quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Bartolomeu

Breve introdução


Na aldeia do Arripiado dá vontade de passear de mão dada, ou não fosse o seu nome inspirado numa história de amor. Diz a lenda que no tempo das invasões mouras habitava no castelo de Almourol um casal que tinha uma filha que se chamava Ari. A jovem apaixonou-se por um rapaz cristão, mas este namoro não era aceite pelos seus pais. Para impossibilitar a fuga de Ari, o seu pai mandou colocá-la na mais alta torre da fortaleza. E para que não tentasse fugir, conta a lenda, pearam-na, isto é, ataram-na pelos pés. Ari peada morria de saudades do seu amado.
Certo dia, entrou na fortaleza uma pomba branca que trazia consigo a notícia de que o amado de Ari tinha sido morto. A jovem morreu de desgosto. A sua alma voou no corpo da pomba e foi poisar na campa do amado, frente ao Tejo, no cemitério da localidade que o povo passou a chamar de Aripeada, hoje a povoação do Arripiado.

É nesta aldeia que se inicia este pequeno conto. Numa aldeia à beira Tejo bem perto de Almourol. Os portugueses viveram muitos séculos voltados para o mar. Povo que se lançou no Atlântico e procurou noutras paragens o que em Portugal não tinha. A grande maioria nem sequer chegou a voltar.


I

Bartolomeu tinha nascido numa aldeia à beira Tejo, mais propriamente na aldeia do Arripiado, junto ao castelo de Almourol.
Apesar de a maior parte do povo da aldeia ser pescador, o seu pai seguira a profissão do seu avô – sapateiro. Como era o único no seu mister o trabalho ia dando para a “bucha”. Além disso tinham uma pequena horta onde cultivavam as batatas, o feijão, as alfaces e tantas outras pequenas coisas que ajudavam ao sustento da família.
No entanto, Bartolomeu ambicionava outra vida. Ir para a capital e daí para o “resto do mundo”. O “seu” Tejo levá-lo-ia um dia até lá.
Não queria seguir a profissão do pai nem a de pescador. Era uma vida dura e de pouco dinheiro. O seu pai bem o tentava convencer:
– Bartolomeu, se “nã” queres ser sapateiro como eu, então tens de ser pescador. Aqui na nossa terra “nã” há muito por onde escolher.
– “Nã” “mê” pai! Nem sapateiro nem pescador – e continuava. – Quero ir para Lisboa e de lá por esses “mares fora” à procura de outra fortuna. Vocemessês depois logo hão-de ver-me! – enchia o peito e bamboleava-se. – Hei-de trazer uma “arca cheiinha de caruto”. “Ósdepois” até compro a aldeia “intêra” – e ria-se do seu dizer.
– O “tê” mundo é aqui ao pé dos “tês” pais – retornava a mãe.
– “Nã se apreocupem quê hê-de” voltar. Mas voltar como um fidalgo. “Fêto” o Sr. D. José de Atayde.
– “Qu’é” lá isso moço! Tem mas é “tino” nessa cabeça. Pareces quase uma tainha de rio com vontade de ser garoupa – dizia-lhe o pai, meio a sério meio a sorrir.
Às vezes, ao fim da tarde, Bartolomeu sentava-se junto ao cais e olhava as barcaças que desciam o Tejo. O seu pensamento ia com elas e imaginava-se a chegar ao Cais das Colunas a desembarcar em pleno Terreiro do Paço. De Lisboa partia-se para o mundo...
Esse desejo foi crescendo com a idade.
Entretanto ia aprendendo a faina dos pescadores. Nas madrugadas de invernia levantava-se, comia uma “bucha” e ala que se faz tarde.
O batel do “Manel da Arruda” esperava-o no cais. Faziam-se rio abaixo em busca das enguias “gordas e fartas”. Eram um “pitéu” que os habitantes da capital apreciavam muito.
Nem sempre o rio era “generoso”. Havia dias que nada calhava na rede. Voltavam então cabisbaixos e de semblante carregado. Vingavam-se na taberna à volta de um jarro de tinto. Conversavam e diziam-se perseguidos pela “má sorte”. Muitas vezes as vozes alteravam-se e então era “porrada que fervia”.
Bartolomeu era bem constituído e como tal acabava sempre por “dar mais do que levar”. A “fama” foi crescendo e ao fim de um par de anos todos lhe tinham “respeitinho”. Ninguém ousava “desdizer” a sua verdade. Se tal acontecia, o corpo do infeliz sentia as agruras de uma mão pesada e habituada a bater.
Em jeito “dengoso” passeava-se pela aldeia lançando olhares lânguidos às moçoilas. Estas desviavam o olhar mas o coração, esse, batia descompassadamente.
O “tamanho” de Bartolomeu já pedia outras fronteiras. Era tempo de ir para a capital. Se muito o pensou depressa o fez. Num domingo de manhã tomou a resolução:
– “Mê” pai... vou “prà” Lisboa. Já “nã” consigo viver aqui. Parece que “inté arrebento” por dentro. Sou um “home” e um “home” tem de se fazer à vida.
O pai olhou-o longamente de alto a baixo, devagar voltou-lhe as costas e saiu para a rua sem proferir palavra.


II

Um verdadeiro formigueiro humano trabalhava dia e noite nas Tercenas da Porta da Cruz (1). Bartolomeu e o seu amigo Manuel Soeiro trabalhavam na “tenência” (1). O trabalho era árduo, mas compensador. Além disso, estava na capital, a um passo de concretizar o seu sonho.
Tinha conhecido o “Manel” no Rossio junto ao Hospital de Todos-os- Santos. Andava por ali a deambular “sem rei nem roque” quando se viu metido numa rixa de rua. Eram três a “malhar” no desgraçado e ele “não foi de modas”. Ao estalo e murro fez sair dali o “Manel” com algumas nódoas negras mas sem ossos partidos.
Após esse episódio e explicada a razão da sua ida para Lisboa, o Manuel Soeiro logo tratou de arranjar mister para o seu amigo Bartolomeu. A partir dessa altura tornaram-se companheiros inseparáveis.
Durante noites a fio vaguearam pela cidade, percorrendo os recantos mais sórdidos e mal-afamados. Foi tomando consciência desse seu “novo mundo” e esquecendo, a pouco e pouco, a sua pequena aldeia.
Entre baiucas e carvoarias foi conhecendo outros de ambições iguais às suas. O vinho jorrava a rodos e as conversas e amizades foram crescendo.
Tal como Bartolomeu havia tantos outros que procuraram “venturas” noutras paragens. Lisboa era a “porta aberta” para o mundo. Para lá do cabo das Tormentas havia outras gentes, outras terras e muito ouro. Falava-se do reino de Preste João (2), onde havia “homens com cabeça de cão”. A lenda já vinha do tempo de D. João II e muitos ainda andavam à sua procura...


III

Os vagalhões eram mais que muitos e os marinheiros andavam, qual bêbados, aos tombos pelo convés. Muitos choravam enquanto outros rezavam à Virgem que os salvasse daquela tormenta. Ao fim de várias horas de “luta” com o mar a tempestade foi abrandando e o mar serenou.
A “esfrangalhada” nau entrou no mar das Caraíbas. Bartolomeu e o seu companheiro Manuel Soeiro nunca tinham visto mar assim tão azul e transparente.
O comandante e o imediato encontravam-se doentes e com poucas forças para tomarem conta da embarcação e da tripulação. Bartolomeu, apercebendo-se da situação, tomou para si as rédeas da embarcação. O grupo que então tinha formado durante a viagem era-lhe totalmente fiel, pelo que depressa tomou o lugar de comandante.
A ambição rapidamente lhe subiu à cabeça. Mandou matar os que se lhe opunham e tornou-se pirata por oportunidade.
Com a força do seu lado e depois de se ter abastecido nas costas do Haiti, embarcou numa aventura em que terminaria “nas maiores misérias do mundo”. Antes de isso acontecer atacou várias embarcações e planeou saques a seu bel-prazer. Acabou preso mas em virtude de uma tempestade conseguiu fugir. Reunindo de novo os seus homens, acabou por se apoderar do navio que o tinha conduzido preso.
Ficou conhecido pelo estabelecimento de um código de regras que mais tarde seria apelidado de “código da pirataria” (3).


Epílogo

Ninguém sabe a verdadeira “história” deste pirata português. Tudo é pura ficção, mas poderia tudo ter acontecido assim ou... talvez não.



(1) As Tercenas da Porta da Cruz – criadas ou melhoradas por D. Manuel I – constituíam um verdadeiro formigueiro humano trabalhando dia e noite. Nelas se construía toda a espécie de barcos utilizados na época. Ao mesmo tempo, foram estabelecidos depósitos para guardar e conservar o material de guerra, e montadas oficinas para a fabricação de pólvora. Convém lembrar que, ao tempo, o fabrico da pólvora e da artilharia estava em grande parte a cargo de particulares. As Tercenas da Porta da Cruz estendiam-se por uma zona que hoje se poderia assim definir, aproximadamente: a norte, pela Rua dos Remédios; a oeste, pelo largo do Museu de Artilharia; a sul, pelo rio Tejo (que nos princípios do século XVI avançava mais para norte, estendendo-se até próximo dos locais em que hoje se encontram os edifícios do Museu e da CP), e a leste, pela Calçada do Forte e Largo dos Caminhos de Ferro.
(2) O Preste João foi um lendário soberano cristão do Oriente que detinha funções de patriarca e rei, correspondendo, na verdade, ao imperador da Etiópia. “Preste” é uma corruptela do francês Prêtre, ou seja, padre. Diz-se que era um homem virtuoso e um governante generoso.
No seu reino condensavam-se o reino cristão-monofisita da Abissínia e os cristãos nestorianos da Ásia Central. Diz-se também que era descendente de Baltasar, um dos Três Reis Magos. Como as notícias palpáveis desse império cristão eram escassas, dilatava-se a fantasia em redor do seu reino: falava-se de monstros vários (entre os quais os homens com cabeça de cão), paisagens edílicas, etc. O Inferno e o Paraíso num só território.
As notícias (em forma de lenda) do Preste João chegavam à Europa pela boca de embaixadores, peregrinos e mercadores, sendo depois confirmadas pelo infante D. Pedro, que viajara “pelas sete partidas do mundo”, e ainda pelo seu inimigo D. Afonso, conde de Barcelos, que fizera peregrinação à Terra Santa.
Em 1487, D. João II envia Afonso de Paiva para investigar a localização do mítico reino (que corresponde à actual Etiópia), na tentativa de torná-lo aliado numa possível expedição para a Índia, em fase de planeamento.
(3) Bartolomeu Português foi um pirata português do século XVII. Foi o responsável pelo estabelecimento do primeiro código de regras popularmente conhecido como “código da pirataria”, usado posteriormente por piratas como John Philips, Edward Low e Bartholomew Roberts.

O livro dos dias

“Agarra!”

“Ladrão!”

Os gritos seguiam-no enquanto corria pela rua de paralelepípedos escorregadios, mas prestava-lhes pouca atenção. O céu estava coberto de nuvens de tempestade e a chuva estava cada vez mais forte, não o iam apanhar, não, graças à tempestade. O livro que havia roubado momentos antes estava em segurança sob a sua roupa. Ele não sabia nada do livro ou do seu conteúdo, sabia apenas que há já muito que não tinha nada para ler. O vento fustigava-lhe os fios de cabelo negro para os olhos, turvando-lhe a visão através da chuva intermitente. Não foi fácil fugir assim às cegas, mas em pouco tempo ficou bem longe do ponto de partida, bem longe da livraria. Ali não havia ninguém, naquelas ruas desertas, enquanto a tempestade aumentava rapidamente. Entrou no beco, para dentro do buraco a que chamava casa, onde o esperava um gasto cobertor, um velho candeeiro a petróleo e uma muda de roupa seca. Suspirou numa relativa felicidade retirando o livro debaixo da velha camisa.

Foi então que o pôde ver bem. Uma capa de couro preto macio com adornos de bronze nos cantos. Estendeu a mão e acariciou o negro couro, um arrepio, uma forte sensação a pele, levou-o a retirar a mão imediatamente. Há já tanto tempo que ele não tocava em pele, na pele de alguém. As páginas ligeiramente amareladas da idade eram de um papel bom, de qualidade. Secou as mãos no cobertor, encostou-se na parede de tijolo e abriu a capa. Na primeira página o título numa perfeita caligrafia que ele impacientemente ignorou, avançando uma série de páginas. Nunca fora um “homem” de prefácios. No mesmo tipo de letra perfeito lia-se:

“Roubou-me no meio de uma tempestade. Se eu não o soubesse, diria que vinha um dilúvio a caminho. Foi um roubo básico, ninguém no seu perfeito juízo iria para a rua perseguir um ladrãozeco no meio daquela chuva e daquele vendaval. Ele agarrou-me, meteu-me debaixo da camisa e fugiu daquela livraria. Já não era sem tempo. Gostava de saber quando é que ele vai perceber.”

A frustração abateu-se sobre ele. Roubara um livro chato com uma história chata. Avançou para o final, mas encontrou-o em branco. Folheava para a frente e para trás, mas, por mais que folheasse, lia sempre a mesma passagem. Atirou-o fora, ali mesmo, para o beco e para o meio da tempestade. Afinal qual fora a ideia, mais valia ter roubado algo de útil. Ainda pensou que o podia usar para acender uma pequena fogueira para se aquecer, mas decidiu que não valia a pena. Enrolou-se no cobertor e deixou que o som da chuva a embater nas pedras da calçada o arrastasse para o sono.

Não dormiu bem naquela noite. De manhã acordou e descobriu-se com a cabeça apoiada na pele preta do livro, aparentemente sem que a tempestade o tivesse sequer tocado. Não se lembrava muito bem da noite anterior. Gemeu. Sentia-se horrivelmente mal, dorido. Mesmo com a fraca alimentação e as míseras condições de vida, raramente ficava doente. O céu era de um deprimente cinzento-chumbo, o que correspondia na perfeição à sua disposição. Esfregou as mãos para as aquecer na disposição de tentar encontrar algo para o pequeno-almoço.

Mas antes tinha de tratar do livro. Era algo que estava a começar a incomodar-lhe. Agora, plenamente acordado, lembrava-se perfeitamente de o ter atirado fora na noite anterior. Mas como é que ele encontrou o caminho até sob a sua cabeça? Parou no meio da rua e abriu-o. Um calafrio percorreu a sua espinha quando viu mais uma página cheia com a mesma caligrafia elegante. Aquilo não estava lá na noite anterior.

“Tentou deitar-me fora na noite passada. Acho que ele ainda não compreendeu que agora faço parte da sua vida, até que assim o deseje. O que mais me diverte é ele pensar que detém o controlo. Mas ele não sabe que não é o primeiro, não, não é o primeiro e definitivamente não será o último.”

Correu para o rio o mais rápido que os seus velhos sapatos conseguiram, tropeçando várias vezes ao longo do caminho. Quando chegou estava ofegante, sujo e enlameado, mas isso não importava, não tanto como esse livro sinistro e assustador.

Num gesto largo atirou-o ao ar, aterrou na água num turbilhão de salpicos de água, lama e detritos. A sua atenção no entanto foi atraída para um bando de pombos que a alguns metros dali arrulhavam em volta de qualquer coisa. Esperava que fosse um pouco de pão duro ou fruta pisada, o que daria um excelente pequeno-almoço. Avançou até lá agitando os braços e gritando para os afugentar. O que viu não só o fez perder o apetite, como o choque de tal visão o fez petrificar ainda em andamento - livro. Mas, não. Ele tinha acabado de o atirar fora. No rio, ele tinha-o visto cair, tinha ouvido o barulho, o spash...

Com cuidado pegou nele pelas decorações de bronze de um dos cantos, evitando tocar o couro da capa, como se ele o pudesse queimar.

“Tentou desfazer-se de mim outra vez. Quando é que ele vai perceber? Talvez com o tempo, mas aí já será tarde de mais... Devo descartar-me da criança. O seu tempo esgota-se, mas a questão é quando. E como. Em breve, deixará de ser útil para mim.
O rapaz está-me a aborrecer. Tentou queimar-me esta manhã e destruiu o candeeiro ao fazê-lo. Palerma. Não tenho tempo para mais jogos infantis. Acho que o rio vai ser um lugar apropriado, vou ver-me livre dele tal como tentou ver-se livre de mim.”

Tinha fome e frio e o sono queria tomar conta de si à viva força. Já lá iam três dias desde o incidente com o candeeiro e ele não tirava os olhos do livro do diabo desde que este decidira que se iria afogar. Não se afastou dele nem um milímetro, não podia, não, ele estava imerso naquela caligrafia. Leu e releu aquelas páginas, mesmo depois de o sol se pôr com a ajuda de uns cotos de vela que tinha encontrado. Folheava constantemente aquelas páginas na obsessão de encontrar algo mais quando reparou que a luz desapareceu rapidamente. De forma desastrada tentou acender um dos cotos com os pequenos fósforos, queimando-se várias vezes. Em poucos minutos ficou mais escuro, o negrume fechou-se sobre si e nem as velas ajudavam. Pegou no pequeno coto e segurou-o a alguns centímetros de distância da página, com muito cuidado para não a queimar, mal conseguia distinguir as letras, com a tinta ainda húmida:

“Fim.”

Um vento gelado soprou pelo pequeno vão de escada, arrancando um pedaço de cartão que servia de parede e apagando as pequenas velas. Ele não conseguia respirar. Se pudesse, teria gritado. Caiu nas pedras da calçada, numa inefável agonia.
O livro tombou ao seu lado. Algo húmido, suave e frio o submergiu, arrastando-o. Rezou e esperou pelo fim que lhe havia sido prometido.

Quando, três dias depois, o seu corpo sem vida foi encontrado em alto mar por um pescador, as autoridades ficaram perplexas. Não havia uma única evidência de danos físicos ou evidências lógicas para a morte deste rapaz. Segundo o pescador, a única coisa que tinha com ele era um livro. Um livro ao qual estava abraçado. Uma capa de couro preto macio com adornos de bronze nos cantos e páginas ligeiramente amareladas de um papel de boa qualidade.
O que impressionou mais a polícia, o mais estranho, era que o livro não tinha o mais pequeno sinal de ter estado na água todo aquele tempo. Estava perfeito. Perfeito até de mais.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

INVULGAR COINCIDÊNCIA


A infância de Anselmo Arturo fora extremamente difícil, mesmo trágica. Nasceu em Milão, quando os pais, casados, o espanhol Raúl Gelmires e a bela Alessandra Locatelli, italiana de Bassano di Grappa, fugiram da perseguição movida pelos «vermelhos» na Guerra Civil de Espanha. Eram simpatizantes do fascismo, mas com a morte do Duce, em 1945, tiveram novamente de fugir, desta vez para Budapeste, cidade onde uns amigos de ideologia que combatiam a ocupação soviética os acolheram. Raul, Alessandra e os seus amigos magiares apoiavam Imre Nagy na revolta contra o domínio soviético, quando, no trágico dia de 4 de Novembro de 1956, o exército soviético invadiu a Hungria, entrando em Budapeste e semeando o terror e a morte. Entre os 20 000 mortos jaziam os pais de Anselmo. A Europa Ocidental condenou este acto de agressão e levantou-se uma onda de solidariedade para com aquele povo e os seus órfãos. Anselmo e muitos como ele tiveram famílias portuguesas que os acolheram; Anselmo teve, para além de uma família, uma fortuna à sua espera.
Como o casal que o acolheu, já nada novos, não tinha filhos, Anselmo foi o herdeiro universal de uma fortuna colossal e de uma mansão recheada de obras de arte, local que adoptou como sua principal residência.
Possuidor de uma inteligência acima do normal, tirou várias licenciaturas, mas a sua habilidade nata para os negócios fez aumentar o seu património empresarial e imobiliário de forma considerável, mas em especial aquele que mais se dedicava com maior paixão — a arte.
Possuidor de obras de arte, em especial quadros, era também conhecido pelas suas variadas colecções de porcelanas, cristais, selos valiosíssimos, esculturas e livros. Tinha uma espectacular biblioteca, com algumas primeiras edições mundialmente cobiçadas.
E era na área da literatura que a sua paixão ocupava os momentos mais predominantes. Foi autor de alguns romances e, como não conseguiu que lhos editassem, as suas incursões na arte da escrita foram publicadas como obras de autor, numa editora em que tinha uma quota, cujo lucro, se houve, foi investido na editora para garantir a possibilidade, caso quisesse, de novo publicar.
Com tantos interesses em jogo, e difíceis de gerir, Anselmo decidiu formar um grupo empresarial, a que chamou “Grupo Anselmo A”, e, para administrar esta panóplia de empresas, nomeou administradores os seus três filhos: Herculano, economista, Pedro, engenheiro, e Catarina, licenciada em Gestão de Empresas, ficando ele como administrador geral.
Os filhos foram fruto de amores descontinuados de Anselmo. Apaixonado por cruzeiros e pelos idílios marítimos que daí resultaram, Anselmo envolveu-se, em três dos cruzeiros realizados pelas ilhas gregas, Caraíbas e países nórdicos, com três jovens, cada qual mãe de um dos seus filhos, paternidade que assumiu sem titubear, ficando a sua relação amorosa por este assumido acto.
Com os destinos das empresas entregues nas mãos dos filhos e as mães destes com chorudas pensões, Anselmo ansiava dedicar a vida à literatura. Renascia-lhe novamente o desejo incontido de escrever. Ansiava voltar de novo passar ao papel ideias que retinha na memória há vários anos. Não eram temas sociológicos, que era a sua especialidade, desses ainda fez alguns artigos para revistas da especialidade, mas contos principalmente que fugissem ao quotidiano das pessoas, talvez surrealistas, góticos ou fantásticos. Mas recentemente surgiu-lhe uma ideia que o estava a apaixonar; um conto voyeur, no sentido lato ou extensivo da palavra, e não só no significado restrito da palavra francesa, talvez isso até não chegasse a acontecer.
Escolheria um indivíduo, seguiria os seus passos, perscrutaria os seus gostos — os sexuais e os outros —, buscaria nos meandros da sua vida os seus segredos, qualidades e defeitos. Seria isto possível? Tinha fé que sim. Seria um conto diferente.
Aonde é que poderia encontrar a personagem que pretendia para o seu conto? Tinha que ser uma personagem real, acontecimentos reais, locais verdadeiros, nada de ficção. Era um desafio à sua capacidade de observador. Iria transformar-se num espião, ou melhor, num detective particular, não um Sherlock Holmes ou um Poirot, que desvendavam mistérios, mas um daqueles indivíduos que perseguem as pessoas sem serem vistos, vigiando na sombra, atrás de um jornal, com uns óculos escuros, usando uns binóculos, uma câmara fotográfica ou um bigode postiço. A ideia estava a seduzi-lo e a transformar-se numa sombra que perseguiria a sua personagem, noite e dia. Teria com certeza de recorrer a outras pessoas para seguir os seus movimentos quando ele não pudesse ou para recolher informações de interesse.
Na sua mente as estratégias estavam a tomar forma. Precisava de tratar de arranjar a personagem. Seria uma pessoa real, extraída da massa humana que circula na rua, no dia-a-dia, com os problemas, alegrias e tristezas do comum humano.
Iria procurá-la, talvez, num terminal de um aeroporto, numa estação de caminhos de ferro ou de autocarros, num restaurante, num café, numa livraria, num cinema, num espectáculo desportivo ou simplesmente na via pública. A única coisa que seria fictícia era os nomes. Não podia arriscar que a pessoa escolhida e outros intervenientes, que de qualquer modo se envolvessem com ela, sentissem que estavam a devassar as suas vidas sem autorização. Isto podia criar-lhe problemas. O nome da sua personagem já tinha sido escolhido: Vasco Rei.
Pediu ao seu motorista que o levasse ao aeroporto. Talvez um local óptimo para começar a sua busca.
Dirigiu-se para as chegadas. As partidas, pensou, não valia a pena, porque, nas partidas, a personagem que escolhesse, talvez, o mais certo, seria levantar voo.
Vários voos estavam a chegar: Rio de Janeiro, Nova Iorque, Caracas e outros destinos do outro lado do continente. Sentado no bar do aeroporto, Anselmo observava quem chegava; homens de negócios, turistas, um inevitável grupo de orientais, com certeza japoneses. Não escolheria, por razões óbvias, um estrangeiro e por isso debruçou-se a analisar os portugueses. Um casal de noivos, sem interesse; um par de rapazes dos seus 25 anos, quase de certeza estudantes, numa universidade americana, de férias, igualmente sem interesse; um casal de idosos que vinha visitar alguém, esse alguém apareceu, excitadíssimo a acenar-lhes, sem interesse; um grupo de turistas portugueses vindos de uma visita à Big Apple, sem interesse; uma equipa desportiva com atletas de alta estatura, provavelmente de basquetebol, também sem interesse. Anselmo estava quase a desistir por aquele dia, quando reparou num homem dos seus 35 a 40 anos, impecavelmente bem vestido, fato escuro de marca, cabelo bem aparado, bem barbeado, camisa branca, sem gravata, óculos escuros de marca, sapato polido, nem parecia que tinha efectuado uma viagem transatlântica. Talvez fosse uma personagem a explorar.
O indivíduo parou no meio do átrio do aeroporto como à espera de alguém. Anselmo aproximou-se discretamente, ficando a uma insuspeita distância da personagem. Esta retirou do bolso um telemóvel, marcou um número e aguardou. Anselmo também aguardou. Ouvi-o a falar em português, mas, como passavam uns italianos perto deles a falarem, como costume em voz alta, não conseguiu ouvir o teor da conversa. Desligou o telemóvel e dirigiu-se para a saída, na direcção da postura dos táxis. Anselmo seguiu-o e comunicou por telemóvel ao motorista para o ir buscar ao mesmo local.
Quando a personagem já tinha saído da aerogare e estava perto da paragem dos táxis, um indivíduo, vestido totalmente de preto, de óculos escuros e de forte compleição física, veio ao seu encontro, cumprimentou-o respeitosamente e, pelos gestos que fez, apercebeu-se que este ia buscar o automóvel. Saiu a correr enquanto a personagem aguardava, Anselmo dirigiu-se para o seu automóvel, que já estava à sua espera.
Um Mercedes 350 SL parou mesmo atrás do seu e a personagem entrou, o automóvel ultrapassou o seu, e ele mandou o motorista segui-lo à distância. Apontou o número da matrícula, achou oportuno, talvez mais tarde fizesse jeito.
O automóvel dirigiu-se para o centro da cidade. A uma distância que não levantava suspeitas, Anselmo seguia-o.
O automóvel da personagem, curiosamente, parou a um quarteirão da sua casa, num prédio de construção moderna, conhecido na zona por ser onde viviam gente de dinheiro, homens de negócios, empresários, políticos, pessoas que não tinham dificuldades na vida, pelo menos aparentemente. A personagem saiu do carro e este arrancou. Anselmo disse ao motorista para parar. Saiu do carro e ainda deu para ver qual a caixa de correio que ele abrira para recolher o correio. Como a porta da rua não se fechara totalmente, deu para entrar e ver qual o apartamento: apartamento 7-B. Não tinha indicação do proprietário.
No dia seguinte, tentaria saber o número do telefone e nome do proprietário.
Depois de jantar, Anselmo sentou-se à secretária, ligou o computador e começou a escrever.

«Vasco Rei desceu do avião que o tinha trazido de Nova Iorque. À espera encontrava-se o seu segurança particular ao volante de um Mercedes 350 SL. Vasco Rei entrou no automóvel no lugar junto ao motorista e deu indicação que o levasse para casa. Morava no centro da cidade, num vasto apartamento, numa zona residencial, escolhida pelos empresários, políticos e outros indivíduos, cujo dinheiro não fazia parte das suas preocupações. Berto, o motorista e guarda-costas, deixou-o à entrada do prédio de apartamentos e arrancou. Antes de subir no elevador foi levantar a correspondência que estava na caixa do correio.»

Anselmo entrou na pastelaria onde, por coincidência, a personagem se encontrava a tomar o pequeno-almoço. Cheirava a tinta fresca, o dono tinha dado um refrescamento ao estabelecimento, dos altifalantes, estrategicamente colocados nas paredes, saía o som de uma canção dos Coldplay muito em voga. Anselmo abriu o jornal comprado momentos antes na tabacaria da esquina e pôs-se a ler. A personagem estava a falar ao telemóvel. Tentou apurar o ouvido para tentar ouvir a conversa mas não foi possível. Concluída a conversa, chamou o empregado, pagou a despesa e saiu. Como tinha alguma confiança com o dono da pastelaria, arriscou a fazer-lhe uma pergunta:
— Sr. Sousa, desculpe, conhece aquele sujeito que acaba de sair?
— Muito mal. É frequentador há já algum tempo da pastelaria, mas nem sei o seu nome nem o que faz. Mas porque é que pergunta?
— Simples curiosidade, tenho impressão que o conheço de qualquer lado, mas não consigo lembrar-me.
Solícito, o Sousa, que até gostava de bisbilhotar a vida dos outros, ofereceu-se:
— Mas, se quiser, eu tento saber alguma coisa.
— Não, não vale a pena.
— Se eu souber alguma coisa, digo-lhe — acrescentou.
— Está bem. Se souber alguma coisa, agradeço.
Anselmo saiu da pastelaria, olhou por cima do ombro e reparou que o Sousa estava a olhar para ele com ar desconfiado. Atravessou a rua para tentar disfarçar, e, logo que sentiu que estava fora do alcance do olhar inquisitivo do Sousa, acelerou o passo e ainda conseguiu ver a personagem meter-se num BMW 3Z, cuja matrícula fixou. Tinha um amigo que trabalhava nos registos de automóveis e talvez conseguisse saber o nome do proprietário do veículo.
Nesse dia tinha destinado ir a um leilão de arte nos arredores da cidade. Entre muitas peças de valor que gostaria de adquirir, encontrava-se um quadro de Vieira Portuense. O leilão estava concorrido, muitos dos seus amigos e frequentadores destes leilões estavam presentes. Trocou algumas palavras de circunstância com alguns deles, pegou num catálogo e foi sentar-se quase no fundo da sala. Para seu espanto, a personagem também estava presente. Sentiu o coração a pulsar mais rápido perante este acontecimento. Felizmente que foi sentar-se longe dele. O leilão começou com as licitações de várias peças de cristal, depois de porcelanas, e Anselmo reparou que a personagem não fazia qualquer licitação. Distraído a observá-lo, Anselmo quase que ia deixar passar o objecto que ali o tinha feito ir. O quadro começou a ser leiloado, e Anselmo tinha fixado um valor até ao qual iria. Não foi preciso esperar muito tempo, o último lanço que fez desmobilizou a concorrência, os presentes acharam que o quadro não merecia aquela quantia, e o leiloeiro rematou o quadro a seu favor. No final do leilão, Anselmo foi efectuar o pagamento e, como era normal, deixava a sua morada para que a leiloeira entregasse o objecto comprado em sua casa, porque esse transporte era efectuado por empresas de segurança. Mas desta vez decidiu levar o quadro consigo. Um empregado da leiloeira transportou-o até ao parque de estacionamento e depositou-o no porta-bagagem do automóvel. Anselmo agradeceu, meteu-se no automóvel e saiu do parque de estacionamento.
O seu motorista tinha um problema familiar para resolver, com certa urgência, e Anselmo disse que o deixasse na casa da filha e que fosse à sua vida que depois ele mesmo levaria o automóvel para casa.
Foi deixado na casa da filha Catarina, que morava muito perto de si, para cumprir a missão de dar de comer à gata Sissi, porque a filha tinha-se ausentado, por duas semanas, para realizar um cruzeiro de férias.
Abriu a porta de acesso ao átrio e subiu de elevador até ao sétimo andar. O apartamento estava em silêncio absoluto e teve que chamar pela gata por várias vezes até que esta se lembrou de aparecer, ronronando.
Foi até à janela da sala de estar e abriu a cortina. A sala dava para os jardins do condomínio, por sinal uma paisagem magnífica. Quando se apercebeu que em frente ao andar da filha, e segundo as suas contas, rememorando a localização do prédio da sua personagem, estaria exactamente frente ao seu andar, cerca de cinquenta metros. Esta situação deixou-o excitadíssimo, porque dali podia bisbilhotar a vida da sua personagem. O andar era amplo, tinha três enormes janelas com cortinados abertos, onde se podiam ver as divisões. Tudo às claras, a sua personagem parecia não querer guardar segredos. Tinha em casa uns binóculos que iriam ajudá-lo muito.
Em pensamentos, ensaiou vários esquemas, mas todos lhe pareciam demasiado audaciosos. Abandonou o apartamento mas voltou atrás porque se tinha esquecido de dar de comer à gata.
Quando chegou ao automóvel notou algo de esquisito. O porta-bagagem parecia mal fechado. Pressionou o comando da chave que abria as portas e o porta-bagagem e o sinal característico de abertura acendeu. Quando o abriu, reparou que o quadro tinha sido roubado. Quase que desfalecia, não só pelo valor do quadro, mas por ser um quadro que há muito procurava para preencher uma parede de uma suas salas que só tinha quadros de autores portugueses. Fechou a mala do carro, com o auxílio de um lenço, e não tocou em nada. Chamou um táxi e foi à Polícia Judiciária apresentar queixa. A Polícia deslocou-se ao local para retirar possíveis impressões digitais. Feito o serviço, Anselmo foi para casa desanimadíssimo com a promessa da Polícia de que logo que tivessem novidades o informariam.

No dia seguinte levantou-se cedo e foi tomar o pequeno-almoço à pastelaria do Sousa. Fez de propósito, talvez o Sousa tivesse alguma novidade. Entrou e sentou-se no fundo da sala num sítio bastante recôndito. A sala estava com mais dois clientes que liam o jornal. O Sr. Sousa mal o viu, saiu do balcão e veio ter com ele.
— Bom dia. Antes de mais, Sr. Anselmo, pretende beber e comer alguma coisa?
— Um café e uma torrada, mas com pouca manteiga — disse Anselmo.
Antes de ir satisfazer o pedido do cliente, Sousa disse:
— Tenho novidades sobre aquele assunto que ontem me falou.
Enquanto aguardava pelo pedido, Anselmo tentava adivinhar o que o Sousa teria para lhe dizer.
Sousa regressou com o pedido, colocou-o sobre a mesa, puxou de uma cadeira e sentou-se. Parecia muito excitado.
— A empregada doméstica que trabalha na casa do tal senhor, que se chama Samuel Queirós, dá-se muito bem com a minha mulher e por vezes vem fazer umas tarefas aqui na pastelaria e eu pedi-lhe para saber algumas coisas sobre o dito cujo, claro, sem levantar muitas suspeitas. Mas a empregada é um livro aberto, até desconfio que disse mais do que é na realidade. Resumindo: o Queirós é casado, mas a esposa vive nos Estados Unidos, em Chicago, é raro vir a Portugal. Claro, o Queirós tem todo o caminho aberto, é um mulherengo de alta classe, só coisa fina. Tem na Baixa, num dos melhores locais, uma óptima ourivesaria, com clientela da melhor, e ao lado tem uma perfumaria, também de grande categoria. Aparentemente, isto é o que se sabe, mas a vida que leva não pode ser proveniente só dos ganhos da ourivesaria e da perfumaria, não acredito. Viaja muito entre Portugal e os Estados Unidos e, por vezes, é visto com uns indivíduos de aparência muito pouco recomendável. Anda sempre com um guarda-costas, isto quer dizer que a sua vida deve andar sempre em pleno sobressalto. Deve ter outros negócios pouco recomendáveis, penso eu, mas não consegui saber mais nada.
— E já foi muito — respondeu Anselmo. — Isto é mesmo de detective — acrescentou
O Sousa ficou embevecido com a lisonja.
— Como lhe disse era simples curiosidade, conheço-o de qualquer lado, mas não sei de onde. Espero, pelo que o Sr. Sousa me disse agora, que ele nunca se cruze comigo.

Anselmo saiu da pastelaria com uma ideia na cabeça; ir a casa da sua filha Catarina, mas com o objectivo de dar de comer à gata.
Sentou-se num sofá, na sala de estar da filha, com os cortinados entreabertos, com a luz apagada e os binóculos numa mesinha junto ao sofá. Colocou um computador portátil ligado sobre os joelhos. No apartamento da personagem havia movimento.

«O dia estava muito quente, o apartamento de Vasco Rei estava todo aberto, com as janelas corridas, que davam para uma varanda ao correr de todo o apartamento. Havia luzes no interior do andar, e pressentia-se movimentos. Passados nem dez minutos, Vasco apareceu numa das janelas. Vestia um roupão branco, andava descalço e estava a beber, pelo formato do copo, seria um uísque. Acendeu a luz da sala de estar, fechou a janela, ligou a televisão e deitou-se num dos sofás. Mal se tinha deitado, a campainha tocou. Vasco foi abrir a porta. Era uma jovem, loura, alta, com cerca de 25 anos, trajando um vestido preto de alças, justo ao corpo, realçando as belas formas que se adivinhavam por baixo. Ao pescoço trazia um adorno de ouro e no decote, bastante atrevido, tinha o seu nome — Miranda — desenhado com pequenas pedras brancas. A jovem trazia um embrulho, que pousou no sofá. Vasco deu um beijo na cara da jovem. Sentaram-se no sofá e Miranda abriu o embrulho. Tratava-se de um cofre de prata, de certeza muito antigo, uma obra-prima em filigrana. Vasco pegou nele e ficou a olhar maravilhado. Miranda cruzou as pernas e a saia subiu perigosamente, mas não fez caso. Vasco pousou o cofre numa cadeira à sua frente, olhou para Miranda, aproximou-se e pousou um beijo nos seus lábios. Miranda riu-se e agarrou amorosamente a cabeça de Vasco. Audaciosamente, Vasco puxou a alça do vestido para baixo e beijou o pescoço e o ombro de Miranda. Atrevidamente Miranda meteu a mão por baixo do roupão de Vasco e este deu um salto. Miranda levantou-se e Vasco agarrou-a pela cintura e beijou-a apaixonadamente, a que esta respondeu. Vasco pegou em Miranda ao colo e levou-a para o interior da casa.»

Anselmo desligou o computador. Deu de comer à gata e deixou o apartamento.
Olhou para o relógio, era quase meio-dia e tinha um encontro marcado com o Ventura, que era um detective particular. Eram amigos de há longos anos, empregou os seus filhos numa das suas empresas, e já tinha feito uns serviços para ele de natureza vária. Contudo, neste caso, era bastante diferente. Tinha-lhe pedido que soubesse o que fosse possível sobre a personagem e as razões porque o pretendia saber, facto que Ventura estranhou pela sua bizarria.
O encontro deu-se na casa de Anselmo. Ventura apareceu pontualmente.
— Ventura, você nem parece português com esta pontualidade inglesa — elogiou Anselmo.
— É uma questão de princípio. Eu até acho um vício a minha mania de cumprir escrupulosamente os horários — respondeu Ventura.
— Eu penso que é uma questão de educação — disse afirmativamente Anselmo. — Vamos então às novidades.
— Tenho algumas, mas existem muitas falhas na investigação. O indivíduo é uma caixinha de surpresas, é difícil fazer o trabalho. Chama-se Samuel Queirós. Movimenta-se muito, tem muitas actividades, algumas estranhas, tem uma série de homens e mulheres a trabalhar para ele, penso, que até fazem de «testas-de-ferro» para certas actividades. Como actividade legal visível tem uma ourivesaria e uma perfumaria.
— Isso já eu sabia — disse Anselmo.
— Interessa-se por arte, a mulher tem uma galeria de arte em Chicago, nos Estados Unidos, e muitas das peças expostas vão daqui de Portugal e da Europa. A Polícia Judiciária anda a investigar, mas o indivíduo é como uma enguia, é escorregadio. Mulheres não lhe faltam; três delas fazem parte do ciclo de interesses, uma loura esbelta, uma morena e uma brasileira de parar o trânsito, não consegui saber, ainda, o nome delas. O que elas fazem, para além do óbvio, são uma espécie de «colaboradoras». Talvez o termo não esteja muito correcto, mas francamente não arranjei melhor. Consta que a tal loura frequenta o jet-set e subtrai peças de valor das casas para onde é convidada; tem umas mãos de fada. Depois ele deve despachar rapidamente o material, fica aqui em Portugal ou vai para Chicago. A brasileira tem um bar, montado por ele, já foi visitado várias vezes por entidades fiscalizadoras e pela polícia, mas não apanharam nada. Não se trata de um bar de alterne, até é muito bem frequentado, consta que é droga e da pesada. Como ele faz não se sabe. O homem continua limpo. A outra loura é colaboradora na parte da ourivesaria, não como empregada, desloca-se frequentemente ao estrangeiro, dizem, para fazer encomendas para a loja. Ele por vezes vai com ela, mas o segredo destas viagens é tráfego de peças de arte ou lavagem de dinheiro. Mas também nada de concreto, somente suspeitas. O indivíduo é muito seguro.

Estava Anselmo no seu posto de observação, na casa da filha, escrevendo ao computador algumas passagens do conto, quando viu movimentos no apartamento da personagem. Para melhor observar o que se passava, pegou nos binóculos e perscrutou o ambiente da sala de estar.
Tocou o telemóvel, era o Ventura. Disse que sabia mais alguns pormenores, mas que não eram muito relevantes, contudo, tinha tido a informação que a personagem ia ausentar-se do país, dentro em breve, para contratar um especialista para a realização de um golpe que ia efectuar no nosso país. Qual era a natureza do golpe andava a tentar descobrir, que seria difícil, mas, logo que soubesse algo mais, o informaria de imediato. Desligou o telemóvel e recomeçou a observação.


«Vasco Rei vestia umas calças azul-escuras, uma camisa cor-de-rosa sem gravata. Preparava uma mala de viagem. Introduzia nesta peças de vestuário interior, algumas camisas, uma camisola, um par de calças de cor escura, o estojo de toilette, um livro e uns embrulhos cujo conteúdo era impossível identificar. Entretanto Berto, o motorista e guarda-costas de Vasco Rei, aguardava que o patrão terminasse as operações. Vasco vestiu o casaco e enrolou uma gravata grená, que meteu no bolso. Berto fechou a mala, pegou nela, apagou as luzes do apartamento e ambos saíram.»

O motorista de Anselmo estava à porta do apartamento da filha aguardando ordens do patrão. Anselmo arrumou rapidamente o computador e saiu do apartamento. Alguma coisa se ia passar com a sua personagem e não queria perder a oportunidade de observar.
Entrou no carro e deu indicações ao motorista, que rapidamente deu a volta ao quarteirão para fazer a perseguição à distância. Quando entraram na rua onde estava localizado o apartamento, o automóvel da personagem pôs-se em movimento. O motorista de Anselmo, por sua indicação, seguiu o automóvel. Pela direcção que tomava, tudo indicava que o destino ia ser o aeroporto. Assim aconteceu. Estacionado o veículo num parque, a personagem e o seu guarda-costas dirigiram-se à aerogare. Anselmo disse ao motorista que o deixasse numa das entradas.

«Vasco Rei, acompanhado de Berto, dirigiu-se aos balcões do check-in. O placard indicava como destino Bogotá (Eldorado), com escala em Newark. Vasco retirou do bolso uma papelada, que entregou à funcionária. Berto depositou a mala no local destinado à pesagem das bagagens e afastou-se. A funcionária colocou a cinta de papel na mala com o destino, esta movimentou-se no tapete rolante e desapareceu para o interior, Vasco recebeu o bilhete e deu lugar a outro passageiro. Vasco e Berto trocaram algumas palavras, foram até a um dos bares do aeroporto e sentaram-se numa mesa. Vasco pediu a Berto que fosse comprar um café e umas águas com gás e que para ele comprasse o quisesse.»

Anselmo não queria deixar de observar mas uma necessidade fisiológica premente obrigava-o ir aos lavabos. Iria num pé e voltaria noutro. Mas apesar de ter feito a operação no menos tempo possível, quando chegou, Vasco e Berto tinham desaparecido. O café e as águas continuavam na mesa, intactos, assim como o sumo que deduziu que era para Berto. Olhou para todos os lados e não os viu. Dirigiu-se para a porta de embarque e, apesar de naquele momento estarem poucos passageiros, não o viu na zona de controlo da alfândega. Correu para a zona dos bares e observou, a pente fino, pelos vidros que davam para a zona das portas de embarque, mas também não o viu. Estava desolado, voltou aos bares, cirandou pelos espaços prováveis e improváveis que pudesse estar mas nada resultou. Estava atento ao que os altifalantes anunciavam, na tentativa de ouvir o nome da personagem ser chamado para se apresentar rapidamente na porta de embarque. A hora de saída do avião com destino a Bogotá chegou. No televisor que anunciava as saídas lia-se «Voo fechado». Passados alguns momentos, o destino de Bogotá desapareceu, dando lugar a outro destino. Foi à companhia que procedia a esses voos e arriscou perguntar se o passageiro Samuel Queirós tinha embarcado no voo para Bogotá. A funcionária, muito simpática, foi consultar no computador a listagem dos passageiros e informou que o Sr. Samuel Queirós não tinha embarcado. Ficou perplexo perante esta notícia e pediu à funcionária para conferir, e ela confirmou o que anteriormente tinha dito.
Anselmo, desolado, abandonou o aeroporto e uma pergunta bailava-lhe na cabeça: onde se teria metido a sua personagem?
O seu conto estava já muito adiantado, com todos os ingredientes, reais, que entendia serem necessários, agora com este desaparecimento inopinado iria atrasar um final que esperava encontrar em breve
Quando chegou a casa, a empregada informou-o de que tinha telefonado da Polícia Judiciária o inspector Mendes, que disse que tinha urgência em falar com o Sr. Anselmo, hoje mesmo, se possível, e tinha apontado o número do telefone.
Anselmo dirigiu-se para o escritório, ligou para o inspector e este pediu-lhe se podia dirigir-se à Polícia. Perante a insistência, Anselmo não hesitou, dirigiu-se para lá de imediato, especulando durante o percurso o que se estaria a passar que justificasse esta chamada urgente.
Quando entrou na sala de estar que antecedia o gabinete do inspector, encontrou sentados a sua personagem e o seu guarda-costas. Ambos fixaram Anselmo, que se sentiu constrangido. O inspector nem o deixou sentar, introduziu-o de imediato no seu gabinete.
— Sr. Anselmo, faça o favor de se sentar — disse o inspector.
Anselmo sentou-se um pouco nervoso porque passou-lhe pela cabeça que a sua personagem ter-se-ia sentido, possivelmente, vigiado, perseguido e como tal, como qualquer cidadão, apresentou queixa.
— O Sr. Anselmo conhece algum daqueles senhores que estão ali fora sentados.
— Penso que já os vi em qualquer lado, mas, para falar francamente, não me recordo muito bem — resposta enviesada dada por Anselmo.
— Para já informo-o de que o seu quadro apareceu — disse o inspector.
— Fico satisfeito em saber. E onde o encontraram? — perguntou.
— Foi encontrado na casa de uma senhora chamada Adriana Teles, colaboradora de um dos senhores que se encontra aí fora e que se chama Samuel Queirós.
«A Miranda, pensou Anselmo.»
— E como foi possível? — perguntou Anselmo.
— Andávamos a uns tempos a vigiar a vida deste senhor. É um traficante, burlão e ladrão de alto gabarito. Ao senhor o roubo do quadro seria o primeiro golpe. O seu gangue preparava-se para assaltar a sua moradia, para roubar tudo o que fosse possível. E o assalto estaria para breve. A ida a Bogotá era para ir contratar um especialista em sistemas de segurança, porque sabia que a sua moradia tem um sistema sofisticado de alarmes e ele sabia de um especialista colombiano que conhece estes sistemas muito bem. Talvez aproveitasse para fazer, também, outros negócios.
Anselmo estava sem palavras. Afinal estava a ser alvo de um «voyeurismo» ou, «portuguesmente» falando, de um acto de «mixoscopia», pensando que era ele que estava assumir esse papel.
O inspector disse que não precisava, de momento, de mais nada, que se podia ir embora e que depois telefonava-lhe para lhe entregar o quadro. Foi encaminhado para a saída, mas por outra porta, para não se encontrar com a sua personagem.
Anselmo nem queria acreditar no que estava a ser preparado contra si e contra o seu património, contudo, uma coisa o tornou feliz, tinha finalmente um final, inesperado sem dúvida, para o seu conto.

NOVAS OPORTUNIDADES


Abraçadas umas às outras, um monte de cuecas e peúgas sujas escondiam-se envergonhadas sob o assento de uma velha e escarranchada cadeira que no canto do quarto se agarrava à parede para não se desmanchar. Em cima, umas andrajosas calças de ganga, libertas do opressor cinto, repousavam sobre um molho de gordurentas «t-shirts».
A humidade espraiava sorrateiramente os seus tentáculos, que alastravam numa lenta e agonizada fuga em direcção à janela, uma lâmpada que já falecera há algum tempo pendia amarelada no centro do tecto. No chão, alguns tacos do soalho de madeira ousavam levantar o pescoço à espreita da melhor oportunidade para saltar e partir dali para fora. Bastava mais uma bebedeira, um vómito, uma garrafa de vinho partida, um pouco mais de Inverno e a liberdade seria possível. Outros havia que de cabeça erguida, orgulhosos, revoltosos, nada mais queriam senão vingança; afiadas e rígidas farpas desprendiam-se ligeiramente dos seus corpos e ali ficavam à espera que aquele porco e miserável indivíduo tivesse a feliz distracção de lá pousar o pé, quem sabe, talvez com um pouco de sorte, um dia, tropeçasse na sua embriaguez e lá espetasse a sua grotesca barriga.
O quarto tinha um aspecto nojento e seboso!
O ar, que se distinguia dos restantes elementos pela cor turva e cheiro enjoativo, era com certeza o único a contribuir para manter o quarto isento de vírus e bactérias. Envoltas pelo denso odor, as pobres criaturas extinguiam-se fulminadas por longos beijos de nicotina e álcool.
A porta, semicerrada, permanecia imóvel, como que envergonhada pelo seu aspecto gafeirento. O tempo e o ambiente agressivo que a rodeava, haviam conseguido arrancar alguns bocados do seu maravilhoso corpo envernizado. Outrora fora bela, a sua pele era macia e irradiava brilhos de cetim, agora, sempre que enfrentava a dura realidade que o espelho da cómoda em frente reflectia, pedia a Deus que um poderoso bicho da madeira a usurpasse e destruísse para sempre.
Debaixo da cama, por trás de um novelo de pó, um pequeno grupo de minúsculos bichinhos de carapaça preta divertia-se brincando. Enquanto uns jogavam às escondidas – um e outro mais atrevido ousavam esconder-se dentro da escuridão de algumas latas de cerveja espalhadas pelo quarto –, outros subiam ao topo dos tacos levantados e de barriga para cima deslizavam por eles abaixo, gesticulando com alegria as suas múltiplas patinhas. Os mais adultos procuravam tranquilos por restos de pão, cascas de tremoços, com alguma fortuna, talvez uns restos de fiambre e queijo.
Depositado sobre o colchão, jazia o corpo pesado e nu de um homem que aparentava ter cerca de 40 anos. Era um sujeito entroncado, estatura média, costas largas, trigueiro, peludo, abdómen saliente e peito descaído; tinha cabelo escuro, farto e forte como a juba de um leão, no rosto uma barba negra e cerrada que já não era desfeita seguramente à mais de uma semana.
Jaime Lopes era o seu nome.
Há muito que deixara de se preocupar consigo e muito menos com os outros. Desde que ficara desempregado, principalmente a partir do momento que deixou de receber o fundo de desemprego, tornou-se azedo, agressivo, culpando tudo e todos pela situação em que vivia. Embriagava-se com frequência, porém, fazia-o sempre em casa, isolado naquele quarto mal cheiroso que lhe impregnava a pele com um fedor a caos e decadência.
«Quando cair, caio sozinho. Não preciso de ninguém que me levante!» Frequentes vezes este pensamento atravessava-lhe o cérebro temulento – tendo em conta a quantidade de álcool ingerida, provavelmente fazia-o a nado, com fato de mergulho e garrafa de oxigénio – como se uma réstia de orgulho o impedisse de mostrar aos outros quão profundo era o precipício para que se tinha atirado.
Recusava-se pedir o rendimento social de inserção. «Não sou aleijado, nem nenhum coitadinho para andar para aqui a viver à custa do Estado, eles que me arranjem mas é um emprego.»
Há vários meses que não pagava o aluguer da casa, esperava que a ordem de despejo chegasse a qualquer momento, mas enquanto durasse, afundar-se-ia sozinho naquele minúsculo e porco apartamento que há uns anos tinha alugado. «Pelo menos aqui dentro ninguém me chateia.»
O pouco dinheiro que conseguia ganhar provinha de alguns biscates que ia fazendo para um ou outro amigo ou conhecido. Nada de significativo. Mal chegava para comer e beber, ou antes, para beber e beber.
A sua profissão era a de fiel de armazém. Trabalhara num armazém de transportes e logística que, como muitas outras empresas, não conseguiu resistir a esta avassaladora crise que, qual furacão, tudo arrasa, deixando atrás de si um rasto de miséria, destruição e vidas perdidas.
Infelizmente, Jaime era apenas mais um, apenas mais um insignificante pedaço de carne a ser sugado por este imenso aspirador de sonhos e de futuros. A diferença relativamente à maioria dos desempregados é que era uma pessoa só! Sem família, sem ninguém!
Naquela manhã de quarta-feira acordou sobressaltado pelo barulho de um altifalante proveniente do largo em frente a sua casa. No início, tolo com o sono e devido à estridência resultante da amplificação do som, não percebera bem o sentido das frases difundidas pelo aparelho.
Encostou as costas à cabeceira da cama, espreguiçou-se uma vez, duas, esfregou os olhos, e, ainda meio zonzo e ressacado da bebedeira da noite anterior, tentou perceber o que ouvia.
«Não pedimos muito. Só queremos um emprego e um tecto para dormir. Vimos de tão longe, fizemos tantos milhares de quilómetros… agora é impossível voltar para trás», era a voz de alguém que falava bem português, mas com o sotaque dos países de leste.
Jaime sentou-se na beira da cama olhando meio apalermado para a janela do quarto que tinha a persiana fechada. Estava incrédulo com o que acabava de ouvir.
«Há quatro anos que cá estamos, já demos algo de nós a este país. A minha esposa, que é advogada, fez limpeza em algumas das vossas casas e nunca se queixou. Eu… bem…, não interessa o que sou, já as ajudei a construir, já carreguei muito cimento e tijolo», a voz dizia as frases com firmeza e emoção, imperturbável!
Sempre que o altifalante se calava, ouvia-se um burburinho. Deviam estar várias pessoas a assistir.
Não queria acreditar no que ouvia. «Era preciso ter lata! Logo estes bandalhos que vieram para o nosso país roubar os empregos aos portugueses. Doutores a trabalhar nas obras por dois reis de mel coado e têm o descaramento de pedir casa e emprego! Olhem, fiquem com a minha, porque o trabalho, esse, já deve estar a ser feito por algum de vós. Sim, só pode ser por loirinhos adoradores de ‘vodka’ ou então por brasileiros amantes de caipirinhas. Cambada de bêbados! Não, não está ocupado por pretos. Esses não vão para fiel de armazém. Vão para as obras», pensava Jaime furioso. Estava prestes a explodir, colérico, os dedos grossos coçavam a barba num vaivém frenético, sorte a sua porque roía as unhas, caso contrário já teria o rosto a sangrar.
«Falamos-vos pelo altifalante, porque de outra forma não nos ouvem. Assim, esperamos que o grito do nosso desespero possa tocar o coração de alguém que nos possa ajudar», continuava a voz vinda do largo.
Jaime levantou um pouco a persiana e espreitou; viu dois jovens que aparentavam ter cerca de 27, 28 anos, um rapaz e uma rapariga. Eram loiros, cabelo liso e comprido, olhos azuis, altos e bem constituídos, bonitos, e, apesar de mal vestidos, tinham um porte digno. A mulher – particularmente bela – não dizia palavra, somente observava com atenção o grupo de pessoas que os rodeavam, como se lhes quisesse esquadrinhar os pensamentos. Apesar de odiar os estrangeiros que vinham para o nosso país à procura de trabalho - considerava que todos deviam ser expulsos, porque assim os portugueses teriam muito mais possibilidades -, ficou impressionado com a aura de respeitabilidade que emanava daqueles dois maltrapilhos que ousavam, alto e em bom som, pedir um emprego.
«Ainda por cima devem ter a mania que são bons», resmungou Jaime entre dentes, mal disfarçando o incómodo que o aspecto daqueles jovens lhe havia provocado.
«Se porventura a nossa presença vos incomoda, digam-nos claramente. Lembrem-se que os Estados Unidos são o que são graças aos que para lá emigraram. Se são contra a presença de estrangeiros, manifestem-no sem receio. Não se esqueçam que da discussão nasce a luz.»
Não, isto era demais! Para Jaime era uma provocação.
Pôs-se bruscamente de pé e dirigiu-se rápido à casa de banho para lavar a cara e os dentes. «Quem é que eles julgam que são? Provocações? Não, isso não admito!» Vestiu, apressado, umas calças de ganga encorrilhadas, enfiou no tronco uma «t-shirt» azul coberta de nódoas de cerveja, calçou uns chinelos e dirigiu-se para o largo.
Quando lá chegou, um senhor elegantemente vestido com um fato azul-marinho, camisa branca com riscas azul-claras e uma bela gravata vermelha, salpicada aqui e ali por uma pinta no tom da camisa, falava pausadamente com os dois jovens e também para o público.
Tinha presença o sujeito. Parecia ser alguém importante!
Jaime ficou preocupado.
- Não me diga que já arranjaram alguém que os ajudasse – perguntou a um vizinho conhecido que estava a assistir.
- Não. Claro que não. Pelo contrário, estão a levar das boas – disse o outro.
«Música para os meus ouvidos», pensou Jaime.
- Vou chegar-me um pouco mais à frente para ouvir melhor.
Aproximou-se do epicentro do diálogo e lá ficou de pernas abertas e braços cruzados, olhando de soslaio, numa postura de quase desafio.
- São estes seres que agora se queixam que, não vai há muito tempo, vos roubaram o emprego. Quantos de vós que estavam contratados a prazo foram dispensados e substituídos por mão-de-obra emigrante? Todos os dias isto acontece! É verdade que são seres humanos como nós, que têm direito a viver, mas… façam-no na sua pátria, não na nossa! Julgam que eles se preocupam com os portugueses que ficam sem emprego? Não seremos nós também humanos? – dizia o senhor importante, em tom de discurso.
- Muito bem, muito bem, é isso mesmo – exclamava Jaime, enquanto batia palmas excitado. – Até que enfim existe alguém com coragem para dizer a verdade.
Não foi apenas Jaime que o fez, muitos o aplaudiram, mesmo os mais renitentes a discursos de teor xenófobo se entusiasmaram. O efeito manada começava a surgir e o elegante senhor sentia-o.
- Obrigado, caro amigo – agradeceu olhando fixamente nos olhos de Jaime. - Porque não vão pedir emprego ao Partido Comunista ou ao Bloco de Esquerda? Não são esses os partidos que louvavam os países dos quais estes emigrantes fogem? Não eram eles os vossos ídolos? Portugal é dos portugueses. Os portugueses sempre em primeiro lugar. Se até os ingleses, que são um povo democrata e evoluído, se manifestam na rua para expulsar os trabalhadores estrangeiros, porque é que nós não deveremos fazer o mesmo? Eles vêm para cá porque querem cuidar das suas famílias e nós vamos mandá-los embora porque queremos cuidar das nossas!
«Muito bem! Muito bem!» A frase circulava de boca em boca ao redor do recinto. Rodava tão veloz e com tal emoção que o som que se ouvia no ar era: «Mééé, Mééé´, Mééé.»
- Meus amigos, não podemos fraquejar, não permitiremos que este tipo de pessoas e outras de pele bem mais escura nos roubem o que é nosso. Não, não permitiremos! Mesmo que estes governos pseudodemocratas ou pseudo-socialistas nos queiram ludibriar com lamechices de solidariedade e igualdade para todos, não nos deixaremos enganar. Eles que vão ser iguais e solidários para os seus países – discursava, inflamado pela sua própria eloquência.
- Pois claro, muito bem! Vamos é expulsá-los a todos. Ainda têm a ousadia de nos pedir emprego através de um altifalante. Vão embora, vão embora! Eu já estou desempregado há três anos e nunca incomodei ninguém com um altifalante. Desapareçam parasitas! – acrescentava Jaime visivelmente acirrado e disposto a partir para a acção física.
A jovem, que até então permanecera em silêncio, fitou um e outro com os seus magníficos olhos cor de céu e calmamente disse:
- Aparentemente, estes dois homens são diferentes. Um veste mal e cheira pior – apontou para Jaime. - O outro veste muito bem, é elegante, o aroma do seu perfume é agradável, porém, na realidade, são os dois seres repugnantes.
O seu companheiro agarrou-a pelo braço e repreendeu-a numa língua que parecia ser ucraniana.
- Não, não me calo – insistiu revoltada. - Estes dois senhores são nojentos, sim. O hálito podre provém da sua alma. São gente que não presta.
- Não vou admitir que esta puta ucraniana venha aqui insultar-me – gritou Jaime que se dirigia de braço esticado para esbofetear a rapariga.
O rapaz segurou-o e aplicou-lhe um golpe que o estendeu no chão.
- Não te atrevas a tocar-lhe – ameaçou o jovem, determinado.
Jaime pegou num pedregulho e aproximou-se dos dois, pronto a ripostar.
O senhor de fato, companheiro de tão nobres ideais, abraçou-o e murmurou-lhe ao ouvido.
- Venha, não vale a pena. Venha tomar um café. Havemos de encontrar forma de resolver os problemas deste país.
Enquanto os dois jovens se afastavam, Jaime e o seu parceiro dirigiram-se ao café mais próximo.
O ajuntamento de pessoas demorou algum tempo a dispersar. Os comentários dividiam-se pelos que consideravam que Jaime procedera mal ao tentar esbofetear a rapariga e os que aprovavam a sua atitude. O discurso do senhor importante é que era invariavelmente aclamado.
- Então meu amigo, já está mais calmo?
- Perdi a cabeça. Descontrolei-me, pronto! Eu sei que ela é mulher e que não se bate nelas nem com uma flor, mas… perdi a cabeça! Quase nos roubam a vida e nós é que somos os nojentos! Incrível, não acha? – Jaime esperava que o seu novo amigo concordasse consigo e compreendesse a sua atitude.
Ao invés disso, o homem tirou um cartão do bolso do casaco e entregou-o a Jaime.
Tinha imprimido: «Impacto – Produções Audiovisuais, Lda.»
- O que significa isto? – perguntou Jaime desconfiado.
- O que o senhor assistiu não passou de uma encenação que tem como objectivo provocar um «impacto» tal que obrigue a que as pessoas reajam e libertem os seus instintos mais primários.
- Então aquilo foi tudo uma farsa? O senhor não acredita em nada do que disse?
- Não interessa no que eu acredito. Nesta obra, o que é realmente importante é aquilo em que o senhor acredita. Já agora, como se chama?
- Jaime – respondeu ensimesmado. – Os outros dois eram actores?
- Eram.
- Pode pagar a conta e também tomar o meu café – disse Jaime chateado.
Naquele momento sentia-se traído, magoado.
Arrastou a cadeira, levantou-se e dirigiu-se para a porta, quando:
- Peço-lhe que não vá embora. Ouça-me um pouco mais – pediu o homem com sinceridade.
Jaime sentou-se novamente.
- O meu nome é Augusto. Tenho 60 anos e faço um pouco de tudo na Impacto. Sou actor, produtor, motorista, comercial, etc. Somos muito poucos nesta companhia e por isso temos que ser polivalentes.
- Não interessa, o senhor enganou-me – cortou Jaime abruptamente.
- Deixe-me continuar. Na Impacto produzimos curtas-metragens que focam aspectos da vida real e em que as personagens principais são pessoas genuínas como o Jaime. A cena consigo e com os meus dois amigos foi filmada, gostaríamos de ter a sua permissão para a divulgar nos meios audiovisuais.
- Quem é que vão defender aí nesse filme, a mim ou aos emigrantes?
- Não tomámos posição. O objectivo destes pequenos filmes é somente agitar a consciência de quem os vê.
- Muito bem. Têm a minha permissão. Também pouco me importa o que os outros pensam. Todos o aplaudiram e bateram palmas, mas agora, se calhar, andam para aí a cochichar e a dizer mal de mim. Digam lá o que quiserem, não quero saber deles para nada. Vou-me embora.
- Espere. Qual é a sua profissão? O que é que o senhor faz? - perguntou Augusto.
- Neste momento não faço nada. Estou desempregado. Era fiel de armazém numa empresa de logística e transportes. Porquê?
- Dê-me o seu número de telefone, talvez o possa ajudar.
- É o 913557722. Adeus.
Jaime afastou-se aborrecido e sem dizer obrigado, porém, a ideia de poder vir aparecer na televisão não lhe era de todo desagradável. «Mesmo que seja a fazer aquela figurinha» - pensava.
Os dias aconteceram uns atrás dos outros, Jaime, que já não era muito bem visto pela vizinhança, tinha agora o carimbo de violento. Depois do ocorrido no largo, cada vez lhe apetecia menos sair de casa. Enclausurava-se dentro do quarto acompanhado de bebidas alcoólicas e ficava a ver – vezes sem fim – vídeos dos velhos clássicos do cinema: «Casablanca», «E Tudo o Vento Levou»; «África Minha».
Raramente seguia os filmes até o fim, via dois Humphrey Bogart, duas Ingrid Bergman, Os lábios de Meryl Streep quando beijavam Robert Redford dilatavam-se, contorciam-se, às vezes até lhe faziam caretas, contudo, Jaime sempre chorava como um menino.
Era estranho que, apesar da sua rudeza, se comovesse ao ver histórias de amor. Sempre fora assim desde miúdo. Vivia só, sem namorada, não frequentava prostitutas, todavia, detestava filmes pornográficos e afins. Apreciava histórias de amor! Adorava ver alguém sacrificar-se por amor!
Um dia de manhã tocou a campainha. Era o carteiro. Trazia uma carta registada do tribunal; davam-lhe dez dias para abandonar a casa, caso contrário, seria despejado pela polícia.
«Quero lá saber, se me levarem para a cadeia, sempre tenho um sítio onde dormir. Se calhar vou aproveitar para roubar umas coisitas, porque assim de certeza passo lá mais tempo.»
Passaram-se mais alguns dias. Já não faltava muito para ser evacuado.
Por cima da cama do quarto, bem ao centro, estava pregada na parede uma cruz de madeira com um Cristo dourado que tinha uma expressão triste. Naquela noite, Jaime olhou para Jesus. Já não o fazia há tanto tempo! Achou-o mais desanimado do que o recordava.
- Estás triste? Não me digas que é por minha causa? Não acredito. Ao tempo que aqui estás e nunca me passaste cartão. Estás agora a olhar para mim porquê? – as frases saíam já com um cheirinho a bagaço. – Já sei! – dizia ele ajoelhado em cima do colchão, garrafa de aguardente na mão e o copo na outra. – Estás farto deste quarto, queres mudar de casa. Quem te censura? Vou confessar-te uma coisa. Às vezes até a mim me mete nojo!
Foi buscar um martelo e dois pregos de aço. No lado direito da cruz pregou a ordem de despejo e no esquerdo um bilhete que dizia assim: «Arranjem-lhe um quarto melhor. Ele merece.»
Dia seguinte, 10 horas da manhã, toca o telemóvel. Jaime atendeu ainda meio ensonado.
- Quem fala? – perguntou.
- Sou o Augusto. Recorda-se de mim?
- Claro, é o farsante – respondeu Jaime com mau humor.
- Tem uma esferográfica e um papel à mão? – continuou Augusto, não ligando à provocação.
- Já está. Diga lá o que quer.
- Falei com um amigo. Tem um armazém que exporta produtos portugueses para quase todo o mundo e eles estão a precisar de um fiel de armazém. Tomei a liberdade de lhe marcar uma entrevista. Não é nada garantido, mas é assim que se começa – dizia Augusto, com entusiasmo na voz.
- Obrigado – disse Jaime com algum custo. – Aonde me devo dirigir?
- Tome nota. A empresa chama-se Coisas de Portugal. É na Zona Industrial da Maia I, sector X-norte, n.º 142. Já está? Tem que lá estar amanhã pelas 14 horas e vai falar com o Sr. Aveleda.
- Aveleda é mesmo o ideal para mim. Lá estarei – respondeu Jaime tentando ser engraçado.
- Não leve a mal o que lhe vou dizer, Jaime, procure ir apresentável. Melhore um pouco o seu aspecto – comentou Augusto com ternura.
- Não se preocupe. Não o deixarei ficar mal. Até amanhã Sr. Augusto e… obrigado – desta vez o agradecimento foi sincero.
- Até amanhã, Jaime. Boa sorte.
Ficou empolgado, desde que se desempregara, era a primeira vez que ia a uma entrevista de emprego. «Que roupa devo levar? Está tudo sujo!»
Pegou nas calças de ganga que mais gostava, foi para a banheira e, com um bocado de sabão, esfregou-as com todas as suas forças. Molhou, ensaboou, esfregou, voltou a molhar, a ensaboar, a esfregar, até que, finalmente, elas lhe pareceram lavadas. Pô-las a secar na varanda. «Espero que até amanhã de manhã, elas estejam secas. Falta-me uma camisa e umas peúgas. As cuecas podem ser mesmo estas mais sujas porque ninguém as vai ver.»
Foi até a cómoda e escolheu a única camisa branca que lá estava. Passou-a a ferro.
«Meias, meias, meias, não tenho meias. Está tudo porco.» Calçou os chinelos e num ápice foi até a Modalfa comprar um par de peúgas azul-marinho. Ficou com 13 euros no bolso.
«Vou cortar o cabelo. Não posso ir à entrevista com esta trunfa. Devem ser 7 ou 8 euros. Não, primeiro vou lavar a cabeça, assim é mais barato.».
Quando saiu do barbeiro, parecia outro. Apesar de todo sujo, parecia ter rejuvenescido!
Naquela noite não bebeu. Jantou um lanche e uma peça de fruta. No final do dia tinha 5 euros no bolso. «Deve chegar para o transporte», pensou.
Varreu o quarto, limpou o pó aos móveis, deitou as garrafas de vinho e as latas de cerveja ao lixo, despediu-se dos seus companheiros de carapaça preta, despiu-se e deitou-se na cama ansiando pelo dia seguinte. Não dormiu nada!
- Boa tarde. O meu nome é Jaime Lopes e tenho uma entrevista com o Sr. Aveleda marcada para as 2 horas.
- Muito bem, aguarde só um pouquinho. Pode sentar, esteja à vontade.
- Obrigado – respondeu Jaime.
- Sr. Aveleda, está aqui o Sr. Jaime Lopes para falar consigo – ouviu a menina anunciar.
- Sr. Jaime, pode acompanhar-me por favor.
Subiram umas escadas e pararam na primeira porta à direita. A jovem abriu a porta. O Sr. Aveleda levantou-se, cumprimentou-o e disse-lhe para ele se sentar e sentir à vontade.
Era um tipo bem-parecido, mais ou menos com a mesma idade de Jaime, porte atlético, do género desportivo, sem cerimónia. Vestia umas calças de caqui bege e uma camisa de ganga.
O gabinete, todo ele, estava decorado de verde e vermelho, apenas os móveis e as cadeiras eram em dois tons de mel. O efeito final era um gabinete bonito e acolhedor.
- O Sr. Jaime sabe que está recomendado pelo dono da empresa não sabe?
Ficou estupefacto, não fazia a menor ideia!
- O Sr. Augusto é o dono da empresa? – perguntou a medo.
- Não, não, claro que não, o Sr. Augusto é um bom amigo do nosso patrão. Isto não quer dizer absolutamente nada. O senhor só cá ficará se reunir aptidões para desempenhar as funções. A Coisas de Portugal é mais que uma empresa. É um conceito. É uma ideia! É um ideal! Como pode observar toda a decoração é inspirada nas cores da bandeira de Portugal. Exportamos para todo o mundo produtos exclusivamente portugueses, desde bens alimentares a livros, pintura, música, etc. Vamos ao armazém ver do que o senhor é capaz. Pode ser?
- Com certeza – respondeu Jaime.
Chegados ao armazém, pediu-lhe que arrumasse numa divisória de uma estante, a 5 m de altura, uma palete cheia de caixas que estava no chão. Jaime sentou-se no empilhador e efectuou o serviço com desembaraço.
Em seguida, apontou para uma quantidade de caixas que estavam empilhadas a um canto e disse a Jaime para fazer uma palete com 1,80 m de altura. Mais uma vez o serviço foi efectuado com eficiência.
- Muito bem, muito bem. Sabe fazer movimentos de «stocks» e guias de transporte? – perguntou o Sr. Aveleda.
- Sei, fazia-o no meu emprego anterior.
- Óptimo, se concordar, o seu salário será de 650 euros mensais, mais 4 euros por dia para subsídio de alimentação. Será contratado por seis meses e pode começar já na segunda-feira. No final do contrato, passa a efectivo ou vai embora.
Jaime não queria acreditar no que ouvia. O peito quase explodia de contente.
- Aceito. Claro que aceito. Muito obrigado Sr. Aveleda.
Estava felicíssimo, porém, estava prestes a ficar sem casa. Decidiu ligar ao Sr. Augusto, contar-lhe a sua situação e pedir-lhe ajuda.
O Sr. Augusto informou-o que a Impacto já tinha vendido a curta a um cliente e que o Jaime teria direito a receber pela sua participação cerca de 1000 euros. Atendendo à sua situação, a companhia concordara em adiantar-
lhe o dinheiro.
- Muito obrigado, Sr. Augusto, nem sei como lhes agradecer – Jaime despediu-se sensibilizado.
Segunda-feira, às 8 horas e 45 minutos, Jaime apresentou-se ao serviço.
O Sr. Aveleda apresentou-o aos diversos funcionários com quem iria contactar amiúde.
Carlos Jaló era um jovem com cerca de 25 anos, filho de angolanos que emigraram para Portugal após o 25 de Abril, tinha o 12.º ano e era o responsável pela expedição; Yuri Daniel, 22 anos, filho de pai português e mãe ucraniana, motorista; Lúcia Maria, 35 anos, cabrita, 12.º ano, responsável pela secção de embalamento.
Lúcia era muito bonita, cabelo encaracolado, olhos verdes, corpo ligeiramente roliço, mas muito bem delineado, lábios carnudos e pele dourada.
Apesar da sua antipatia pela origem dos seus novos companheiros, Jaime ficou muito bem impressionado com a forma simpática como o receberam. Principalmente com Lúcia.
A secção de embalamento estava pintada a toda a volta com uma faixa verde e outra vermelha, numa parede estava pintada uma enorme guitarra portuguesa e um esboço do rosto de Carlos Paredes, na outra, uma grande fotografia com um imenso sorriso de Jorge Palma frente a frente com uma do mesmo tamanho com o rosto sisudo de António Lobo Antunes.
Os camiões, pintados de verde, vermelho e dourado, publicitavam:
«Coisas de Portugal – O melhor de nós.»
Esta frase estava escrita em todas as secções da empresa.
O armazém estava dividido por famílias. Na zona dos bens alimentares, que incluía uma arca frigorífica, podíamos encontrar geleias, queijo da serra, queijo de Azeitão, atum «Ramirez», presunto, chouriço, salpicão, alheiras, enfim, um interminável número de produtos portugueses. Na zona das artes, livros de Lobo Antunes, Saramago, Pessoa, quadros fantásticos, maravilhosas peças de artesanato, música portuguesa de Cristina Branco, Carlos Paredes, Jorge Palma, tudo o que de melhor é ou foi produzido no nosso meio artístico.
As famílias de produtos eram muitas e variadas, mas a mais peculiar era a designada «Miminhos de Portugal»: um porta-retratos com um sorriso da Catarina Furtado, um peão, um carrinho de rolamentos, um Zé Povinho em barro, um quadro onde se via unicamente os olhos e as sobrancelhas de Álvaro Cunhal, um DVD da série «Quando os Lobos Uivam», o calcanhar do Madjer, um sem-número de pequenas coisas que nos fazem sentir bem.
Tudo era exportado para os mais diversos países. Desde o Brasil até a Rússia, passando pela Alemanha, França, Inglaterra, Japão, etc.
Seis meses depois, passou a efectivo. Nesse período, a sua amizade por Lúcia intensificou-se. Almoçavam juntos, tomavam café juntos, discutiam os mais diversos assuntos, gozavam um com o outro pelo facto de serem solteiros, viajavam de metro juntos, não se largavam! Jaime passara a cuidar de si e da sua casa. Estava bem mais elegante e bem-parecido. Todos os dias da semana fazia uma corrida de uma hora e ao fim-de-semana ainda ia nadar 45 minutos para a piscina. Incentivado por Lúcia, inscrevera-se nas Novas Oportunidades para tentar acabar o 12.º ano.
Um dia, Jaime perguntou a Lúcia quem era o dono da Coisas de Portugal. Lúcia respondeu-lhe que no final do ano o iria conhecer. Costumavam organizar uma festa de Natal com todos os empregados, nessa altura o patrão e a família estavam sempre presentes.
Aquele iria ser o Natal mais feliz dos últimos anos. Tinha emprego, sentia-se bem e Lúcia convidara-o para passar aquela noite tão especial consigo e com a sua família.
Antes disso, no dia 21 de Dezembro, aconteceu o jantar da empresa. Jaime estava ansioso e curioso por conhecer o patrão.
Como habitualmente, antes de se sentarem para jantar, o dono da empresa fazia um discurso. Era um senhor de idade já avançada, talvez com os seus 80 anos, mas muito bem conservado, alto, forte, cabelo loiro, olhos azuis e um indisfarçável sotaque. Chamava-se Grigori Vassiliévitch.
- Boa noite a todos. É com imenso prazer que estou aqui convosco para mais um jantar de Natal. Já todos ou quase todos conhecem a minha história, mas eu gosto tanto dela, sou um homem tão feliz e realizado que não resisto a relembrar mais uma vez. Há muitos, muitos anos, saí da Ucrânia, o meu país que tanto adoro, saltei de país para país como um saltimbanco. Passei fome, odiei os meus semelhantes – parou comovido. Por segundos fixou os olhos de Jaime. – Até que cheguei a Portugal. Aqui, um casal fantástico que já não está entre nós, o Sr. Augusto e a D. Amélia, trataram de mim, deram-me de comer, vestiram-me decentemente, alojaram-me na sua casa e arranjaram-me um emprego. Ainda hoje os lembro com saudade. Felizmente, devido à forte amizade que me une ao seu filho recordo-os frequentemente – parou um pouco para beber água.
Jaime sentiu um nó na garganta e o peito contraído.
- Apaixonei-me por Portugal. Sonhei levar o nome de Portugal ao mundo, e, graças à imensa qualidade dos nossos produtos, à vossa colaboração e empenho, temo-lo feito todos os anos num cada vez maior número de países. Quase todos vocês são pessoas que deram a volta à vida por cima. Esse é o maior prazer, o meu maior orgulho!
Jaime perguntou a Lúcia o que ele queria dizer com aquelas palavras. Lúcia respondeu-
lhe baixinho:
- Eu era viciada em heroína!
O Sr. Gregori continuou:
- Agora estou velho. Está na altura de dar a vez aos mais jovens. Vou passar a Coisas de Portugal para o meu neto e sua esposa: Nikolai e Natasha. Como sempre contamos com o vosso apoio e entusiasmo – terminou apontando para a porta da sala.
Entraram os dois jovens. Jaime ficou boquiaberto! Eram os mesmos com quem se envolvera à pancada há uns tempos atrás.
Antes de irem para junto do avô, Nikolai e Natasha aproximaram-se de Jaime. Natasha deu-lhe um abraço fraterno, beijou-o nas duas faces e murmurou:
- Temos muito prazer em tê-lo connosco, Sr. Lopes.
Nikolai cumprimentou-o, olhou-o nos olhos:
- Todos merecemos uma nova oportunidade.
Afastaram-se, Jaime não conseguia falar, tinha a voz embargada pela comoção, não se conseguia mexer, paralisado pelo efeito intenso da felicidade. Lúcia soltou uma lágrima, abraçou-o e, pela primeira vez, beijou-o.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Só como sempre

Sexta-feira, dia da…

Ele dorme ao meu lado, o braço dele livremente drapejado sobre mim como a sobrecapa de um livro. Sinto os pêlos do seu braço misturados com os do meu estômago, mistura que aumenta com cada respiração. Uma centena de vezes que isto aconteceu exactamente desta forma, eu a acordar antes dele, sentindo o seu hálito quente contra a parte de trás do meu pescoço. Ele está tão perto de mim, tão perto fisicamente.
No entanto, estou sozinho, como sempre.
O sentimento de isolamento provoca coisas estranhas em mim e, embora eu saiba isso, ainda sucumbo à minha própria loucura. Ele, especialmente nestes momentos de irrealidade no período da manhã, parece não existir. Ele é um simples fantasma de seu antigo eu, um holograma, uma lasca de madeira do homem por quem me apaixonei. Sempre, uma centena de vezes, pelo menos, eu na cama, sob o peso do seu braço.
Mas esta manhã é diferente. Eu posso sentir o outro corpo no quarto. Ela é uma forte presença, tão vigorosa quanto eu desejo. Fitada em mim, ela sabe que eu não estou a dormir, mas os meus olhos estão bem fechados. Ao abri-los ela está mais próxima, bem pé perto de mim, olhando-me. Como se o seu olhar pudesse confirmar a minha realidade, a prova de que eu preciso para saber que eu existo.
Ela curva-se para sussurrar alguma coisa no meu ouvido, ignorando a minha nudez. As suas unhas passeiam pelo meu queixo e estou estranhamente excitado.
– Temos de fazê-lo agora…
A sua respiração está quente como o seu leve toque. As suas palavras são minúsculas brisas sobre mim. Ele pode senti-la também? Antes de os ecos de sua voz terem morrido na minha cabeça, ela foi-se embora.
Ele desloca-se ao meu lado.
Hum - diz ele, esfregando os olhos. - Que horas são?
– Sete, oito horas - digo eu, mas não posso ter a certeza.
– Merda- diz ele.
Lança-se para fora do seu lado da cama, estica os braços e boceja.
– Levantas-te? - pede ele, correndo os dedos através do seu cabelo.
Não espera pela minha resposta. Anda à volta do meu lado na cama, encosta-se e beija-me na face. Pausando ligeiramente, com um olhar de piedade nos olhos, acrescenta:
– Fazes-me o pequeno-almoço? - e com uma palmada na minha coxa sai em direcção ao chuveiro.


Domingo de manhã. Cinco dias antes de…

Eu estava lá fora, quando ela chegou num automóvel branco, usando óculos escuros.
– Desculpe-me - chamou-me, mas eu sabia que ela era do tipo que nunca pede por favor nem com licença.
– Esta é a Rua Diogo Arruda?
– Não! - houve um ligeiro tremor na minha voz, como uma criança que é chamada à frente na sala de aula para responder a uma pergunta.
– Esta é a Gualdim Pais. A que deseja é aquela ali, só tem de contornar - apontei com o dedo.
– Depois deste edifício?
– Sim – disseram meus lábios, mas o meu coração gritou:
– Por favor, não vá!
Ela não ouviu. Num segundo, já se tinha ido embora.
Como se nunca ali tivesse estado.


Segunda. Tarde. Quatro dias antes de…

Era uma noite fria de Outono e eu estava enrolado no meu cobertor favorito com um livro, quando ouvi a campainha tocar. Instantaneamente meu coração disparou. Normalmente a campainha não despertava um tal sentimento de inquietação, mas eu estava sozinho. Fui até a porta e espreitei pela vigia.
– Quem é? – perguntei, desnecessariamente. Reconhecendo-a instantaneamente.
A voz dela soou lá fora. Reconheceu-me também.
– Conhecemo-nos ontem. Lembras-te?
Como poderia esquecer? Abri a porta, mas só um pouco.
– Lembro-me… – disse eu, e as minhas palavras timidamente escorregaram para fora de mim, por detrás da porta.
– Perdeu-se outra vez? – perguntei, lamentando a estupidez da questão, no instante em que as palavras passaram os meus lábios.
– Sempre – ela sorriu para mim e riu um pouco. – Na verdade eu só queria agradecer-te. Estava cheia de pressa ontem à tarde e não te agradeci.
– É fácil perder-se aqui. Ainda bem que pude ajudar. Já agora, chamo-me Sebastião.
– Carmo. Bem, eu deveria ir. Tenho de estar amanhã cedo em Sintra.
Ela era um tal mistério. Quem ou o quê esperava por ela na Diogo Arruda ontem e amanhã de manhã em Sintra?
– Tem certeza? Porque não entra e toma um café comigo? – perguntei. – Vai precisar de cafeína, para conduzir a noite toda.
Abri a porta, mas realmente estava a abrir muito mais. Ela sorriu e atravessou o limiar entrando na minha vida.
Chamando a sua atenção para o sofá, dirigi-me para a cozinha. Quando voltei com as duas chávenas de café, ela estava sentada confortavelmente.
– Interrompi a tua leitura – disse ela, quando viu o meu livro em cima do cobertor.
– Oh, não. Eu estava a ler a mesma página vezes sem conta.
Nossas mãos tocaram-se brevemente ao entregar-lhe o café, o frio da nossa pele contrastando com o calor das chávenas.
– Açúcar, Carmo? – foi a primeira vez que eu disse o nome dela e vi seu sorriso quando ele rolou na minha língua. Ela abanou a cabeça e sentei-me a seu lado.
– Vives sozinho, Sebastião? – ela disse meu nome, como se estivesse a retribuir um favor.
– Não. Com o meu namorado, mas… ele não está… saiu por uns dias.
Ela olhou para mim como se soubesse que minhas palavras significavam mais do que elas diziam.
De repente fiquei consciente do perigo de ter um estranho em minha casa e de lhe dizer que estava sozinho. Mas estranhamente não tive medo.
Uma pausa embaraçosa, durante a qual nervosamente cada um acariciou a sua chávena de café.
– Posso usar a casa de banho? – perguntou.
– Claro. Ao fim do corredor.
Ela levantou-se e dirigiu-se na direcção indicada, com os meus olhos a seguirem cada movimento seu.
Só podia estar louco, para pensar o que pensava naquele momento. No entanto, aquele pensamento aflorava cada vez mais vivo na minha mente.
Ao fim de algum tempo e como nunca mais voltava, comecei a duvidar da sua existência. Seria um sonho? Esperei o mais que pude e fui procurá-la. A caminho da casa de banho passei pela porta aberta do quarto. Mantenho a porta sempre fechada, mas o Jorge deve tê-la deixado aberta. Agarro a maçaneta da porta na intenção de a fechar e lá está ela, de pé, perto da minha cama, olhando a fotografia na minha mesa-de-cabeceira. Limpo a garganta para anunciar a minha presença. Depois do embaraço inicial e pegando na moldura com ambas as mãos, pergunta:
– É ele? É bonito. Um homem cheio de sorte…
– Obrigado – respondo, sem saber se me sentia invadido ou seduzido.
Avançando pego na moldura e mais uma vez as nossas mãos tocam-se. Os nossos olhares tocam-se e, sem mais para onde fugir, os meus lábios seguem os dela.


Terça. Manhã, três dias antes de…

Dormiu ao meu lado, o seu braço livremente drapejado sobre mim como a sobrecapa de um livro. Sinto os pêlos do seu braço misturados com os do meu estômago, mistura que aumenta com cada respiração. Uma centena de vezes que isto aconteceu exactamente desta forma, mas hoje é diferente. O seu braço parece mais leve. Suave. O seu corpo desloca-se ao meu lado, desperta e pergunta-me:
– Que horas são?
– Sete, oito horas… – digo eu, mas não posso ter certeza eu mesmo.
– Posso tomar um duche? – pergunta saindo completamente nua de debaixo dos lençóis.
Primeiro pensei que sonhava. Tinha de ser um sonho. Então tentei acordar, desta vez para a realidade da água a correr na casa de banho.
Entrei e, em vez do Jorge estava uma mulher, nua, nua no meu chuveiro. Uma mulher que rapidamente se aprumou, vestiu e me beijou.
– Não estou a fugir. Mas tenho mesmo de ir.
Ela percorre toda a casa como se fosse a sua casa.
– Deixei o meu número na mesa-de-cabeceira – mas antes que o pudesse confirmar, ela beijou-me de novo e saiu porta fora.
Tudo o que ficou foi o gosto dela na minha boca.


Sexta. Tarde, no dia de…

Hoje de manhã depois de fazer o pequeno-almoço, três torradas com manteiga sem sal, uma caneca de café com leite e um sumo de laranja acabado de espremer, sentei-me a assistir enquanto ele comia tranquilamente. Sei que não devia, mas não suportava fazer muito mais. Vi-o ir para o trabalho e fique de novo sozinho, só mais uma vez, com os meus pensamentos. Não me lembro de nenhum deles. De repente são horas, oiço a porta a abrir, é ele que chega. Corro para a casa de banho e ao inclinar-me para a gaveta do lavatório atinjo um vislumbre de mim mesmo no espelho, fico impressionado com o quão terrível me pareço. Mal me conheço. Há algo de familiar neste rosto, por baixo dos hematomas e das lesões, tudo me parece pior, os lábios cortados, o olho direito inchado, quase fechado. Abro a gaveta, no interior o brilho metálico de uma arma. Eu sei que é uma arma e não me importo. Encaixa perfeitamente na minha mão e isso é razão suficiente para pegar nela. Um gesto mecânico, familiar, como se já o tivesse repetido um milhão de vezes, embora não me lembre. E muito alto, bem dentro da minha cabeça, algo grita. Quero colocar o meu dedo no gatilho.
O homem no espelho observa-me. Ele também tem uma arma. Coloca o dedo no gatilho e eu também. Ele sorri.
– Estás em casa?
Silenciosamente conto os seus passos até ao quarto, vai despir-se e depois vem para aqui. Conheço a sua rotina sem sequer o ver. Tirou a gravata e atirou-a para cima da cama. Despiu a camisa e a caminho da cadeira onde a vai pendurar descalça os sapatos. Depois avança para aqui. O meu dedo ainda está no gatilho.


Terça-feira, três dias antes de…

Futebol na TV. Ele quer outra cerveja e eu vou buscar. O telefone toca no instante que abro o frigorífico.
– Sou eu – disse ela ao ouvir a minha voz. – Quero ir aí.
– Hoje não – sussurro no desespero de a querer ver de novo.
– Amanhã, então?
– Sim, ele vai para fora.
– Onde é que ele está agora?
– Na sala, a ver futebol.
– Quero-te agora.
– Eu já disse…
– Toca-te para mim.
Fiquei chocado, tanto pelo meu pudor como pela sua petulância.
– Carmo!
– Por favor, faz de conta que sou eu.
Abro as calças e deixo a minha mão percorrer o meu corpo.
– Já estás?
– Sim… – respondo, afogueado e embaraçado. A minha mão encontra o alvo, primeiro por fora dos «boxers», depois no interior.
– Preciso de te ver.
– Amanhã à noite – digo entre respirações ofegantes.
– Mais rápido – ela sussurra e eu obedeço, movendo a minha mão para a frente e para trás num movimento ritmado.
– O que diabo estás a fazer?
Largo o telefone. Ele avança pela cozinha com um sorriso nos lábios, ao ver-me seminu. Ao ver o telefone, o sorriso desaparece abruptamente. Apanha-o do chão.
– Está? Está? Quem fala? Está aí alguém? – a sua fúria vira-se para mim. – Mas que merda é esta? Com quem é que estavas ao telefone?
Eu não respondo. Eu não posso.
– Com quem é que estavas ao telefone?
Eu não respondo. Eu não me lembro. Eu já me esqueci. Esqueci ainda antes de o seu punho atingir o meu rosto pela primeira vez.


Quarta-feira, dois dias antes de…

Não vi o Jorge em todo o dia. Passei a manhã, passei a tarde, passei a hora em que o sol se põe, ocupado em fazer nada olhando o relógio de minuto a minuto, não porque não pudesse esperar por ela, mas porque cada vez se aproximava mais a sua chegada. Não que não a quisesse ver, mas sim porque não queria que ela me visse, não assim. Não neste estado.
O quarto estava quase totalmente escuro e silencioso, eu deitado, coberto até ao queixo e completamente vestido debaixo dos lençóis. A mensagem era contraditória mas eu não me importava. Ela chegou, abriu a porta, chegou ao quarto e acendeu a luz.
– Apaga por favor – obedeceu e deslizou até mim, até junto à cama.
– Que se passa? – a sua mão acariciou o meu rosto. – Pareces zangado, ou com medo.
– Estou confuso. Confuso sobre tudo o que aconteceu entre nós.
– Mas o que é que há de confuso entre nós? – a sua voz era seca e magoada.
– Não sei. Eu… Não me lembro.
Era verdade, eu não me lembrava. Tinha vagas recordações de ter feito amor com ela. Mas eu não me lembrava. Quando estava sozinho não me lembrava. Eu não me lembrava de nada.
– Não te lembras ou não te queres lembrar?
Eu não conseguia explicar. Nem para mim próprio eu conseguia explicar. Pareciam duas realidades. Quando ela não estava eu duvidava de tudo e com ela aqui eu não duvidava de nada. Era como se a minha mente não aceitasse o que o meu corpo sabia ser real.
– Desculpa… É como se tu não fosses real. Como se eu estivesse sonhando.
Ela arrancou o lençol.
– Eu sou real – começando a desabotoar-me a camisa. – Eu sou mais que real.
Eu senti as suas mãos enquanto ela me despia, a sua boca no meu corpo. Eu sentia o seu corpo no meu. Eu sentia o meu corpo dentro do seu. Eu sentia tudo. Eu sentia tudo com se fosse a primeira vez.


Quinta, um dia antes…

Quando acordei ela estava aos pés da cama. Olhava-me com os seus profundos olhos castanhos. Eu sorri. Levantei-me inclinando-me para a beijar. Impediu-me.
– Quando é que me ias dizer?
– Dizer o quê?!
– O que ele te fez – não percebo. Não percebo do que fala. Não percebo o que quer saber.
– O que ele fez à tua cara – diz ela calmamente.
Subitamente entendi, eu já não me lembrava. Habituámo-nos ao ponto de esquecermos. Esquecemos o porquê, o quando e o onde.
– Espanta-me que ainda se note!
Algo nas minhas palavras a enfureceu porque subitamente arrasta-me da cama em direcção à casa de banho, empurra-me contra o lavatório e eu fico ali, em frente ao espelho.
A primeira coisa que notei foi que estávamos ambos nus, mas não era isso que ela me queria mostrar. Colocou a mão debaixo do meu queixo e, levantando-o, fez-me olhar para mim. O meu maxilar estava inchado, o meu lábio inferior gordo e o olho direito brilhava em sedutoras tonalidades de roxo. Eu lembro-me. Lembro-me de ele me bater. Mas é como se olhasse para outra pessoa no espelho e não para a minha própria carne.
– Eu vou matar esse filho da puta – disse ela, mas eu não estava consciente da sua presença.
Estava ocupado a tentar lembrar-me de como tinha acontecido, de como o meu amante me tinha batido, de como o meu amor me tinha amassado, até o meu rosto se transformar numa massa na qual eu não reconhecia a minha fisionomia. Estava apenas consciente das suas mãos no meu baixo-ventre enquanto as minhas mãos exploravam a minha cara, rastreando as lesões como se traçassem um roteiro para memória futura. E então ela sussurrou ao meu ouvido esmagado:
– Nós vamos matar o desgraçado.


Sexta. Noite, o dia de…

– Whou, Sebastião. O que é que estás a fazer com isso?
A sua voz era irónica, como se o facto de eu explorar esta arma, esta arma na minha mão, não pudesse apresentar qualquer perigo. Depois eu vi o medo. Vi o medo nos seus olhos quando lha apontei.
– Poisa isso, amor, poisa isso, olha que isso pode disparar.
– Estou a contar com isso – disse-lhe numa voz que não parecia a minha. Avanço, ele recua. Parece uma dança, um jogo infantil.
– O que estás a fazer?
– Vou matar-te – o meu dedo acaricia o gatilho. – Matar-te por tudo o que me fizeste.
– Mas o que é que eu fiz?
Avanço.
– És cego, Jorge? Ou és apenas estúpido?
– O teu rosto? Queres dizer o teu rosto?
Agora ele está assustado, encurralado entre mim e a cama.
– T-tu a-a-a-chas que fui eu que fiz isso? – balbucia, é incrível como uma arma carregada faz um homem gaguejar.
– Sebastião, tu caíste na casa de banho. Não te lembras? Bateste com a cabeça no lavatório.
– Não mintas.
– Amor, lembra-te. Eu cheguei a casa e tu estavas no chão, cheio de sangue. Não te lembras?
A pistola treme na minha mão.
– Pára com isso. Eu não acredito em ti. Tu bateste-me depois de me teres apanhado ao telefone com ela.
– Quem?
– A Carmo.
– Quem é a Carmo?
– A mulher que te vai enterrar.
– Tu estás fora de ti, amor, eu não conheço ninguém chamado Carmo.
– Eu estava ao telefone com ela. Naquela noite, na cozinha. Ela… Eu dormi com ela.
Ele riu-se, mas foi uma gargalhada curta. Parou assim que aproximei a arma da sua cabeça.
– Sebastião, estás a dizer-me que me vais trocar por uma mulher?
– Não, Jorge, eu estou a dizer que te vou matar por uma mulher.
– Espera. Ouve. Não há nenhuma mulher. Não houve telefonema nenhum. Não há amante nenhuma. Tu bateste com a cabeça no lavatório e agora não sabes o que dizes. Tu precisas de um médico.
– E tu, tu precisas de um cangalheiro – respondo eu.
Mas as suas palavras incomodam-me. As suas palavras formam um círculo em redor da minha cabeça. Eu sei que não são verdadeiras. Eu sei que é apenas uma tentativa desesperada para salvar a sua vida.
– Mentira, Jorge. Mentira. Mentira. Mentira – digo e repito, e repito porque é a única palavra que faz sentido na minha cabeça. E cada vez que repito o meu dedo treme no gatilho.
– Sebastião, eu amo-te. Tu sabes que eu te amo.
Aperto o gatilho e uma bala rasga o seu peito. Aperto outra vez e o seu corpo roda no ar embatendo na parede. Não há som. Não há estrondo, nem grito. Aperto uma terceira vez e a luz deixa os seus olhos e o corpo, o seu corpo cai, inerte no chão. Não me lembro quantas vezes disparei. Só me lembro que a arma ficou sem balas. Há sangue por todo o lado. Principalmente na cama e na parede, mas também em mim. Estou coberto de sangue. Por todo o corpo tenho manchas, tenho salpicos do seu sangue.
Na casa de banho, o fluxo de água fria desperta-me para o mundo exterior. As minhas mãos lavam os meus braços e a água leva o sangue do meu amante morto.
Estou sozinho ao espelho. O inchaço está a desaparecer, o meu olho está quase normal. Quase me reconheço novamente.
– Acabou – digo em voz alta, para ninguém em particular. Momentos depois ela está junto a mim.
– Daqui a umas semanas vais à polícia e dá-lo como desaparecido. Quando perguntarem por que não foste mais cedo, diz que é habito ele desaparecer dias a fio. Irão suspeitar que tem outro amante e não te incomodarão mais.
– Sabes o que ele me disse antes de eu disparar? Que tu não existias.
– Mas eu existo – e a sua boca procura a minha e as suas mãos o meu corpo.
– Eu existo, e estou aqui.
Ela deita-me no chão, as suas mãos trabalham o meu baixo-ventre. Rasgando a minha camisa ainda manchada do sangue do Jorge, as suas mãos sobem e descem pelo meu peito, circundam o meu pescoço, enquanto ela lambe uma estrada em direcção ao meu estômago. O seu cabelo roça a minha pele. As minhas costas em arco. Eu gemo. Quase instintivamente meu corpo levanta-se e começa a subir e descer cada vez mais fundo, cada vez mais rápido. O orgasmo invade todo o meu corpo e ela mantém-me preso até me esgotar, até eu cair para trás no chão de azulejos, exausto, ofegante. Os meus olhos fechados.
É a luz que eu avisto em primeiro lugar, a luz brilhante no tecto da casa de banho. Estou deitado sobre o frio chão duro, o lavatório quase directamente sobre mim. Vejo uma linha escura, possivelmente sangue seco que tinha escorrido para baixo e fora da vista. Posso até tocar, mas não preciso. Eu sei que é meu. Levanto-me e olho-me no espelho. Sou eu, tudo bem. Nada foi alterado. O quarto está escuro e silencioso, mas não está vazio. Mesmo na sua quietude posso vislumbrar vagamente a forma do corpo em cima da cama. É um corpo que conheço bem, com curvas e ângulos. Se eu não respirar, quase posso ouvir os sussurros do seu respirar. Carmo dorme na minha cama.
Aproximo-me e deito-me. A minha roupa fica no chão enquanto me enrosco naquele corpo e nos lençóis. Plenamente consciente daquele braço em volta da minha cintura, suspenso entre o mundo e o sono, começo a sonhar. Nesse sonho, está alguém ao pé da porta, e fala para mim. Nesse sonho Jorge fala para mim.
– Temos de fazê-lo agora.
Pisco os olhos e ela está acordada, está a ir-se embora. Mas, em vez disso, ela fica, deitada a meu lado. De algum modo eu sei que ela se está a ir embora. Puxa-me para si e sussurra algo ao meu ouvido. Beija um lado da minha boca e carinhosamente toca minha bochecha. Meus olhos fecham-se novamente. Quando os abri, ela tinha desaparecido. Como se nunca ali tivesse estado. Os meus dedos tocam a minha boca, onde posso continuar a sentir os seus lábios.
«Agora estás livre… livre…», as palavras que ela sussurrou ainda ecoam na minha mente.
Quase não reconheço a minha própria voz quando digo: «Agora estou sozinho.»
Como sempre.