quarta-feira, 5 de março de 2014

História de criança de Eliane F.C.Lima.


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ - Brasil)

Ao ver minha neta, penso que memória da infância não é coisa em que se confie. As casas enormes de então, revistas quando adulta, diminuem muito.
Fomos uma vez à casa de uma tal Deolinda. Portas enormes. Algumas divididas em quatro: abre-se na vertical ou na horizontal. Encanto dos olhos, imaginação à solta. Comadres, cotovelos apoiados, conversando.
Cozinha imensa, azulejos fiéis ao nome, azuis e brancos, todos desenhados. Ouvi a palavra “coloniais”. Uma mesa grande, de madeira grossa. Filtro grandão, de barro. Moraria ali um gigante?  
A dona da casa, mostrando tudo, levou-nos ao segundo andar. Num cômodo de santos, um oratório, muitas estátuas infelizes, olhos de sofrimento. No chão, do meu tamanho, um Santo Antônio. Achei belo ou tive medo, não sei.
E num quarto trancado, a dona murmurou: “Esse não se abre, sabe.” Mamãe parece que sabia. Eu, que não, fiquei morrendo de curiosidade. O que haveria ali? Vi que a anfitrioa e mamãe caminhavam amortecendo os passos. Imaginei logo um ser ameaçador, trancado. Diminuí o andar para ver se ouvia algum ruído incomum. Mamãe olhou para mim com o olhar que os pais sabiam dar antigamente.
Embaixo, mesa da sala, toalha de linho e cheirosa, tivemos um lanche dos deuses. Já satisfeita, a gula não acabava, vendo cada coisa melhor do que a outra. Mamãe caprichou no olhar de novo, mas Deolinda e sua mãe, uma avó de filme, não deixaram mamãe brigar. Envaidecidas por verem que serviam delícias, me incentivavam. Parece que não recebiam visitas com frequência. O que era incompreensível. Tudo ali era bom. Elas muito agradáveis. Mas eu achava que os olhos das duas se pareciam com os dos santos lá de cima, embora as bocas sorrissem e falassem palavras amenas.
Terminado o lanche, fomos para a sala de estar, sofás antigos e paninhos de croché sobre as banquetas e móveis.
Sentadas, as adultas retomaram a conversa. Quando eu disse alguma coisa engraçada, dessas que só as crianças sabem dizer, todas riram alto. Nesse momento, um barulho ensurdecedor começou lá em cima. Pés batiam no chão com força e na porta, além de urros lancinantes. Não sei até hoje se era homem ou mulher. Silêncio absoluto, no primeiro momento, as duas senhoras ficaram vermelhas e sem ação. Eram a vergonha encarnada. Mamãe, bem prática, olhou pela janela e viu papai já esperando naquele carro antigo. Tinha sido uma tarde e tanto, disse consoladora. Esperava as duas em nossa casa. Beijamo-nos todas.
Papai, cabeça na janela: “Acabei de chegar, já ia chamar.” Muda, me joguei no carro, coração aos pulos. Bem que eu sabia. Ali havia uma lembrança para o resto da vida.

Agradeço ao site a foto. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Não era uma escadaria qualquer de Helena João.


Aquela escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como fito universal servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria das escadarias, mas, no que àquela diz respeito, não.
Aquela escadaria que habitava a casa antiga da avó servia para muito mais. Nela fui polícia, subindo os degraus quatro a quatro atrás do larápio que roubou as joias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido com um clipe desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém dar por nada. E era vital que, em especial, a avó não desse por nada.
Havia ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os elementos da família. As cópias suplentes, as chaves de segurança, caso alguém um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?

Naquela escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha armadilha. Uma corda presa, lá em cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas, ou minutos, a segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na cidade do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as escadas quatro a quatro, escorrega pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quando o afecto cai em desuso… de Cristina Barbosa.


Pedia-lhe, ali mesmo, calma. Um pouco mais de calma. Que parasse, que não queria ouvi-lo mais. Ele fingia não a escutar, continuava a reclamar, queria todas as atenções voltadas para si.
– Quem põe a comida na mesa? – perguntou-lhe, baixo. Respirava rancor, sentiu ela.
Ela, empurrada para o desemprego há meses, soluçava. Suportava filas e filas no centro de emprego, mas de nada lhe adiantava.
– Quem é? – repetiu ele, exaltado.
Ali perto, as pessoas, absortas em conversas mais ou menos tontas, mergulhadas nas notícias que o jornal trazia, não pareciam ouvir o que quer que fosse. Só um homem, Rogério, ali mesmo ao lado, se apercebia de tudo. Pediu um segundo café. Depois, olhou o outro homem, que se aproximava ainda mais da mulher, para lhe perguntar pela terceira vez, enquanto lhe agarrava o pulso com força:
– Quem é?
A mulher, contida, não tinha deixado ainda de soluçar. Desejava que os outros à sua volta não ouvissem o que ela ouvia diariamente. Horrores repetidos, medo. Uma vida que a sufocava. Não queria que houvesse testemunhas de nada.
O café de Rogério, sobre a mesa, arrefecia. O terceiro da manhã, quarto talvez. Não faltava quem lhe sugerisse que bebesse menos: “Tem cuidado, faz-te mal beber tantos cafés por dia.” De nada adiantava, porém. Era um verdadeiro dependente da bebida. Imaginava-se até numa qualquer reunião de dependentes de café anónimos. “Olá, o meu nome é Rogério e, desde que me conheço, sou dependente do café.” A vaga ideia daquela situação fê-lo sorrir discretamente. Mas nem por isso prestou menos atenção ao que se passava na mesa ao lado da sua. Queria ajudar, contudo, sentia-se um verdadeiro cobarde, sem coragem para enfrentar o outro homem. Era um problema alheio, bem o sabia, mas cruzava-se assim na sua vida, metera-se pela sua leitura dentro, sem que o pudesse impedir.
O homem, entretanto, saiu, sem sequer se despedir. A mulher soluçava ainda. Baixinho, não queria que as pessoas reparassem. Rogério tomou coragem, embora não quisesse invadir assim a intimidade daquela mulher. Não lhe pediu calma, disse-lhe para agir:
– É jovem, bonita, tem uma vida pela frente.
Ela, tímida, sorriu. Há já muito tempo que nada nem ninguém a fazia sorrir, pouco que fosse.
Rogério olhou depois a chávena de café frio sobre a mesa. Como havia dependências bem piores que a sua, pensou. A mulher da mesa ao lado era dependente daquele homem. Era-lhe, aliás, submissa. Ou, pelo menos, parecia e isso já não era bom.
– Há amores que matam – disse-lhe Rogério, mesmo antes de sair. Queria fazê-la reflectir. Ela nada respondeu.
Na rua, o vento uivava. Como semanas antes, numa manhã sem luz. Tentara ir às compras, mas o empurrão do vento depressa o fez desistir, não havia dado ainda meia dúzia de passos. Viu árvores caídas, carros acidentados. Passadas algumas semanas, era a vida daquela mulher que lhe parecia acidentada. E ela, prestes a cair, a baixar os braços, a deixar-se desistir. Quem lhe dera a si poder não o permitir. Mas quem era ele para sugerir o que quer que fosse, para interferir na vida de alguém que nem sequer conhecia?

Já a mulher, pede tempo ao tempo, mas o tempo parece fugir-lhe.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um Modo de Vida de Célio Passos.


Rafael Pinto desligou o telemóvel. A chamada era da mãe, que queria saber como tinha corrido a entrevista. Tinha compulsivamente respondido a um anúncio para repositor num hipermercado, condição imposta pelos pais para continuar a viver debaixo do mesmo teto. Já viveu do subsídio de desemprego, várias vezes, situação que acha deveras interessante. Quando se aproximava a data do fim do subsídio, arranjava um trabalhinho que desse para depois arranjar novo subsídio. É assim o mundo de Rafael. Contudo, em casa os pais azucrinavam-lhe a cabeça. Durante o pouco tempo que passava em casa, o pai, principalmente, adjetivava o filho de preguiçoso, indolente, inútil, mandrião e outros impropérios.
Escarrapachado no sofá da sala de jantar, com os pés em cima da mesa de vidro, Rafael, com ar desmazelado, ouvia o noticiário de um dos canais nacionais. O pivô do telejornal referia a alta taxa de desemprego, e que «uma saída para os desempregados era a emigração». A notícia entrou-lhe por um ouvido e ficou presa nas circunvalações cerebrais; não saiu pelo outro ouvido, como era habitual. Emigrar? Porquê que nunca pensei nisso? Era uma solução! Deixava de ouvir os velhos, visitava novos países e, depois de abanar a árvore das patacas, regressava ao lar como um senhor. E para onde hei de emigrar? Claro! Brasil. O Lula pôs aquele país a andar; aquilo está a dar grana, há emprego à ganância e bem pago. O Tó Miranda e o Zé Bicicleta foram há um ano para lá e já se orientaram, nem pensam em voltar. Durante a semana a ideia foi germinando. Na sexta-feira, que era dia de ir para a brincadeira, Rafael produziu-se: colocou umas calças brancas, uma t-shirt com tons de verde e amarelo e foi ter com o grupo habitual.
- Oi galera. Hoje não tou para aporrinhações, nada de sapatonas, tou noutra. Não quero ser engabelado, nada de sacanagem comigo não! Caras, me chamem de Rafinho!
O pessoal ficou espantando com o ar carioca e o sotaque brasileiro, e a pergunta foi óbvia: o que se passa Rafael?
-Na minha cuca está zanzando um barato. Vou para o Braziu!
O pessoal ficou muito surpreso com esta atitude atrevida do amigo, mas nada disseram, apesar de soltarem uns risos mal disfarçados. O tempo escorria e Rafael continuava a repositar, e deixou de falar no sotaque brasileiro. Os amigos nada questionaram. Certa sexta-feira Rafael chegou ao local de encontro, vestia umas calças de bombazina escuras e camisola de gola alta, apesar de o tempo não justificar tais adereços.
- God kveld. Er alt i orden?
Os amigos ficaram aparvalhados. Perguntaram-lhe o que aquilo queria dizer. Rafael, já com um ar nórdico, disse que era norueguês.
- Afinal, aquilo no Brasil, não era assim tão fácil. Não era terra para eu, o calor é muito. A Noruega, essa sim, será o meu destino. Um país com um nível de vida dos mais elevados do mundo, a condizer com o que pretendo. Um amigo de escola que está em Oslo a tirar o doutoramento disse-me que arranjava um emprego - afirmava Rafael.
As sextas-feiras foram-se passando e Rafael voltou a vestir as velhas calças de ganga e a t-shirt dos «Stones». Os amigos perguntaram-lhe quando é que ele ia para a Noruega. Rafael justificou que descartou a ideia, porque sofria de frieiras e o clima não era apropriado.
A conversa com os amigos passou a centrar-se no «sonho americano». Isso sim era um país para se singrar na vida. Os amigos até o ouviram, por várias vezes, numa voz tímida, a dizer num inglês a rondar a perfeição: «Yes, I can!»
Mas Rafael lá continuava a «repositar» no hipermercado, mas uma nova ideia crepitava no seu cérebro. A solução ouviu de uns políticos que sugeriam aos cidadãos desempregados, para os mais e menos habilitados, a especialização no estrangeiro; arranjar competências e depois regressar ao país. Rafael sentiu-se incluído. A única dúvida era saber em que se especializar. Mas a verdade é que Rafael desapareceu de circulação. Passados uns meses, um dos amigos viu-o a passar na Baixa, todo produzido como se fosse para um casamento. Numa tentativa inútil de fugir ao encontro do amigo, foi confrontado a explicar a razão daquele preparo e qual era o seu novo modo de vida. Metendo os pés pelas mãos, lá foi explicando o que andava a fazer, e assegurou-lhe que o emprego tinha muito futuro. O amigo estranhou, mas perguntou-lhe se tinha que andar assim vestido. Respondeu que fazia parte da profissão. «E como que se chama essa indumentária?», perguntou o amigo. Com ar um pouco contrafeito, Rafael lá foi dizendo: «Fraque.»*   


* Homem do fraque = cobranças difíceis.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Final de Verão de Manuel Vasquez.


No final das férias vem um tempo meio quente e fresco. Em geral sempre me habituei a ver este tempo com alegria. Repousante tempo de fim de Verão.
Em tempos, quando andava na escola, sabia que o fim das férias grandes estava próximo e o cheiro dos cadernos novos, dos lápis de cores, as canetas, a mala, enfim o regresso às carteiras, rever os colegas, aprender e também sofrer.
Hoje, o trabalho, aturar cada chefe que me dá vontade de dizer: “Não tens mais ninguém a quem que chatear.”
Mas quero contar algo deste final de Verão e fim de férias. Estamos no fim de Setembro e o Verão, esse, diz adeus. As noites esfriam, as madrugadas obrigam-nos a puxar a cobertura na cama e a companhia tão boa nos aconchega, enfim.
Ao entardecer, encontram-se amigos e gentes à beira de um porto piscatório que conheço e que encontro prazer ouvindo antigas histórias e contos de pasmar. Será mais que Nau Catrineta, mas na tasca do Zé Pescador bebe --se um copo de vinho branco ou tinto e come-
-se uns tremoços salgados, umas favas salgadas secas, um peixe frito, ou um queijito da cunhada do monte. O Zé, homem do mar, tinha no rosto cores, traços e cicatrizes de quem viu muito: peixe, ondas, mar e terror. Nas suas brancas patilhas, no seu bigode farto e no barrete preto sentia-se que viu tanto e muito mais do que qualquer dos mortais. Sabia que tinha, por diversas vezes, visto a morte sobressair e alguém querido e companheiro partir. Ele sabia de mar, de marés, de peixe, de vento e até de estações do ano, ganhos e perdas.
Um dia, quando ele estava de feição, ouvi-o contar um conto do mar, de antigo pescar, quase me lembrando do Velho e o Mar de Hemingway, pois ele sabia que o mar dava e tirava e com quem conversava numa chata ou num barco de maior ou menor porte.

«Um dia — disse — estava eu e os meus irmãos da faina, redes aprumadas, barco pronto e já em mar solto e largo, quando se levantou uma tempestade. Tempestade daquelas que nem se esquece, mesmo vivo ou morto. A água, as ondas, o vento, o céu cinzento e preto, nem Sol, nem Lua, íamos sofrer, quem sabe?, morrer. Ondas se levantavam, molhados estávamos, mas o que sentíamos era medo, gritávamos por Jesus — «Maria, salva-nos por favor.» Faziam-se promessas, lembravam-se pais, filhos e mulheres, paixões, lágrimas e horror de ir talvez morrer. O barco exigia mestria e o mestre respondia. O motor, esse, ainda nem falhava, mas a força daquele mar, ai que dor Senhor. O mestre mandou atirar tudo pela borda fora — redes, peixe e tudo o mais — mas queríamos viver. Ninguém tinha medo, ninguém tinha receio, mas todos o tínhamos dentro e sofríamos ao saber o que poderia acontecer. Dor, luta, e já tínhamos visto corpos de companheiros e sabíamos o que mais viria. Coletes vestidos, botas tiradas, ai meu Deus, dói-me aqui mesmo no peito. De repente o barco quebrou e afundou-se. Bóias lançadas, tudo gritava: «Vamos, vamos gente, gosto e força, fé e Deus nos deixará sobreviver». A descrição subia de tom e nem se piava nesse dia na Tasca, todos sabíamos que aquilo que estava a deixar tradição, herança e ainda mais era a vida e a morte de alguém.
O nosso prezado amigo, que estava vivo, mas muito sofrido, contou-nos que, entre lágrimas e dor, suspiros e mais, em mar encapelado e sublime, ele e os outros viram a “morte”. Todos na água, todos lívidos e águas revoltas, diziam: «Vão morrer.» Rezava-se com o coração, pedia-se perdão, pedia-se por tudo e por todos, mas a vida ali estava por um fio. O Quim foi abaixo, perdeu os sentidos e todos gritavam: «Força Quim, olha a tua mãe.» Ele, fraco e de carnes magras, foi-se abaixo e perdeu a vida ali mesmo. Silêncio entre ruídos de vento tenebroso. Quim era filho da terra, era órfão de pai morto também no mar, a sua mãe criou-o e a mais cinco filhos. A Dona Miquelina, hoje tão velha, não iria aguentar e nós talvez também iríamos morrer ali, em mar de sonho e terror. Na penumbra da noite, na escuridão assombrada, surgiu uma luz, seria Deus a pedir a nossa presença, o nosso juízo, ou seria a salvação.
Um barco cinzento-escuro, de homens a gritar: «Aguentem, que os vamos socorrer.» Tudo gritava e até o chão que era mar parecia querer nos tragar.
Ai dor, ai sofrer de pescador, dar mais este brindar à vida. A marinha de guerra foi nesse dia a nossa salvação e conseguimos levar o corpo do Quim.
Entre choro e calor da manta e capote, bebida quente, chorávamos e dizíamos: «Arre porra de mar, nossa alegria e morte.»
Que contar mais o que se passou nesse dia na tal tasca? Gerou-se amizade e respeito, chorou-se, bebeu-se à saúde dos vivos e lembrou-se quem morreu. Ser pescador é mais que tirar peixe do mar, é saber, é também sofrer.
Um dia se passarem pela Tasca do Zé, por favor, não digam que a descrição é e será sempre de dor e nada de rancor, mas digo-vos, quando vou comprar peixe, lembro-me que, para além do aspecto do mesmo, se está fresco ou bom, terá por certo homens e mulheres, crianças e velhos com alguma dor.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Um novo dia de Eliane F. C. Lima.


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ - Brasil)

Com os olhos ainda fechados – tentativa de não acordar de todo –, quis se espreguiçar longamente... mas, em vez de sentir os músculos se estirando, nada sentiu. Ao mesmo tempo, havia uma sensação vaga, alguma coisa que devia lembrar.
Tornou a tentar alongar os braços e pernas, só para testar, mas ainda agora não conseguia aquela sensação gostosa de todas as manhãs.
Mesmo contra a vontade, começou a arriscar a abrir os olhos. Muito devagar, era o truque que tinha desenvolvido para entrar aos poucos em contato com a realidade. Realidade, porém, era uma palavra que não parecia calhar com a situação.
Tentando abrir os olhos, pálpebras pesadas ainda, não viu a luz da janela. Então era isso, vai ver que não tinha amanhecido, nem madrugada fosse. O cérebro se recusava a engrenar fora do horário.
Se não via, queria ouvir o que se passava em volta, pois havia algum som, havia. Um rumor vago, parecia sussurro. Era um som conhecido, que não conseguia identificar exatamente. Choro? Era choro? Um lamentoso choro de sofrimento, que estranho! Alguém estava chorando.
Um sonho, com certeza. Aquela impossibilidade de se mexer, de abrir os olhos, de ouvir com clareza. Em sonho era sempre assim. Na verdade, começou a sentir um leve sobressalto. Mais do que sonho, pesadelo.
Mas havia um cheiro. Contínuo, envolvente. Entrando pelas narinas. Um perfume, quem sabe. De flor. Meio nauseante.
O sobressalto começou a se transformar em pânico. Havia um fato para ser lembrado. Precisava se lembrar do que tinha de ser lembrado. Era como se houvesse uma urgência naquilo. Talvez fosse a chave para acordar.

De repente, saindo das profundezas do inconsciente, a lembrança veio. Avassaladora. Tremendo da cabeça aos pés, todos os seus sentidos se conectaram. E, retesada cada parte de seu ser, levitou acima de todas as flores em que estava mergulhado, de todas as pessoas taciturnas, que o olhavam, lamentosamente, e partiu pela janela, finalmente, acordado.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Nem às paredes confesso de António Alvarez.

Capítulo V -  «Quentes e boas»


«Quentes e boas! Quentes e boas!» – o pregão vinha da boca de um velhote que, junto a uma motoreta, sacudia o assador de castanhas.
O mês de Novembro ia frio e os transeuntes usavam as suas roupas mais quentes. Quer grandes ou pequenos apressavam o passo na direção dos transportes que iriam apanhar de regresso a suas casas.
O Cais do Sodré apresentava-se naquele fim de tarde de inverno com uma infinidade de trânsito assustadora. Os autocarros e elétricos passavam apinhados de gente que regressava a suas casas. Os carros acendiam as luzes de presença porque o sol se escondia atrás de nuvens cinzentonas e a claridade era como que um «lusco-fusco».
João caminhava junto da sua amiga Ana Luísa em direção à estação.
- Ana, que tal umas castanhas? Apetece-te?
- Acho que sim – respondeu. – Com este friozinho vem mesmo a calhar.
- Então quantas vão ser «meus meninos»? Uma dúzia ou mais? – perguntou o velhote na esperança de mais um dinheirito que iria colocar no bolso das calças já coçadas.
- Uma dúzia se faz favor – respondeu João enquanto tirava o porta-moedas do bolso do casaco.
Ana Júlia era estudante de jornalismo e ambicionava fazer carreira no Diário de Notícias. Para isso contava com um amigo do tio que trabalhava na redação desse jornal. Tinha 22 anos e, tal como João, tinha vindo imigrada para Lisboa. A sua família era também do Alentejo, concretamente do Ciborro, uma pequena aldeia pertencente ao concelho de Montemor-o-Novo. Talvez fora isso que os fizera aproximar ou tão-só a coincidência de gostarem ambos de jornalismo.
- Estão tão quentes que até queimam! – queixou-se Ana.
- É verdade – retorquiu João.
Caminhando, foram subindo a Rua do Alecrim em direção ao Chiado.
Aquela sexta-feira era o culminar de uma semana e o início de um descanso merecido. As luzes dos candeeiros tinham-se entretanto acendido e a claridade que deles emanava dava um toque de «velha dama» à cidade.
- Ana, achas que daria para jantarmos um destes dias? Eu pago! – apressou-se a dizer.
- Porque não. Quando eu tiver uma folga da faculdade combinamos isso – respondeu Ana, com um esboço de sorriso nos lábios.
João sentiu-se como um «miúdo pequeno» a quem alguém lhe prometera uma guloseima.

……………

Álvaro contemplava a paisagem e reparava nas casas que do outro lado do rio iam aparecendo como que de pirilampos se tratassem. Quase não dava conta do cigarro que ia queimando no cinzeiro do parapeito da janela.
Entretanto, o seu pensamento ia voando por um passado ainda recente. O dar a mão ao João era das melhores coisas que fizera na vida. Quem lhe dera a ele, quando ali tinha chegado, ter havido alguém que lhe tivesse feito o mesmo. Mas a vida é mesmo isso.
Ouviu, vindo das escadas, passos de duas pessoas que vinham subindo.
- Quem será?, pensou.
- Sr. Álvaro, dá licença que a minha amiga Ana Júlia entre?
- Entrem os dois com certeza. Lá fora é que não vão ficar, claro!
- Deixa-me que te apresente o Sr. Álvaro Fontes de quem já te tinha falado.
- Prazer, Sr. Álvaro. Chamo-me Ana Júlia – e esticou a mão cerimoniosamente.        
- Muito prazer, Ana! Entra e senta-te à vontade – retribuindo o cumprimento. - E tu, João, como é que foi o dia? Muito trabalho?
- Menos mal, Sr. Álvaro. A «rotativa» avariou mas o mecânico conseguiu resolver o problema.
Ali reunidos, em pleno «coração» da cidade, três alentejanos que tinham «fugido» da província e que procuravam o seu futuro na capital. Tal como eles, muitos outros buscavam o «el dorado» e uma vida melhor. O futuro seria o que fosse. 

(Continua)