terça-feira, 20 de maio de 2014

Impressões à vista desarmada de Cristina Barbosa



O céu tremeu sobre a sua cabeça. Não tardava muito, pensou ele, seriam dois estranhos. Duas pessoas com um longo passado de união, que, de um momento para o outro, se tornavam verdadeiros desconhecidos. Não de repente, na verdade. Era um fio que há muito vinham tecendo, cada um para seu lado. O fio era de ambos, mas estava quase, quase a romper-se.
A mulher, Amélia, ao seu lado, calou-se por momentos. Percebeu-o muito pensativo e angustiado. Ouviu a queixa dele sobre uma amizade que parecia desgastar-se, o pensamento verbalizado.
Quando eram mais novos, o treinador disse-lhes, uma vez, que eram uma família. “Amigos-irmãos, assim, uma só palavra, ouviram?” As palavras ecoavam na cabeça de Cândido. Eram só mais duas pessoas que, com o passar dos anos, se haviam convertido ao silêncio. E, sobretudo, a uma distância cruel, que crescia ainda mais, a cada dia. Não havia, pensou Cândido, forma de voltar atrás. Como a pedra atirada. Exemplo tão banal e banalizado, mas válido. Cada um trilhava agora o seu caminho, de modo isolado. Cândido, mesmo assim, não conseguia deixar de lamentar. Não compreendia aquela ansiedade, mas conseguia sentir um espaço vazio que havia dentro de si.
Cândido conduzia. Trovejava. “Como se não houvesse amanhã”, pensou. Chovia. Pouco, no início. Amélia queixava-se sempre que chovia assim. Como naquele momento:
– Que raio! Prefiro que chova tudo de uma vez, do que esta chuva miudinha! – exclamava ela.
– Estás dentro do carro – ripostava ele. – Não te faz diferença.
– Incomoda-me, mesmo assim.
– Manias – balbuciou ele.
Minutos depois, deixava Amélia no laboratório onde ela ia fazer umas análises.
– O seu nome, por favor – pediu o funcionário, educado.
– Amélia Guerra – disse ela.
– Disse-me Amália, certo? – perguntou ele, parecendo ausente.
– Errado – respondeu, de forma áspera. – O meu nome é Amélia.
– Percebi mal – desculpou-se o rapaz, nervoso.
– Pois, eu reparei.
Perto da mulher, um telemóvel tocava insistentemente. O homem, ao seu lado, estava demasiado ocupado com pensamentos parvos, talvez, mas felizmente, pensou ele, ninguém sabia em que pensava e não havia sequer meio de saber. Entretanto, levantou-se bruscamente, afastou-se e atendeu, aborrecido. Amélia já tinha reparado nele. Mesmo sentado, parecera-lhe altíssimo, e não respondia aos cumprimentos de quem por ali passava. O sobrinho mais novo de Amélia diria, certamente, que era um indivíduo estranho. Assustador também. “Que mania”, pensou ela na altura, “têm as pessoas de julgar os outros pela aparência.” Porém, também ela o fazia, tantas e tantas vezes.
– Não, não posso – respondeu o homem, secamente, a quem lhe ligara.
– Pois, não sei – continuou depois. – Falamos mais logo.
Mesmo não sendo nada consigo, Amélia sempre ficava incomodada com tanta indiferença e má disposição. O homem não parecia ser simpático. Não cabia a Amélia, contudo, fazer grandes análises. Não conhecia o homem e esse era motivo mais do que suficiente para que a sua opinião não tivesse grande validade, pensou. Embora soubesse que a primeira impressão conta imenso. Raramente se enganava. Com o marido também assim foi: uma primeira impressão que não enganava. Nesse caso, chamara-lhe amor à primeira vista. Bem vistas as coisas, tinham aspectos em comum, o amor – ou os afectos, de modo mais amplo – e as impressões.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O Desvendador de Célio Passos.


Nos recônditos de um vale profundo, onde o sol mal entra, existe uma pequena aldeia minhota. Um punhado de homens e mulheres, talvez trinta pessoas, resiste tenazmente à inevitável passagem do tempo. O lugar só se agita no verão com a vinda dos parentes da estranja ou quando um parente, ainda vivendo em terras lusitanas, lembra-se de matar saudades.
Cosme é ferreiro de nome e profissão. Como os tempos são outros, também se dedica a fazer uns biscates de outras artes: pichelaria, marcenaria e até de vedor. É um homem robusto, boa figura, de fibra, apesar dos seus 65 anos, mas tem um olhar desvendador, penetrante, incomodativo. Por isso, os seus conterrâneos apelidam-no de «bruxo». O «diacho do home» adivinha o que estamos a pensar, comentava D. Vitórinha, uma fidalga, carinhosamente assim chamada, que herdou dos pais a casa da aldeia, solarenga, em estado adiantado de degradação. A nobre, que já tinha vivido melhores dias e, agora, em que os pergaminhos se foram ribeira abaixo, acomodou-se a lidar com aquela gente, rude, mas sã. Cosme não faz alarde desse seu poder de adivinhar o que as pessoas pensam, diz ter herdado este dom da sua bisavó que dizia ser vidente. Depois dos 60 anos, diz ter atingindo a “perfeição”. Situações, e foram muitas, em que Cosme, pelo seu poder, descobriu segredos, desejos inconfessáveis, hipocrisias, mentiras, invejas, traições, mas também atos nobres e amizades sinceras. Solteirão inveterado, o seu dom deu para tirar partido das fraquezas da carne das vizinhas. Uma das últimas situações, deveras comprometedora, foi quando D. Ermelinda, viúva de longa duração, muito respeitada, que, ao passar pela forja do Cosme e ao cumprimentá-lo e olhá-lo, veio-lhe um pensamento: “ Se fosse mais nova, bem passava umas horas com o raio do homem.” Cosme deslindou o pensamento e de imediato respondeu:
 - D. Ermelinda, apesar de já não ser novo, ainda sou um homem por inteiro.
D. Ermelinda ficou vermelha como um tomate, deitou os olhos nas pedras da calçada e tão cedo não apareceu por aqueles lados. Cosme guardava um segredo. Constava que, em local bem recatado, tinha um cofre cheio de libras e moedas em ouro. Como não tinha outros haveres relevantes, dizia que era a herança que deixava ao filho que trabalhava em França. Certo dia, teve a visita, inesperada, do sobrinho Arturzinho, que vivia numa cidade costeira e cuja reputação não era das mais brilhantes. O sobrinho, sabendo dos poderes do tio, usava sempre, como precaução,
óculos escuros. Dizia que estava com saudades da terra. Cosme não acreditou. Mas, tantas vezes o cântaro vai à fonte..., que um dia apanhou Arturzinho desprevenido, sem óculos, olhou-o nos olhos e, a razão da visita, deslindou-se: “Aonde é que o velho terá escondido o cofre?” Cosme não se mostrou surpreendido, sabendo as dificuldades e enrascadas em que Arturzinho andava sempre metido. Não mudou o sítio do cofre, mas fez uma mudança no seu conteúdo. Encheu uma saca com as libras e as moedas de ouro e foi enterrá-la longe de casa, junto a um castanheiro centenário. Aproveitando uma rara saída noturna do tio e quando o silêncio se abateu sobre a casa, Arturzinho começou a investigação. Foi direto a alguns dos lugares secretos que sabia, por ter visto o tio utilizá-los. A pedra que se deslocava junto à lareira; a tábua do soalho da sala que estava meia solta, ou o buraco na parede por detrás do relógio. E foi logo à primeira. O famigerado cofre estava na tal pedra que se deslocava junto à lareira. A excitação de Arturzinho era enorme. A desilusão foi do mesmo tamanho: só cartas antigas, recortes de jornais, cartas de jogar, algumas moedas do tempo dos reis e um pião que se lembrava ter brincado com ele. Frustrado, arrumou tudo no mesmo sítio, não se despediu do tio e, pela calada da noite, abandonou a casa.     
Cosme andava triste. Não tinha vida própria. Passava os dias a desvendar pensamentos, alheios, da gente da terra, e a ligar aos acontecimentos ao quotidiano, a intrometer-se, involuntariamente, em assuntos que não lhe diziam respeito. Sabia de coisas graves, mas como não era autoridade não podia atuar. O sofrimento começou a consumi-lo. Decidiu não sair de casa, não ir à tasca do Manel, passava pouco tempo na forja, recusou serviços, nem à missa ia. As pessoas da vila estranharam esta atitude, mas até ficaram satisfeitas, andavam mais sossegadas. Decidiu ir falar ao convento de frades existente lá do outro lado da serra. Pediu-lhes se podia tomar conta da horta e do jardim em troca de alojamento e comida, para remissão dos seus pecados. Foi aceite. Cosme não ficou preocupado com os seus dons, porque os pensamentos dos frades, de certeza, eram todos virados para o espiritual e para o divino. Afinal, descobriu que não era bem assim. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

História de criança de Eliane F.C.Lima.


Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ - Brasil)

Ao ver minha neta, penso que memória da infância não é coisa em que se confie. As casas enormes de então, revistas quando adulta, diminuem muito.
Fomos uma vez à casa de uma tal Deolinda. Portas enormes. Algumas divididas em quatro: abre-se na vertical ou na horizontal. Encanto dos olhos, imaginação à solta. Comadres, cotovelos apoiados, conversando.
Cozinha imensa, azulejos fiéis ao nome, azuis e brancos, todos desenhados. Ouvi a palavra “coloniais”. Uma mesa grande, de madeira grossa. Filtro grandão, de barro. Moraria ali um gigante?  
A dona da casa, mostrando tudo, levou-nos ao segundo andar. Num cômodo de santos, um oratório, muitas estátuas infelizes, olhos de sofrimento. No chão, do meu tamanho, um Santo Antônio. Achei belo ou tive medo, não sei.
E num quarto trancado, a dona murmurou: “Esse não se abre, sabe.” Mamãe parece que sabia. Eu, que não, fiquei morrendo de curiosidade. O que haveria ali? Vi que a anfitrioa e mamãe caminhavam amortecendo os passos. Imaginei logo um ser ameaçador, trancado. Diminuí o andar para ver se ouvia algum ruído incomum. Mamãe olhou para mim com o olhar que os pais sabiam dar antigamente.
Embaixo, mesa da sala, toalha de linho e cheirosa, tivemos um lanche dos deuses. Já satisfeita, a gula não acabava, vendo cada coisa melhor do que a outra. Mamãe caprichou no olhar de novo, mas Deolinda e sua mãe, uma avó de filme, não deixaram mamãe brigar. Envaidecidas por verem que serviam delícias, me incentivavam. Parece que não recebiam visitas com frequência. O que era incompreensível. Tudo ali era bom. Elas muito agradáveis. Mas eu achava que os olhos das duas se pareciam com os dos santos lá de cima, embora as bocas sorrissem e falassem palavras amenas.
Terminado o lanche, fomos para a sala de estar, sofás antigos e paninhos de croché sobre as banquetas e móveis.
Sentadas, as adultas retomaram a conversa. Quando eu disse alguma coisa engraçada, dessas que só as crianças sabem dizer, todas riram alto. Nesse momento, um barulho ensurdecedor começou lá em cima. Pés batiam no chão com força e na porta, além de urros lancinantes. Não sei até hoje se era homem ou mulher. Silêncio absoluto, no primeiro momento, as duas senhoras ficaram vermelhas e sem ação. Eram a vergonha encarnada. Mamãe, bem prática, olhou pela janela e viu papai já esperando naquele carro antigo. Tinha sido uma tarde e tanto, disse consoladora. Esperava as duas em nossa casa. Beijamo-nos todas.
Papai, cabeça na janela: “Acabei de chegar, já ia chamar.” Muda, me joguei no carro, coração aos pulos. Bem que eu sabia. Ali havia uma lembrança para o resto da vida.

Agradeço ao site a foto. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Não era uma escadaria qualquer de Helena João.


Aquela escadaria de traquinices, ladeada por um corrimão de travessuras, não era uma escadaria qualquer. Poderia, erradamente, pensar-se que uma escadaria tem como fito universal servir de ligação entre pisos. Ser somente o meio de alcançarmos um piso superior, quando estamos cá em baixo, ou descermos ao piso de baixo, se estivermos lá em cima. Isso até pode ser verdade para a maioria das escadarias, mas, no que àquela diz respeito, não.
Aquela escadaria que habitava a casa antiga da avó servia para muito mais. Nela fui polícia, subindo os degraus quatro a quatro atrás do larápio que roubou as joias da coroa britânica. E também fui ladrão, escorregando pelo corrimão abaixo, a fugir do polícia. Naquela escadaria fui pescador. Um nagalho comprido com um clipe desdobrado na ponta eram as ferramentas ideais para, do alto da escadaria, alcançar o chaveiro e, uma a uma, pescar todas as chaves sem ninguém dar por nada. E era vital que, em especial, a avó não desse por nada.
Havia ali chaves importantes, achava eu. Chaves que abriam portas secretas e baús de tesouros. A avó julgava tratarem-se apenas das chaves de casa de todos os elementos da família. As cópias suplentes, as chaves de segurança, caso alguém um dia ficasse fechado cá fora. Mas o que sabe uma avó?

Naquela escadaria montei uma armadilha para ursos. Coisa elaborada a minha armadilha. Uma corda presa, lá em cima no corrimão do corredor, que caía até ao chão do piso inferior. Aí fechava-se em nó de laçada, disfarçado por folhas secas e pauzinhos. É claro que agora, à distância dos anos, percebo que folhas e pauzinhos não fossem a camuflagem ideal para uma corda pousada num chão de madeira envernizada. E que se calhar foi por isso que a avó nunca tropeçou na corda. Dava sempre um saltinho por cima dela. E eu ficava ali horas esquecidas, ou minutos, a segurar a corda na outra ponta, à espera que o urso lá pousasse a pata, para eu puxar a corda e deixar o animal pendurado de cabeça para baixo. Coisa que também nunca aconteceu. Ao que parece não há relatos de ursos à solta na cidade do Porto, nem há trinta anos, nem agora. Por isso tu, meu filho, sobe as escadas quatro a quatro, escorrega pelo corrimão, pesca chaves de tesouros com nagalhos e clipes, mas não montes armadilhas para ursos. Inventa outra traquinice qualquer, mas não montes a armadilha. É que a avó é velhinha e pode tropeçar e cair.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quando o afecto cai em desuso… de Cristina Barbosa.


Pedia-lhe, ali mesmo, calma. Um pouco mais de calma. Que parasse, que não queria ouvi-lo mais. Ele fingia não a escutar, continuava a reclamar, queria todas as atenções voltadas para si.
– Quem põe a comida na mesa? – perguntou-lhe, baixo. Respirava rancor, sentiu ela.
Ela, empurrada para o desemprego há meses, soluçava. Suportava filas e filas no centro de emprego, mas de nada lhe adiantava.
– Quem é? – repetiu ele, exaltado.
Ali perto, as pessoas, absortas em conversas mais ou menos tontas, mergulhadas nas notícias que o jornal trazia, não pareciam ouvir o que quer que fosse. Só um homem, Rogério, ali mesmo ao lado, se apercebia de tudo. Pediu um segundo café. Depois, olhou o outro homem, que se aproximava ainda mais da mulher, para lhe perguntar pela terceira vez, enquanto lhe agarrava o pulso com força:
– Quem é?
A mulher, contida, não tinha deixado ainda de soluçar. Desejava que os outros à sua volta não ouvissem o que ela ouvia diariamente. Horrores repetidos, medo. Uma vida que a sufocava. Não queria que houvesse testemunhas de nada.
O café de Rogério, sobre a mesa, arrefecia. O terceiro da manhã, quarto talvez. Não faltava quem lhe sugerisse que bebesse menos: “Tem cuidado, faz-te mal beber tantos cafés por dia.” De nada adiantava, porém. Era um verdadeiro dependente da bebida. Imaginava-se até numa qualquer reunião de dependentes de café anónimos. “Olá, o meu nome é Rogério e, desde que me conheço, sou dependente do café.” A vaga ideia daquela situação fê-lo sorrir discretamente. Mas nem por isso prestou menos atenção ao que se passava na mesa ao lado da sua. Queria ajudar, contudo, sentia-se um verdadeiro cobarde, sem coragem para enfrentar o outro homem. Era um problema alheio, bem o sabia, mas cruzava-se assim na sua vida, metera-se pela sua leitura dentro, sem que o pudesse impedir.
O homem, entretanto, saiu, sem sequer se despedir. A mulher soluçava ainda. Baixinho, não queria que as pessoas reparassem. Rogério tomou coragem, embora não quisesse invadir assim a intimidade daquela mulher. Não lhe pediu calma, disse-lhe para agir:
É jovem, bonita, tem uma vida pela frente.
Ela, tímida, sorriu. Há já muito tempo que nada nem ninguém a fazia sorrir, pouco que fosse.
Rogério olhou depois a chávena de café frio sobre a mesa. Como havia dependências bem piores que a sua, pensou. A mulher da mesa ao lado era dependente daquele homem. Era-lhe, aliás, submissa. Ou, pelo menos, parecia e isso já não era bom.
– Há amores que matam – disse-lhe Rogério, mesmo antes de sair. Queria fazê-la reflectir. Ela nada respondeu.
Na rua, o vento uivava. Como semanas antes, numa manhã sem luz. Tentara ir às compras, mas o empurrão do vento depressa o fez desistir, não havia dado ainda meia dúzia de passos. Viu árvores caídas, carros acidentados. Passadas algumas semanas, era a vida daquela mulher que lhe parecia acidentada. E ela, prestes a cair, a baixar os braços, a deixar-se desistir. Quem lhe dera a si poder não o permitir. Mas quem era ele para sugerir o que quer que fosse, para interferir na vida de alguém que nem sequer conhecia?

Já a mulher, pede tempo ao tempo, mas o tempo parece fugir-lhe.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um Modo de Vida de Célio Passos.


Rafael Pinto desligou o telemóvel. A chamada era da mãe, que queria saber como tinha corrido a entrevista. Tinha compulsivamente respondido a um anúncio para repositor num hipermercado, condição imposta pelos pais para continuar a viver debaixo do mesmo teto. Já viveu do subsídio de desemprego, várias vezes, situação que acha deveras interessante. Quando se aproximava a data do fim do subsídio, arranjava um trabalhinho que desse para depois arranjar novo subsídio. É assim o mundo de Rafael. Contudo, em casa os pais azucrinavam-lhe a cabeça. Durante o pouco tempo que passava em casa, o pai, principalmente, adjetivava o filho de preguiçoso, indolente, inútil, mandrião e outros impropérios.
Escarrapachado no sofá da sala de jantar, com os pés em cima da mesa de vidro, Rafael, com ar desmazelado, ouvia o noticiário de um dos canais nacionais. O pivô do telejornal referia a alta taxa de desemprego, e que «uma saída para os desempregados era a emigração». A notícia entrou-lhe por um ouvido e ficou presa nas circunvalações cerebrais; não saiu pelo outro ouvido, como era habitual. Emigrar? Porquê que nunca pensei nisso? Era uma solução! Deixava de ouvir os velhos, visitava novos países e, depois de abanar a árvore das patacas, regressava ao lar como um senhor. E para onde hei de emigrar? Claro! Brasil. O Lula pôs aquele país a andar; aquilo está a dar grana, há emprego à ganância e bem pago. O Tó Miranda e o Zé Bicicleta foram há um ano para lá e já se orientaram, nem pensam em voltar. Durante a semana a ideia foi germinando. Na sexta-feira, que era dia de ir para a brincadeira, Rafael produziu-se: colocou umas calças brancas, uma t-shirt com tons de verde e amarelo e foi ter com o grupo habitual.
- Oi galera. Hoje não tou para aporrinhações, nada de sapatonas, tou noutra. Não quero ser engabelado, nada de sacanagem comigo não! Caras, me chamem de Rafinho!
O pessoal ficou espantando com o ar carioca e o sotaque brasileiro, e a pergunta foi óbvia: o que se passa Rafael?
-Na minha cuca está zanzando um barato. Vou para o Braziu!
O pessoal ficou muito surpreso com esta atitude atrevida do amigo, mas nada disseram, apesar de soltarem uns risos mal disfarçados. O tempo escorria e Rafael continuava a repositar, e deixou de falar no sotaque brasileiro. Os amigos nada questionaram. Certa sexta-feira Rafael chegou ao local de encontro, vestia umas calças de bombazina escuras e camisola de gola alta, apesar de o tempo não justificar tais adereços.
- God kveld. Er alt i orden?
Os amigos ficaram aparvalhados. Perguntaram-lhe o que aquilo queria dizer. Rafael, já com um ar nórdico, disse que era norueguês.
- Afinal, aquilo no Brasil, não era assim tão fácil. Não era terra para eu, o calor é muito. A Noruega, essa sim, será o meu destino. Um país com um nível de vida dos mais elevados do mundo, a condizer com o que pretendo. Um amigo de escola que está em Oslo a tirar o doutoramento disse-me que arranjava um emprego - afirmava Rafael.
As sextas-feiras foram-se passando e Rafael voltou a vestir as velhas calças de ganga e a t-shirt dos «Stones». Os amigos perguntaram-lhe quando é que ele ia para a Noruega. Rafael justificou que descartou a ideia, porque sofria de frieiras e o clima não era apropriado.
A conversa com os amigos passou a centrar-se no «sonho americano». Isso sim era um país para se singrar na vida. Os amigos até o ouviram, por várias vezes, numa voz tímida, a dizer num inglês a rondar a perfeição: «Yes, I can!»
Mas Rafael lá continuava a «repositar» no hipermercado, mas uma nova ideia crepitava no seu cérebro. A solução ouviu de uns políticos que sugeriam aos cidadãos desempregados, para os mais e menos habilitados, a especialização no estrangeiro; arranjar competências e depois regressar ao país. Rafael sentiu-se incluído. A única dúvida era saber em que se especializar. Mas a verdade é que Rafael desapareceu de circulação. Passados uns meses, um dos amigos viu-o a passar na Baixa, todo produzido como se fosse para um casamento. Numa tentativa inútil de fugir ao encontro do amigo, foi confrontado a explicar a razão daquele preparo e qual era o seu novo modo de vida. Metendo os pés pelas mãos, lá foi explicando o que andava a fazer, e assegurou-lhe que o emprego tinha muito futuro. O amigo estranhou, mas perguntou-lhe se tinha que andar assim vestido. Respondeu que fazia parte da profissão. «E como que se chama essa indumentária?», perguntou o amigo. Com ar um pouco contrafeito, Rafael lá foi dizendo: «Fraque.»*   


* Homem do fraque = cobranças difíceis.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Final de Verão de Manuel Vasquez.


No final das férias vem um tempo meio quente e fresco. Em geral sempre me habituei a ver este tempo com alegria. Repousante tempo de fim de Verão.
Em tempos, quando andava na escola, sabia que o fim das férias grandes estava próximo e o cheiro dos cadernos novos, dos lápis de cores, as canetas, a mala, enfim o regresso às carteiras, rever os colegas, aprender e também sofrer.
Hoje, o trabalho, aturar cada chefe que me dá vontade de dizer: “Não tens mais ninguém a quem que chatear.”
Mas quero contar algo deste final de Verão e fim de férias. Estamos no fim de Setembro e o Verão, esse, diz adeus. As noites esfriam, as madrugadas obrigam-nos a puxar a cobertura na cama e a companhia tão boa nos aconchega, enfim.
Ao entardecer, encontram-se amigos e gentes à beira de um porto piscatório que conheço e que encontro prazer ouvindo antigas histórias e contos de pasmar. Será mais que Nau Catrineta, mas na tasca do Zé Pescador bebe --se um copo de vinho branco ou tinto e come-
-se uns tremoços salgados, umas favas salgadas secas, um peixe frito, ou um queijito da cunhada do monte. O Zé, homem do mar, tinha no rosto cores, traços e cicatrizes de quem viu muito: peixe, ondas, mar e terror. Nas suas brancas patilhas, no seu bigode farto e no barrete preto sentia-se que viu tanto e muito mais do que qualquer dos mortais. Sabia que tinha, por diversas vezes, visto a morte sobressair e alguém querido e companheiro partir. Ele sabia de mar, de marés, de peixe, de vento e até de estações do ano, ganhos e perdas.
Um dia, quando ele estava de feição, ouvi-o contar um conto do mar, de antigo pescar, quase me lembrando do Velho e o Mar de Hemingway, pois ele sabia que o mar dava e tirava e com quem conversava numa chata ou num barco de maior ou menor porte.

«Um dia — disse — estava eu e os meus irmãos da faina, redes aprumadas, barco pronto e já em mar solto e largo, quando se levantou uma tempestade. Tempestade daquelas que nem se esquece, mesmo vivo ou morto. A água, as ondas, o vento, o céu cinzento e preto, nem Sol, nem Lua, íamos sofrer, quem sabe?, morrer. Ondas se levantavam, molhados estávamos, mas o que sentíamos era medo, gritávamos por Jesus — «Maria, salva-nos por favor.» Faziam-se promessas, lembravam-se pais, filhos e mulheres, paixões, lágrimas e horror de ir talvez morrer. O barco exigia mestria e o mestre respondia. O motor, esse, ainda nem falhava, mas a força daquele mar, ai que dor Senhor. O mestre mandou atirar tudo pela borda fora — redes, peixe e tudo o mais — mas queríamos viver. Ninguém tinha medo, ninguém tinha receio, mas todos o tínhamos dentro e sofríamos ao saber o que poderia acontecer. Dor, luta, e já tínhamos visto corpos de companheiros e sabíamos o que mais viria. Coletes vestidos, botas tiradas, ai meu Deus, dói-me aqui mesmo no peito. De repente o barco quebrou e afundou-se. Bóias lançadas, tudo gritava: «Vamos, vamos gente, gosto e força, fé e Deus nos deixará sobreviver». A descrição subia de tom e nem se piava nesse dia na Tasca, todos sabíamos que aquilo que estava a deixar tradição, herança e ainda mais era a vida e a morte de alguém.
O nosso prezado amigo, que estava vivo, mas muito sofrido, contou-nos que, entre lágrimas e dor, suspiros e mais, em mar encapelado e sublime, ele e os outros viram a “morte”. Todos na água, todos lívidos e águas revoltas, diziam: «Vão morrer.» Rezava-se com o coração, pedia-se perdão, pedia-se por tudo e por todos, mas a vida ali estava por um fio. O Quim foi abaixo, perdeu os sentidos e todos gritavam: «Força Quim, olha a tua mãe.» Ele, fraco e de carnes magras, foi-se abaixo e perdeu a vida ali mesmo. Silêncio entre ruídos de vento tenebroso. Quim era filho da terra, era órfão de pai morto também no mar, a sua mãe criou-o e a mais cinco filhos. A Dona Miquelina, hoje tão velha, não iria aguentar e nós talvez também iríamos morrer ali, em mar de sonho e terror. Na penumbra da noite, na escuridão assombrada, surgiu uma luz, seria Deus a pedir a nossa presença, o nosso juízo, ou seria a salvação.
Um barco cinzento-escuro, de homens a gritar: «Aguentem, que os vamos socorrer.» Tudo gritava e até o chão que era mar parecia querer nos tragar.
Ai dor, ai sofrer de pescador, dar mais este brindar à vida. A marinha de guerra foi nesse dia a nossa salvação e conseguimos levar o corpo do Quim.
Entre choro e calor da manta e capote, bebida quente, chorávamos e dizíamos: «Arre porra de mar, nossa alegria e morte.»
Que contar mais o que se passou nesse dia na tal tasca? Gerou-se amizade e respeito, chorou-se, bebeu-se à saúde dos vivos e lembrou-se quem morreu. Ser pescador é mais que tirar peixe do mar, é saber, é também sofrer.
Um dia se passarem pela Tasca do Zé, por favor, não digam que a descrição é e será sempre de dor e nada de rancor, mas digo-vos, quando vou comprar peixe, lembro-me que, para além do aspecto do mesmo, se está fresco ou bom, terá por certo homens e mulheres, crianças e velhos com alguma dor.