segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nem às paredes confesso de António Alvarez


Capítulo III – Loucos de Lisboa

Iam saindo do barco em fila indiana quais “formigas no carreiro”. Cá fora do lado esquerdo da gare marítima avistava-se a Praça do Comércio. Os táxis perfilavam-se à espera de alguns clientes que fossem para mais longe. Os seus condutores, junto das bagageiras abertas, esperavam pacientemente para colocarem alguma mala que os clientes pudessem trazer. O João, de mochila às costas, olhava com cara de espanto a multidão bem como a ida e vinda dos autocarros e eléctricos que cruzavam a avenida. Álvaro olhou para trás e reparou nos “olhos cheios” da grande cidade do seu companheiro de viagem.
- Nunca tinhas visto tanta gente… Não é João?
- É verdade Sr. Álvaro! Isto é um “mundo” – respondeu-lhe com um tom de voz extasiada. – Já tinha visto na televisão e já me tinham falado mas – e inspirou – isto é muito diferente do que eu imaginara…
- Bom, rapaz, daqui ao Largo de Camões faz-se bem a pé. Mas afinal para onde é que vais concretamente?
- Vou para uma pensão que fica ao pé do Largo de Camões.
 Parou e tirou um papel dentro do bolso esquerdo: “Pensão Casa de S. Mamede”, que fica na Rua da Escola Politécnica.
- Bom! Vamos que ter de andar mais um pouco. Prepara-te, porque, a determinada altura, é sempre a subir.
João olhou para o Cais das Colunas, onde as águas do Tejo subiam até meio da escadaria. O mar fascinava-o. Ainda que não fosse propriamente o mar, era uma imensidão de água até à Outra Banda. Os barcos, de todos os tipos, atravessavam aquela “avenida” em várias direcções. Não tinha nada a ver com o rio Almansor, onde em criança tinha brincado lá em Montemor-o-Novo. Lembrava-se agora dos seus companheiros de infância. O Quim, filho do “Sor” Zé Padeiro, e o Chico Cebola, com quem brincava junto ao “campo da feira”. Esses “tempos” já lá iam... Agora estava em Lisboa para começar uma nova vida. Iria conhecer novas pessoas, fazer novos amigos e ter um emprego. Era essa a sua grande expectativa...
Tinham atravessado a avenida e agora cruzavam a praça junto à estátua de D. José I. O dia estava luminoso apesar do “friozinho” que se fazia sentir. Lado a lado iam em direcção à Rua do Ouro. O barulho dos autocarros, dos automóveis e das motos quase que os levava a não falarem muito. Passaram por um cego que tocava acordeão. João, tendo ficado a olhar para trás, esbarrou num homem que vinha em sentido contrário.
- Eh pá! Vê lá por onde andas – disse-lhe o transeunte, que seguiu o seu caminho.
- Desculpe! Foi sem querer… — respondeu-lhe o mais educadamente possível.
- João, aqui está na cidade. Toda a gente anda no “corre-corre” – disse Álvaro sorrindo.
– Depressa te vais habituar.
A rua fervilhava de gente que se cruzava num vaivém apressado. O João caminhava lado a lado com Álvaro e, mentalmente, comparava a sua terra com a grande cidade. Aí todos se cumprimentavam e o “andamento” era bastante mais pausado. Lembrava-se quando miúdo das brincadeiras que tinham na rua. Ali de certeza seria impossível os miúdos brincarem “cá fora”.
- Então passa-se alguma coisa?
- O quê Sr. Álvaro?
- Vais tão sisudo que eu perguntei se tens alguma coisa.
- Ah não... Não é nada – respondeu. – Estava cá a magicar com os meus botões...
- Se calhar era melhor pararmos aí numa “tasca” e comermos alguma coisa. Ou tens hora marcada de chegar?
- Não tenho. E realmente também já estou a sentir alguma “lambrica” no estômago.
- Óptimo! Então conheço ali uma tasquinha no Bairro Alto que se come divinalmente. Chama-se As Cegonhas.
Iam subindo a Rua do Carmo em direcção ao Chiado. Mais um pouco e estariam a almoçar descansados da viagem.
- “Olhó 27! Anda amanhã à roda” – o pregão do cauteleiro sobrepunha-se ao barulho envolvente. Um “chiar” de travões a fundo e um “baque” fez voltá-los a cabeça donde há pouco viera a voz ouvida. O corpo deitado inanimado no chão rapidamente juntara à sua volta os transeuntes curiosos. Alguém clamava: “Chamem o 115 depressa!” Álvaro entrou nos Armazéns do Grandela e pediu à empregada do balcão da recepção que chamassem a ambulância. João ficara como que paralisado a olhar a cena. Da Valentim de Carvalho, mesmo em frente, saía o som da música Chico Fininho, de Rui Veloso. Dois jovens olhavam a montra com os últimos sucessos da música. Ao lado deles um velho de chapéu na mão pedia esmola quase encostado aos seus pés...
- Onde eu me vim meter!... – disse em sussurro.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Uma História Verídica em Terras Africanas de Luis Fernandes



No início da década de 50, um jovem ribatejano de família de agricultores abastados quis contrariar o seu fado e rumar a terras africanas. O Zé Tinha acabado o seu curso superior ultramarino e preparava-se para abraçar a carreira administrativa no ultramar. O primeiro dos seus destinos foi a Guiné. Muitas peripécias enriqueceram o seu dia-a-dia e a sua irreverência valeu-lhe, nas três décadas seguintes, mais de uma dezena de processos disciplinares cuja defesa tomou sempre a seu cargo, tendo ganho todos eles. Mas foram esses mesmos processos que o empurraram por diversas vezes para locais recônditos para onde só eram destacados funcionários por meros castigos.

Quando iniciou a sua carreira começou por ser chefe de posto, mas rapidamente progrediu até à condição de inspector administrativo. Foi na condição de administrador que lhe competia também a função de juiz e que desempenhava com bastante relutância. Ele próprio afirmou mais tarde que tinha muito medo dos tribunais e da justiça dos homens citando por diversas vezes que “seria cómico, se não fosse trágico, um homem julgar outro homem”.

Certo dia chegou-lhe ao seu posto administrativo uma queixa de um nativo que acusava outro de o ter agredido à catanada provocando-lhe diversos golpes que o obrigaram a recorrer aos deficitários serviços de saúde que existiam naquela altura. O Zé ordenou a dois dos seus sipaios que procurassem o acusado, que respondia pelo nome de Alcides, e o trouxessem à sua presença para interrogatório e possível julgamento.

Foi breve o tempo que demoraram a aparecer no posto com o nativo contrariado mas que não ofereceu qualquer resistência e logo de seguida iniciou-se a investigação. Não foram necessárias muitas horas para o administrador concluir que o ataque a catana se tinha tratado de uma reacção do agressor ao furto de um saco de sal perpetrado pelo queixoso, o que, não desculpabilizando a agressão, atenuava em muito a culpa do Alcides – naquele tempo o sal era um bem raro que servia muitas vezes de moeda de troca em mercados ou como forma de remuneração por trabalhos prestados ao governo ultramarino.  

Ao Zé não restava dúvidas que o Alcides teria de ser punido de alguma forma e a prisão, obviamente por um curto período de meses, seria a pena mais adequada. Em conversa com Alcides o administrador ficou a saber que ele era o sustento de uma família composta por duas mulheres doentes e seis filhos ainda muito pequenos que pouco ou nada o ajudariam nas lides agrícolas e se limitavam a tomar conta dos três ou quatro animais que possuía. Ora encontravam-se exactamente na época das colheitas e o Zé sabia que se prendesse o Alcides nem que fosse por um par de meses isso resultaria numa tragédia para aquela família que muito provavelmente passaria fome em todo o ano seguinte.      

A decisão não era fácil de tomar e o peso na consciência não parava de atormentar o administrador dia e noite. Naquele período de espera até à tomada de decisão Alcides permaneceu triste e cabisbaixo ao canto da cela que lhe tinham destinado e a porta era guardada por um dos sipaios. No seu entendimento tinha sido injustiçado, uma vez que tinha apenas reagido de forma, para ele, natural face ao roubo de um bem tão precioso. Por outro lado Alcides conhecia já um pouco do sistema de justiça dos homens brancos e sabia que o administrador estava a agir dentro da lei e que, apesar de ser recente a sua presença naquele posto administrativo, o administrador Zé tinha já fama de pessoa dura mas justa.

Ao terceiro dia sem dormir convenientemente Zé tomou uma decisão. A sua decisão não se enquadrava de todo no quadro legislativo ultramarino, mas não suportava a ideia de levar aquela família a uma situação de fome, assim como não podia revelar perante o resto da população que o seu humanismo representava uma fraqueza que o podia deixar em maus lençóis em situações futuras. Mas essa decisão tinha de ter o acordo e o compromisso de Alcides.

Assim, naquela manhã, depois de matabichar, dirigiu-se rapidamente ao posto com o intuito de resolver a situação de uma vez por todas. Mandou chamar Alcides para lhe revelar que dali para a frente estaria apenas obrigado a permanecer na cela durante a noite. De dia ficava liberto para trabalhar, mas ao pôr-do-sol teria de voltar invariavelmente ao posto e assumir a condição de recluso.  

Alcides acatou alegremente a decisão e cumpriu rigorosamente a sua pena ao ponto de a partir da segunda semana não ser sequer preciso que o guarda o ficasse a vigiar e ao fim de duas semanas o administrador entregou-lhe a chave da cela, sendo o Alcides a abrir a porta todas as manhãs e a fechá-la ao fim do dia.

Desta forma o jovem administrador ganhou um amigo para a vida e o respeito da restante população. No entanto, a sua conduta foi notícia que rapidamente se espalhou pelos restantes postos administrativos e chegou aos ouvidos do seu superior, valendo-lhe um dos seus processos disciplinares.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A última folha de Célio Passos


Sebastião, como era seu costume, levantou-se cedo. Foi espreitar pela janela da sala que dava para o pomar para verificar se a última folha do diospireiro tinha caído. Continuava teimosamente há mais de duas semanas presa à árvore. Algo de enigmático se passava. Até o gato Alcibíades, que honrava o nome de um guerreiro de antanho, não entendia, no seu pensamento felino, a razão de tal fenómeno. Tudo o resto eram dióspiros maduros, dependurados como lâmpadas, alguns já tinham caído e outros eram apanhados com muita ternura por Sebastião para oferecer à sua patroa. 
Sebastião tinha sido empregado, motorista, jardineiro, e tudo o mais que fosse preciso fazer, para satisfazer as ordens do patrão, o Eng.º Rogério Morgado, já falecido, pai de Teresinha Morgado, filha única e herdeira da quinta com uma bela e enorme mansão. Vivia com a sua inseparável empregada, Colorinda, depois da morte do marido. Teresinha já tinha a venerável idade de 82 anos, tantos como Sebastião.
O pai gostava imenso de Sebastião, criou-o desde quase de nascença, após a morte trágica dos pais, e considerava-o como um filho. Teresinha teve que jurar, junto ao leito de morte do pai, que nunca abandonaria Sebastião.
Sebastião vivia no que chamavam “a casa do caseiro”, apesar de nunca ter existido caseiro. A casa situava-se no extremo de uma alameda de terra batida, de cerca cinquenta metros, rodeada de sebes, à entrada da quinta e defronte para a moradia. Era constituída por um rés-do-chão, que servia para arrumar as alfaias e produtos agrícolas, e na parte superior constava de um quarto, uma pequena cozinha, um rudimentar quarto de banho, uma sala comum, que servia para as refeições, mas igualmente para repouso, tudo isto ao longo de uma varanda com telhado, um sítio espectacular para desfrutar a beleza da quinta. Ao lado da casa havia uma pequena horta onde Sebastião plantava produtos agrícolas de primeira necessidade. Por detrás da casa havia um pomar, com árvores de fruta de várias qualidades, em especial um diospireiro, pelo qual nutria um especial carinho, plantado, já lá vai um bom par de anos, por Teresinha, com sua ajuda. Era a árvore preferida dos dois.
O ritual matinal de Sebastião consistia sempre no mesmo. Depois de se lavar, ia à cozinha, tomava a sua cevada com leite e comia uma peça de fruta. Em seguida ia até à horta e fazia algum trabalho que fosse necessário. Depois perto do meio-dia, entrava na casa, lavava-se e ia até à sala e no velho gira-discos, oferta de Teresinha, colocava no prato um disco de Tony de Matos — Vendaval. Ia para a janela a olhar para a quinta e para a mansão, esperando por Teresinha. 
Tony de Matos, a voz romântica que tanto seduziu gerações de portugueses; Sebastião foi um deles. Tony cantava e Sebastião suspirava:
             O vendaval passou, nada mais resta
                        A nau do meu amor tem outro rumo
                                                Igual a tudo aquilo que não presta
                                                O amor que me prendeu desfez-se em fumo 
                                       ……………………………………………………
                                                Junto da cais ficou a tua imagem...
                                                 imagem... imagem... imagem...

Aqui, o disco encravava e o cantor não avançava na canção. Sebastião levantava a agulha e colocava-a um pouco mais à frente. Esta “ imagem”, que se repetia, era uma imagem que Sebastião guardava na memória. Uma imagem que o acompanhou toda a sua vida, quando a única pessoa que amou não estava presente. No passado, apesar da diferença social, ainda teve vãs esperanças; hoje, a paixão fora substituída por uma amizade profunda, admiração, ternura, o prazer de usufruir da sua companhia. Nunca confessou este amor, mas a pessoa que era alvo deste sentimento sabia-o.
Teresinha aparecia, acompanhada de Colorinda, no fundo da alameda. Colorinda trazia um cesto de vime e Teresinha caminhava ao seu lado, apoiada numa bengala. 
- Carpem diem, Sebastião – dizia Teresinha, quando chegava, acompanhada a meia voz por Colorinda.
- Bom dia D. Teresinha e Colorinda – respondia Sebastião.
- Trouxemos uma comida de que gostas muito e uma sopinha para logo à noite — revelava D. Teresinha.
Enquanto Sebastião comia a refeição posta na mesa de madeira por Colorinda, Teresinha sentava-se numa cadeira de balanço e pegava num livro. Era formada em Germânicas e gostava muito de alemão e latim. Lia textos em latim para Sebastião, que ouvia atentamente, apesar de não perceber nada do que ela dizia, mas por respeito não se atrevia a fechar os olhos, muito menos bocejar. Por vezes Teresinha traduzia, e foi assim que soube o significado de carpem diem. De vez em quando, lia um livro de autores portugueses: Camilo, Eça ou Júlio Dinis, enquanto Colorinda tratava das roupas de Sebastião. Este era o dia-a-dia daqueles três velhos. Por vezes, os três davam uma volta pela quinta.
Sebastião observava Teresinha. À sua mente vieram imagens que já tinham mais de sessenta anos.
“ O pai de Teresinha não autorizou que ela fosse ao baile dos finalistas do liceu. Teresinha ficou muito triste, para além do facto de que tinha começado a namoriscar o colega Vítor Guerra, que anos mais tarde fora seu marido. Teresinha pediu auxílio a Sebastião, sabendo de antemão que ele ia ajudá-la. Somente tinha que levá-la no Dodge do pai e trazê-la no fim da festa. Sairia pela janela do escritório, que era baixa, e depois Sebastião ajudava-a a entrar. Com o cuidado que a situação exigia, Sebastião retirou da garagem o automóvel no máximo silêncio, sem o ligar, empurrando-o até à alameda para ninguém ouvir. Depois foi ter com Teresinha, que estava a sair pela janela do escritório, de tal maneira que caiu nos braços de Sebastião. Ainda hoje sente aquele corpo nos seus velhos braços. Depois do baile, Sebastião ajudou-a a entrar, de novo, pela janela do escritório. Nunca ninguém soube deste atrevimento, esta cumplicidade foi um segredo que os dois guardaram, sem nunca mais falarem dele. ”
Sebastião passou toda a vida servo das vontades e caprichos de Teresinha. Não era preciso dar ordens, ao mínimo desejo, Sebastião já estava disponível ou então, mesmo antes de pedir, o desejo já estava realizado. Era uma paixão sem retorno. Quando Teresinha casou com o Dr. Vítor Guerra foi um dia triste para Sebastião; Teresinha ia pertencer a outro homem. Pelas complicadas veredas da vida, o Dr. Vítor despendia-a na estúrdia, revelou-se um mau marido; jogador, bebedor e mulherengo. Quantas vezes, a pedido de Teresinha, Sebastião ia resgatá-lo a uma mesa de jogo, ou a um antro de mulheres de vida fácil, totalmente embriagado. Quando faleceu, num desastre de viação, foi um alívio para aquela casa, apesar de o Dr. Vítor ser uma pessoa simpática, com boa formação, mas nunca esteve ao nível social e intelectual que Teresinha merecia. Nunca mais se falou daquele homem; tinha morrido mesmo para o todo sempre.
- Hoje apetece-me dar uma volta pela quinta. Quero ir ver como está a correr a vindima lá para os lados do campo do lameiro - disse Teresinha.
Sebastião mandou um trabalhador assalariado tratar da charrete que o engenheiro trouxera de uma quinta que teve no Ribatejo. Era de quatro lugares, puxada pelo Brioso, um cavalo já de certa idade, mas que cumpria muito bem a tarefa.
Sentados os três nos assentos de couro, lá foram, a passo de passeio, quinta fora. Às tantas, Teresinha, com uma voz pousada, falou:
- Falei ontem com o Dr. Queiroz, meu advogado testamenteiro, e, caso eu desapareça de um momento para o outro, a vossa situação está salvaguardada.
Sebastião e Colorinda ficaram calados e ao mesmo tempo apreensivos. Seria o pródromo de algo que se ia passar em breve? Por que motivo vinha aquela conversa à baila?
- A Teresinha sente-se mal? Está a padecer de algum mal?- perguntou Sebastião.
- Não propriamente. São oitenta e dois anos! Já não sou aquela jovem que tanto acarinhaste, Sebastião - disse Teresinha com aquela gentileza que lhe era peculiar.
Os dois ficaram muito calados e dos olhos de Sebastião ressumaram duas gotas salgadas, que disfarçadamente limpou com os dedos.
Era quase meio-dia, pela alameda ensolarada vinha somente Colorinda. O coração de Sebastião ficou apertado. Foi à janela e viu que a folha do diospireiro tinha caído. Para Sebastião era um sinal. Mal Colorinda entrou em casa, Sebastião interpelou-a:
- Por que é que a D. Teresinha não veio? – perguntou ansioso Sebastião.
- Estava maldisposta e foi-se deitar – respondeu Colorinda.
- Não me mintas Colorinda! Passa-se alguma coisa com a patroa?
- Não tem nada, só está maldisposta! – respondeu Colorinda fugindo aos olhares instigadores de Sebastião.
Sentaram-se calados. Enquanto comia, Sebastião olhava de soslaio para Colorinda e algo lhe dizia que se passava alguma coisa de grave.
Colorinda, após a refeição, disse que se tinha de ir embora, talvez a patroa precisasse dela. Meteu as marmitas da comida rapidamente na cesta, e despediu-se sem demoras. Sebastião passou o dia alterado.
Quando acordou, Sebastião sentiu que algo se passava, o seu coração assim o dizia. Foi à janela e olhou para a mansão. As janelas do quarto de D. Teresinha, da sala de jantar e da sala de estar, que àquela hora do dia estavam habitualmente abertas, encontravam-se encerradas. Esteve para se deslocar à casa da patroa, mas não teve coragem. Era perto do meio-dia e já Sebastião estava plantado à janela. Os olhos estavam pregados na alameda que conduzia à mansão de Teresinha. O inesperado aconteceu. Colorinda vinha mais uma vez sozinha. Teresinha não a acompanhava como habitualmente. Mal Colorinda entrou, Sebastião questionou:
- D. Teresinha está melhor?
Colorinda não respondeu. Colocou o almoço na mesa enquanto Sebastião insistia na pergunta.
Colorinda, com os olhos marejados de lágrimas, virou-se para Sebastião, fez uma pequena pausa e disse:
- Sebastião, D. Teresinha nunca mais voltará a esta casa.
O mundo parecia desabar. Sebastião sentou-se numa cadeira com a cabeça entre as suas rudes mãos e chorou. Na sua mente passava o filme da sua vida, cuja personagem central era Teresinha. Todos os momentos felizes, os menos felizes, desde a sua meninice, juventude, idade adulta e velhice, repassavam como se fosse tudo presente. Os pormenores mais ínfimos agigantavam-se, tomavam relevo, tomavam brilho.
Sebastião não comeu o dia todo. Sentou-se à janela, virado para a mansão de D. Teresinha, que, sendo já noite, estava toda iluminada. Os carros entravam na quinta e estacionavam junto à casa. Nunca se tinha observado tantos carros como naquele dia. Sebastião não teve força nem coragem de ir ver Teresinha. Queria guardar na sua mente a imagem dela viva.  
Amanheceu e Sebastião continuava colado à janela. Por volta das onze horas, o cortejo fúnebre saiu da quinta rumo ao cemitério. Sebastião não foi. Com dificuldade, levantou-se, foi à sala e colocou no gira-discos o disco de Tony de Matos. Voltou de novo para a janela e encostou a cabeça à vidraça a olhar para o quarto de Teresinha. A quinta estava deserta, tal como a sua alma. Na sala silenciosa só se ouvia o zunido das varejeiras. A música do vendaval, como de costume, encravou. Tony de Matos repetia incessantemente «imagem... imagem... imagem». Sebastião não se levantou, alguém viria para desligar o gira-discos. Uma última estrelinha vagueava na faixa do horizonte. Sebastião susteve no seu coração aquela imagem e caiu como a última folha diospireiro.
                                                                                                       Fim.   

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Nem às paredes confesso de António Alvarez


Capítulo II – Kurikutela



O barco não era o mesmo... Nem a viagem... Nem o ano. De comum tinham o Tejo como partida. O embarque fizera-se noutro cais em Lisboa – Rocha do Conde de Óbidos – e o barco chamava-se Niassa. Esse barco de passageiros que tinha sido transformado em “transporte de tropas”. Ele e os companheiros, debruçados sobre a amurada, lançavam adeus para quem ficava. Do outro lado respondiam vozes e lenços brancos acenavam: “Deus te guarde e... te traga são e vivo.” Conseguia distinguir, entre aquele aglomerado de pessoas, as figuras dos pais e, sobretudo, a de Ana Luísa. Os seus olhos brilhavam das lágrimas que tentava esconder. Acenava como tantos outros... num adeus, de coração apertado, e nó na garganta.

Tinham zarpado a meio da manhã e iam deixando a barra do Tejo cada vez mais ao longe. Já nem o Cristo-Rei se via no horizonte. Era o mar, um misto de medo e a expectativa que todos tinham pela frente.

Três andares de beliches instalados no porão, quente e húmido, quase sem luz, e casas de banho e duches improvisados no convés, com ligação directa para o mar... Todo o espaço era aproveitado. Assim viajávamos que “nem gado prá matança”. Os primeiros dias foram de adaptação ao mar. Muitos enjoos e pouca ou nenhuma vontade de comer. Quase todos tinham vindo da província e o mar só o tinham visto alguns. E mesmo esses muito ao longe. Alguns quase imberbes e de Angola só tinham visto o mapa que a “Senhora Professora” lhes mostrara na escola primária. Um mapa onde constavam todas as províncias ultramarinas de que Portugal era “legítimo possuidor”.


Diário de viagem – 26 de Abril de 1965.

Estamos no mar há quase uma semana. Já me consegui adaptar à comida e aos balanços do barco. Passámos uma grande parte do tempo a jogar às cartas e a contar anedotas. Escrevi hoje o meu primeiro aerograma para a Ana Luísa e agora irei escrever outro para os meus pais. O calor tem vindo a “apertar” e o “pessoal” já começa a ficar bronzeado. O nosso sargento é que não gosta muito de nos ver sem a farda. Não é mau rapaz mas devia compreender que nós não estamos habituados a este clima. Amanhã disseram-nos que iremos chegar à Guiné. Ficaremos ao largo, só esperando pelo reabastecimento. Sei, no entanto, que alguns dos camaradas vão ficar por lá. Por enquanto nada de grandes novidades, a não ser o mar a perder de vista. As condições de higiene e alimentação não são as melhores, mas do mal, o menos.  


Ao largo da Guiné estivemos parados mais tempo do que se previra. Qualquer problema tinha surgido no navio. A viagem iria demorar mais cinco dias, com o Niassa, a partir de determinada altura, ligeiramente inclinado para a esquerda, devido a um estabilizador avariado.


Diário de viagem – 29 de Abril de 1965.

Estamos quase a chegar ao destino – Luanda. Sinto-me bem, tal como todos os outros. Apenas um pouco ansiosos por chegar e pisar terra firme. É já mar a mais. Quando chegar a Luanda irei escrever outro aerograma à Ana Luísa a contar-lhe da cidade. Já ouvi falar tanto dela que estou curioso, apesar de não irmos permanecer muito tempo nela. Já sabemos que iremos para a zona de Nambuangongo.


A chegada a Luanda trouxe a todos o alívio de pisar terra firme. Mas quase que não houve tempo para nada. Camiões aguardavam-nos para nos levarem para o campo militar do Grafanil. Chegados lá, vimos alguns “camaradas” que sorriam para nós. Na altura não percebemos porquê, só mais tarde soubemos que eram os que iriam ser rendidos por nós, que já tinham feito a “sua guerra” e que estavam a aguardar o seu regresso à Metrópole.

Depois de formados à entrada do quartel, iniciámos o desfile até ao local onde ficaríamos alojados. 

Durante o tempo de instrução no antigo RAL 1, fomos treinando, por iniciativa do comandante da Companhia, uma espectacular forma de marchar, a que ele chamava  “ o passo de parada”. No passado tínhamos marchado assim algumas vezes, a última das quais durante o desfile no Cais da Rocha do Conde de Óbidos. Porém, o desalento naquela manhã era de tal ordem que, sem que tivesse havido combinação prévia, o “passo de parada” não saiu. Apesar das repetidas ordens, cada vez mais gritadas, o pessoal andava mais do que marchava. O nosso comandante de Companhia estava mais que descontente; estava furioso.

Foi o primeiro dia de muitos que iríamos passar longe de Portugal e da família. Estávamos longe de imaginar tudo o que iríamos viver dali para a frente. Apesar disso, estava confiante que havia de regressar...


Diário de guerra – 28 de Março de 1966.

A coluna em que seguíamos foi surpreendida pelo inimigo, que estava escondido à beira da estrada. Estivemos três horas debaixo de fogo. Valeu-nos a aviação, que, entretanto, começou a sobrevoar a zona. Não matámos ninguém, mas fizemos um ferido.
Infelizmente não tivemos tamanha sorte: morreu um rapaz que era meu amigo e alguns camaradas ficaram feridos. O ânimo nunca mais recuperou. Tivemos de o remendar com as forças esfarrapadas que ainda tínhamos.


Deitado na tarimba da caserna, enquanto aguardava a rendição do seu pelotão para regressar à Metrópole, ouvia no pequeno rádio a pilhas o Duo Ouro Negro.






Já estão chegando na terra

Toda a gente leva pressa
Para chegar na sua terra
Estão os parentes à espera
Kurikutela (comboio)

Luanda, 6 de Janeiro de 1967.

Querida Ana Luísa,
Espero que esta te vá encontrar de boa saúde em companhia dos teus pais e irmãos. Nós por cá estamos quase de partida. Faltam apenas mais duas semanas para sermos rendidos. Estamos todos cansados da guerra e desejosos de regressar ao nosso Portugal. Estou ansioso para te ver de novo. Vais de certeza achar-me um pouco mais magro mas nada que não desapareça com umas chouriças, uns queijos e um bom “tinto” da nossa terra.
O mais difícil já lá vai. Infelizmente alguns de nós já não vão ter a oportunidade de ver a família. Tenho-me perguntado muitas vezes se tudo isto vale a pena.
Quando chegar haverei de te contar, mais em pormenor, o que por cá passámos. E foi tanto que não caberia por muitos aerogramas que te escrevesse.
Despeço-me enviando cumprimentos aos teus pais e irmãos. Para ti um beijo cheio de saudades daquele que muito te ama,
Álvaro


Colocou o aerograma em cima da mesa. Deitou-se na cama fechou os olhos e sentiu que parte da sua alma ficaria ali para sempre...


- Sr. Álvaro, já estamos a chegar!...


CONTINUA

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Notificação de Célio Passos.


Sexta-feira, 18 horas, finalmente o fim-de-semana chegava. José Augusto fechou à chave a porta do escritório de contabilidade onde trabalha há vinte anos, cumprindo escrupulosamente as ordens do patrão. Algumas pareciam-lhe duvidosas ou mesmos ilegais, mas, como simples escriturário que era, estava ali para cumprir ordens e não para dar opiniões; esse era o lema dos colegas e também o dele.
O seu trabalho consistia num ritual diário, semanal, mensal, anual, demasiado repetitivo, estupidificante, que só os fins-de-semana, quando não tinha de trabalhar, cortavam o ritmo monocórdio da sua vida cheia de papéis, números, de contas recheadas de dinheiro que sonhava um dia vir a ter, mas irrealizável com um emprego daqueles.
Agora que já tinha ultrapassado os quarenta anos, as paixões, se na realidade as teve — ser um actor de teatro ou cinema —, esfumavam-se, tal como a sua vida sentimental. Nunca teve uma namorada, também ninguém se interessou por ele, talvez pelo aspecto físico ou pela timidez que o fazia refugiar-se em casa a ver televisão e a beber cerveja, tendo por companhia o seuRottweiler, que cumpria, em pleno, a velha máxima — o cão é o melhor amigo do homem.
Apanhou o autocarro da linha 32 cuja paragem era mesmo em frente do escritório.
Quando chegou ao prédio onde habitava foi ver a caixa do correio, talvez entre a publicidade, tivesse uma carta dos seus “velhos” que viviam numa aldeia perto de Freixo de Espada à Cinta, e, de longe a longe, escreviam ou enviavam-lhe alguns produtos caseiros.
À entrada e a tocar nas campainhas do prédio para um dos andares estava um polícia. Ao ver chegar José Augusto, perguntou:
- Boa noite, o senhor mora neste prédio?
- Sim – disse.
- Por acaso conhece um senhor chamado José Augusto Silva.
- Sou eu, porquê?
- É que tenho aqui uma notificação para lhe entregar.
E sem demoras passou-lhe a notificação para as mãos, pedindo-lhe para assinar um recibo.
- Mas de que se trata? – perguntou curioso.
- Do que se trata não sei. Só posso dizer-lhe que o senhor terá que estar na próxima segunda-feira às 10 horas na Polícia Judiciária – acrescentou.
E, sem mais nada dizer, despediu-se.
José Augusto ficou a olhar para a notificação, estupefacto. Nunca lhe tinha acontecido semelhante coisa. Prestar declarações na Judiciária? Não tinha feito nada que justificasse uma ida à Polícia, não assistiu a nada, não é testemunha de ninguém, a sua vida era estupidamente igual todos os dias. O que é que eles queriam dele?
Meteu-se no elevador e premiu o botão para o 5.º andar, onde habitava. Conforme ia subindo a preocupação também. Tirou as chaves do bolso e abriu a porta do andar. Rommel, ao aperceber-se da chegada do dono, veio dar-lhe as boas vindas, ficando sentado nas patas traseiras a olhar à espera que o dono lhe fizesse as habituais festas. José Augusto reparou que o cão tinha sangue na boca. Ter-se-ia ferido com alguma coisa? Observou-o e reparou que tinha algo entre os dentes, parecia um bocado de pano, se calhar tratou de lhe estragar alguma peça de roupa que estava a secar no terraço que confronta com as outras habitações do andar. Já não era a primeira vez que isto acontecia com Rommel. Limpou-lhe a boca e pensou que tinha de mandar o cão para casa dos pais, porque, para além de não ter condições para o ter ali, ainda podia arranjar algum problema com os vizinhos. 
Sentou-se no sofá da sala de estar, nervoso, a sua cabeça fervilhava com este acontecimento inesperado.
Lembrou-se do Rui Costa, um amigo de infância. Andaram os dois na escola primária, ele agora era inspector da Judiciária e talvez o pudesse ajudar. Pegou na lista telefónica, folheou algumas páginas até à letra C e localizou o número de telefone desejado. Pegou no telefone e discou o número. Ninguém atendeu. Talvez fosse ainda cedo, tentaria mais tarde.
Não estava para cozinhar, decidiu ir comer fora.
Dirigiu-se para o elevador mas verificou que não estava a funcionar. Não havia outra solução, tinha que ir pelas escadas. Começou a descer e quando chegou ao patamar do 3.º andar encontrou o vizinho do 3.º direito, que, contra o que era habitual, não o cumprimentou e, fingindo que não o viu, entrou rapidamente em casa. Foi de propósito ou fora mero acaso? Teria alguma coisa contra ele? Ou seria a vizinha do rés-do-chão, o raio da mulher passa a vida a meter-se na vida dos outros e se calhar foi-lhe dizer alguma coisa sobre ele..., mas o quê? Diabos levem a mulher!
Tomou o caminho em direcção ao snack-bar a remoer o que se tinha passado momentos antes.
Entrou no snack-bar. Não conseguia comer. A comida não passava na garganta. Pagou a despesa e saiu.
Decidiu ir à casa do amigo inspector. Enquanto se dirigia à casa de Rui Costa, José Augusto ia arquitectando as perguntas que iria fazer ao amigo da Judiciária. Ia primeiro tentar saber se conhecia o inspector com que ia falar; se sabia do que se poderia tratar; o que se iria passar; se teria que lá voltar; se demoraria muito tempo; se estava mais gente presente; se podia vir logo embora; se era melhor falar com um advogado, etc.
Quando se apercebeu, já estava junto ao prédio do inspector. Tocou para o andar que tinha apontado no papel que trouxe de casa. Ninguém atendeu. A porta do prédio estava encostada, empurrou, entrou e acendeu a luz das escadas. Começou a subir as escadas com um ar furtivo, receoso. Chegou ao andar do amigo, encostou o ouvido na porta, não ouvia barulho. Pelo sim e pelo não, tocou à campainha mas ninguém respondeu. No andar da frente a porta entreabriu-se e uma cabeça de uma velha assomou. Tinha o cabelo branco, desgrenhado, e nas mãos transportava um terço de grandes dimensões e pela sua atitude adivinhava-se que andava a rezar pela casa. Era o protótipo da vizinha que sabe da vida de toda a gente do prédio. Olhou para José Augusto e disse:
- Se procura o Sr. Rui, ele não está. Foi passar o fim-de-semana para a terra da mulher. Só vem na segunda-feira - disse numa voz que parecia vir do fundo dos tempos.
- Obrigado – agradeceu.
Dado o recado, a velha refugiou-se em casa fechando a porta muito devagarinho.
José Augusto ficou desorientado. O mundo parecia estar contra ele. A luz apagou-se. Tacteou a parede à procurar do interruptor da luz. Acendeu-a e começou a descer as escadas quase a correr, como se alguém fosse atrás dele. Saiu do prédio, fechando a porta. Começou a andar em direcção a casa num passo apressado a olhar para todos os lados, como se alguém andasse a espiar os seus movimentos.
Entrou em casa, Rommel não apareceu, devia estar sentido com o dono. Foi para a sala comum e sentou-se no sofá. Os seus olhos foram parar à estante onde uma pasta de couro de cor castanha repousava. Era a pasta que fora esquecida por um passageiro no comboio numa viagem entre Lisboa e Porto, quatro meses antes, e que se tinha sentado ao seu lado. Na pasta encontravam-se vários cheques ao portador que totalizavam a quantia de cem mil euros e mais uma papelada que identificava o proprietário da pasta. Nunca tinha entrado em contacto com o dono. Negociou com um agiota os cheques mediante uma comissão percentual.
O dinheiro regularizou-lhe umas situações aflitivas que na altura enfrentava. Teria o indivíduo participado à polícia e agora as investigações tinham chegado até ele? Não, não era possível. Ele não tinha endossado os cheques, por isso, não podiam acusá-lo de nada. O safado do indivíduo a quem passou os cheques não pode provar que fora ele que lhos deu.
Deitou-se cedo, mas não conseguiu dormir. Virou-se e revirou-se na cama, ouviu o relógio da sala tocar as horas e as meias horas pela noite dentro. Durante o fim-de-semana só saiu de casa para efectuar umas pequenas compras, passou o tempo a perspectivar a ida à Judiciária; a responder a hipotéticas perguntas; a elaborar respostas evasivas; a treinar atitudes, inclusive a sugerir soluções ao inspector para o caso. Seleccionou a roupa que ia levar, o fato, a camisa, a gravata, as meias, os sapatos e até a roupa interior. Sentou-se à mesa a idealizar como iam decorrer as declarações; o inspector sentado à sua frente, corpulento, com ar enfastiado de quem se sente mal pago, vestindo um blusão de couro, por cima de uma camisa aos quadrados, donde se vislumbrava por baixo uma t-shirt branca, calças de ganga e umas botas de tacão. Tratava-o por “tu isto”, “tu aquilo”. Fazia perguntas impertinentes, queria saber coisas que não tinham nada com o caso (que ainda não sabia qual era), mas que entendia que não devia responder, só na presença do seu advogado, que não tinha, só se fosse constituído arguido, acusado de um acto que talvez tivesse praticado, sabia lá!    
Eram 9 horas e 30 minutos quando José Augusto chegou à Judiciária. Dirigiu-se ao balcão de atendimento, apresentou a notificação, identificou-se e entregaram-lhe um cartão plastificado, que pendurou no bolso superior do casaco.
Dirigiu-se para o gabinete do inspector Abel situado ao fundo de um corredor ladeado por paredes pintadas de amarelo claro e portas com vidros martelados com letreiros afixados, ao lado das portas, que indicavam os nomes dos diversos inspectores. Bateu, a porta entreabriu-se, e verificou que ninguém se encontrava no gabinete. Encostou-se à parede e aguardou. Passados alguns minutos, um indivíduo de estatura acima do normal, esguio, de cabelo branco que já rareava, vestindo uma gabardina cinzenta esverdeada, por cima de um casaco que se adivinhava grande, uma camisa desabotoada de tamanho que não era o seu, e uma gravata preta com um nó meio desfeito; parecia uma personagem saída de um quadro de El Greco. Cumprimentou José Augusto e entrou no gabinete, voltou atrás e estendeu a mão, perguntando:
- É o Sr. José Augusto Silva.
- Sim – respondeu apertando a mão ao inspector.
      - Faça o favor de entrar e sente-se - fazendo um gesto convidativo com a mão.
      - Obrigado – agradeceu.
 Não era esta gentileza o que estava à espera. O inspector sentou-se na secretária e abriu a capa de um processo. Analisou, por breves momentos, a documentação e perguntou:
- O Sr. José Augusto Silva é natural de Mirandela?
- Não, sou natural de Freixo de Espada à Cinta.
- O seu pai é o Sr. Ambrósio Silva e a sua mãe Maria das Dores Silva?
- Não, os meus pais não têm esses nomes.
- O Sr. Silva mora na Urbanização da Cidade Nova, edifício D, 5.º andar esquerdo?
     - Sim – respondeu.
          - Há quanto tempo mora nesse prédio?
          - Há mais ou menos vinte dias.
          - Então o senhor entrou no mesmo dia que o anterior inquilino saiu?
          - Creio que sim. O andar estava mobilado. Ele saiu de manhã e eu entrei à tarde.
          - Que idade tem, Sr. Silva? – perguntou o inspector já um pouco intrigado.
     - Quarenta e dois.
     - Curioso! O processo que tenho aqui é sobre um Sr. José Augusto Silva, que mora no referido    
 andar, tem trinta anos e é natural de Mirandela, portador do bilhete de identidade... Não se importa de me mostrar o seu bilhete de identidade? – solicitou o inspector.
    José Augusto entregou-lhe o bilhete de identidade.
  - Os números não coincidem – disse.
Efectivamente os dados não coincidiam. José Augusto ficou ainda mais nervoso, não sabia o que  
    dizer.  As situações que tinha idealizado não estavam a acontecer.
   - O prédio tem porteiro? - perguntou o inspector.
    - Sim.
    - Provavelmente o porteiro é capaz de confirmar o que o senhor disse.
  - Penso que sim! Talvez!
  - Tem o número do telefone dele?
- Sim.
- Qual é?
      Deu o número do telefone e o inspector ausentou-se por momentos da sala. Ia provavelmente telefonar para ele.
Voltou passados alguns minutos e sentou-se.
- Efectivamente o porteiro confirmou o que Sr. Silva disse. O inquilino anterior ao senhor tinha curiosamente o nome igual ao seu, por isso a confusão que se estabeleceu, as minhas desculpas.  
Ainda bem para o senhor por que o caso é bastante complicado, até lhe digo: muito “chato”.  
Precisamente há um mês, no dia que anterior inquilino saiu e o senhor entrou, um cão de raça Rottweiler, que se encontrava no seu andar, atacou um seu vizinho, um velhote, mordendo-o, provocando-lhe ferimentos graves. O velhote estava sozinho em casa, e a filha e o genro só apareceram por volta das dez da noite, e viram o familiar, inconsciente, ensanguentado com extensas mordeduras. Não se sabe a que horas isso aconteceu. Chamaram o 112 e o velhote foi para o hospital em estado de coma. O senhor morreu a semana passada, resultado desses ferimentos e a família apresentou queixa.
- Por acaso o Sr. Silva também tem algum cão?
- Sim.
- Rottweiler?- perguntou o inspector.
- Não, pastor alemão – mentiu receando alguma pergunta que o colocasse em situação duvidosa.
- Sr. Silva não quero demorá-lo mais. Renovo as minhas desculpas por este equívoco e lamento tê-  
-lo feito perder, com certeza, o seu precioso tempo – disse o inspector levantando-se e estendendo a mão, à guisa de despedida.
José Augusto quando saiu da Judiciária parecia outro. Sentia-se como um actor que tinha feito uma
performance  genial, como um dos actores que admirava. Com um sorriso nos lábios, pensava com os seus botões: «Oinspector não contava com a minha postura, tinha dominado a situação.»Durante o interrogatório apercebeu-se que ele estava surpreendido com a forma clara, directa, com que respondia às perguntas, pensou mesmo, algo fulgurante. «Ainda bem que tinha estudado o caso no fim-de- semana. Julgava ele que me ia atrapalhar, como é costume fazer com os outros desgraçados que vão lá prestar declarações, metem os pés pelas mãos, e, quando menos esperam, já estão na ‘choldra’. A mim seria muito difícil isso acontecer, até diria, impossível. Embaracei o inspector, forcei-o a representar um papel secundário. A vida de vez em quando gosta de nos pregar uma partida.»
Perante o sucedido, decidiu que o momento era para comemorar, não ia almoçar ao local habitual,   
muito menos iria trabalhar.   Dirigiu-se a um restaurante conhecido, como local frequentado por homens de negócios, tinha a fama de ser caríssimo, não importava, dias não são dias. Empertigou-se mais do que estava, deu um jeito à gravata e entrou. O chefe de mesa veio ter consigo.
- O senhor tem mesa marcada – perguntou.
- Não. Porquê? Era preciso?
- Não necessariamente. Faça o favor de me seguir.
O restaurante não tinha muita gente. Algumas mesas estavam com clientes, homens de negócio com certeza. José Augusto pediu um uísque e perguntou se tinham cigarrilhas. Trouxeram-lhe o que pediu. O almoço incluiu do melhor que havia na ementa. Não bebeu cerveja, como de costume, mas sim um vinho tinto alentejano do mais caro. Estava com aquela sensação que a sua vida ia mudar, deixava de pertencer à categoria de homem vulgar. Almoçou lautamente. Pediu a conta e perguntou ao empregado se podia pagar em dinheiro, uma vez que se tinha esquecido do cartão de crédito, que nunca teve, no escritório.
 Passou o resto do dia a deambular pela cidade, entrou em lojas de moda, não comprou nada mas experimentou tudo. Visitou livrarias, mexeu e remexeu numa quantidade infinita de livros, em especial, sobre os que tratavam temas de marketing e negócios, mas não comprou nenhum. Olhava as pessoas com desdém, altivo, distante, sentia-se extasiado.
Já o astro-rei ia lentamente desaparecendo no horizonte quando José Augusto decidiu regressar a casa.
À porta do prédio e a tocar para um dos andares, estava um polícia. José Augusto parou, pelo corpo passou-lhe um arrepio de frio, as mãos ficaram húmidas, recuou, contornou o prédio e afastou-se.
 Decidiu não ir para casa, pelo menos de imediato, a noite iria servir para repensar o seu futuro; além do mais, gente importante deita-se tarde.    
                                                                           Fim