o “seu corvo” saiu das suas costas, e, crocitando, vivo, pousou no cimo do guarda-roupa. Ângelo nem queria acreditar no que via. O corvo agitou as asas, voou pelo quarto e, aproveitando o facto de a janela estar aberta, saiu num voo libertador. Ângelo fechou-se num silêncio conventual. Esperava, todos os dias ao crepúsculo, pela volta do animal. Este obrigava o dono a deitar-se de dorso nu sobre a cama e plasmava-se numa tatuagem perfeita e, deste modo, o dia findava. Durante o dia não lhe punha olho em cima. O que ele fazia e por onde andava era um mistério que aos poucos se foi desvendando. Todos os dias, em cima da mesinha-de-cabeceira, apareciam peças de ouro, cuja proveniência Ângelo desconhecia. Um dia, num dos seus regressos, o corvo trazia no bico uma pulseira de ouro, que depositou no local do costume. É conhecida a atração dos corvos pelo ouro. Ângelo ficou em pânico, como iria justificar a posse do ouro. Não o podia entregar à polícia, seria muito complicado. Lembrou-se de deitar as peças nas caixas do correio do prédio, os condóminos não iriam ficar com o ouro e o mais certo seria entregarem-no ao seu legítimo dono, por um processo que ele nem queria saber. A verdade é que, semeadas as peças pelas caixas, curiosamente, ninguém fez referência ao insólito acontecimento, cada um guardou a sua peça como se de uma oferta se tratasse. Mas no bairro começou a constar que umas “mãos leves” amigas do alheio andavam a visitar os prédios do bairro, e procuravam exclusivamente ouro, nada mais. Ângelo tinha que resolver o problema urgentemente antes que o incriminassem como coautor dos roubos, se um dia vissem o corvo a entrar no seu quarto portador de uma peça de ouro no bico. Combinou com o tatuador ir ao seu atelier, pela calada da noite, efetuar uma alteração na tatuagem original. Pensada a estratégia, Ângelo levantou-se de noite, lentamente, para não acordar o “corvo”, vestiu uma simples camisa e saiu de casa no maior dos silêncios. O tatuador já o aguardava. Ângelo explicou o que pretendia fazer. Queria que lhe retirasse o corvo e lhe tatuasse um Cristo pregado na cruz, aproveitando o máximo possível os traços do desenho anterior. Antes de começar as operações, pediu ao tatuador que lhe injetasse nas costas uma anestesia que trazia consigo. Argumentou que a tatuagem da última vez foi dolorosa. A razão, porém, era para não acordar o “corvo”. A tatuagem foi muito demorada, mas resultou em pleno. Um Cristo, um pouco estilizado, numa cruz onde outrora estava pousado um corvo. O tatuador, curioso, perguntou-lhe a razão de tal atitude, de gostos muito diferentes. Ângelo riu-se e justificou, enigmaticamente:

- É que se “Este” sair da cruz das minhas costas, o que não era a primeira vez, eu sei que “Ele” nunca mais voltará, e se fizer coisas, decerto que serão boas ações.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A Reunião de António Alvarez.


A estação do metropolitano no Campo Grande encontrava-se apinhada de gente. Aquela hora matinal era normal ter um afluxo grande, mas com o atraso motivado “por problemas na Linha Amarela”, que aparecia no placard, o cais já começava a ter falta de espaço.
Álvaro olhou para o seu relógio Seiko e verificou que faltavam 20 minutos para a hora de entrada ao serviço.
- Merda para isto! – falou com os seus botões. – Logo hoje, car..., em que precisava de chegar a horas para a “bodega” da reunião com a chefia.
- Senhores passageiros, o tempo de espera poder ser mais prolongado que o habitual. Pedimos desculpa pela situação – soou uma voz feminina nos altifalantes da estação.
- É sempre a mesma coisa nestes últimos tempos – falou o seu vizinho do lado para o “ar”.
- Tem razão! – respondeu-lhe. – Isto agora tornou-se quase ritual. Quando não é na amarela, é na verde ou na vermelha... ou o “raio que os parta”.
Tornou a olhar para o relógio e verificou que tinham passado quase 5 minutos.
- Agora já não vale a pena sair – pensou. – As filas para o autocarro já devem estar “estilo repartição de finanças”.
Tirou o jornal debaixo do braço e tentou fixar a sua atenção num artigo qualquer que lhe pudesse não o fazer pensar no tempo.
- Esses “filhos da p...” é que deviam andar de metro para saber como é – tornou o vizinho do lado ao olhar para a página do jornal onde aparecia o primeiro-ministro e alguns outros membros do governo. – Os gajos andam de “cu tremido” pago pelo “Zé Povinho”, querem lá saber da “malta”...
- É – respondeu Álvaro. – Mas alguém lá os pôs...  
Tornou a olhar para o relógio. – Fod...! Já não vou chegar a tempo – falou interiormente. – Porque é que eu fui beber a “bica”. Perdi o autocarro e mais tempo perdi...
- “Foi retomada a circulação na Linha Amarela” – tornou a voz feminina dos altifalantes.
- Bom, vou ter que entrar dê lá por onde der! – pensou e foi colocar-se estrategicamente na beira do cais a pisar já a linha amarela.
Todas as pessoas começaram a mover-se e a tomar as suas posições. O barulho do metro no túnel fazia-se anunciar.
De repente um corpo de uma jovem adolescente tombou à linha. Gritos fizeram-se ecoar por toda a estação.
- Façam sinais para o condutor parar – gritavam muitos.
Todos esbracejavam e tentavam ver o que se estava a passar. Outros viravam costas e dirigiram-se no sentido da saída. Algumas mulheres entraram em histeria. O cenário era quase “apocalíptico”.
Álvaro ouviu o chiar estridente das carruagens, sinal que o condutor tinha acionado os travões de emergência.
- Meus Deus! Não!.. – pensou  e fechou os olhos.

Um “pi” forte soou-lhe aos ouvidos. Abriu os olhos e verificou que se encontrava na cama. O tal “pi” era o “cabrão” do despertador... 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Atrás dos Tempos... de Delmano Graça.


Estávamos na segunda metade de 50.
Aquela passividade de santo em que se encontrava, ficando à espera que o inesperado acontecesse, cansou-o. E sendo pouco o muito que possuía, pouco menos de pobre ficava se partisse apenas com meia dúzia de contos de réis nas algibeiras. Mandou fazer um bolso falso na parte de dentro do casaco, meteu lá algumas notas, fechou-o cosendo-o e estava tudo a postos. 
Fartou-se da pobreza, da rotina e do facto de todos comandarem a sua vida exceto ele. Resolveu então mondar os seus “pecados” e partir. E partiu!
Era madrugada. O galo ainda não tinha cantado e o relógio na torre da igreja ainda não existia. Quando a manhã desobscurecia, ele saiu da cama com mil cuidados para não acordar quem dormia. Preparou-se (evitando olhar para a mulher que com o coração nas mãos o seguia por todo o lado), sentou-se dois minutos nas escaleiras a olhar para dentro, rezou um pai-nosso, apertou o lábio inferior com os incisivos superiores durante alguns segundos e despediu-se da mulher com beijos de lei. Saiu pé ante pé e “fez-se ao desconhecido”.
Saiu com os pensamentos enovelados, chegando mesmo a ter medo da infelicidade que o acompanhava e atormentava. Cerrou os punhos, encheu o peito de coragem e esvaziou o medo através de todos os poros. O lusco-fusco matinal ofuscava mais do que esclarecia e obrigava-o a um semicerrar de olhos como se, com eles mais pequenos, visse mais e melhor.
Escolheu uma hora em que aldeia estava mergulhada no sono para pôr os pés ao caminho que o havia de levar ao primeiro local de embarque. Na última parte do percurso e quando sentia já as pernas fraquejar dizia para consigo: «Há que teres coragem!» Era mais uma maneira de se confortar a si próprio e não desistir. Caminhava firme e decidido e, passadas duas horas bem contadas, estavam palmilhadas duas léguas bem medidas. Encontrava-se na estação de comboios mais próxima — Pocinho —, donde partiria para terras de França.
Chegou alagado em suor. Durante a caminhada parece que ia na pegada de alguém, mas não! Antes pelo contrário: ele ia a fugir de si para tentar encontrar-se consigo, longe de tudo e de todos. Iniciar tudo de novo. Partir do nada de encontro ao tudo! Julgava ele...
A árvore das patacas estava longe. Mesmo muito longe…
Esperou algumas horas para partir e pouco depois da hora marcada partiu mesmo. Antes mesmo de se ouvir o silvar do “trem” já ele estava farto da viagem que ainda não tinha acontecido. À medida que o comboio palmilhava distâncias pensava: “Tão rico sou sem dez como sem vinte, mas desde que seja eu a decidir o meu presente, tanto se me faz que os rios corram para jusante como para montante.» Quando deu por ela estava na fronteira – Barca d’Alva. Esteve parado algum tempo. Sentou-se por ali, abriu a taleiga, tirou de lá de dentro um cibo de queijo, um bocado de borneiro, a cabaça do vinho e aliviou a fome. Este foi o seu jantar-almoço. Depois de cumpridos os cerimoniais legais  disse adeus ao seu país. Já em terras de Espanha, e com o aproximar da noite, o cansaço apoderou-se dele e embora estivesse que nem podia (sono, fome, sede e morto de tristeza, mas livre para poder pensar os seus pensamentos), adormeceu embalado pelo «solavanquear» do comboio.
Quando acordou era noite cerrada. Quem não lhe saía da ideia eram os dois filhos de tenra idade que deixara às custas da mulher. Mas um dia havia de voltar e levá-los com ele! Jurou a si mesmo que a primeira oportunidade que tivesse ia agarrá-la com unhas e dentes e juntar toda a sua família. Rezou, massacrou-se com projetos futuros e, cansado, voltou a adormecer.
Amanheceu. À medida que o “Sol subia no céu” e com o afastar do comboio, mais o cansaço de permeio, ele via o longe a recuar. Ou melhor, pensava que via!
A viagem tornou-se longa e fastidiosa. Nunca mais via a “luz ao fundo do túnel”!
Finalmente chegou a França e, depois de alguns transtornos, a Marselha. Saiu do comboio e sentia que tinha as pernas inebriadas. Mas, pior do que isso, a língua recusava-se a falar e os ouvidos a entender o que ouviam. Respirou fundo e apesar de toda aquela canseira sentiu-se descansado. Sentou-se no primeiro banco e respirou longamente. Sentiu o ar entrar e a liberdade sair pela primeira vez na vida. Amanhã ia ter tempo para abraçar uma vida nova. Chegou carregado com toda a força que tinha nos braços e uma vontade enorme de os libertar. As barreiras, com a ajuda de um parente afastado que havia de chegar a qualquer momento, levantar-se-iam certamente. 
Não conhecia muito do mundo, apenas sabia que o seu país não servia para ele. Sabia ainda que grandes fortunas são, geralmente, grandes pecados! A maior parte das vezes amassadas em suor dos outros. Naquele país e naqueles tempos, os tempos eram tempos em que, para ganhar uma ninharia, um homem honrado tinha de cuspir muito às mãos. E as dele, de tanto lhes cuspir, encontravam-se demasiado calejadas para continuar.


Eu e alguns de vós que estais a ler este conto de vida somos frutos desta geração que, para estarmos aqui, sãos e escorreitos, “comeu o pão que o diabo amassou”. Esses eram tempos e um país das meias solas. Hoje são, e é, o das solas rotas. E o pão que comemos (sendo outro) sabe ao mesmo.  

terça-feira, 20 de maio de 2014

Impressões à vista desarmada de Cristina Barbosa



O céu tremeu sobre a sua cabeça. Não tardava muito, pensou ele, seriam dois estranhos. Duas pessoas com um longo passado de união, que, de um momento para o outro, se tornavam verdadeiros desconhecidos. Não de repente, na verdade. Era um fio que há muito vinham tecendo, cada um para seu lado. O fio era de ambos, mas estava quase, quase a romper-se.
A mulher, Amélia, ao seu lado, calou-se por momentos. Percebeu-o muito pensativo e angustiado. Ouviu a queixa dele sobre uma amizade que parecia desgastar-se, o pensamento verbalizado.
Quando eram mais novos, o treinador disse-lhes, uma vez, que eram uma família. “Amigos-irmãos, assim, uma só palavra, ouviram?” As palavras ecoavam na cabeça de Cândido. Eram só mais duas pessoas que, com o passar dos anos, se haviam convertido ao silêncio. E, sobretudo, a uma distância cruel, que crescia ainda mais, a cada dia. Não havia, pensou Cândido, forma de voltar atrás. Como a pedra atirada. Exemplo tão banal e banalizado, mas válido. Cada um trilhava agora o seu caminho, de modo isolado. Cândido, mesmo assim, não conseguia deixar de lamentar. Não compreendia aquela ansiedade, mas conseguia sentir um espaço vazio que havia dentro de si.
Cândido conduzia. Trovejava. “Como se não houvesse amanhã”, pensou. Chovia. Pouco, no início. Amélia queixava-se sempre que chovia assim. Como naquele momento:
– Que raio! Prefiro que chova tudo de uma vez, do que esta chuva miudinha! – exclamava ela.
– Estás dentro do carro – ripostava ele. – Não te faz diferença.
– Incomoda-me, mesmo assim.
– Manias – balbuciou ele.
Minutos depois, deixava Amélia no laboratório onde ela ia fazer umas análises.
– O seu nome, por favor – pediu o funcionário, educado.
– Amélia Guerra – disse ela.
– Disse-me Amália, certo? – perguntou ele, parecendo ausente.
– Errado – respondeu, de forma áspera. – O meu nome é Amélia.
– Percebi mal – desculpou-se o rapaz, nervoso.
– Pois, eu reparei.
Perto da mulher, um telemóvel tocava insistentemente. O homem, ao seu lado, estava demasiado ocupado com pensamentos parvos, talvez, mas felizmente, pensou ele, ninguém sabia em que pensava e não havia sequer meio de saber. Entretanto, levantou-se bruscamente, afastou-se e atendeu, aborrecido. Amélia já tinha reparado nele. Mesmo sentado, parecera-lhe altíssimo, e não respondia aos cumprimentos de quem por ali passava. O sobrinho mais novo de Amélia diria, certamente, que era um indivíduo estranho. Assustador também. “Que mania”, pensou ela na altura, “têm as pessoas de julgar os outros pela aparência.” Porém, também ela o fazia, tantas e tantas vezes.
– Não, não posso – respondeu o homem, secamente, a quem lhe ligara.
– Pois, não sei – continuou depois. – Falamos mais logo.
Mesmo não sendo nada consigo, Amélia sempre ficava incomodada com tanta indiferença e má disposição. O homem não parecia ser simpático. Não cabia a Amélia, contudo, fazer grandes análises. Não conhecia o homem e esse era motivo mais do que suficiente para que a sua opinião não tivesse grande validade, pensou. Embora soubesse que a primeira impressão conta imenso. Raramente se enganava. Com o marido também assim foi: uma primeira impressão que não enganava. Nesse caso, chamara-lhe amor à primeira vista. Bem vistas as coisas, tinham aspectos em comum, o amor – ou os afectos, de modo mais amplo – e as impressões.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O Desvendador de Célio Passos.


Nos recônditos de um vale profundo, onde o sol mal entra, existe uma pequena aldeia minhota. Um punhado de homens e mulheres, talvez trinta pessoas, resiste tenazmente à inevitável passagem do tempo. O lugar só se agita no verão com a vinda dos parentes da estranja ou quando um parente, ainda vivendo em terras lusitanas, lembra-se de matar saudades.
Cosme é ferreiro de nome e profissão. Como os tempos são outros, também se dedica a fazer uns biscates de outras artes: pichelaria, marcenaria e até de vedor. É um homem robusto, boa figura, de fibra, apesar dos seus 65 anos, mas tem um olhar desvendador, penetrante, incomodativo. Por isso, os seus conterrâneos apelidam-no de «bruxo». O «diacho do home» adivinha o que estamos a pensar, comentava D. Vitórinha, uma fidalga, carinhosamente assim chamada, que herdou dos pais a casa da aldeia, solarenga, em estado adiantado de degradação. A nobre, que já tinha vivido melhores dias e, agora, em que os pergaminhos se foram ribeira abaixo, acomodou-se a lidar com aquela gente, rude, mas sã. Cosme não faz alarde desse seu poder de adivinhar o que as pessoas pensam, diz ter herdado este dom da sua bisavó que dizia ser vidente. Depois dos 60 anos, diz ter atingindo a “perfeição”. Situações, e foram muitas, em que Cosme, pelo seu poder, descobriu segredos, desejos inconfessáveis, hipocrisias, mentiras, invejas, traições, mas também atos nobres e amizades sinceras. Solteirão inveterado, o seu dom deu para tirar partido das fraquezas da carne das vizinhas. Uma das últimas situações, deveras comprometedora, foi quando D. Ermelinda, viúva de longa duração, muito respeitada, que, ao passar pela forja do Cosme e ao cumprimentá-lo e olhá-lo, veio-lhe um pensamento: “ Se fosse mais nova, bem passava umas horas com o raio do homem.” Cosme deslindou o pensamento e de imediato respondeu:
 - D. Ermelinda, apesar de já não ser novo, ainda sou um homem por inteiro.
D. Ermelinda ficou vermelha como um tomate, deitou os olhos nas pedras da calçada e tão cedo não apareceu por aqueles lados. Cosme guardava um segredo. Constava que, em local bem recatado, tinha um cofre cheio de libras e moedas em ouro. Como não tinha outros haveres relevantes, dizia que era a herança que deixava ao filho que trabalhava em França. Certo dia, teve a visita, inesperada, do sobrinho Arturzinho, que vivia numa cidade costeira e cuja reputação não era das mais brilhantes. O sobrinho, sabendo dos poderes do tio, usava sempre, como precaução,
óculos escuros. Dizia que estava com saudades da terra. Cosme não acreditou. Mas, tantas vezes o cântaro vai à fonte..., que um dia apanhou Arturzinho desprevenido, sem óculos, olhou-o nos olhos e, a razão da visita, deslindou-se: “Aonde é que o velho terá escondido o cofre?” Cosme não se mostrou surpreendido, sabendo as dificuldades e enrascadas em que Arturzinho andava sempre metido. Não mudou o sítio do cofre, mas fez uma mudança no seu conteúdo. Encheu uma saca com as libras e as moedas de ouro e foi enterrá-la longe de casa, junto a um castanheiro centenário. Aproveitando uma rara saída noturna do tio e quando o silêncio se abateu sobre a casa, Arturzinho começou a investigação. Foi direto a alguns dos lugares secretos que sabia, por ter visto o tio utilizá-los. A pedra que se deslocava junto à lareira; a tábua do soalho da sala que estava meia solta, ou o buraco na parede por detrás do relógio. E foi logo à primeira. O famigerado cofre estava na tal pedra que se deslocava junto à lareira. A excitação de Arturzinho era enorme. A desilusão foi do mesmo tamanho: só cartas antigas, recortes de jornais, cartas de jogar, algumas moedas do tempo dos reis e um pião que se lembrava ter brincado com ele. Frustrado, arrumou tudo no mesmo sítio, não se despediu do tio e, pela calada da noite, abandonou a casa.     
Cosme andava triste. Não tinha vida própria. Passava os dias a desvendar pensamentos, alheios, da gente da terra, e a ligar aos acontecimentos ao quotidiano, a intrometer-se, involuntariamente, em assuntos que não lhe diziam respeito. Sabia de coisas graves, mas como não era autoridade não podia atuar. O sofrimento começou a consumi-lo. Decidiu não sair de casa, não ir à tasca do Manel, passava pouco tempo na forja, recusou serviços, nem à missa ia. As pessoas da vila estranharam esta atitude, mas até ficaram satisfeitas, andavam mais sossegadas. Decidiu ir falar ao convento de frades existente lá do outro lado da serra. Pediu-lhes se podia tomar conta da horta e do jardim em troca de alojamento e comida, para remissão dos seus pecados. Foi aceite. Cosme não ficou preocupado com os seus dons, porque os pensamentos dos frades, de certeza, eram todos virados para o espiritual e para o divino. Afinal, descobriu que não era bem assim. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

História de criança de Eliane F.C.Lima.


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ - Brasil)

Ao ver minha neta, penso que memória da infância não é coisa em que se confie. As casas enormes de então, revistas quando adulta, diminuem muito.
Fomos uma vez à casa de uma tal Deolinda. Portas enormes. Algumas divididas em quatro: abre-se na vertical ou na horizontal. Encanto dos olhos, imaginação à solta. Comadres, cotovelos apoiados, conversando.
Cozinha imensa, azulejos fiéis ao nome, azuis e brancos, todos desenhados. Ouvi a palavra “coloniais”. Uma mesa grande, de madeira grossa. Filtro grandão, de barro. Moraria ali um gigante?  
A dona da casa, mostrando tudo, levou-nos ao segundo andar. Num cômodo de santos, um oratório, muitas estátuas infelizes, olhos de sofrimento. No chão, do meu tamanho, um Santo Antônio. Achei belo ou tive medo, não sei.
E num quarto trancado, a dona murmurou: “Esse não se abre, sabe.” Mamãe parece que sabia. Eu, que não, fiquei morrendo de curiosidade. O que haveria ali? Vi que a anfitrioa e mamãe caminhavam amortecendo os passos. Imaginei logo um ser ameaçador, trancado. Diminuí o andar para ver se ouvia algum ruído incomum. Mamãe olhou para mim com o olhar que os pais sabiam dar antigamente.
Embaixo, mesa da sala, toalha de linho e cheirosa, tivemos um lanche dos deuses. Já satisfeita, a gula não acabava, vendo cada coisa melhor do que a outra. Mamãe caprichou no olhar de novo, mas Deolinda e sua mãe, uma avó de filme, não deixaram mamãe brigar. Envaidecidas por verem que serviam delícias, me incentivavam. Parece que não recebiam visitas com frequência. O que era incompreensível. Tudo ali era bom. Elas muito agradáveis. Mas eu achava que os olhos das duas se pareciam com os dos santos lá de cima, embora as bocas sorrissem e falassem palavras amenas.
Terminado o lanche, fomos para a sala de estar, sofás antigos e paninhos de croché sobre as banquetas e móveis.
Sentadas, as adultas retomaram a conversa. Quando eu disse alguma coisa engraçada, dessas que só as crianças sabem dizer, todas riram alto. Nesse momento, um barulho ensurdecedor começou lá em cima. Pés batiam no chão com força e na porta, além de urros lancinantes. Não sei até hoje se era homem ou mulher. Silêncio absoluto, no primeiro momento, as duas senhoras ficaram vermelhas e sem ação. Eram a vergonha encarnada. Mamãe, bem prática, olhou pela janela e viu papai já esperando naquele carro antigo. Tinha sido uma tarde e tanto, disse consoladora. Esperava as duas em nossa casa. Beijamo-nos todas.
Papai, cabeça na janela: “Acabei de chegar, já ia chamar.” Muda, me joguei no carro, coração aos pulos. Bem que eu sabia. Ali havia uma lembrança para o resto da vida.

Agradeço ao site a foto. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Não era uma escadaria qualquer de Helena João.


Aquela escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como fito universal servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria das escadarias, mas, no que àquela diz respeito, não.
Aquela escadaria que habitava a casa antiga da avó servia para muito mais. Nela fui polícia, subindo os degraus quatro a quatro atrás do larápio que roubou as joias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido com um clipe desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém dar por nada. E era vital que, em especial, a avó não desse por nada.
Havia ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os elementos da família. As cópias suplentes, as chaves de segurança, caso alguém um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?

Naquela escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha armadilha. Uma corda presa, lá em cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas, ou minutos, a segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na cidade do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as escadas quatro a quatro, escorrega pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.