quinta-feira, 17 de maio de 2012

Anjo Negro de Luis Fernandes


Distraído, entrou num bar sem se aperceber. Ao fundo do balcão estava uma TV ligada, mas sem som, a transmitir um jogo de futebol da liga espanhola. Era um balcão corrido com bancos altos ocupados quase banco sim, banco não. As paredes do bar estavam repletas de merchandising de um clube espanhol – cachecóis, bandeiras, camisolas, galhardetes, tudo naquele espaço era alusivo ao clube. Adepto de um pequeno clube marroquino, não o espantava a obsessão aparente que tomava conta de quem servia e de quem era servido. Todos aguardavam a final da partida que era transmitida pela televisão e que daria lugar ao jogo da Taça do Rei que tanto ansiavam. Em poucos minutos o leve ruído que se fazia ouvir transformou-se numa algazarra encimada pelo som da televisão aos berros e pelos comentários animados da dezena de pessoas que olhava para o televisor como se estivesse num camarote.

                                                            ***
Umas horas antes…

Naquela manhã Omar acordara calmo mas decidido. Era, sem dúvida, um óptimo dia para morrer. Porque não? E se não fosse hoje, seria com certeza nos dias que se seguiriam. Na noite anterior tinha-se despedido dos pais e anunciara a sua decisão de morrer pela causa islâmica, podendo assim honrar a sua família e elevar-se a mártir – um orgulho para os pais e para todos os seus. Omar fazia naquele dia 19 anos e achava que não podia adiar mais o seu destino. Tinha uma quantidade considerável de explosivos, que guardava debaixo da cama, os quais tinha herdado de um companheiro de escola que vira a sua vida acabar devido a um momento de distracção - tinha morrido atropelado sem ter conseguido cumprir o destino a que se entregara. Omar questionava-se agora qual seria o alvo do seu atentado. Não queria cair no esquecimento. A publicidade que rondaria o seu acto era um dos seus objectivos. Queria ser falado e servir de exemplo aos seus conterrâneos mais novos – queria ser lembrado como herói.

Omar afagava a sua vasta cabeleira e perfilava a sua barba apesar de ainda imberbe. Os seus olhos negros, profundos, faziam a delícia das mulheres nórdicas, que, com os seus loiros cabelos, quase incolores, se prostravam diante dele na esperança de que aquele homem de aspecto agreste se deixasse entregar em seus braços. Esperança vã, já que para Omar não obedecer à castidade estava fora de questão. Omar desconhecia o prazer e facilmente fugia aos olhares lascivos daquelas fêmeas provocadoras e dos sorrisos convidativos que deixavam adivinhar uma noite de sexo selvagem.

O futuro mártir habitava num pequeno apartamento nos subúrbios de Madrid, que partilhava com mais três árabes. Os companheiros raramente estavam em casa, mantendo rotinas completamente diferentes das dele, o que lhe permitia muito tempo de calma e reflexão. O seu principal passatempo era engendrar diversas formas de assassinar o Primeiro-Ministro Israelita.

Não tinha passado muito tempo desde que fora perseguido na rua e espancado, com bastões de basebol, por um grupo de cabeças rapadas que ostentavam orgulhosamente suásticas ao peito e envergavam roupas negras coladas ao corpo, assim como botas militares, que lhes transmitiam um ar violento e assustador. Na altura Omar não se deixou intimidar, o que lhe valeu a cabeça aberta e diversas escoriações por todo o corpo. Aqueles actos eram cada vez mais frequentes nos bairros pobres da periferia e começavam a espalhar o pânico entre as comunidades muçulmanas. Não seria mal pensado pôr cobro a isso arquitectando um ataque suicida ao “quartel-general” destes pseudoguerreiros, que se juntavam diariamente num barracão abandonado, onde decidiam o raio de acção para cada dia. Mas teria um impacto de pouca extensão.

Omar pouco conhecia da história europeia. Lembrava-se das Cruzadas levadas a cabo pelos fidalgos cavaleiros, que empreendiam, na altura, uma guerra santa em nome da razão cristã. Odioso perante tal lembrança, esboçou um esgar cínico, que culminou com um soco sonoro na parede. Lembrou-se do Eusébio, essa pantera negra, que enchia de excitação a sua faceta de “futebolista castrado”. Esse homem devia ter sido muçulmano, pensava Omar em voz alta! Um ser fisicamente tão brilhante nunca poderia ter um deus diferente do dele. Nisto decidiu-se! O seu alvo seria um estádio de futebol cheio de adeptos a assistirem a um jogo. Não era original, mas seria eficaz e grandioso.Bastava-lhe agora escolher o estádio maior da Europa ou, quem sabe, a equipa de futebol mais cara da Europa. O país, ou a cor política do governo do mesmo, era pouco importante.

Naquele dia teria lugar um grande jogo na cidade. Sem dúvida um alvo apetecível, mas uma contrariedade fez frente aos seus intentos – os bilhetes estavam esgotados e não tinha dinheiro para adquirir um no mercado negro.

Depois de várias tentativas sem êxito, deambulou pelas ruas sem qualquer destino aparente.
                                                           ***

Omar, encostado a uma máquina de flippers, observava a “fauna” que fazia daquele bar um lugar imundo e impuro e a visão causava-lhe náuseas. Acabou por pedir um chá de menta, que sorvia como um acto sagrado, enquanto o jogo, iniciado há quinze minutos, lhe ia prendendo a atenção e aos poucos se sobrepunha ao intento que o fizera sair de casa.

Eram perto das nove da noite quando entrou pela porta uma mulher jovem e atraente, com feições árabes, que fugia sem dúvida de alguma coisa. Imediatamente Omar prendeu a sua atenção nela. Seria prostituta? Omar não queria sequer admitir que uma mulher com as suas raízes frequentasse um lugar conspurcado daqueles. Não sendo prostituta, só poderia estar em apuros e mesmo isso não seria razão para quebrar tais regras. E não se enganou: numa correria e algazarra perturbantes, perseguiam-na seis seus velhos conhecidos – os cabeças rapadas que o tinham sovado e que travaram de imediato assim que o viram. Em pouco tempo dividiram-se em dois grupos. Dois foram em direcção da jovem e os restantes quatro trataram de encurtar cautelosamente a distância que os afastava de Omar, enquanto este recuava rosnando entre dentes palavras impercetíveis em árabe. Lançou a mão ao bolso traseiro das calças e de forma subtil alcançou a ponta e mola que tinha adquirido após a sova aplicada pelos skins. Conseguiu desviar-se do primeiro bastão e investiu de navalha reluzente na mão, deixando um dos agressores dobrado sobre o abdómen. Lançou-se ainda em fúria sobre o segundo agressor, que se esquivou, sendo apenas golpeado de raspão junto à boca.

Omar dividia a sua atenção entre a luta e a rapariga assustada e ameaçada pelos outros skins. Num golpe de cintura, fugiu aos murros desajeitados dos dois skins que restavam intocados e precipitou-se sobre os que amedrontavam a rapariga. Nessa altura sai de trás do balcão, de barra de ferro em punho, o barman, provavelmente o próprio dono do estabelecimento, que aos berros se dirigiu rapidamente aos skins. Omar ficou a saber que também para este homem os cabeças rapadas eram velhos conhecidos, que, à força da destruição que tinham causado em visitas anteriores, o punham completamente fora dele. E foi com a cegueira da fúria que conseguiu correr com eles para fora do estabelecimento, ajudado por Omar e dois outros clientes já turvados pelo álcool que anulava o medo e a consciência. Quando por fim tudo tinha acalmado, Omar reparou que a jovem árabe já não se encontrava entre eles, mas por mero acaso também reparou num pequeno bilhete esquecido numa mesa que dizia apenas “obrigada”. Pagou o chá e saiu a correr desconhecendo que direcção deveria seguir para tentar interceptar a jovem. Andou sem rumo até se cansar e, por fim, decidiu rumar a casa utilizando o metro para o fazer. Assim que entrou na carruagem e as portas se fecharam, viu passar na direcção contrária a jovem que tanto interesse lhe tinha causado.

Cabisbaixo, subiu as escadas do prédio em que morava e, metendo a chave à porta, dirigiu-se ao seu quarto com o intuito de fazer uma breve leitura do seu livro religioso. Mas o seu pensamento não parava sossegado e deambulava pelas lembranças breves que mantinha dos acontecimentos daquela tarde, acabando por se encostar e adormecer.

Eram já cinco da manhã quando acordou esfomeado e, saltando da cama, enquanto preparava algo para comer, deparou-se novamente com as insistentes lembranças. Aquela que se cruzara com ele naquela tarde era com certeza muito especial. Aquela obsessão nova tinha feito adormecer a anterior. Já não queria morrer. Já não pensava sequer na sua condição de futuro mártire já nem sequer lhe apetecia perder mais tempo a engendrar vinganças religiosas. Não sabia como poderia encontrá-la, mas iria tentar.

Daí em diante todos os seus minutos livres eram dedicados de forma obstinada à procura da rapariga árabe. Palmilhava quilómetros pelas ruas de Madrid na esperança vã de a voltar a encontrar e… voltou... Meses mais tarde, enquanto distraidamente atravessava uma rua fora da passadeira, só teve tempo de olhar o condutor e cravar a sua atenção no rosto sublime da sua obsessão antes de ser mortalmente atropelado. Tal como o amigo que lhe deixara em herança os explosivos que guardava em casa, também ele via a sua vida a esquivar-se pelos dedos da mão da mesma forma. E foi a mesma visão que os acompanhou no derradeiro adeus – uma mulher árabe que ocupara todos os seus pensamentos nos últimos meses de vida.

Outros herdaram os explosivos e todos esses outros morreram com a mesma visão.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Epifânia de Helena João.

O badalar dos sinos soa metalicamente na minha cabeça, confundindo-se com a dor que já lá se instalou. O cortejo inicia-se e eu assisto a tudo, pairando sobre mim mesmo, numa estranha experiência extracorpórea. Dezenas de pessoas seguem atrás de mim e daquele estranho objecto onde ela foi posta. Morreu. A palavra repetida dezenas de vezes não faz qualquer sentido. Morreu. Abandonou-me. A mim e ao filho que também é dela.
Mais meia hora e está tudo acabado. Sete palmos de terra. Flores. Pêsames. Abraços sinceros e outros de conveniência. Acabou tudo. Ouve-lhe a voz que lhe diz «até já». Vê-a parada, sentada no carro, a olhar para cima, para a sua janela. A última vez.
Conhecera-a anos antes por um mero acaso. No preciso momento em que regressava a casa da entrevista daquele que viria a ser o seu primeiro emprego, a sua caixa de e-mail recebia uma notificação. Era uma notificação de uma dessas redes sociais, às quais se adere numa tarde onde não há mais nada para fazer e parece boa ideia expor assim um pedacinho do íntimo de cada um. Já há meses que não abria essa página de perfil, esse local onde meia dúzia de fotografias suas jazia. Sozinhas, isoladas, perdidas no ciberespaço. Nunca se dispôs a cancelar essa conta, apesar de não saber bem porquê. A verdade é que, por um acaso qualquer, essa conta não foi terminada e era dela que recebia agora a notificação. Alguém tinha comentado uma fotografia sua. Abriu a conta e clicou no link que indicava que havia «new comments». Debaixo daquela fotografia ela tinha escrito «Are you the king of the world?» A fotografia era uma das suas preferidas. Tinha sido tirada em Sintra, no Convento dos Capuchos, já cá fora, depois da visita ao que é o mais claustrofóbico ponto turístico que visitou. E gostava dela, não por ser uma séria candidata ao Pulitzer, mas porque essa fotografia espelhava a sua felicidade. Não se via o seu rosto, mas sabia que estava feliz. Nessa fotografia estava em cima de um rochedo, de braços bem abertos e a olhar para o céu, como que a abraçar toda a vida, toda a força que sentia possuir. De certa forma, sim, sentira-se o rei do mundo.
- É melhor deixares o menino cá em casa comigo esta noite. Para descansares, para teres tempo de arrumar tudo.
- Está bem, mãe.
Assim que rodei as chaves na fechadura e entrei, o espaço de todos os dias olhou-me pela primeira vez. Está tudo como umas horas antes, o bonsai e a orquídea, os livros na mesa da televisão, o comando esquecido no sofá, a persiana meia corrida, na janela ainda sem cortinas. Pertence tudo a uma outra casa, a uma outra vida. Sinto-me intruso.
Recorda a derradeira noite, quando ela finalmente lhe contou. Chegou a casa, sem a mochila e ele soube que algo de errado se passava. Arrastava os pés, pendia-lhe a cabeça e os ombros encolhiam-se como que a evitar o inevitável. Numa das mãos trazia um presente. Trazia sempre um presente. Um embrulho feito por ela, à pressa, mas sempre com o menino no pensamento. Desta vez era um livro.
Sentada no sofá, olha para ele e as lágrimas escorrem-lhe sem esforço. Não soluça, não produz qualquer som. Apenas aquela dor transborda sob a forma de rio salgado a desprender-se de uma nascente de castanho. E, calmamente, conta-lhe tudo. Conta-lhe como numa manhã de Abrilresolveu ir, finalmente, ao médico e investigar a dor de cabeça que já há meses a atormentava. Conta-lhe como após uma exaustiva passagem por vários departamentos do hospital, a informaram do diagnóstico. Conta-lhe o prognóstico que esse diagnóstico acarreta.
Em Abril! E a mim conta-me em Julho! Dá-me o facto como consumado. Sentença proferida após julgamento à revelia. Já não há nada que eu possa fazer. Odeio esse sentimento! Odeio sentir que me retiram o controlo dos meus sentimentos. Odeio-a neste momento. Ou quero odiá-la e não consigo. Odeio-me porque nem sequer quero pensar no que ela sente.
Negação, raiva e negociação, os três estádios em cinco minutos. Vai ficar sem ela. Não! Porquê? Resta-lhe uma eternidade para viver o quarto. Depressão.
Olha a porta do escritório, sem a abrir. Sente lá dentro a cadeira dela, o portátil fechado, mas ligado em cima da mesa. Ouve-a a pedir-lhe um café dos nossos. Entra no quarto e deita-se na cama. Fita o infinito sob a forma de tecto pintado de amarelo e assim permanece. Não sabe quanto tempo passou. O menino não ficou com a mãe apenas aquela noite, mas ele perdeu a noção do tempo. Não sabe se passaram dias, semanas ou meses. Mas sabe que o tempo nunca passa no tempo certo. Tempo que passou depressa demais quando ela era dele e não lhe morria nos braços. E agora não passa, agora não corre célere. Agora não o transporta ao esquecimento.
Já fiz tudo o que me era exigido fazer. Despejei as gavetas, coloquei tudo em caixotes e tirei-os de casa. Mudei a cor das paredes da sala e os móveis do escritório. Só a orquídea permanece.
Divide os dias entre a dor da perda e a raiva. Raiva por ela o ter deixado tanto tempo na ignorância. Sente-se traído. Talvez ela apenas o quisesse proteger. Talvez esperasse encontrar uma solução. Sente-se traído, é indiferente.
Quer desintoxicar-se dela. Reabilitar-se. Mas não sabe como. Tenta não pensar. Porque pensar é não compreender. O Mundo não se fez para pensarmos nele. Pensar é estar doente dos olhos. Que sábio sempre lhe pareceu Alberto Caeiro… E olhando à sua volta ele vê. Vê o menino que cresce sozinho, sem ela, mas, mais grave do que isso, sem ele, que é o seu pai. Vê a mãe preocupada com a vida que sente que se apaga dentro dele. Vê os amigos. Esses de sempre e aqueles, mais recentes, em esforços vãos de lhe devolver o sorriso. Vê no espelho uma pessoa que não reconhece. Vê aquilo em que não se quer tornar. E percebe que não se escolhe aquilo que acontece na vida de cada um. Mas que pode escolher-se como lidar com isso, escolher o que isso vai fazer de nós. Decide que tem de parar de procurar respostas no tecto pintado de amarelo e levanta-se da cama. Talvez não haja respostas. Talvez não tenha que ser tudo científico. Talvez seja possível viver sem perceber. Percorre novamente as divisões do T3. Falta-lhe vida. Faltam-lhe brinquedos espalhados pelo chão e risos de criança. Faltam cortinas na janela da sala. É tempo de tratar disso. E de fazer os furos na parede para as fotografias. Lentamente a dor dentro da sua cabeça começa a desvanecer-se. Vai sendo substituída por projectos de futuro. Afinal, parar é morrer. A dor no coração não se vai embora já. Mas a pouco e pouco também muda de nome. Passa a chamar-se saudade e fica arrumada numa gaveta dentro da alma.
Entro no quarto do menino. Não perdeu a aura de santuário, continua a ser o espaço protegido de brincadeiras e risos, de parede pintada com desenhos de carrinhos e super-heróis e a estante cheia de livros. Pego no casaco castanho, aquele que lhe vesti no dia em que fomos ao Zoo ver as focas.
- Anda filhote, vamos.
- Trazes uma prenda?
- Não, mas, se te portares bem, compro-te uma no caminho.
O Sol não se vai pôr ainda, não me faz uma desfeita dessas. Ainda há tempo. Nas próximas duas horas vai passar devagar, mas isso não importa. O menino corre com o cão pelo areal até caírem os dois e, a rebolarem, se confundirem com a paisagem. As gargalhadas de sempre ecoam desenterrando memórias. Afinal ainda estou vivo. Ou renasci. Juntos somos uma unidade.
No caminho de casa compra-lhe um livro. Aceitação.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Nem às paredes confesso de António Alvarez

Capítulo I – A outra margem

O tempo estava frio e ali parado, no cais daquela velha estação de comboios, sentia o corpo ainda mais arrepiado. Bem puxava a gola do velho sobretudo para cobrir a face, mas a aragem que corria penetrava por todo o seu corpo causando-lhe desconforto. Naquele corpo magro o sobretudo baloiçava à menor aragem e dava-lhe um ar caricato, quase de “espantalho”. É verdade que já lhe chegara às mãos depois de muitos invernos passados noutras costas, mas era o único agasalho que tinha para dias como este.
Enquanto andara para a frente e para trás calcorreando o cais, parecia não estar assim tão desagradável. Mas agora que parara sentia mais o frio. Tirou uma das mãos do bolso e olhou o relógio. Marcava 7,26h, mais dois minutos que o velho relógio da estação. Bateu com os pés uma vez mais para aquecê-los epuxou de um cigarro para ajudar a passar o tempo. O comboio partiria às 7,40h. Ainda pensou em ir beber mais uma bica mas hesitou, calculando que com isso se poderia atrasar e deixar passar o comboio. Não é que o tempo de beber um café fosse assim tanto, mas, sei lá, poderia estar muita gente e depois não ter tempo de pagar. E de maneira nenhuma queria passar por “caloteiro”. Isso não!
- Bom dia! Por acaso o senhor tem lume? – rodou a cabeça para o seu lado esquerdo e deparou-se com um rapaz ainda jovem, de farta cabeleira, e com uns óculos redondos de aros cor de tartaruga na cara.
- Sim! – e passou-lhe o isqueiro para as mãos.
- Obrigadinho! – disse-lhe o jovem afastando-se um pouco mais do local onde ele se encontrava.
Olhou para o lado do castelo e observou as ruínas da “Torre da Má-Hora” lá ao fundo. Iria vê-la de mais perto quando fosse no comboio. O apito estridente efetuado pelo chefe da estação trouxe-o de novoà realidade.Pegou na mala e aproximou-se mais da beira do cais. A velha composição ronceira vinha-se chegando à velha estação e os poucos passageiros iam-se aproximando mais para o local de embarque. Dali iriam até à Torre da Gadanha, onde apanhariam o comboio vindo de Beja para o Barreiro.
Sentou-se à janela do lado onde veria a vila a ficar para trás. Os bancos não eram muito confortáveis mas a viagem também seria curta até à próxima estação. Traçou a perna e pousou a cabeça na mão, em concha, encostado ao vidro da janela.
- Custa partir não é?
Olhou em frente e era o mesmo jovem que lhe pedira lume e que agora se lhe dirigia. Pouco tinha reparado nele, a não ser talvez a sua cara. Tentava agora adivinhar-lhe a idade. Talvez 19 ou 20 anos! Vestia-se como qualquer outro jovem da sua idade. Umas calças de ganga, uma camisa de flanela azul e vermelha, tendo por cima uma camisola de lã com gola em bico, e um casaco, também de ganga, completavam a indumentária simples. Nos pés usava umas botas de carneira já com aquele castanho bem forte do uso contínuo. Ao seu lado no banco, uma mochila, daquelas que se usavam na tropa, bem ataviada.
- Eu sempre aqui vivi com a minha avó – continuou o rapaz .– Nunca conheci os meus pais! Morreram os dois num acidente e depois a decisão do tribunal foi a de me entregaremà minha avozinha – reparou que olhos do jovem brilhavam quando falava da avó. – Desculpe! Nem sequer me apresentei! Sou o João Manita – e lançou a mão na sua direcção.
- Prazer João! Eu chamo-me Álvaro Fontes – foi tudo o que acabou por lhe dizer.
- Também vai para Lisboa? – perguntou-lhe o jovem.
- Sim rapaz! Moro lá – e endireitou-se no banco do comboio.
- Mora lá? Então talvez me saiba dizer onde fica o Largo de Camões. É que eu…
- Já sei… Nunca foste a Lisboa! Não é isso? – perguntou-lhe simplesmente.
- É isso mesmo. Não conheço mesmo nada! – respondeu como se estivesse a desculpar-se da ignorância de não conhecer a capital.
- Fica descansado que dir-te-ei onde fica... Quando lá chegarmos!
Entretanto Montemor-o-Novo ia ficando para trás, cada vez mais pequeno, no que o seu horizonte visual alcançava. Não tardariam muito a chegar à Torre da Gadanha. Ali teria de esperar mais trinta e cinco minutos pelo comboio vindo de Beja.
Junto à estação havia um pequeno café que àquela hora apresentava pouca freguesia. Como não tinha tomado a sua “bica”, aproveitou o tempo de espera e dirigiu-se para lá.
- Não se importa que o acompanhe? – perguntou o seu “companheiro” de viagem.
- Claro que não. Vem daí!
Caminharam lado a lado silenciosos até ao café. A tabuleta, já gasta, indicava o nome do estabelecimento: “O Cantinho da Gadanha”. Condizia com o tamanho do lugar. Um pequeno balcão, quatro pequenas mesas e oito bancos de madeira era todo o mobiliário que possuía. Na parede um quadro do Benfica e um rádio, já antigo, cujo som deixava um pouco a desejar. Nas prateleiras garrafas de várias bebidas e em cima do balcão uma pequena vitrina, de madeira e vidro, que deixava ver alguns queijos e torresmos. Ao lado um prato com bolos, que, pelo aspeto, deveriam ser do dia anterior.
- Ora então muto bons-dias! O que é vai ser? – perguntou o dono do estabelecimento.
- Eu tomo um café. E tu João?
- Para mim pode ser também um cafezinho bem quentinho! – respondeu o jovem enquanto esfregava as mãos uma na outra.— A ver se aqueço, que isto está agreste Sr. Álvaro.
O comboio atravessava a planície alentejana em direção ao Barreiro. Calculava que por volta das 14,30h chegaria ao Terreiro do Paço. O João adormecera entretanto. Olhava para ele e vinham-lhe à memória recordações de si com aquela idade. Vivera intensamente como se o “mundo lhe fugisse das mãos”.
Um pouco antes de a composição entrar na gare do Barreiro, Álvaro deu um pequeno safanão no ombro de João.
- Estamos a chegar rapaz!
João quase que deu um salto no banco – Eh! Sr. Álvaro, isto é que foi “ferrar” bem no sono! – respondeu esfregando os olhos com as mãos. Entretanto espreguiçou-se um pouco.
- João, temos de nos despachar que o barco é daqui a um quarto de hora – disse-lhe Álvaro. Ao mesmo tempo foi tirando a pequena mala da bagageira que se encontrava por cima dos bancos.
Tinham escolhido um lugar à proa do barco. Aí podiam fumar e olhar a paisagem de um lado e do outro. Lisboa ia ficando cada vez mais perto. O seu olhar já divisava as muralhas do Castelo de São Jorge e as torres da Sé Velha.

 
- Vês aquelas muralhas lá no alto? É o Castelo de S Jorge – e apontava o dedo de modo  que o João o seguisse com o olhar.
- Eh, Sr. Álvaro, isto é que é um “mar”! É só água e mais água – observava o jovem.
- Aqui ainda não é mar! É só rio. É o rio Tejo. Mas lá grande é ele na verdade!
Um barco igual aproximava-se em sentido contrário. Vinha de Lisboa em direção ao Barreiro. As buzinas soaram quando se cruzaram: “booooooooommm…, booooooooommm..., booooooooommm”. As ondas criadas pelo rasgar dos cascos batiam de lado no barco fazendo-o oscilar. Algumas pingas bateram na face e sobre os lábios um sabor a sal que lhe trouxe à memória outros lugares bem longe dali...



Continua...

terça-feira, 6 de março de 2012

Uma Viagem de Comboio de Célio Passos


Já lá vão uns largos anos, mas, de vez em quando, este acontecimento regressa à minha memória.
As viagens de comboio sempre me fascinaram. Talvez por ter vivido uma parte da minha infância junto a uma estação de caminho-de-ferro. De noite, já alta, ouvia as máquinas a vapor a fazerem manobras e a retirarem e engatarem carruagens de mercadorias nas composições destinadas a diversos destinos e depois arrancavam, ao som de um curto silvo, e eu encolhia-me debaixo dos lençóis, como passageiro clandestino, e adormecia feliz.
Estava sentado no comboio estacionado numa das estações da linha do norte admirando, mais uma vez, os belos azulejos que revestem as paredes das estações que ainda vão resistindo à inexorável passagem do tempo, quando a composição se colocou em movimento. Eu ia mais uma vez à capital por razões de trabalho. A carruagem era a última, ia com poucos passageiros, talvez sete ou oito, o que não era normal. Tirei um livro da pasta e pus-me a ler. Apesar de o comboio ter poucas paragens até Lisboa, apercebi-me que a carruagem cada vez ficava com menos passageiros. Estranhei o facto. A certa altura era o único passageiro. Ouvi o barulho da porta a abrir-se e voltei-me. Era o revisor, que deu uma olhadela e, como já tinha revisado o meu título de transporte, saiu.
Quando me viro, estava sentada no banco à minha frente uma linda mulher, nova, toda vestida de branco, com o cabelo totalmente branco, de tez descolorida e com uns olhos de um azul profundo. Sobressaltei-me de espanto. A jovem sorriu:
- Não tenha receio que não lhe vou fazer mal! – disse numa voz a tanger o angelical.
Não respondi, mas parei de ler e fixei o olhar naquela imprevista aparição. Não a tinha visto entrar e muito menos sentar-se à minha frente. Permaneci calado.
A branca jovem tinha nas mãos um livro branco com letras douradas. Pousou o livro no assento do lado e colocou as suas alvas mãos sobre os joelhos.
- Não fique assustado com o que lhe vou dizer. Mas o senhor vai ter de abandonar o mais depressa possível esta carruagem.
- Porquê? - perguntei curioso. 
- É que esta carruagem vai desligar-se da composição e vai descarrilar. Por isso, não perca muito tempo e passe para uma das carruagens da frente.
Ouvi de novo a porta a abrir-se e virei-me, não era ninguém. Quando me voltei, a jovem de branco, de tez pálida, com cabelos brancos e com os olhos de azul profundo, tinha desaparecido.
A carruagem encontrava-se agora vazia e eu também. Aquela jovem transtornou-me, mas, na dúvida, não hesitei, peguei na pasta e rapidamente passei para a carruagem da frente, que se encontrava também com poucos passageiros.
Não tinha passado uns breves minutos, quando se ouve um enorme estrondo que trespassou todo o comboio; parte dos passageiros começou a gritar e toda a gente começou a levantar-se tentando saber o que se passava. Olhei para a porta vidrada de ligação entre as carruagens que há momentos tinha passado. Vi a carruagem que abandonara a descolar-se da composição, a perder velocidade e a distanciar-se do resto do comboio. Quando a carruagem abandonada passava sobre uma ponte de um pequeno rio, a ponte cedeu e a carruagem, com grande estrondo, descarrilou, virou-se e partiu-se em vários bocados, alguns deles perseguiam o comboio, outros espalhavam-se pelas bermas e outros foram caindo pelo desnível até ao rio.
O comboio parou uns metros adiante e os funcionários e passageiros saíram para a linha do comboio para ver o que se tinha passado. Houve os habituais comentários de todo o género, culpando tudo e todos, como é normal nestas situações.
Eu estava incompreensivelmente calmo. Não me tinha acontecido nada. Uma luz de fim de dia, amarelecida, entrava pelas janelas e, apesar dos acontecimentos, era calmante. Um raio brilhante rompeu por uma das janelas em direção ao assento que se encontrava à minha frente e focou um objeto branco: o livro com letras douradas numa língua estranha. Era o livro branco da jovem das alvas mãos. Senti que ele me era destinado, peguei nele. Segurei-o como um objeto de muito valor. A partir desse momento passou a acompanhar-me. Um dia, talvez, vou desejar saber o significado daquelas letras. 
”Mas quem seria aquela jovem vestida de branco, de tez pálida, de cabelos totalmente brancos, de olhos de um azul profundo, com um livro branco que eu segurava, agora, nas minhas mãos?”
Cogitei profundamente sobre os acontecimentos que tinham ocorrido: o aparecimento da jovem, o aviso que me fez e o facto de ter permanecido sozinho na carruagem e de ter saído no momento exato em que ela descarrilava.
Olhei pela janela, o sol no ocaso era de uma beleza extraordinária. O céu tinha tomado todas as cores de azuis. Algumas estrelas, timidamente, iam aparecendo no firmamento. Tudo permanecia, para mim, estranhamente, muito calmo. Alguns funcionários e pessoas que nas redondezas tinham casas bordejavam a linha e entre eles estava, um pouco afastada, estática, ereta, coberta com um manto brilhante, da cabeça aos pés, a jovem de branco, de tez pálida, com cabelos brancos e com os olhos de azul profundo.
Lentamente e com um ranger de metal das rodas da composição, esta colocou-se em movimento muito lento, e eu não conseguia despegar os olhos daquela sublime imagem. O comboio foi-se afastando até que a deixei de a ver. Sentei-me perplexo.
Sou um convicto agnóstico, mas sérias dúvidas abalaram as minhas fortes e inquestionáveis convicções. Pela minha mente surgiu aquela questão que a ocasião não deixou que me couraçasse numa das circunvalações do meu indescoberto cérebro.
“ Será que existe mesmo o anjo-da-guarda?”
FIM

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dimensão Intermédia de Luis Fernandes


Lado a lado, caminhava cabisbaixo, com a imagem da sua sombra, sem pensar no que lhe reservava a sorte. Aos poucos, o seu andar tornava-se mais vagaroso, compassado e aproximava-se de um estado de adormecimento. Já não sabia quem era. Tinham passado, pelo menos, duas décadas em que não se olhava ao espelho nem questionava a sua vida. Abandonado ao hábito de viver sem viver, um dia após outro, seguia rotinas interminavelmente cíclicas, vomitando receitas de saber estar em todos os seus gestos, actos e escolhas em que já não pensava. A apatia era sua companheira de dia e de noite.
Puxava cigarro atrás de cigarro e, como um burro obediente, ia seguindo o trajecto, que as suas pernas já sabiam de cor, até casa. Palmilhava todos os dias as mesmas ruas, à mesma hora, cumprimentava as mesmas pessoas, parava à frente das mesmas montras e cobiçava as mesmas coisas.
Não dava esmolas. Apesar de os pedintes o abordarem a cada passada, entendia que, se o fizesse, estaria a contribuir para desculpabilizar o Estado, para além de os descontos no seu mísero ordenado serem já mais que muitos.
           Por fim chegaria a casa, contaria três degraus até à porta do prédio, de chave na mão, pronto para abrir a fechadura, mas não o faria, já que a porta se encontrava invariavelmente aberta. Mas naquele dia não chegaria. Incompreensivelmente o seu cérebro obrigava-o a não seguir caminho. Queria transmitir-lhe alguma vontade nova ou adormecida e isso incomodava-o, impacientava-o, provocava-lhe uma sensação de indecisão. Que raio seria que a sua cabeça lhe queria dizer? Passou em revista todos os seus apetites e desejos plausivelmente normais e não encontrou solução para atenuar o seu mal-estar. Sentou-se num banco de jardim e, com as mãos envolvendo a cabeça, deixou-se levar pelos seus sonhos e viajou.

***

À frente da imagem da sua sombra, caminhava de ar triunfante, pensando no sucesso que a sorte ainda lhe reservava. Progressivamente os seus pés pareciam acelerar e o seu andar aproximava-se rapidamente de um voo. Sabia perfeitamente quem era. Olhava-se todos os dias no espelho confirmando que era realmente quem queria ser. Ao longo dos anos construíra uma imagem de si próprio que só se coadunava com um estilo de vida de um triunfador. Era um criativo de sucesso, que nunca se conformara com uma vida vazia e que se obrigava a viver, dia a dia, como se fosse uma vida nova, onde não havia espaço para o esperado, para a rotina, em que qualquer decisão era livremente pensada. As emoções tomavam conta dos seus dias e noites. 
Deixara de fumar há alguns anos. Agora, só fumava charutos Monte Cristo que os clientes lhe ofereciam como reconhecimento das suas ideias criativas, ou simplesmente pelo snobismo próprio do seu modo de ser e estar. Fazia do acto de fumar um prazer, assim como procurava prazer renovado na construção de um caminho sempre novo quando seguia o trajecto até casa. Procurava paisagens e sítios novos, cheiros e sensações pouco usuais, que só eram possíveis pela presença de pessoas diferentes e estímulos variáveis.
Quando parava o carro nos semáforos e os vendedores da revista Cais o abordavam, encontrava forma de lhes dar algum dinheiro sem ficar com o exemplar da revista. Não concordava com esmolas, mas achava de louvar o esforço daquelas almas que passavam horas entre os carros à procura da quantia suficiente para uma bucha e um copo de vinho.
 Ao fim de uma hora, com uma sensação de leve desconforto, acabaria por ir para casa. Já próximo, procurou o comando eléctrico da porta da garagem. Parou o carro e reparou que se encontrava na sua rua, mas a realidade que o circundava era completamente estranha. Não eram os mesmos prédios, nem sequer os seus vizinhos. Ao assomar à porta do prédio, tropeçou num lance de três degraus que nunca ali tinha estado. Invariavelmente esquecia-se de tirar a chave do bolso para abrir a porta do prédio, cuidadosamente fechada por todos os inquilinos, mas esta, de forma inexplicável, encontrava-se aberta. Começou a duvidar da sua sanidade mental, tendo-se afastado do prédio, caminhando vagarosamente. Seria possível ter-se enganado? Com medo de si próprio deixou-se arrastar para um estado de adormecimento que o obrigou a parar. Que raio seria que lhe estava a acontecer? Avistou um banco de jardim com um sujeito sentado que envolvia a cabeça com as mãos e, sem ser sua vontade, caminhou até ao mesmo. Os seus joelhos, fraquejando, diziam-lhe que tinha de se sentar. Alguma coisa lhe transmitia uma vontade nova ou adormecida e isso incomodava-o, tornava-o impaciente, provocava-lhe uma sensação de indecisão. Passou em revista todos os seus apetites e desejos plausivelmente normais e não encontrou solução para atenuar o seu mal-estar e, com as mãos envolvendo a cabeça, deixou-se levar pelos seus sonhos e viajou.
Não sei se em sonho ou em vigília, levemente entorpecidos, os dois homens miraram-se olhos nos olhos. Tudo neles era semelhante. Mais do que uma imagem de espelho, representavam o negativo um do outro. Tocaram ambos os rostos e a sincronia dos seus movimentos era assombrosa. Aquilo que ao princípio causava estranheza tornou-se um divertimento que durou alguns minutos. Será que estavam loucos. Será que apenas um deles existia, sendo o outro imaginação?
Caminhando lado a lado era o cheiro a maresia que os guiava. Por fim, olhavam do cimo de uma rocha o rebentar da ondulação. Em sintonia disseram: “Um de nós tem de desaparecer, esta dupla existência irreal tem de terminar sem que o mundo se aperceba.” Já irritados, pensaram, no seu íntimo, que bastaria um leve encontrão para terminar aquela farsa. O corpo cairia do cimo das rochas e, inerte, seria arrastado para o mar alto. Mas abandonaram a ideia com medo que o outro a estivesse a ter também. Viajar para o estrangeiro também não era solução – provavelmente, escolheriam o mesmo país e a mesma cidade para se refugiarem. Só havia uma solução. Tinham que aprender a ser diferentes. Qual deles estaria disposto a abandonar os seus gostos, os seus prazeres, os seus hábitos? Nã, não era por aí que se poderiam entender. 
Assumir as parecenças apenas por serem sósias estava fora de questão. Ninguém acreditaria em coincidência: a cor dos olhos, o timbre da voz, os tiques gestuais e os vícios de expressão. Não tinham a certeza se apenas eles se viam um ao outro ou se eram visíveis para toda a gente. E se apenas um deles fosse visível, qual deles seria? Caminharam estrada fora, ao longo da costa. Entraram num café e pediram uma bica. O empregado que estava a servir dirigiu-se-lhes no singular. Ora, então, havia um deles que não era real, só faltava descobrir qual. Mas, oh não, o empregado só trazia uma chávena na mão, mas quando a colocou no balcão, cada um deles ficou com a sua chávena à frente.
Era de dar em doido. Nada deixava adivinhar que fossem encontrar explicação para este fenómeno. Remoendo ideias sem nexo, não queriam aceitar, de forma pacífica, que tivessem de se aturar um ao outro pelo resto das suas vidas. O que aconteceria na intimidade? O que aconteceria quando tentassem seduzir a mesma mulher? E se o conseguissem fazer, qual seria o afortunado que se deleitaria nos braços quentes da amante?
Mas se denunciassem previamente as suas intenções e os seus desejos, bastava um deles partir em sentido inverso, ou abdicar das suas vontades. “Se eu for para a direita, tu vais para a esquerda, e vice-versa. Basta termos um pouco de boa vontade e aceitarmos resignadamente a nossa sina, dia sim, dia não. Hoje existo eu, amanhã existes tu!”
Existir, dia sim, dia não, era uma perspectiva deprimente para duas pessoas habituadas ao rolar dos dias. Já existir, ora de dia, ora de noite, parecia-lhes mais aceitável. Desta forma poderiam partilhar amigos, amantes e projectos e desfrutar dos mundos um do outro de uma forma plena. Poderia até dar certo! O problema seria arranjar formas de entretenimento para o que permanecesse enclausurado de dia, visto que à noite bastaria aproveitar o sono. Só a ideia de tentar causava calafrios a qualquer deles – no fundo, não era apenas a existência dos dois que estava em causa, era também a imagem de um e de outro, assim como o tipo de vida, a escolha da ocupação profissional, visto que teriam de optar pela de um, ou pela do outro. Ainda não tinham perguntado o nome um ao outro. Talvez isso pudesse fazer a diferença, mas foi uma esperança vã. A ansiedade ia-se somando à tristeza e a duplicação de sentimentos tornava-os altamente “amplificados”, mas, espera aí, as suas lembranças não coincidiam, os passados não se cruzavam, claro que não, apenas se tinham conhecido nessa manhã — como haveriam de fazer com que as suas vidas se separassem para sempre? Já tinham ouvido falar em dimensões existenciais paralelas, provavelmente um deles teria atravessado o portal para a dimensão do outro! Sendo assim, ainda havia esperança. Teriam de rever o trajecto percorrido nesse dia e voltar a percorrê-lo de forma a encontrarem de novo o portal.
Recordar não foi difícil. Era um presente ainda muito próximo e limitaram-se a descrever um ao outro o que tinham feito e por onde tinham passado antes de se terem encontrado. Rapidamente desenharam os dois itinerários. Neles constavam tanto os locais como os tempos gastos em cada um deles e tentaram ser o mais rigorosos possível nessa avaliação – já tinham lido histórias de ficção, em que a variável temporal se revelava fulcral para encontrar o portal interdimensional aberto. Engraçado, nunca nenhum deles tinha acreditado em fenómenos desta natureza e agora, desprendidos do seu racionalismo, vagueavam, já sem a protecção do antigo cepticismo, por suposições abstractas, em que apenas a crença cega, quase como uma fé, os poderia empurrar para as suas buscas com alguma esperança e optimismo. Naquele dia nada mais poderiam fazer se queriam reviver os horários das suas actividades.
Depois de cada um deles ter procurado voltar a casa, sem obter qualquer sucesso, sentaram-se debaixo de uma árvore e fecharam os olhos numa tentativa frustrada de encontrarem, mesmo que por breves instantes, o sono.
Na manhã seguinte, ainda de madrugada, começaram a fazer planos para a reconstituição do dia anterior. Sem saber qual deles teria saído da sua dimensão, não poderiam acompanhar-se um ao outro e certificarem-se de que nenhum pormenor lhes escaparia. Poderiam trocar de itinerários, mas seria difícil conseguir cumprir os tempos previstos, já que cada um deles desconhecia as rotinas do outro. Teriam que tirar à sorte, consumar uma das reconstituições e, se não tivessem sucesso, recomeçar no dia seguinte a reconstituição do trajecto do outro. Uma moeda atirada ao ar foi o suficiente para determinarem o caminho a percorrer nesse dia.
Calhou a vez ao criativo, que se aproximava muito mais de uma personagem de ficção, e o outro pensou: “Uma vida de sucesso neste mundo é uma realidade pouco provável ou quase de ficção. O normal era a existência de falhados, capazes de viver com muito pouco e aspirar a muito pouco — submissos, obedientes…” Puseram-se a caminho. Sem automóvel, não seria fácil chegar ao destino pretendido. Deveriam entrar na agência de publicidade antes das 8.15h, hora em que o criativo sempre cruzava a porta do edifício. Dobraram a esquina que antecedia a rua pretendida e uma expressão de apreensão tomou conta do criativo – não reconhecia lojas, nem prédios, nem as pessoas que passavam apressadas. Ainda deveriam ter tempo para reconstituir o trajecto do outro. Desceram as escadas da estação de metro mais próxima e tomaram o primeiro comboio que passou. Percorreram toda a linha, passando por estações que nunca tinham visto antes e nem sequer os nomes coincidiam! Definitivamente, estavam ambos fora das suas próprias dimensões existenciais.
Perante o desespero de não encontrarem qualquer sinal que lhes servisse de referência, sentiam-se perdidos. Foi nesta altura que olharam para a página frontal de um diário. O Notícias da Cidade, ao contrário do habitual, não tinha qualquer data e repararam que notícias antigas dividiam espaço, nas mesmas páginas, com notícias actuais e isto sem qualquer referência cronológica, como se o conteúdo daquele vespertino reflectisse uma desorganização temporal completa ou uma desmemorização global. Encontravam-se numa dimensão descaracterizada, onde os maiores sinais de valorização do humanismo e da democracia se mesclavam com chacinas brutais e escravatura.
Só podia ser loucura. Perdidos, os seus olhos estavam vidrados e encheram-se de lágrimas. Olharam-se e abraçaram-se, encontrando a união. Apesar dos dois pensamentos permanecerem individualizados, acreditavam que fosse uma questão de tempo – eram agora um e um só corpo. Almas sobrepostas, perfeitamente coerentes e encerradas num mesmo corpo. Ambas as existências, fora das suas dimensões existenciais e cruzando-se numa terceira, tinham encontrado a harmonia. Sem referências temporais, a confusão era inevitável. Percebiam agora. Aquela era uma dimensão intemporal, sem passado, futuro ou presente. Todas aquelas gentes que se cruzavam com eles nas ruas tinham passado por processos idênticos. Estavam para sempre condenados à vida eterna. Caminharam sem rumo, transportados agora por um só corpo, e perderam-se nas trevas…