quarta-feira, 21 de março de 2012

Nem às paredes confesso de António Alvarez

Capítulo I – A outra margem

O tempo estava frio e ali parado, no cais daquela velha estação de comboios, sentia o corpo ainda mais arrepiado. Bem puxava a gola do velho sobretudo para cobrir a face, mas a aragem que corria penetrava por todo o seu corpo causando-lhe desconforto. Naquele corpo magro o sobretudo baloiçava à menor aragem e dava-lhe um ar caricato, quase de “espantalho”. É verdade que já lhe chegara às mãos depois de muitos invernos passados noutras costas, mas era o único agasalho que tinha para dias como este.
Enquanto andara para a frente e para trás calcorreando o cais, parecia não estar assim tão desagradável. Mas agora que parara sentia mais o frio. Tirou uma das mãos do bolso e olhou o relógio. Marcava 7,26h, mais dois minutos que o velho relógio da estação. Bateu com os pés uma vez mais para aquecê-los epuxou de um cigarro para ajudar a passar o tempo. O comboio partiria às 7,40h. Ainda pensou em ir beber mais uma bica mas hesitou, calculando que com isso se poderia atrasar e deixar passar o comboio. Não é que o tempo de beber um café fosse assim tanto, mas, sei lá, poderia estar muita gente e depois não ter tempo de pagar. E de maneira nenhuma queria passar por “caloteiro”. Isso não!
- Bom dia! Por acaso o senhor tem lume? – rodou a cabeça para o seu lado esquerdo e deparou-se com um rapaz ainda jovem, de farta cabeleira, e com uns óculos redondos de aros cor de tartaruga na cara.
- Sim! – e passou-lhe o isqueiro para as mãos.
- Obrigadinho! – disse-lhe o jovem afastando-se um pouco mais do local onde ele se encontrava.
Olhou para o lado do castelo e observou as ruínas da “Torre da Má-Hora” lá ao fundo. Iria vê-la de mais perto quando fosse no comboio. O apito estridente efetuado pelo chefe da estação trouxe-o de novoà realidade.Pegou na mala e aproximou-se mais da beira do cais. A velha composição ronceira vinha-se chegando à velha estação e os poucos passageiros iam-se aproximando mais para o local de embarque. Dali iriam até à Torre da Gadanha, onde apanhariam o comboio vindo de Beja para o Barreiro.
Sentou-se à janela do lado onde veria a vila a ficar para trás. Os bancos não eram muito confortáveis mas a viagem também seria curta até à próxima estação. Traçou a perna e pousou a cabeça na mão, em concha, encostado ao vidro da janela.
- Custa partir não é?
Olhou em frente e era o mesmo jovem que lhe pedira lume e que agora se lhe dirigia. Pouco tinha reparado nele, a não ser talvez a sua cara. Tentava agora adivinhar-lhe a idade. Talvez 19 ou 20 anos! Vestia-se como qualquer outro jovem da sua idade. Umas calças de ganga, uma camisa de flanela azul e vermelha, tendo por cima uma camisola de lã com gola em bico, e um casaco, também de ganga, completavam a indumentária simples. Nos pés usava umas botas de carneira já com aquele castanho bem forte do uso contínuo. Ao seu lado no banco, uma mochila, daquelas que se usavam na tropa, bem ataviada.
- Eu sempre aqui vivi com a minha avó – continuou o rapaz .– Nunca conheci os meus pais! Morreram os dois num acidente e depois a decisão do tribunal foi a de me entregaremà minha avozinha – reparou que olhos do jovem brilhavam quando falava da avó. – Desculpe! Nem sequer me apresentei! Sou o João Manita – e lançou a mão na sua direcção.
- Prazer João! Eu chamo-me Álvaro Fontes – foi tudo o que acabou por lhe dizer.
- Também vai para Lisboa? – perguntou-lhe o jovem.
- Sim rapaz! Moro lá – e endireitou-se no banco do comboio.
- Mora lá? Então talvez me saiba dizer onde fica o Largo de Camões. É que eu…
- Já sei… Nunca foste a Lisboa! Não é isso? – perguntou-lhe simplesmente.
- É isso mesmo. Não conheço mesmo nada! – respondeu como se estivesse a desculpar-se da ignorância de não conhecer a capital.
- Fica descansado que dir-te-ei onde fica... Quando lá chegarmos!
Entretanto Montemor-o-Novo ia ficando para trás, cada vez mais pequeno, no que o seu horizonte visual alcançava. Não tardariam muito a chegar à Torre da Gadanha. Ali teria de esperar mais trinta e cinco minutos pelo comboio vindo de Beja.
Junto à estação havia um pequeno café que àquela hora apresentava pouca freguesia. Como não tinha tomado a sua “bica”, aproveitou o tempo de espera e dirigiu-se para lá.
- Não se importa que o acompanhe? – perguntou o seu “companheiro” de viagem.
- Claro que não. Vem daí!
Caminharam lado a lado silenciosos até ao café. A tabuleta, já gasta, indicava o nome do estabelecimento: “O Cantinho da Gadanha”. Condizia com o tamanho do lugar. Um pequeno balcão, quatro pequenas mesas e oito bancos de madeira era todo o mobiliário que possuía. Na parede um quadro do Benfica e um rádio, já antigo, cujo som deixava um pouco a desejar. Nas prateleiras garrafas de várias bebidas e em cima do balcão uma pequena vitrina, de madeira e vidro, que deixava ver alguns queijos e torresmos. Ao lado um prato com bolos, que, pelo aspeto, deveriam ser do dia anterior.
- Ora então muto bons-dias! O que é vai ser? – perguntou o dono do estabelecimento.
- Eu tomo um café. E tu João?
- Para mim pode ser também um cafezinho bem quentinho! – respondeu o jovem enquanto esfregava as mãos uma na outra.— A ver se aqueço, que isto está agreste Sr. Álvaro.
O comboio atravessava a planície alentejana em direção ao Barreiro. Calculava que por volta das 14,30h chegaria ao Terreiro do Paço. O João adormecera entretanto. Olhava para ele e vinham-lhe à memória recordações de si com aquela idade. Vivera intensamente como se o “mundo lhe fugisse das mãos”.
Um pouco antes de a composição entrar na gare do Barreiro, Álvaro deu um pequeno safanão no ombro de João.
- Estamos a chegar rapaz!
João quase que deu um salto no banco – Eh! Sr. Álvaro, isto é que foi “ferrar” bem no sono! – respondeu esfregando os olhos com as mãos. Entretanto espreguiçou-se um pouco.
- João, temos de nos despachar que o barco é daqui a um quarto de hora – disse-lhe Álvaro. Ao mesmo tempo foi tirando a pequena mala da bagageira que se encontrava por cima dos bancos.
Tinham escolhido um lugar à proa do barco. Aí podiam fumar e olhar a paisagem de um lado e do outro. Lisboa ia ficando cada vez mais perto. O seu olhar já divisava as muralhas do Castelo de São Jorge e as torres da Sé Velha.

 
- Vês aquelas muralhas lá no alto? É o Castelo de S Jorge – e apontava o dedo de modo  que o João o seguisse com o olhar.
- Eh, Sr. Álvaro, isto é que é um “mar”! É só água e mais água – observava o jovem.
- Aqui ainda não é mar! É só rio. É o rio Tejo. Mas lá grande é ele na verdade!
Um barco igual aproximava-se em sentido contrário. Vinha de Lisboa em direção ao Barreiro. As buzinas soaram quando se cruzaram: “booooooooommm…, booooooooommm..., booooooooommm”. As ondas criadas pelo rasgar dos cascos batiam de lado no barco fazendo-o oscilar. Algumas pingas bateram na face e sobre os lábios um sabor a sal que lhe trouxe à memória outros lugares bem longe dali...



Continua...

terça-feira, 6 de março de 2012

Uma Viagem de Comboio de Célio Passos


Já lá vão uns largos anos, mas, de vez em quando, este acontecimento regressa à minha memória.
As viagens de comboio sempre me fascinaram. Talvez por ter vivido uma parte da minha infância junto a uma estação de caminho-de-ferro. De noite, já alta, ouvia as máquinas a vapor a fazerem manobras e a retirarem e engatarem carruagens de mercadorias nas composições destinadas a diversos destinos e depois arrancavam, ao som de um curto silvo, e eu encolhia-me debaixo dos lençóis, como passageiro clandestino, e adormecia feliz.
Estava sentado no comboio estacionado numa das estações da linha do norte admirando, mais uma vez, os belos azulejos que revestem as paredes das estações que ainda vão resistindo à inexorável passagem do tempo, quando a composição se colocou em movimento. Eu ia mais uma vez à capital por razões de trabalho. A carruagem era a última, ia com poucos passageiros, talvez sete ou oito, o que não era normal. Tirei um livro da pasta e pus-me a ler. Apesar de o comboio ter poucas paragens até Lisboa, apercebi-me que a carruagem cada vez ficava com menos passageiros. Estranhei o facto. A certa altura era o único passageiro. Ouvi o barulho da porta a abrir-se e voltei-me. Era o revisor, que deu uma olhadela e, como já tinha revisado o meu título de transporte, saiu.
Quando me viro, estava sentada no banco à minha frente uma linda mulher, nova, toda vestida de branco, com o cabelo totalmente branco, de tez descolorida e com uns olhos de um azul profundo. Sobressaltei-me de espanto. A jovem sorriu:
- Não tenha receio que não lhe vou fazer mal! – disse numa voz a tanger o angelical.
Não respondi, mas parei de ler e fixei o olhar naquela imprevista aparição. Não a tinha visto entrar e muito menos sentar-se à minha frente. Permaneci calado.
A branca jovem tinha nas mãos um livro branco com letras douradas. Pousou o livro no assento do lado e colocou as suas alvas mãos sobre os joelhos.
- Não fique assustado com o que lhe vou dizer. Mas o senhor vai ter de abandonar o mais depressa possível esta carruagem.
- Porquê? - perguntei curioso. 
- É que esta carruagem vai desligar-se da composição e vai descarrilar. Por isso, não perca muito tempo e passe para uma das carruagens da frente.
Ouvi de novo a porta a abrir-se e virei-me, não era ninguém. Quando me voltei, a jovem de branco, de tez pálida, com cabelos brancos e com os olhos de azul profundo, tinha desaparecido.
A carruagem encontrava-se agora vazia e eu também. Aquela jovem transtornou-me, mas, na dúvida, não hesitei, peguei na pasta e rapidamente passei para a carruagem da frente, que se encontrava também com poucos passageiros.
Não tinha passado uns breves minutos, quando se ouve um enorme estrondo que trespassou todo o comboio; parte dos passageiros começou a gritar e toda a gente começou a levantar-se tentando saber o que se passava. Olhei para a porta vidrada de ligação entre as carruagens que há momentos tinha passado. Vi a carruagem que abandonara a descolar-se da composição, a perder velocidade e a distanciar-se do resto do comboio. Quando a carruagem abandonada passava sobre uma ponte de um pequeno rio, a ponte cedeu e a carruagem, com grande estrondo, descarrilou, virou-se e partiu-se em vários bocados, alguns deles perseguiam o comboio, outros espalhavam-se pelas bermas e outros foram caindo pelo desnível até ao rio.
O comboio parou uns metros adiante e os funcionários e passageiros saíram para a linha do comboio para ver o que se tinha passado. Houve os habituais comentários de todo o género, culpando tudo e todos, como é normal nestas situações.
Eu estava incompreensivelmente calmo. Não me tinha acontecido nada. Uma luz de fim de dia, amarelecida, entrava pelas janelas e, apesar dos acontecimentos, era calmante. Um raio brilhante rompeu por uma das janelas em direção ao assento que se encontrava à minha frente e focou um objeto branco: o livro com letras douradas numa língua estranha. Era o livro branco da jovem das alvas mãos. Senti que ele me era destinado, peguei nele. Segurei-o como um objeto de muito valor. A partir desse momento passou a acompanhar-me. Um dia, talvez, vou desejar saber o significado daquelas letras. 
”Mas quem seria aquela jovem vestida de branco, de tez pálida, de cabelos totalmente brancos, de olhos de um azul profundo, com um livro branco que eu segurava, agora, nas minhas mãos?”
Cogitei profundamente sobre os acontecimentos que tinham ocorrido: o aparecimento da jovem, o aviso que me fez e o facto de ter permanecido sozinho na carruagem e de ter saído no momento exato em que ela descarrilava.
Olhei pela janela, o sol no ocaso era de uma beleza extraordinária. O céu tinha tomado todas as cores de azuis. Algumas estrelas, timidamente, iam aparecendo no firmamento. Tudo permanecia, para mim, estranhamente, muito calmo. Alguns funcionários e pessoas que nas redondezas tinham casas bordejavam a linha e entre eles estava, um pouco afastada, estática, ereta, coberta com um manto brilhante, da cabeça aos pés, a jovem de branco, de tez pálida, com cabelos brancos e com os olhos de azul profundo.
Lentamente e com um ranger de metal das rodas da composição, esta colocou-se em movimento muito lento, e eu não conseguia despegar os olhos daquela sublime imagem. O comboio foi-se afastando até que a deixei de a ver. Sentei-me perplexo.
Sou um convicto agnóstico, mas sérias dúvidas abalaram as minhas fortes e inquestionáveis convicções. Pela minha mente surgiu aquela questão que a ocasião não deixou que me couraçasse numa das circunvalações do meu indescoberto cérebro.
“ Será que existe mesmo o anjo-da-guarda?”
FIM

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Dimensão Intermédia de Luis Fernandes


Lado a lado, caminhava cabisbaixo, com a imagem da sua sombra, sem pensar no que lhe reservava a sorte. Aos poucos, o seu andar tornava-se mais vagaroso, compassado e aproximava-se de um estado de adormecimento. Já não sabia quem era. Tinham passado, pelo menos, duas décadas em que não se olhava ao espelho nem questionava a sua vida. Abandonado ao hábito de viver sem viver, um dia após outro, seguia rotinas interminavelmente cíclicas, vomitando receitas de saber estar em todos os seus gestos, actos e escolhas em que já não pensava. A apatia era sua companheira de dia e de noite.
Puxava cigarro atrás de cigarro e, como um burro obediente, ia seguindo o trajecto, que as suas pernas já sabiam de cor, até casa. Palmilhava todos os dias as mesmas ruas, à mesma hora, cumprimentava as mesmas pessoas, parava à frente das mesmas montras e cobiçava as mesmas coisas.
Não dava esmolas. Apesar de os pedintes o abordarem a cada passada, entendia que, se o fizesse, estaria a contribuir para desculpabilizar o Estado, para além de os descontos no seu mísero ordenado serem já mais que muitos.
           Por fim chegaria a casa, contaria três degraus até à porta do prédio, de chave na mão, pronto para abrir a fechadura, mas não o faria, já que a porta se encontrava invariavelmente aberta. Mas naquele dia não chegaria. Incompreensivelmente o seu cérebro obrigava-o a não seguir caminho. Queria transmitir-lhe alguma vontade nova ou adormecida e isso incomodava-o, impacientava-o, provocava-lhe uma sensação de indecisão. Que raio seria que a sua cabeça lhe queria dizer? Passou em revista todos os seus apetites e desejos plausivelmente normais e não encontrou solução para atenuar o seu mal-estar. Sentou-se num banco de jardim e, com as mãos envolvendo a cabeça, deixou-se levar pelos seus sonhos e viajou.

***

À frente da imagem da sua sombra, caminhava de ar triunfante, pensando no sucesso que a sorte ainda lhe reservava. Progressivamente os seus pés pareciam acelerar e o seu andar aproximava-se rapidamente de um voo. Sabia perfeitamente quem era. Olhava-se todos os dias no espelho confirmando que era realmente quem queria ser. Ao longo dos anos construíra uma imagem de si próprio que só se coadunava com um estilo de vida de um triunfador. Era um criativo de sucesso, que nunca se conformara com uma vida vazia e que se obrigava a viver, dia a dia, como se fosse uma vida nova, onde não havia espaço para o esperado, para a rotina, em que qualquer decisão era livremente pensada. As emoções tomavam conta dos seus dias e noites. 
Deixara de fumar há alguns anos. Agora, só fumava charutos Monte Cristo que os clientes lhe ofereciam como reconhecimento das suas ideias criativas, ou simplesmente pelo snobismo próprio do seu modo de ser e estar. Fazia do acto de fumar um prazer, assim como procurava prazer renovado na construção de um caminho sempre novo quando seguia o trajecto até casa. Procurava paisagens e sítios novos, cheiros e sensações pouco usuais, que só eram possíveis pela presença de pessoas diferentes e estímulos variáveis.
Quando parava o carro nos semáforos e os vendedores da revista Cais o abordavam, encontrava forma de lhes dar algum dinheiro sem ficar com o exemplar da revista. Não concordava com esmolas, mas achava de louvar o esforço daquelas almas que passavam horas entre os carros à procura da quantia suficiente para uma bucha e um copo de vinho.
 Ao fim de uma hora, com uma sensação de leve desconforto, acabaria por ir para casa. Já próximo, procurou o comando eléctrico da porta da garagem. Parou o carro e reparou que se encontrava na sua rua, mas a realidade que o circundava era completamente estranha. Não eram os mesmos prédios, nem sequer os seus vizinhos. Ao assomar à porta do prédio, tropeçou num lance de três degraus que nunca ali tinha estado. Invariavelmente esquecia-se de tirar a chave do bolso para abrir a porta do prédio, cuidadosamente fechada por todos os inquilinos, mas esta, de forma inexplicável, encontrava-se aberta. Começou a duvidar da sua sanidade mental, tendo-se afastado do prédio, caminhando vagarosamente. Seria possível ter-se enganado? Com medo de si próprio deixou-se arrastar para um estado de adormecimento que o obrigou a parar. Que raio seria que lhe estava a acontecer? Avistou um banco de jardim com um sujeito sentado que envolvia a cabeça com as mãos e, sem ser sua vontade, caminhou até ao mesmo. Os seus joelhos, fraquejando, diziam-lhe que tinha de se sentar. Alguma coisa lhe transmitia uma vontade nova ou adormecida e isso incomodava-o, tornava-o impaciente, provocava-lhe uma sensação de indecisão. Passou em revista todos os seus apetites e desejos plausivelmente normais e não encontrou solução para atenuar o seu mal-estar e, com as mãos envolvendo a cabeça, deixou-se levar pelos seus sonhos e viajou.
Não sei se em sonho ou em vigília, levemente entorpecidos, os dois homens miraram-se olhos nos olhos. Tudo neles era semelhante. Mais do que uma imagem de espelho, representavam o negativo um do outro. Tocaram ambos os rostos e a sincronia dos seus movimentos era assombrosa. Aquilo que ao princípio causava estranheza tornou-se um divertimento que durou alguns minutos. Será que estavam loucos. Será que apenas um deles existia, sendo o outro imaginação?
Caminhando lado a lado era o cheiro a maresia que os guiava. Por fim, olhavam do cimo de uma rocha o rebentar da ondulação. Em sintonia disseram: “Um de nós tem de desaparecer, esta dupla existência irreal tem de terminar sem que o mundo se aperceba.” Já irritados, pensaram, no seu íntimo, que bastaria um leve encontrão para terminar aquela farsa. O corpo cairia do cimo das rochas e, inerte, seria arrastado para o mar alto. Mas abandonaram a ideia com medo que o outro a estivesse a ter também. Viajar para o estrangeiro também não era solução – provavelmente, escolheriam o mesmo país e a mesma cidade para se refugiarem. Só havia uma solução. Tinham que aprender a ser diferentes. Qual deles estaria disposto a abandonar os seus gostos, os seus prazeres, os seus hábitos? Nã, não era por aí que se poderiam entender. 
Assumir as parecenças apenas por serem sósias estava fora de questão. Ninguém acreditaria em coincidência: a cor dos olhos, o timbre da voz, os tiques gestuais e os vícios de expressão. Não tinham a certeza se apenas eles se viam um ao outro ou se eram visíveis para toda a gente. E se apenas um deles fosse visível, qual deles seria? Caminharam estrada fora, ao longo da costa. Entraram num café e pediram uma bica. O empregado que estava a servir dirigiu-se-lhes no singular. Ora, então, havia um deles que não era real, só faltava descobrir qual. Mas, oh não, o empregado só trazia uma chávena na mão, mas quando a colocou no balcão, cada um deles ficou com a sua chávena à frente.
Era de dar em doido. Nada deixava adivinhar que fossem encontrar explicação para este fenómeno. Remoendo ideias sem nexo, não queriam aceitar, de forma pacífica, que tivessem de se aturar um ao outro pelo resto das suas vidas. O que aconteceria na intimidade? O que aconteceria quando tentassem seduzir a mesma mulher? E se o conseguissem fazer, qual seria o afortunado que se deleitaria nos braços quentes da amante?
Mas se denunciassem previamente as suas intenções e os seus desejos, bastava um deles partir em sentido inverso, ou abdicar das suas vontades. “Se eu for para a direita, tu vais para a esquerda, e vice-versa. Basta termos um pouco de boa vontade e aceitarmos resignadamente a nossa sina, dia sim, dia não. Hoje existo eu, amanhã existes tu!”
Existir, dia sim, dia não, era uma perspectiva deprimente para duas pessoas habituadas ao rolar dos dias. Já existir, ora de dia, ora de noite, parecia-lhes mais aceitável. Desta forma poderiam partilhar amigos, amantes e projectos e desfrutar dos mundos um do outro de uma forma plena. Poderia até dar certo! O problema seria arranjar formas de entretenimento para o que permanecesse enclausurado de dia, visto que à noite bastaria aproveitar o sono. Só a ideia de tentar causava calafrios a qualquer deles – no fundo, não era apenas a existência dos dois que estava em causa, era também a imagem de um e de outro, assim como o tipo de vida, a escolha da ocupação profissional, visto que teriam de optar pela de um, ou pela do outro. Ainda não tinham perguntado o nome um ao outro. Talvez isso pudesse fazer a diferença, mas foi uma esperança vã. A ansiedade ia-se somando à tristeza e a duplicação de sentimentos tornava-os altamente “amplificados”, mas, espera aí, as suas lembranças não coincidiam, os passados não se cruzavam, claro que não, apenas se tinham conhecido nessa manhã — como haveriam de fazer com que as suas vidas se separassem para sempre? Já tinham ouvido falar em dimensões existenciais paralelas, provavelmente um deles teria atravessado o portal para a dimensão do outro! Sendo assim, ainda havia esperança. Teriam de rever o trajecto percorrido nesse dia e voltar a percorrê-lo de forma a encontrarem de novo o portal.
Recordar não foi difícil. Era um presente ainda muito próximo e limitaram-se a descrever um ao outro o que tinham feito e por onde tinham passado antes de se terem encontrado. Rapidamente desenharam os dois itinerários. Neles constavam tanto os locais como os tempos gastos em cada um deles e tentaram ser o mais rigorosos possível nessa avaliação – já tinham lido histórias de ficção, em que a variável temporal se revelava fulcral para encontrar o portal interdimensional aberto. Engraçado, nunca nenhum deles tinha acreditado em fenómenos desta natureza e agora, desprendidos do seu racionalismo, vagueavam, já sem a protecção do antigo cepticismo, por suposições abstractas, em que apenas a crença cega, quase como uma fé, os poderia empurrar para as suas buscas com alguma esperança e optimismo. Naquele dia nada mais poderiam fazer se queriam reviver os horários das suas actividades.
Depois de cada um deles ter procurado voltar a casa, sem obter qualquer sucesso, sentaram-se debaixo de uma árvore e fecharam os olhos numa tentativa frustrada de encontrarem, mesmo que por breves instantes, o sono.
Na manhã seguinte, ainda de madrugada, começaram a fazer planos para a reconstituição do dia anterior. Sem saber qual deles teria saído da sua dimensão, não poderiam acompanhar-se um ao outro e certificarem-se de que nenhum pormenor lhes escaparia. Poderiam trocar de itinerários, mas seria difícil conseguir cumprir os tempos previstos, já que cada um deles desconhecia as rotinas do outro. Teriam que tirar à sorte, consumar uma das reconstituições e, se não tivessem sucesso, recomeçar no dia seguinte a reconstituição do trajecto do outro. Uma moeda atirada ao ar foi o suficiente para determinarem o caminho a percorrer nesse dia.
Calhou a vez ao criativo, que se aproximava muito mais de uma personagem de ficção, e o outro pensou: “Uma vida de sucesso neste mundo é uma realidade pouco provável ou quase de ficção. O normal era a existência de falhados, capazes de viver com muito pouco e aspirar a muito pouco — submissos, obedientes…” Puseram-se a caminho. Sem automóvel, não seria fácil chegar ao destino pretendido. Deveriam entrar na agência de publicidade antes das 8.15h, hora em que o criativo sempre cruzava a porta do edifício. Dobraram a esquina que antecedia a rua pretendida e uma expressão de apreensão tomou conta do criativo – não reconhecia lojas, nem prédios, nem as pessoas que passavam apressadas. Ainda deveriam ter tempo para reconstituir o trajecto do outro. Desceram as escadas da estação de metro mais próxima e tomaram o primeiro comboio que passou. Percorreram toda a linha, passando por estações que nunca tinham visto antes e nem sequer os nomes coincidiam! Definitivamente, estavam ambos fora das suas próprias dimensões existenciais.
Perante o desespero de não encontrarem qualquer sinal que lhes servisse de referência, sentiam-se perdidos. Foi nesta altura que olharam para a página frontal de um diário. O Notícias da Cidade, ao contrário do habitual, não tinha qualquer data e repararam que notícias antigas dividiam espaço, nas mesmas páginas, com notícias actuais e isto sem qualquer referência cronológica, como se o conteúdo daquele vespertino reflectisse uma desorganização temporal completa ou uma desmemorização global. Encontravam-se numa dimensão descaracterizada, onde os maiores sinais de valorização do humanismo e da democracia se mesclavam com chacinas brutais e escravatura.
Só podia ser loucura. Perdidos, os seus olhos estavam vidrados e encheram-se de lágrimas. Olharam-se e abraçaram-se, encontrando a união. Apesar dos dois pensamentos permanecerem individualizados, acreditavam que fosse uma questão de tempo – eram agora um e um só corpo. Almas sobrepostas, perfeitamente coerentes e encerradas num mesmo corpo. Ambas as existências, fora das suas dimensões existenciais e cruzando-se numa terceira, tinham encontrado a harmonia. Sem referências temporais, a confusão era inevitável. Percebiam agora. Aquela era uma dimensão intemporal, sem passado, futuro ou presente. Todas aquelas gentes que se cruzavam com eles nas ruas tinham passado por processos idênticos. Estavam para sempre condenados à vida eterna. Caminharam sem rumo, transportados agora por um só corpo, e perderam-se nas trevas… 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Sexta-feira de Helena João



Sexta-feira. Ou talvez um bocadinho antes. Sexta-feira começou a amá-lo. Mas talvez um bocadinho antes tenha começado a reparar que seguia, inevitavelmente, nessa direcção.
Quando chegou ao café já ele lá estava, sentado ao lado do amigo de ambos. À sua frente um café, na mão um cigarro prestes a terminar. Debaixo da mesa um joelho que não parava de tremer. «Raios!», é fumador, pensou. Também não interessa. Não está interessada em ninguém neste momento. Do que precisa é de paz e sossego. Adiante.
Dez minutos de conversa casual e é tempo de voltar ao trabalho. E o estranho, moreno, de olhar vivo e sorriso sedutor, não lhe sai da cabeça.
Nas semanas seguintes, os encontros repetiram-se. Primeiro, fugazes, unicamente um café depois do almoço. Coisa de quinze minutos, não mais. Pouco depois, alargando-se ao almoço, partilhado na casa dos amigos. Quatro humanos e dois gatos compõem a família feliz. Nesses almoços fala-se de tudo. Passados, presentes e futuros. Livros lidos e - que falha imperdoável - livros por ler. Ainda por cima, os clássicos. Ele leu-os todos antes de completar uma década de vida, ela não leu nem um terço nas três que já viveu. Há uma cumplicidade estranha que se instala e, lentamente, a ideia de estender os encontros a um jantar, seguido de um copo num bar simpático, surge-lhe na mente. Não sabe porquê. Só sabe que lhe parece ser uma boa ideia. Os dias vão passando sem que engendre uma maneira de combinar esse jantar e não dar azo à óbvia interpretação. Quer mesmo estar com ele, acima de tudo sem um limite horário imposto por um qualquer regresso pós-prandial ao trabalho.
- Então, quando é que vamos todos jantar umas francesinhas? - lá arranja coragem de dizer, ao início de mais um desses almoços.
- Por mim pode ser já neste fim-de-semana. Sexta-feira, que tal? - diz ele, ao mesmo tempo que se levanta do sofá e deixa a flutuar na atmosfera mais um travozinho ao delicioso perfume.
Sexta-feira amanheceu cinzenta, como qualquer outra manhã de finais de Novembro. Entre internados, cirurgias e consultas, consumiram-se as horas que a separavam do tão desejado encontro ao almoço.

Quando chegou a casa dos amigos já ele lá estava, com o gato ao colo, afagando-o, ao bom estilo do número um da Spectre.
- Logo a que horas sais? - perguntou ele.
- Às sete.
- Porreiro, eu também. Dás-me boleia para baixo?
A última meia hora até às sete da tarde foi passada a olhar para o relógio com uma cadência assustadoramente perfeita. Mas nem isso fez o pequeno ponteiro avançar mais depressa. O tempo tem destas coisas. Teimoso no seu ritmo de passar. Ora depressa, ora devagar, mas nunca no ritmo certo da nossa vontade. Ainda assim, na sua inevitabilidade, chegaram as sete horas. Correu para trocar de roupa, correu para o carro, acelerou até ao ponto de encontro. Lá estava ele. A sua silhueta recortava-se no escuro típico desta época do ano. Apenas um brilhozinho vermelho se distinguia ao longe. Mais um cigarro. Estacionou o carro e saiu.
- Vens?
- Deixa-me só acabar o cigarrinho – diz-lhe enquanto saltita de um pé para o outro como que a enganar o frio.
A noite prolongou-se, deliciosamente, até já ser demasiado tarde para quem no dia seguinte tem que trabalhar. Não se beijaram, mal se tocaram sequer. Apenas o brilhozinho nos olhos de ambos denuncia o que se passa lá onde reina a alma. Não passa despercebido nem ao observador mais incauto. A cumplicidade estranha já lá está. Instalada e para ficar. Há tempo para viver o que se segue.
O bebé vai nascer numa sexta-feira. Ou talvez um bocadinho antes.