quarta-feira, 9 de junho de 2010

A TRAIÇÃO DE MINURO

por Célio Passos



Apesar de o Sol estar no auge do seu fulgor, o tempo era ameno na planície junto ao rio Tagus.

Nessa planície o procônsul romano Sérvio Sulpício Galba, governador da Hispânia Ulterior, mandou plantar uma árvore de Maio. Esse era o local onde se ia assinar o pacto perpétuo da concórdia com as tribos lusitanas.

Apareceram milhares de pessoas das diversas tribos: os da Callaecia, da Vetónia, os carpetanos, os oretanos, os da Betúria e da Cinésia, e alguns vindo de várias povoações remotas pouco conhecidas como Lubara, Aritium Vetus, Araduca, Verurio ou Tacubis. E por se tratar de uma festa de paz, apareceram desarmados e levaram consigo as mulheres, os filhos e os anciãos.

Resplandecia no ambiente a felicidade por tal acontecimento que há muito se desejava. Farnéis com produtos das terras eram espalhados pelo terreno para alegria dos presentes: pão de bolota, rotundifólio e peças de caça — coelho, javali, veado e pernas de carneiro assado. Bebiam pichéis de céria ou zito, cerveja de cevada e, por ser uma festividade, o vinho fazia parte da ementa.

Assim que finalizavam os repastos, os mais jovens desenvolviam jogos guerreiros — a vapulação, os saltos, os sarilhos e as lutas atléticas — para festejar de um modo guerreiro o acontecimento pacífico que se avizinhava, enquanto as moças dançavam o bailharote, o outavado e principalmente a xoliça, que era a dança mais popular, acompanhadas de instrumentos, como o arrabil, o atabaque ou o adufe, este que perdurou nos tempos.

Esperava-se que o pretor Sérvio Galba aparecesse e desse início a esse grande, esperado e desejado acontecimento, mas o facto é que o general tardava a aparecer acompanhado da sua corte.

Entretanto quatro legiões de soldados romanos apareceram na planície com as suas bandeirolas e foram marcando lugares. Na primeira fila colocaram-se os hastários, por detrás destes os príncipes e na terceira linha os triários como barreira de resistência. Depois apareceu a cavalaria com quinhentos cavaleiros armados com o gládio hispânico de dois gumes. As lanças e chuços dos hastários colocaram-se por um movimento repentino em riste, formando uma cerrada muralha de espetos.

— O pretor Sérvio Galba tarda a aparecer? — falou Punicus, um dos chefes lusitanos, com ar preocupado.

— O que se está a passar? Os romanos não estão com boas intenções — disse Tantalus.

Um mal-estar estabeleceu-se naqueles milhares de lusitanos quando por detrás dos triários moviam-se torres de madeira, catapultas e balistas. Sem se aperceberem ainda muito bem do perigo que se aproximava, as mulheres abraçavam os filhos e os velhos anciões aconselhavam prudência.

Sérvio Galba não aparecia, estava a observar as manobras de longe, recolhido atrás de uns arbustos e guardado por uns soldúrios.

O ar tornou-se pesado, a alegria passou a angústia, pesados calhaus foram arremessados por catapultas sobre aquela massa de pessoas indefesas. Sem confessar a intenção, e faltando ao seu compromisso, Galba desejava que o extermínio fosse rápido e completo, como tal, outros engenhos eram lançados, caso de panelas de pez e estopa a arder e lanças incendiárias ou falaricas, e os fundibulários, com uma prática e precisão impressionante, abatiam à pedrada alguns lusitanos, coadjuvados pelos arcubalistas. A multidão movia-se, de um lado para outro, sem tino nem destino, não oferecendo resistência alguma.

O Sol já se aproximava do ocaso, Sérvio Galba queria terminar rapidamente o extermínio antes do anoitecer. Mandou os cavaleiros passarem à espada os sobreviventes. Os cavaleiros recusaram-se a fazer tal operação porque ainda eram muitos os lusitanos vivos. Foi quando o pretor mandou avançar os elefantes oferecidos pelo rei africano Massinissa para os utilizar na guerra contra os celtiberos.

Os dez elefantes couraçados com chapas guarnecidas de espadas foram conduzidos para aquele montão de gente. Debaixo das patas destes monstros que pesavam toneladas ouvia-se o estalar dos ossos e o respingar do sangue que saía dos corpos, misturando-se com as vísceras arrancadas pela passagem dos elefantes, em que carne e sangue formavam com a terra recalcada uma massa horrenda. Regueiros cheios de sangue corriam para o Tagus, que se tingiu de vermelho. No ar putrefacto e debaixo daquele montão de cadáveres ergueram-se uns vultos, sorrateiramente, que se fingiram de mortos, aproveitando as trevas que se iam adensando. Tratava-se de Ouriato e os inseparáveis amigos Ditalco, Andaca e Minuro. Enquanto os amigos de Ouriato ajudavam alguns sobreviventes a fugir daquele inferno, Ouriato saltou para um dos elefantes e com uma precisão impressionante espetou a falcata no crânio do animal, fulminando-o instantaneamente. Depois de aniquilado o primeiro elefante, Ouriato passou ao seguinte, aniquilando-o do mesmo modo, e assim sucessivamente até ao décimo.

A noite era já cerrada quando Sérvio Galba ordenou que deitassem fogo ao montão de cadáveres e aos elefantes de Massinissa. Daquele quadro de horror escapavam-se alguns indivíduos que foram porta-vozes junto das tribos e das cidades mais longínquas como Olissipo, Balsa, Ossonofa, Scalabis e Jerabriga do nefando morticínio efectuado pelo pretor e governador Sérvio Galba.

De todas as povoações chegaram homens audaciosos, não só movidos pela curiosidade, mas para se juntarem à onda de revoltados contra tamanha traição. Os cadáveres incompletamente carbonizados que cobriam a campina eram rodeados por alcateias de lobos, de águias e de abutres que disputavam os corpos.

«Estes corpos insepultos reclamam dos vivos o cumprimento de um dever sagrado. Na impossibilidade de se dar sepultura a estes nossos irmãos de imediato, façam-se peregrinações ao campo da matança, e que cada lusitano lance uma pedra para cima dos cadáveres até que se formem montes que lhe chamaremos de Montes Gáudios, que, para além de servirem de túmulos funerários dos nossos conterrâneos, serão igualmente um monumento de protesto e de eterna revolta», falou um ancião em nome do povo.

Os povos que gozavam das garantias do poder romano não queriam tomar partido para não perderem os privilégios dados pelo conquistador de Roma, caso dos célticos e iberos, e, apesar do ciúme da hegemonia lusitana, não ficaram indiferentes ao morticínio do governador Sérvio Galba.

Ouriato foi a personagem lusitana mais falada naquela trágica noite. A sua valentia o seu destemor deram força àquele destroçado povo.

Perante a insurreição que na Lusitânia se vivia, o senado romano mandou o general Caio Vetílio deslocar-se rapidamente para a Hispânia Ulterior com o reforço de duas legiões para se juntar às tropas que estavam acantonadas em Córdoba.

Entretanto, Sérvio Galba foi chamado a Roma para dar explicações, perante o senado romano, da monstruosidade que foi protagonista na Lusitânia, mas, sabendo o que o esperava, foi preparando a sua defesa, presenteando os senadores, funcionários de Roma e juízes com ouro e prata das minas lusitanas, e apresentando-se no tribunal com os seus dois filhos para os emocionar sentimentalmente.

A palavra eloquente de Sérvio Galba era conhecida e admirada, mas o que ele fizera na Lusitânia não foi do agrado dos romanos. Os tempos mudam mas os processos continuam os mesmos, o suborno foi essencial para ilibar o pretor das acusações.

Caio Vetílio ordenou que as suas legiões, agora reforçadas com mais de dez mil homens, saíssem do acantonamento de Córdoba e seguissem em massa compacta pela Turdetânia ao encontro das tribos lusitanas. Não havia tempo a perder. A rapidez do ataque muitas vezes decide a sorte da batalha. Não tardou que as tribos lusitanas fossem avistadas e Caio Vetílio lançou a ordem de guerra, tradicionalmente conhecida: «Sem tréguas, nem quartel.»

O entusiasmo dos lusitanos no primeiro assalto era previsível mas foi impotente; apesar de serem comparáveis em número de guerreiros, faltava-lhes a disciplina e, a mais importante de todas, a ordem de um comando general. Depressa os lusitanos reconheceram a batalha perdida. Apesar da bravura e valentia dos seus homens, era imprevidente entrarem na luta sem um chefe que os dirigisse.

De entre os lusitanos foram enviados a Caio Vetílio emissários, levando erguidos «ramos de oliveira», um deles, Ditalco, pediu em nome das tribos lusitanas a suspensão das hostilidades e prometeu que ficariam em campos de concentração, quietos e submissos no cumprimento de todas as imposições.

Caio Vetílio mandou retirar os emissários e ordenou que regressassem no dia seguinte para assinar o pacto de rendição.

Era noite cerrada quando os emissários chegaram ao acampamento lusitano. Ao descreverem a conversa tida com o general transmitindo as exigências deste — submissão perpétua e incondicional, com garantia de reféns para a efectividade do pacto —, ouviu-se um rugido de uma fera que silenciou os presentes. Ouriato, que entretanto se juntou às tropas, fez-se ouvir:

— Para ser escravo de Roma não são precisos pactos. Que loucura confiar na palavra dos romanos. Já se esqueceram de Sérvio Galba?

— E o que fazer? — pergunta Ditalco.

— Resistir! — responde Ouriato.

O nome de Ouriato ressoava na noite escura, os soldados lusitanos recordavam a relação com um nome glorioso, de um valente lusitano, de seu nome Viriato, que acompanhara o cartaginês Aníbal a combater contra os romanos nos Alpes, e que morrera na batalha de Cannas. O ódio aos romanos não morrera, era agora redivivo neste salvador que ressurgia como um novo vingador. Os dois nomes identificaram-se como guerreiros cuja missão era a defesa de uma Lusitânia livre.

O guerreiro foi aclamado chefe e aceitou ser renomeado de Viriato, que mais que um nome era um grito de guerra, que dava confiança e energia aos soldados representados pelos seus chefes das contrébias.

— Viriato, és o nosso chefe. Comandai-nos contra as legiões romanas — disseram os chefes guerreiros lusitanos.

Deste modo Viriato convenceu os seus compatriotas a usarem uma manobra hábil, que consistia em dividir as tropas em pequenos grupos para atacar em várias frentes, chamando a si um grupo de cavaleiros que controlava as posições dos romanos, enquanto as outros grupos se iam escapando através dos sectores mais fracos das linhas inimigas, concentrando-se depois no local que previamente tinham combinado. O grupo de cavaleiros de Viriato rompeu o cerco e foi arrastando os romanos em direcção ao desfiladeiro da serra de Ronda. Quando o grosso do exército romano passava nesse apertado desfiladeiro, onde não tinha possibilidade de manobra, caíram sobre eles os lusitanos ocultos nas encostas íngremes, fazendo nas fileiras inimigas uma espantosa chacina, tendo sido morto o próprio general Caio Vetílio. Esta vitória reforçou o prestígio de Viriato.

Enquanto os romanos se preparavam para novas operações de guerra, Viriato vagueava pela Lusitânia para reconhecimento dos territórios e povoações e para saber o apoio que tinha contra o invasor. Quando pisava solo da Carpetânia veio ao seu encontro um grupo de homens que transportavam a Crantara – a lança ensanguentada que significava a convocação de uma reunião dos chefes militares; ia-se celebrar o conselho do castro da Colla junto da grandiosa anta da Candieira na serra de Ossa, na presença do endre Idevor.

O povo pelo costume antigo chamava endre a cada um desses homens, a quem acatavam como depositários de um maravilhoso poder espiritual. De facto os endres eram propriamente os antigos das tribos, os que conservavam a norma e o sentido moral ou histórico dos costumes, possuíam um saber do passado, que os tornava oráculos vivos, conselheiros em todos os momentos arriscados e conciliadores nas lutas internas e separatistas das várias tribos. Um destes endres, o mais querido entre as tribos, era o venerando Idevor.

No adro sagrado das sepulturas é que os chefes lusitanos consultavam o eco dos espíritos para tomarem as resoluções necessárias para as lutas a travar com o inimigo. Numa das lajes da anta existia um buraco aberto a meia altura do chão, tendo um palmo em quadrado de diâmetro. Era por esse buraco que o endre Idevor interrogava os mortos sobre a sorte das batalhas.

Em poucos dias Viriato chegou, acompanhado dos inseparáveis Ditalco, Minuro e Andaca, ao castro da Colla. Já tinha chegado grande parte dos chefes, entre eles Tantalus e Punicos.

Os chefes lusitanos fizeram questão que o endre Idevor entregasse a Viriato o Colar dos Três Crescentes como símbolo da chefia máxima dos lusitanos. Foi entre vivas e com grande emoção que o endre o depositou nas mãos de Viriato, que o colocou ao pescoço.

O endre Idevor colocou na pedra furada as oferendas do banquete funerário. O conselho armado ali representado pelas tribos lusitanas tratava de saber como iriam se defender dos romanos que pretendiam vingar-se de tantas derrotas que lhe infligiram. Idevor avançou para a pedra furada, ajoelhou-se e interrogou os mortos, colocando o ouvido no orifício da pedra. De repente quebra-se o silêncio e Idevor falou:

— Viriato! Viriato! Nunca serás vencido em batalha! Nunca morrerás às mãos dos romanos.

A satisfação dos presentes foi total.

— Entrego-te a espada invencível das batalhas, a espada Gaizus.

Viriato pegou na espada, beijou-a e, brandindo-a no ar, disse:

— Há-de ser livre a Lusitânia.

O único pensamento que ocupava a mente do general Serviliano, desde que fora eleito cônsul, era defrontar e derrotar Viriato e apresentá-lo em Roma descalço e humilhado. Tinha conseguido que o senado romano lhe dispensasse um exército de sessenta mil homens e mil e seiscentos cavaleiros. Viriato contra uma força destas dificilmente resistiria, já que só contava com seis mil homens, mas não desanimou perante tal adversidade e ordenou o seu plano — manobrar com rapidez de modo que Serviliano não consiga manter a disciplina e a ordem na batalha.

As tropas romanas rapidamente chegaram à Hispânia Ulterior. E Viriato, em vez de esperar o ataque, deu ordem para um assalto instantâneo, com o intuito de estabelecer a confusão nas tropas romanas, e para que fossem desferidos ataques em diversos pontos. O assalto encheu de assombro o exército inimigo, que recuou, aguardando por reforços, que decidiriam a luta. O exército, reanimando-se com o extraordinário reforço, toma a ofensiva. Viriato, evitando o combate, foi atraindo o exército romano para terrenos seus conhecidos, com a sua técnica de contra-ataque, que consistia em atacar e depois fugir. Serviliano, com o exército cansado e com a perda de três mil homens pelas incursões dos homens de Viriato, refugia-se em Ituca. Reabastecido, Serviliano procurou Viriato em vão, avançou para norte, tomando em poucos dias algumas cidades fiéis a Viriato, fazendo dez mil escravos e mandando degolar quinhentos indivíduos considerados seus partidários. Nas suas marchas Serviliano não encontrava o cabecilha lusitano. Decide tomar Erisane, cidade rica e populosa, e fez muitos escravos. Os soldados dividiam-se em volta da cidade, abrindo fossos, quando inesperadamente de dentro dos seus muros irrompem cavaleiros lusitanos. Parecia que a cidade se desfazia, pela violência e rapidez e pelos gritos estridentes viu-se que era gente de Viriato. O exército romano, sem ensejo para entrar em ordem, vai abandonando o terreno, sem saber que estava a ser impelido por Viriato para um desfiladeiro apertado entre dois montes. Logo que Viriato conseguiu encurralar o grosso do exército consular, deu ordem a uns companheiros para fazerem rolar do alto das duas montanhas grandes penedos, aprisionando o exército romano. Dispostas assim as coisas, mandou parlamentários a Serviliano com a seguinte mensagem:

«Que o cônsul Serviliano considere perdido o combate ou qualquer resistência. Que ao primeiro sinal de resistência rolariam pedras sobre o exército romano. Antes de qualquer procedimento, queria saber o que é que propunha Serviliano para que o exército romano fosse salvo.»

A resposta de Serviliano não demorou.

«Que Quinto Fábio Máximo Serviliano, pelos poderes conferidos pelo senado romano, lhe entregava um cinto de ouro, como insígnia de autoridade de soberano. Que poderia Viriato a partir daquela altura considerar-se rei da Lusitânia e fiel aliado de Roma, sendo o seu primeiro acto a assinatura de um tratado de paz e a dissolução do exército.»

O tratado foi redigido com todas as formalidades do Direito das Gentes, e Serviliano assinou como procônsul. Viriato firmou em nome dos povos lusitanos que representava. Trocaram os diplomas autênticos, um iria para Roma, outro ficaria na posse de Viriato. Nesse dia os dois exércitos entraram em festa, ficando no campo as tropas de Viriato, até que o exército romano deixasse de ser visto seguindo em marcha para o seu quartel de Inverno.

Apesar dos sucessos de Viriato nas batalhas contra os romanos, e do poder que fora investido, a estes não lhes agradava como os governadores da Hispânia Ulterior tratavam o caso da Lusitânia.

Mas os compromissos assumidos por Serviliano duraram pouco, nuvens negras apareceram no céu predizendo maus augúrios. Tântalo apareceu preocupado porque teve conhecimento de que os generais romanos Quinto Cépio e Décio Bruto aproximavam-se da Lusitânia com algumas legiões, quebrando o tratado de paz.

Perante a informação recolhida de Tântalo, Viriato encarou-o com assombro, por ver que a infâmia de Quinto Cépio era idêntica à de Sérvio Galba.

— Ainda tenho a minha espada — disse Viriato.

No caminho, Viriato verificou que multidões de gente fugiam das cidades invadidas, saqueadas e incendiadas por Quinto Cépio.

A malvadez com que Cépio procedia contra as populações, chegando a mandar expor nas praças pregados em cruzes os lusitanos que lhe lembravam o tratado de paz violada, fez reflectir Viriato; sendo impossível organizar as forças para o enfrentar, iria opor-se com a força moral.

— Quero lembrar a Quinto Cépio que temos um tratado de paz assinado pelo seu irmão Serviliano e ratificado pelo senado de Roma. Que nós não o infringimos, e que acreditamos na fidelidade de Roma no cumprimento da lei. Que três dos meus leais companheiros lhe vão mostrar o tratado de paz, e declarar-lhe que à majestade dele entregamos a nossa defesa. E sereis vós, Ditalco, Andaca e Minuro, encarregados desta missão.

Transportando ramos de oliveira para se anunciarem e demonstrarem que iam em paz.

— Direis a que vindes — perguntou o soldado romano.

— Queremos falar com o general Quinto Cépio. Envia-nos Viriato dizendo que recebeu de Roma o título de amigo e é-lhe impossível pegar em armas contra Roma, e lembra que existe um tratado ratificado pelo senado e pelo povo de Roma.

O general, que se aproximava, ouviu o que Ditalco dissera e respondeu:

— Não posso ouvir falar nesse tratado assinado por meu irmão. Esse tratado nada vale para mim — disse Cépio.

— Violais então a autoridade de Roma?— perguntou Andaca.

— Os tratados só têm a força que lhes dão as espadas, e digo-vos que o senado autorizou-me a hostilizar Viriato. Tenho aqui cartas de Roma dizendo-me para continuar a guerra na Lusitânia.

— Parece que a nossa missão está terminada – disse Ditalco.

— Não a considereis terminada — respondeu Quinto Cépio.— Quereis paz na Lusitânia?

— Claro!— respondeu Minuro.

— A paz na Lusitânia, sim, mas não a paz com Viriato!— disse Cépio.

O desafio estava lançado e os três lusitanos logo se aperceberam quais as intenções romanas.

— Roma carece de gente valorosa e com energia nestas terras. Roma encarregou-me de vos conferir o título de cidadãos romanos, as honras do patriciado, com acesso a altos cargos da República, e uma substancial quantia em sestércios, se...

«Efectivamente Viriato está a tornar-se um embaraço. Quando se chega a certa popularidade torna-se um perigo», concordaram Andaca, Ditalco e Minuro.

Sem grandes demoras Quinto Cépio retira o capacete da cabeça, deita três pedras, em que uma dizia «Morte», e cada um dos lusitanos tirou uma pedra. A sorte calhou a Minuro.

Era noite alta quando os três lusitanos regressaram ao acampamento. Viriato sentia os passos dos seus companheiros que se aproximavam silenciosamente da barraca. Minuro afastou o pano e entrou com um punhal atrás das costas. Viriato nem chegou a falar. Minuro, rápido, curvou-se sobre ele descarregando o golpe fatal. Feito o trabalho, os traidores montaram os cavalos e saíram à desfilada para o acampamento romano.

— Viriato está morto, vimos buscar a recompensa — disse Minuro.

Quinto Cépio olhou com indiferença e desprezo para aqueles homens e disse:

— Roma não tem por costume dar prémios a soldados que matam o seu general.

Andaca, Ditalco e Minuro montaram de novo a cavalo e desapareceram o mais rápido que foi possível do acampamento romano, temendo por suas vidas. Mas as suas traições não ficaram impunes. Minuro não conseguiu resistir ao que tinha feito a Viriato e enforcou-se. Andaca e Ditalco foram apanhados por uns soldados lusitanos que saíram em sua perseguição e foram mortos. O destino da Lusitânia estava traçado.

Viriato foi vestido com um fato de gala magnífico, amarraram-lhe os cabelos na testa, como fosse entrar em combate, colocaram-lhe na cabeça a tríplice cimeira e o capacete de couro, pendente no pescoço o Colar dos Três Crescentes, um pequeno escudo côncavo, preso por correias, e numa das mãos a falcata.

Os soldados levaram-no para cima de um alto penhasco, grandes molhos de rama e pinheiro, de faias e carvalhos, formando uma pira, e colocaram o corpo já rígido de Viriato. O fogo foi ateado enquanto danças guerreiras se faziam à volta da pira, batendo escudos e floreando as lanças.

Para tanta vida de êxitos, o fogo foi demasiado rápido para devorar o corpo de Viriato.

Roma passaria a dominar toda a Península Ibérica.


NoNota : Foto – Morte de Viriato- Museu do Prado, Madrid, da autoria do pintor José de Madrazo

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Uma Ida ao outro lado.


UMA IDA AO OUTRO LADO

Por Célio Passos



Mário Renato levantou-se mais cedo do que era costume. Tinha dormido mal, passara mal a noite, bastante agitado, virou-se vezes sem conta na cama, imagens perturbadoras povoaram os seus sonhos, sentiu-se febril, julgou-se doente. Algo de muito esquisito estava a passar-se consigo; pressentia que qualquer coisa estaria para acontecer.
Desceu no elevador até à garagem do prédio. Entrou no automóvel, pô-lo em movimento e ligou o aquecimento porque sentia frio.
Andava preocupado com a sua situação profissional, que estava a atravessar um péssimo período, talvez por isso a febre e o mal-estar matinal fossem psicossomáticos. A ida matinal a Guimarães era mais uma tentativa de resolver a situação.
Uma chuva espessa, miudinha e persistente dificultava a visibilidade e Mário Renato tinha que se inclinar sobre o volante para conseguir ver os mecos que, de vez em quando, indicavam a berma da estrada. Esta, que conhecia como as suas mãos, pelas inúmeras vezes que a percorria, naquele dia parecia-lhe diferente, tinha mais curvas, mais estreita e com uma inclinação mais pronunciada.
Pensou ter-se enganado na estrada, mas não era possível, não se lembra de existir outra estrada naquela direcção. Percorreu alguns quilómetros à procura da estação de serviço onde tantas vezes parava para se abastecer, mas não a encontrou. A chuva entretanto começou a amainar, dando lugar a um nevoeiro, que, conforme Mário Renato ia progredindo, aclarava, ficava cada vez mais luminoso, dando lugar a pequenas nuvens de um branco leitoso, intensificadas com o brilho do Sol, que agora timidamente queria aparecer. Não fosse o preto do asfalto que se entremeava com as nuvens mais rasantes, dir-se-ia que Mário Renato estava a pilotar um avião em vez de um automóvel.
De repente, entre a nebulosidade, inopinadamente, na estrada surgem dois homens imaculadamente vestidos de branco que o mandaram parar. Mário Renato não tinha a certeza de se tratar de uma autoridade. Um dos homens vestido de branco acercou-se do automóvel, fez uma espécie de continência à guisa de cumprimento e disse:
— Bom dia, a sua identificação, faz favor — disse numa voz assexuada.
— Mas, Sr. Guarda...
— Vigilante. Talvez seja o termo mais adequado à minha função — disse pausadamente.
Enquanto entregava o bilhete de identidade, Mário Renato perguntou:
— Mas Sr. Vigilante, por que razão me mandou parar.
— É que esta estrada termina aqui.
— Mas esta estrada não vai para Guimarães?
— Guimarães?
— Sim, Guimarães, porquê?
— Por estes lados não existe terra com esse nome, além de que esta estrada não tem, nunca teve e jamais algum dia terá saída.
Mário Renato acreditou que se tinha mesmo enganado. Mas, aonde é que estava?
Quando se preparava para perguntar que local era aquele e questioná-lo se tinha autoridade para o mandar parar, o vigilante, que observava uma lista, disse:
— O senhor é um dos bafejados da sorte.
— Eu, porquê?
— Nem todos os seres humanos têm a sorte de serem convocados.
— Convocado? Para quê? — perguntou intrigado Mário Renato
Não recebeu qualquer resposta, a não ser um sorriso enigmático.
Tudo o que se estava a passar era estranhíssimo. Efectivamente, aquela estrada, que tão bem conhecia, estava diferente, o tempo que mudara tão repentinamente, o polícia, ou lá o que era, a dizer coisas que não entendia, nada disto batia coisa com coisa. Mário Renato sentia-se baralhado com o que se estava a passar.
O vigilante solicitou que estacionasse o automóvel e o acompanhasse. Estranhou o pedido, mas sem relutância fez o que ele gentilmente pedira. Dirigiram-se a um edifício, muito parecido com uma gare, de camionagem, ferroviária ou mesmo terminal de um aeroporto, com a particularidade de estar toda pintada de branco, sem quaisquer dizeres ou reclamos luminosos, como habitualmente se encontram nestes locais. Uma porta automática de vidros foscos abriu-se à aproximação deles. Um longo corredor, ladeado por janelas com vidros espelhados, permitia ver para o outro lado sem ser visto. O que se passava para lá dos vidros assemelhava-se a uma sala de espera de um terminal de transportes, onde pessoas de todas as idades e raças aguardavam a hora de partida do seu transporte; o espaço era enorme e não se conseguia vislumbrar onde terminava.
As pessoas, num número incalculável, ou estavam sentadas ou circulavam lentamente por entre as que estavam sentadas, não conversavam muito, a sua atitude era mais de reflexão. Curioso era que ninguém tinha bagagens por mais pequenas que fossem e os serviços de apoio habitualmente existentes nestes locais, como sejam bares, lojas de revistas ou de artesanato, não existiam.
Percorreram o corredor e no final uma outra porta se abriu para um espaço verde onde se perfilavam, num cais à beira de um canal, uma quantidade apreciável de pequenas barcas e em cada uma um barqueiro estava sentado à proa. O vigilante fez um sinal para um deles e após uma breve troca de palavras, que Mário Renato não entendeu, ajudou-o a entrar e a acomodar-se na barca. A barca começou a deslizar pelo canal suavemente onde outras barcas circulavam próximas umas das outras, mas apesar disso não se via quem ia nelas, a privacidade era total.
O tempo estava completamente diferente, o Sol brilhava, a temperatura era amena, estava um dia simplesmente esplendoroso. De um lado do canal, as margens eram verdejantes cheias de olmos e cedros que nasciam entre os silvados, donde bandos de pássaros exóticos levantavam voo à sua passagem; do outro, uma imensidão de pequenos lagos cheios de vitórias régias, semeados num campo relvado a perder de vista, donde se espanejavam patos, garças e íbis multicolores. No ar sentia-se um cheiro intenso perfumado a alfazema, e, de quando em vez, trescalava a incenso.
Mário Renato estava cada vez mais espantado com tudo o que estava a presenciar. O barqueiro dirigiu a barca para um pequeno cais, encostou a barca, e Mário Renato percebeu que a viagem tinha terminado. O barqueiro ajudou-o a sair e indicou-lhe um trilho que subia até ao topo de uma colina. Mário Renato não teve outra alternativa, pois quando se voltou para interpelar o barqueiro, este já lá não se encontrava, tinha simplesmente desaparecido. A subida apesar de longa foi fácil. Do topo a vista era espectacular. Avistava-se uma planície sem fim, em que pontos ao redor de traços brancos desenhavam, numa extensa superfície, árvores cheias de ramos, tendo por horizonte uma luminosidade avermelhada. Longas escadarias de mármore branco partiam em direcção à planície.
Uns quantos rapazes ou raparigas, não conseguiu identificar, vestidos de branco, estavam sentados no topo destas escadarias contemplando a planície. Um deles aproximou-se de Mário Renato, baixou a cabeça num cumprimento cerimonioso e, sem dirigir qualquer palavra e por meio de graciosos gestos, indicou-lhe uma escadaria que se dirigia a uma certa zona da planície. Apesar de longa, os degraus que a compunham estavam de tal forma dispostos que a descida se tornava fácil. Mário Renato começou a descê-la lentamente. Uma música suave saía-lhe debaixo dos pés proporcionando uma descida agradável. O trânsito de pessoas naquele momento era reduzido e pessoas com mais idade eram ajudadas por aquelas personagens cujo sexo não conseguia identificar.
Conforme se aproximava do vale, Mário Renato ia descobrindo que os pontos que vira do alto pareciam pessoas que pontilhavam a superfície, e os traços brancos pareciam tratar-se de algo parecido com mesas, cobertas com impecáveis toalhas brancas. Depois de uma análise mais atenta, viu que não se tratava de seres humanos mas de massas nebulosas, fumacentas que evolavam no espaço. Algumas materializavam-se envoltas em panejamentos, outras circulavam como manchas animadas de musselina, por vezes parecia um material esbranquiçado, translúcido, tudo isto a desenrolar-se numa atmosfera multicolor; concluiu tratar-se de ectoplasmas.
Tinha agora consciência do que se estava a passar apesar de ser a primeira vez que estava a assistir a um contacto físico com o espiritual. Quando jovem, ele e o seu grupo de amigos mais íntimos interessaram-se pelos livros do ocultista francês Allan Kardec, pai da teoria do espiritismo, do escritor e espiritista Conan Doyle e do grande investigador dos fenómenos espíritas Charles Richet.
Frequentavam a Casa do Castelo, local misterioso que fora propriedade de um conde inglês que doara a uma sociedade inglesa de pesquisas psíquicas que era gerida à distância e onde um grupo, bastante restrito, se dedicava a sessões espíritas, consideradas pela polícia como clandestinas e conspiratórias contra o governo, talvez pelo seu secretismo, e como tal eram perseguidos e muitas sessões foram interrompidas e os presentes terminavam a noite na esquadra. Mas foi com a morte da namorada, da qual se encontrava perdidamente apaixonado, tendo-se envenenado com cianeto, por razões que nunca lhe foram ditas mas que sempre ansiou saber, que tentou pela primeira vez o contacto.
Recorreu a médiuns, alguns atestaram-lhe serem de uma honestidade, competência e de sucesso garantido, mas que não resultou, outros, autênticos farsantes, exploradores, que, com cenas teatrais, fizeram crer que o contacto às primeiras vezes era difícil, mas que devia insistir, e depois de algumas sessões, e despendida uma quantidade razoável de dinheiro, diziam que não era possível realizar-se porque o espírito da namorada não queria.
Tentou aprofundar mais os seus conhecimentos lendo livros da especialidade, e até experimentou colocar um limão debaixo da travesseira, porque segundo crenças africanas diziam que o citrino chamava os espíritos de noite. Apesar dos insucessos nunca se afastou do espiritismo, procurando de vez em quando, em alturas de maior angústia, recorrer à sua tia Noémia, que nesta matéria, apesar de leiga, era uma fanática. Foi na sua casa, com uma médium de nome Sãozinha, que aos pedidos da sua tia fazia tentativas, todas frustradas, de entrar em contacto com os seus filhos que tinham falecido num espaço muito curto de tempo, que foi o ponto mais próximo deste fenómeno.
Os contactos, que aparentemente pareciam ser bem-sucedidos, não se chegavam a concretizar porque a sua tia começava com chiliques, quando a médium em estado de transe, verdadeiro ou falso, começava a falar com uma voz que se assemelhava a um dos filhos. Este contacto, por muito ténue que fosse, era suficiente para a tia ficar fora de si, com a expectativa de sentir a presença espiritual dos filhos.
Os contactos, mal sucedidos, eram muitas vezes substituídos por levitação de uma mesa de pé-de-galo, antiquíssima, que descia as escadas como se tratasse de uma pessoa, ou o lustre pendurado no átrio das escadas que davam para o andar superior agitava-se violentamente, ou os quadros da sala de estar deslocavam-se de uma parede para outra, ou então o relógio de caixa alta, jóia de família, dava horas fora de horas.
A escadaria terminava numa pequena clareira, junto a um conjunto de mesas. Os ectoplasmas naquele local tinham dificuldade em materializarem-se, algo parecia perturbá-los.
Mário Renato tentava descobrir de quem se tratava. Sentiu que uma cadeira situada no topo de uma das mesas lhe era destinada. Na sua cabeça uma voz falava-lhe: «Senta-te e coloca as mãos sobre a mesa.» Cumpriu o que aquela voz interior lhe dizia. Os ectoplasmas começaram por fim a definir-se, e, lentamente, as personagens materializavam-se, completamente identificáveis. Umas, Mário Renato conhecera-as, outras, tinha-as visto em fotografias, e outras não as conhecia. A sensação era indescritível, emocionante, suave, de uma rara beleza. Finalmente ao fim de tantos anos, aquilo que sempre ansiou e acreditou estava-se a realizar. Sobre a mesa estava colocado um material esbranquiçado, semelhante a um grande círio, apagado, assim como outras massas idênticas que se assemelhavam a ícones, pequenas velas, ex-votos, oblatas, imagens, numa parafernália de objectos espalhados sobre as mesas.
No topo da mesa encontrava-se o seu pai, Augusto, com aquele ar distraído, ausente, que sempre teve, ladeado pela sua mãe, Antonieta, risonha, com um ar bondoso, uma «santa», como lhe chamavam. Depois, num dos lados da mesa encontrava-se o tio Adolfo, que continuava com ar de quem sofre de prisão de ventre, contrariado, azedo, que sempre contrastou com o ar bem-disposto do irmão Edgar, que gostava tanto de viver. Seguia-se a tia Dulce, inveterada solteirona, ranhosa, como alcunhava a sua irmã Noémia, com quem passou os dias a resmungar, apesar de nunca terem conseguido viver uma sem a outra. Noémia fora casada com o tio Armando, farmacêutico, que se serviu das suas mesinhas caseiras para dar volta à cabeça das beatas da paróquia. Estava ainda a tia Matilde, que nunca conheceu muito bem, e o tio Anselmo, que esteve emigrado em França. Os primos Daniel e Rui, filhos de Noémia, que tinham por volta de 10 anos quando morreram de meningite.
Numa mesa que encaixava na mesa em que estava sentado, encontravam-se outros familiares, que conhecia de fotografias ou por descrições que os seus pais e tios lhe fizeram. Era o caso do avô paterno Sebastião, que identificou pelos enormes bigodes, da avó materna Marília, pelo seu avantajado corpo, da espirituosa tia-avó Delfina, que passou a vida a pregar partidas, e segundo diziam, quando abandonou o mundo devido a um ataque de coração, ninguém acreditou julgando-se que era mais uma das suas brincadeiras; do tio-avô Alfredo, brilhante sargento do Corpo Expedicionário Português que participou na trágica batalha de La Lys na I Grande Guerra, que em defesa da frente ocidental foram dizimados pela tropas germânicas, morrendo gaseado com gás mostarda; da tia-avó Esmeralda, beata, que foi uma excelente cozinheira, cujos pitéus chegaram à sua geração, com especial destaque para os bolos conventuais. Outros familiares não reconheceu, nunca os vira em fotografias nem em descrições.
Conforme as mesas iam ficando mais distantes, os ectoplasmas ficavam mais desfocados, não sendo possível visualizá-los, muito menos identificá-los. As personagens sentadas nesta sucessão de mesas e que se encaixavam umas nas outras relacionavam-se indubitavelmente com os seus ascendentes e colaterais. Mário Renato tentou comunicar com eles, falou, quase gritou, mas algo impedia a comunicação. Eles, ou falavam entre si ou estavam como que a rezar, disso apercebeu-se. A sensação era indescritível.
Mário Renato, emocionado, assistia aparvalhado a tudo que se desenrolava diante dos seus olhos. Sempre pensou que um dia seria possível. Nos momentos mais difíceis da sua vida, sentiu o aconchego espiritual de sua mãe, a quem se sentiu sempre umbilicalmente ligado, e pediu ardentemente que ela desse um sinal da sua presença. O círio acendeu e Mário Renato passou a ouvir as conversas que se desenrolavam à mesa; falavam dele.
— Sinto que o Mário está presente. Acolheu ao nosso chamamento — disse a mãe Antonieta.
— Mário está-se a precipitar ao fazer a sociedade com aquele «fulano». Não parece ser boa «peça». Nós sabemos que ele já levou à falência várias firmas, mas ele ficou sempre bem; para mim não é um sócio que ele vai arranjar mas sim uma carga de trabalhos — dizia o tio Edgar com ar preocupado.
— Penso que o melhor que o Marinho fazia era comprar aquele espaço comercial na nova zona da cidade e passar para lá a loja — opinou o tio Adolfo.
O tio Adolfo fora sempre um homem para grandes negócios, em especial, quando o capital não fosse o dele, porque com o dele, que sempre foi pouco ou nenhum, não se podia contar.
— Cá p’ra mim nem uma coisa nem outra. Ele está muito bem onde está — afirmou a tia Noémia.
A tia de Mário nunca gostou nem percebia nada de negócios, e, para ela qualquer alteração, mínima que fosse, fazia-lhe muita confusão.
— Eu também já tinha pensado nisso; o Mário está muito bem onde está — pontificou a tia Dulce.
A tia Dulce nunca pensou, o que não podia era deixar de dizer qualquer coisa, em especial, quando a sua irmã opinava; era um complexo de inferioridade que nunca conseguiu ultrapassar.
— O Mário sabe o que faz. O rapaz teve sempre muito juízo, e não se vai meter em trabalhos — disse o pai, pessoa que foi sempre muito respeitada no seio da família, e o que ele dizia, em regra e sem excepção, era escutado e seguido.
Mário Renato estava a ser alvo de uma reunião familiar sobre a sua actual situação profissional. Na realidade, era possuidor de uma loja de electrodomésticos, e a zona onde estava sediada tinha vindo a desertificar-se nos últimos tempos. As pessoas transferiram-se para novas zonas da cidade, ficando o local entregue quase exclusivamente a escritórios e armazéns. A clientela foi, obviamente, baixando e os lucros igualmente, tornando-se difícil aguentar tal estado de coisas.
Acerca de um mês, apareceu um indivíduo que trabalha na mesma área de negócio que lhe propôs sociedade. Tinha umas lojas e precisava de uma outra exactamente naquela zona para poder fazer rotação de produtos e que funcionaria como um entreposto comercial. A ideia seduziu Mário Renato até porque não tinha grandes hipóteses para resolução premente do problema. Mas quase simultaneamente uma outra proposta, mais aliciante, mas difícil de concretizar, proporcionou-se. A compra de uma loja na nova zona da cidade, por um preço espantoso e bem situada. Só que tinha de solicitar um empréstimo e o banco exigia condições para o financiar que muito dificilmente podia suportar.
O dilema era enorme, estava inclinado a fazer a sociedade com o tal Saul Dias, pessoa de que tinha boas e algumas más referências, o que dificultava a sua decisão, mas parecia ser a melhor ou, talvez, a única solução. Era por isso que ia a Guimarães para falar de novo com o hipotético sócio, para acertar mais alguns pormenores do negócio.
— Todos «vossemecês» sabem que de algum modo podemos influenciar os acontecimentos dos nossos familiares. Acho que devemos flanquear o inimigo e isolá-lo de modo a que o Marinho esteja a salvo duma manobra do inimigo e que o coloque em perigo — disse o tio-avô Alfredo, recordando façanhas da Grande Guerra, porque do assunto de electrodomésticos não tinha conhecimentos; no seu tempo, electrodomésticos era coisa que não existia.
— Todos que estamos aqui reunidos desejamos uma solução que seja a melhor para o Marinho, e se ele aguardar com paciência, ela vai aparecer em breve— disse a mãe Antonieta.
— Mas o problema é o Mário ter a calma suficiente e tempo para esperar. A situação está a piorar de dia para dia e o tal Saul Dias sabemos que está a pressionar — disse o tio Edgar.
De repente a atmosfera ficou alterada, os ectoplasmas ficaram pateticamente eufóricos, a agitação era enorme, não paravam de evolar-se e não estabilizavam, a materialização estava inconstante, desapareciam e apareciam a cada momento, algo de extraordinário se estava a passar. A tia Matilde, particularmente, encontrava-se em grande excitação. Mário Renato apercebeu-se que um acontecimento inesperado tinha acontecido, não faltaria muito para saber o que se tinha passado. Uma nova personagem estava a evoluir e a materializar-se na mesa perto de si; era o primo Vitorino. Estava perplexo porque muito recentemente tinham almoçado juntos e estranhou o facto de ele estar ali. A tia Matilde pousou a mão sobre a cabeça do filho como saudação pela sua chegada; o seu ar não denotava nem alegria nem tristeza. A situação acalmou.
— Vamos fazer uma corrente espiritual e enviar uma mensagem de apoio e esperança ao Mário e que aguarde, pois a solução vai surgir mais depressa do que ele pensa — sugeriu a tia Dulce.
Todos os presentes recolheram-se em meditação, uniram as mãos e baixaram a cabeça como que a rezar. Um pensamento chegou a Mário Renato. O círio lentamente foi-se apagando e os ectoplasmas começaram lentamente a desaparecer até que a mesa ficou vazia. A reunião familiar estava finda, o contacto tinha terminado.
Mário Renato regressou de novo ao canal, onde uma barca esperava por si. O tempo continuava esplendoroso, o Sol não se tinha deslocado, continuava lá no alto, parecia que o tempo tinha parado. Olhou para o relógio e viu que eram 9 horas e 10 minutos, precisamente a mesma hora quando foi mandado parar pelo vigilante. O cheiro a alfazema permanecia no ar, assim como o do incenso. Bandos de patos-bravos, amarelos, atravessavam o ar, no seu elegante voo, em direcção aos lagos situados no extenso vale; contudo, os patos não chegavam ao destino, desapareciam como por magia, simplesmente esfumavam-se no espaço.
A barca deslizava agora num vale. O vale recordava-lhe um vale grego, o Parnaso, numa viagem que tinha feito há anos à Grécia, e lá como ali, sentiu a mesma sensação, a presença de algo superior, talvez do deus grego Apolo guiando a sua quadriga puxada por cisnes azuis.
Uma paz interior percorreu Mário Renato. Estava esmagado com os acontecimentos vividos, mas ao mesmo tempo maravilhado com o que se tinha passado, algo de transcendental, místico ou talvez religioso. Sobre as suas dúvidas e contradições religiosas sempre se colocou num plano agnóstico muito próximo do ateísmo, ou talvez indiferença, já não sabia lá muito bem. Os fantasmas da sua vida eram bem reais, eram os seus fornecedores e clientes, que apareciam e desapareciam no tempo, dependentes das circunstâncias, do poder de compra dos clientes e dos compromissos assumidos com os seus fornecedores ou deles para consigo.

Sem saber como, Mário Renato deu-se consigo dentro do automóvel. Colocou-o em movimento e passou pelos vigilantes, que lhe fizeram uma continência como de despedida. O tempo repentinamente começou a ficar enevoado, dando lugar a uma chuva pesada, cada vez mais intensa, pelo que Mário Renato teve que abrandar e encostar o automóvel.
Um guarda bateu no vidro lateral do automóvel. Mário Renato estava completamente absorto só quando o guarda da GNR bateu de novo é que se apercebeu da sua presença. O Sol batia-lhe na cara e teve de colocar a mão em forma de pala para identificar quem lhe batia no vidro. Baixou-o.
— Passa-se alguma coisa com o senhor? — perguntou o guarda.
— Não, porquê?
— É que o senhor vinha à nossa frente com o carro aos ziguezagues, encostou à berma, parámos para ver se precisava de alguma coisa, batemos várias vezes no vidro, tinha o carro trancado, estava com um ar esquisito, com o olhar parado, e só depois de insistirmos várias vezes, batendo no vidro, é que o senhor atendeu. Já estamos aqui há mais de cinco minutos. Está mesmo bem? — perguntou de novo o guarda.
— Sim, penso que sim — respondeu. — Olhe, Sr. Guarda, esta estrada para onde vai?
— Para Guimarães — respondeu.— O senhor está mesmo bem? — insistiu.
— Sim, pode ficar descansado — respondeu.
Mário Renato coloca o carro em movimento. A estrada agora já era sua conhecida. Parou na bomba de gasolina onde tantas vezes se abasteceu de gasolina, de jornais e revistas. Pegou no telemóvel e ligou para a loja.
— Manel, sou eu, fazes o favor de ligares para o Sr. Saul Dias e diz-lhe que eu hoje não posso encontrar-me com ele. Inventa uma desculpa qualquer. Diz-lhe que amanhã lhe telefono.
Decidiu ir para casa. Parou o automóvel junto ao prédio onde habitava, mas antes de entrar, dirigiu-se à caixa de correio. Só se encontrava uma carta de uma instituição bancária. Abriu-a.

«Ex.mo Senhor:
A nossa instituição bancária, a laborar no espaço comunitário, pretende abrir uma sucursal nesta cidade. Tivemos conhecimento que V. Ex.ª tem um espaço comercial numa zona do nosso interesse que pretende vender, pelo que um dos nossos advogados vai entrar em contacto com V. Ex.ª para agendar uma reunião para um eventual negócio.
Com os melhores cumprimentos,
A Administração.»

Estava incrédulo. Releu a carta, uma, duas vezes. Não podia acreditar no que estava a acontecer. Era realidade o que estava a viver? Foi sonho o que se tinha passado? Ou não teria sido?
Que sucessão de acontecimentos! Mas o que se tinha passado tinha sido demasiado real. Os familiares, alguns já tinham abandonado esta vida há tantos anos, mas viu-os, não os sentiu, mas ouviu-os a falarem de si, deram-lhe conselhos, preocupavam-se com ele. A barca, a escadaria de mármore, a planície, os polícias ou lá o que eram que o mandaram parar, eram verdadeiros. Mas, a estrada era-lhe totalmente desconhecida, o vigilante nem conhecia aonde ficava Guimarães.
Não! Não passou de um sonho, agradável, mas não passou de um sonho: a vida era demasiado real para se entrar em sonhos, fantasias. Talvez o banco estivesse interessado no negócio e, se assim fosse, poderia adquirir o espaço comercial na parte nova da cidade, transferir a loja e encetar uma vida nova, com melhores perspectivas. Era simplesmente uma coincidência.
O telemóvel tocou. No visor surge uma indicação de que existia uma mensagem no voice mail. Era o seu irmão Artur. Marca o código de acesso e ouve a missiva:
«Mário. É o Artur. Ando desde ontem a tentar contactar-te, mas não tenho conseguido. Era para te comunicar uma triste notícia. O primo Vitorino, a esposa e o filho tiveram um desastre de automóvel perto de Barcelos, e o primo Vitorino faleceu. O enterro é amanhã. Quando puderes telefona-me.»
Estupefacto, Mário Renato desliga o telemóvel.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ano Novo... Histórias velhas.

Tolhido de frio, ziguezagueava pelas ruas da cidade que já dormia. Uma chuva morrinhenta teimava em cair e trespassava-lhe as parcas roupas que trazia vestido. Os sapatos também não eram os melhores…, ainda que tivesse os pés embrulhados em jornais, de pouco lhe servia esse conforto, já que pelas beiras dos mesmos lhe entrava a água. Estavam que nem uma sopa.
Meteu as mãos aos bolsos à procura de algum cigarro esquecido, mas só encontrou o cotão sujo e molhado. Abrigou-se junto de um beiral de uma padaria. De lá vinha o quentinho saboroso do forno do pão. Como seria bom ter agora um daqueles pãezinhos para comer com um bocadinho de manteiga. Bastar-lhe-ia isso para tapar a fome que lhe vinha de dentro. Que raio de coisa esta! Ter fome e arrotar, pensava de si para si.
Há muitos anos, mesmo muitos, saboreara o que era a felicidade. Toda a família sentada à volta da lareira a contar histórias de outros tempos. Relembravam-se episódios ocorridos em invernos e natais idos, a avó contava as estórias já recontadas noutras vezes, mas que todos escutavam como se da primeira vez se tratasse. O pai, recostado na sua cadeira, ia fumando e olhando para todos nós com um olhar vago e protector. Sentia-lhe no puxar do cigarro e num ajeitar de cadeira a alegria que lhe ia na alma. Raramente era dado a carícias, mas o seu ser e estar irradiavam brandura de coração… a mãe dava a volta ao lume e aproveitava-o para ir assando umas castanhas que nos ia distribuindo.
— Boa noite, ó Chico, por acaso não tens por aí um cigarrito?
«Acordou» do sonho das castanhas e olhou para cima. Era o seu «companheiro» de jornada… o «Colas». Nunca soubera o seu verdadeiro nome… toda a gente o tratava assim. «Colas» prà qui, «Colas» prà li e «Colas» ficara.
— Nã… nem uma beata — respondera.
— E tu tens algum naco que se «trinque»? Tou cheio da «galga»…
— Pega! — e estendeu-lhe um saco com um pacote de bolachas e outro de leite.
— Lembras-te da semana passada termos «gamado» um frango da churrascaria do Zé «Barbudo»? O gajo ainda hoje está para saber quem foi — e continuou. — Aquilo é que foi um «avio»… o «sacana» do frango era grande e bem gordinho… até os ossos «chupámos» — deu um estalo com a língua como que a relembrar o sabor do dito.
— Este ano está mau! O pessoal anda nas «encolhas». Também com um governo destes que só f… o mais pequeno… não admira. Vi ontem na televisão que os «gajos» estão a pensar aumentar outra vez os impostos. Filhos da p…, a maioria do pessoal já anda a «berrar» que nem uns desalmados, agora com mais «isto», não sei… — e calou-se.
— Sabes o que e que isto está a precisar? É duns malucos «quaisqueres» sacarem duma «fusca» e limparem o «sebo» a meia-dúzia deles. Acabava-se logo a «peçonha». Assim «cum’ássim» o pessoal já anda de «tanga» e de certeza que pior não ficava.
A porta abriu-se-lhes nas costas.
— Então pessoal, vamos «abancar» aqui esta noite? — perguntou-lhes um dos empregados da padaria.
— Não! Nós só «tamos» à espera que a padaria abra. — respondeu o «Colas» com aquele seu «ar» malandreco.
— Vá, toca a «bazar», que isto aqui não é repartição pública!
Levantaram-se ambos e «entre dentes» prometeram-lhe dar-lhe uns «bons cacetes» quando o apanhassem a jeito. Atravessaram a avenida e depois de andarem algumas ruas abrigaram-se debaixo da entrada de um prédio. Fazia um pequeno recanto que os abrigava da chuva, já que do frio não podiam.
— Ó Chico, e que tal «a gente» irmos até lá abaixo ao cais? Sempre víamos lá «pessoal» conhecido que nos podia «orientar» qualquer coisa… uma «bejeca» ou …
— Cala-te e dorme, ó Colas! Amanhã vemos isso…
— Ok, «meu»! Mas depois não me lixes a «carola» a pedir «morfes».
«Aconchegados» costas com costas, adormeceram cada um a sonhar… sonhos de vida melhor.
Com a mão no queixo e o olhar pregado na velha televisão, uma velhota enrolava, de quando em vez, o lenço de assoar que tinha preso às mãos. A D. Joana, outrora peixeira, vivia numa dessas casas velhinhas de Alfama. Da vida ficara-lhe uma pequena reforma que mal chegava para a comida e medicamentos. Sim, porque o reumatismo lhe ia tolhendo cada vez mais os movimentos. O seu companheiro «anichara-se» junto a ela. Um pequeno gato malhado que ela tinha apanhado junto à sua porta ainda bebezinho e ao qual dera o nome de Fadista. Também ela já tivera uma família grande, agora restava-lhe, na noite de passagem de ano, uma «sopinha», o seu gato e um filme português que lhe ajudava a passar o tempo. «Coitados daqueles que ainda estão pior que eu!» — o filme falava-lhe ao coração. Dois rapazes como tantos que andam por esse «mundo fora». Um sono leve assomou-lhe e abruptamente tombou a cabeça no maple já gasto. Só o gato deu conta daquele movimento brusco e descoordenado…
Naquela manhã a rua estava mais «radiante». O céu azul, um sol vermelho e um friozinho reconfortante debaixo do sobretudo novo. O Sr. Gonçalves sempre fora madrugador e hoje não tinha trabalho à espera. Levantara-se bem-disposto após a noite do dia anterior. Os filhos, os netos, a mulher, todos juntos, como ele tanto gostava.
Junto à porta da D. Joana ouviu o miar de um gato. «Ou muito me engano ou é o Fadista!»
Bateu à porta.
— Bom dia, Ti Joana, e bom ano!
De dentro só lhe chegou o som de um televisor ligado e um gemido de gato…

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O REINO DE MARGARIDA

Cabelos timidamente finos e esbranquiçados, carentes de força e determinação, reforçavam a aparência frágil daquele rosto seco e chupado que deambulava pela sala atendendo os clientes numa postura de inferioridade, quase humilhação.
Calças pretas, velhas, camisola de gola alta escura coberta de borboto. Roupas negras a quem os anos retiraram o vigor vestiam-lhe o corpo falto de carnes e reflectiam-lhe a alma vazia de felicidade.
Solidão ambulante servindo sorrisos tristes e olhares amargos. Cada chávena de café continha um pedido tímido de compreensão:
«Por favor, não me gozem. Basta! Não sou o Toninho, aquele ser insignificante que se acostumaram a vexar, a submeter. O meu nome é ANTÓNIO, estão a ouvir. ANTÓNIO!»
O café era sorvido mecanicamente por dezenas de bocas estupidamente iguais que digeriam a súplica do António com a indiferença esmagadora de quem faz do quotidiano o seu pensar. É a cegueira de quem vê, de existir apenas com o minuto, a hora, o exterior, e não com o que — sem nome — de bom e importante há em nós e deveria ser a seiva da nossa vivência, o sumo a brotar dos nossos actos.
Se cada homem é único, se não existem duas pessoas iguais, não deixa de ser admirável que, frequentemente, a força do hábito se sobreponha, domine, não hesitando em eleger vítimas que satisfaçam os rituais diários que a comunidade interiorizou como normais!
Era justamente o caso do António. Indivíduo frágil, inseguro, tristonho, incapaz de se defender, de reagir, tornou-se ao longo dos anos no alvo preferido da chacota dos que frequentavam o bar da Sociedade Recreativa Luz e Vida. No exercício das suas funções de empregado do bar, amiudadas vezes se dirigiam a si, zombando com o facto de, apesar dos seus 35 anos, nunca lhe ter sido conhecida qualquer companhia feminina.
«Oh Toninho, traz aí mais três surbias. Quando o bar fechar, vamos os dois às meninas. É hoje que vais perder os três! Ou será que preferes meninos?», gritava um sujeito que, acompanhado de outros dois, ria efusivamente ao canto da sala.
Prestimoso, António serviu as três cervejas.
«Não te preocupes, Toninho. Eu pago! Se convido… pago. Até te pago uma francesinha, homem. Tens que comer rapaz. Tu de frente pareces que estás de lado.» As gargalhadas vindas daquela mesa contagiavam os presentes, e, num instante, todos troçavam do António. Até o Sr. Joaquim, que era quem explorava o bar e fazia o favor de o empregar — em respeito à memória do seu falecido pai —, alinhava pela cretinice geral.
As piadas, embebidas em álcool, saltavam de barrigas proeminentes à mesma velocidade com que estas emborcavam garrafas de cerveja, e as gargalhadas feitos soluços irrompiam de peitos mamalhudos que ameaçavam rebentar os botões das camisas.
António, que continuava a servir obedientemente, desaparecia aos poucos, envergonhado, sorvido por aquele redemoinho de imbecilidade.
Os idiotas que escarneciam dele não sabiam que António descendia de uma rara estirpe de homens que durante milénios souberam resistir e vencer as dificuldades que a vida lhes colocava. Descobriram o fogo, a roda, o amor, o silêncio, o conceito de bem e de mal, até que chorar é a melhor forma de aliviar a dor. São os sobreviventes.
Na sua imensa necessidade de galgar sobre o sofrimento, de alcançar a felicidade — ou apenas um pouco dela —, António desenvolveu e apurou a mais peculiar das capacidades: a de se tornar invisível.
— O António? Alguém o viu? — perguntava o Sr. Joaquim. — Não me digam que foi embora outra vez. Vocês gozam com ele e eu pago as favas, que fico aqui sozinho a atender a clientela. Logo agora que a casa está cheia!
— Não sei por que o aguenta aqui. Não falta quem queira trabalhar! — observou um indivíduo encostado ao canto do balcão.
— O pai dele ajudou-me numa altura em que muito precisava. Nunca o hei-de esquecer. Manter aqui o Toninho é o meu agradecimento. Vou ligar-lhe para o telemóvel, mas se for como o costume, não me vai atender. Gostava de saber para onde ele vai! Para casa não é de certeza; uma vez mandei um miúdo chamá-lo e não estava lá ninguém.
O telemóvel tocou, mesmo nas costas do Sr. Joaquim, pousado junto a uma garrafa de aguardente.
— Pronto, hoje não volta mais — murmurou o Sr. Joaquim desanimado.
Enquanto isso, metido na casa de banho, António completava o seu processo de transformação. Sentia-se leve, em paz! Percorriam-lhe o corpo sensações cromáticas de enorme beleza: verde, mar, puro; azul, céu, lúcido. O som à sua volta desaparecera e os indivíduos no bar não eram mais que sombras, esboços sem forma ou definição sobre quem planava complacente. Afinal, graças a eles alcançara aquele estado de pureza que algum prazer lhe proporcionava.
Na sua condição de incorpóreo não conseguia ver as pessoas ou o que quer que tivesse sido feito por elas, no entanto, curiosamente, desfrutava com facilidade de tudo que a natureza lhe oferecia.
Abandonou o Luz e Vida e dirigiu-se para um dos seus locais preferidos: a zona da Foz do Douro e o Parque da Cidade. Desceu Valbom, deitou-se sobre a corrente do rio. Pernas esticadas, mãos cruzadas sob a nuca, assim efectuou a curta viajem, saboreando o hálito tépido da água a acariciar-lhe a pele e a luz das estrelas brilhando para si. De vez em quando, na brincadeira, perguntava ao rio se estava cansado ou se demoraria muito a alcançar a foz. Claro que depois de tanto tempo a correr apertado entre duas margens, este só lhe poderia responder resmungando um chocalhar negro e zangado.
Chegado à foz, despediu-se do rio, pediu desculpas ao mar por não o cumprimentar devido à sua baixa temperatura, e, seguidamente, dirigiu-se ao parque da cidade.
Era um dos locais onde melhor se respirava, tudo parecia impoluto, mais saudável. Sentado na relva, junto ao lago, ficou observando em redor. Naquela noite o parque estava bastante animado. De vez em quando vislumbrava silhuetas disformes movendo-se de mãos dadas, cerca de cinco metros à sua direita outras duas rebolavam abraçadas, sôfregas, aquecendo o ar à sua volta até se transformarem numa só.
A lua bonacheirona, grávida de felicidade, incidiu a sua luz plácida sobre o corpo invisível de António como se lhe quisesse confidenciar algo. A relva fresca e húmida, a morna brisa do vento, uniram-se ao luar em círculos irresistíveis que como uma auréola, verticalmente, lhe impregnaram os sentidos de laxação. Então, o seu corpo caiu para trás suave e melancólico, abrindo os membros em V, soçobrando, prestes a adormecer… assim, inteiro, exposto ao mundo.
Estava quase a entrar no reino do subconsciente quando alguém tropeçou em si e se estatelou mesmo ao seu lado. Não via ninguém, porém sentia a sua presença! Seria que estava a sonhar?
— Desculpe se o acordei — disse-lhe uma voz doce de mulher.
António ainda não percebera bem o que estava a acontecer, mas instintivamente respondeu:
— Não, não, eu é que peço perdão porque a fiz cair — murmurou incrédulo.
— Com certeza está a duvidar do que está a ouvir. Suspeita que está a sonhar, não?
— Efectivamente estou um pouco confuso — respondeu António receoso.
— Lamento — retorquiu decidida. — Lamento que alguém tão raro seja também um parvo incapaz de acreditar nos seus próprios sentidos.
Afastou-se determinada. António sentiu-lhe a presença distanciar-se. Num impulso, levantou-se e correu até ela. Pousou a mão onde lhe pareceu que seria o ombro e pediu que não se afastasse já.
— Entenda o meu comportamento. A não ser para se divertirem às minhas custas, habitualmente não falam muito comigo, jamais quando estou assim… sabe… invisível. Por favor fique um pouco mais. Diga-me o seu nome.
— Margarida. Princesa Margarida.
— Desculpe a impertinência majestade, mas é princesa em que reino? — perguntou António em tom jocoso.
O facto de sentir a sua presença, quase lhe sentir o corpo, ouvir a sua voz, já era suficientemente inacreditável para o fazer descrer. Princesa então, era demais!
«Provavelmente é alguma idiota com quem todos gozam e sucede-lhe o mesmo que a mim. Agora que a sua voz é meiga e sensual, disso não há dúvida!»
O seu pensamento foi interrompido pela resposta de Margarida.
— Presumo que esteja a brincar comigo. Talvez pense que sou louca, que não sei o que digo, que sendo irónico poderá talvez desforrar-se das agruras do seu dia-a-dia. Sim, porque em toda a minha vida, com excepção do meu caso, nunca conheci ninguém que fosse feliz e gostasse de ser invisível — a voz deixara de ser doce!
— Uma vez mais peço que me perdoe. Se existe alguém que sabe o que é ser vítima do preconceito, sou eu! — respondeu António denotando alguma dor na sua voz.
Margarida enterneceu-se com a sua franqueza. Carinhosamente depositou-lhe um beijo na face.
— Sentiu? — perguntou Margarida. — Não fique corado, foi só um beijo — observou sorrindo.
— Senti! Não entendo o porquê, mas realmente senti. Os seus lábios são muito bonitos — atreveu-se a observar. — Como sabe que estou corado?
— É fácil, o ar que contorna seu rosto está cálido.
— Será por isso que começo a entender melhor as formas do seu corpo. Será que também está mais quente!
Margarida sorriu e disse:
— Voltemos à questão que me colocou. Gostaria de conhecer mais detalhes sobre o meu reino?
— Sim, adoraria — respondeu António compenetrado.
— Sentemo-nos, pois ficaremos mais confortáveis — ciciou afectuosamente. — O meu reino é — fez uma pausa prolongada, sacudiu os cabelos para trás altivamente e uma aragem acariciou as folhas das árvores que se moveram delicadas a salientar o gesto — onde eu quiser.
Enquanto António a escutava encantado, a voz de Margarida ia assumindo contornos melódicos de rara beleza e num misto de canto e declamação, continuou:

O meu reino é numa nuvem de algodão,
Numa bola de sabão,
É numa folha de papel
Ou na ponta de um pincel,
É na cauda de um cometa,
Nas asas de uma borboleta,
É a voz de um cantor,
No seu bairro do amor.
É nas pétalas de uma margarida,
É no coração de quem me deu a vida.

Margarida fez uma pausa e respirou fundo. A sua voz entristeceu, como que tocada pela nostalgia.
— Não ligue. Lembrei-me dos meus pais — disse abanando-se para sacudir a tristeza.
— O seu reino parece não ter fim — observou António.
— As fronteiras do meu reino são os limites da minha imaginação e essa, felizmente, é interminável. Sabe que até hoje muitos são os que me visitam. Permanecem em mim por algum tempo, deixam lá a sua marca e depois desaparecem; existem os que nunca mais voltam e os que regressam repetidas vezes. São os meus súbditos! Os meus meninos a quem carinhosamente trato por Margaridos. No entanto, é a primeira vez que abandonei o meu reino em busca da pessoa certa. Aquele a quem quero pedir o mais importante dos favores. Essa pessoa, António, é você! Posso contar consigo?
— Sim, claro. Será uma honra.
— Antes de partir, deixo-lhe algo que lhe imploro faça o favor de entregar na morada que lhe vou dizer. Por favor, não falhe, disso depende a minha felicidade plena — Margarida segredou a morada a António, pousou-lhe um suave beijo na testa e desapareceu.
No instante seguinte António regressou à sua forma natural. Ao seu lado, uma linda margarida olhava para si. Pegou nela e seguiu para casa, sentia-se cansado, precisava dormir e retemperar forças. Sempre que ocorria esta metamorfose, ficava esgotado, muito mais desta vez, após as emoções vividas com a fantástica Margarida.
Estava determinado a cumprir o pedido da sua amiga. Levantou-se manhã cedo, fez a higiene diária, tomou o pequeno-almoço e saiu. Apossara-se de si um nervoso miudinho, uma espécie de frenesim. «O que iria encontrar por detrás daquela porta? Quem seriam as pessoas a quem tinha que entregar a flor?»
Subiu as velhas escadas de madeira do prédio antigo, parou no primeiro direito, suspirou, ganhou coragem, agarrou no batente em ferro — tinha a forma de um punho cerrado — e duas vezes bateu-o contra a porta. Alguns segundos depois esta abriu-se e surgiu um senhor idoso. Era de estatura baixa, o corpo um pouco dobrado pelo peso da vida, cabelos fartos, grisalhos, do rosto enrugado sobressaíam os olhos doces, porém esmorecidos.
— Bom dia. O que deseja? — perguntou o velho senhor.
— O senhor não me conhece, mas — António não sabia bem o que dizer — ontem conheci uma pessoa muito especial que me pediu que viesse a esta morada entregar-lhes esta flor. Essa pessoa chama-se Margarida.
António entregou a flor à esposa do senhor, que entretanto se aproximara dele e lhe apertara a mão com força.
— Por favor, entre e sinta-se como em sua casa — disse o homem com a voz embargada pela emoção.
— Como está ela? Está bem? — perguntou a senhora com os olhos humedecidos pelas lágrimas.
Ao mesmo tempo comovido e admirado, António respondeu:
— É a pessoa mais feliz que conheço. Quase me atrevo a afirmar que será a mais feliz do mundo.
O casal sorriu! Olharam um para o outro por um breve momento e abraçaram-se ternamente… em silêncio.
— Obrigado. Muito obrigado. Não sabemos como lhe agradecer. Não imagina como nos fez feliz ao trazer-nos notícias da nossa filha há tantos anos desaparecida — disse a senhora, que se levantou e abraçou António.
— Também pediu que lhes dissesse uns pequenos versos — observou António com meiguice.

O meu reino é numa nuvem de algodão,
Numa bola de sabão,
........................................
É a voz de um cantor,
No seu bairro do amor.

António viu-se interrompido pelas suas vozes comovidas.
— É nas pétalas de uma margarida — murmurou o pai.
— É no coração de quem me deu a vida — sussurrou a mãe.

A DERROCADA


I

A chuva tinha caído copiosamente durante todo o dia. O vento puxado a sul fazia a água bater em bátegas nos telhados zincados das casas que se enfileiravam junto a uma ravina à saída de uma aldeia do Alto Minho.
Zé Zeferino tinha deixado o café do Tinoco mais cedo que o habitual e, ao ouvir na televisão que o tempo ia piorar mais e antes que isso acontecesse, decidiu regressar a casa e aproveitaria para pôr em ordem algumas coisas da sua loja.
A loja que recebera do patrão Samuel, de uma maneira um pouco estranha, segundo diziam as más-línguas, resultante de um suborno, já que a verdadeira herdeira, a esposa, apesar de o ter deixado, segundo constava, nunca veio reivindicar a posse da loja após a sua morte.
A loja era uma casa de dois pisos. No rés-do-chão era a loja do tipo tem tudo, desde ferragens, tintas, madeiras, plásticos, etc., separada por uma tosca parede de um outro local, destinado a um pequeno mercado alimentar, com artigos de primeira necessidade.
O andar superior era destinado a habitação. Vivia neste local já ia para cima de quarenta anos. Primeiro, num dos quartos que o patrão lhe cedera quando deixou a casa paterna e veio trabalhar para a loja e, depois, como senhor de todo o espaço habitacional comercial. Toda a sua vida praticamente resumia-se à volta desta loja, mas, justiça lhe seja feita, conseguiu, à custa de muito trabalho e de algumas habilidades, fazer da loja a mais conhecida de toda a aldeia.
Zé Zeferino rondava os 60 anos, constava que ainda tinha os seus pais vivos, mas nunca se referia a eles, e amigos que se conhecesse poucos ou nenhum.
O vento e a chuva redobravam de intensidade, Zé Zeferino arrumava numa das prateleiras umas latas de tinta que tinha recebido de um fornecedor. A prateleira cismava em não aceitar as latas e, sempre que ele colocava uma, esta deslizava e caía no soalho. Soalho que reparou, num misto de espanto e medo, e que se encontrava inclinado; a casa estava a ceder. Alguns artigos, juntamente com as latas de tinta, tinham-se precipitado em direcção à porta das traseiras, acumulando-se à saída.
O vento zunia e relampejava, ouviu-se um forte trovão, a luz apagou-se e a casa cedeu. Zé Zeferino, aos apalpões, procurou a porta da frente que dava para a estrada. Não teve oportunidade de lá chegar, ela veio ter consigo. O estrondo foi tremendo, o terreno cedeu e a casa foi-se desfazendo pela ravina abaixo, sendo acompanhada nesta derrocada pelas casas vizinhas. Zé Zeferino, aos trambolhões dentro da casa, foi arrastado nesta viagem, breve no espaço mas longa no tempo, até ao fundo da ravina.
Depois da queda e das réplicas das derrocadas parciais, o silêncio pousou sobre os destroços. Agora, só se ouvia a chuva e o vento que parecia querer abrandar. Pouco a pouco o silêncio foi substituído pelas vozes dos habitantes da aldeia que vinham em socorro das prováveis, quase certas, vítimas.
Os primeiros habitantes que chegaram ao local depararam com uma cena terrível. A casa de Zé Zeferino e as casas contíguas tinham desaparecido da beira da estrada e, apesar da fraca iluminação pública, vislumbrava-se no fundo da ravina aquilo que, momentos antes, eram casas daquela aldeia minhota.
Zé Zeferino tinha sobrevivido à queda mas ficara preso entre os destroços. Deitado de costas sobre uns rolos de rede de capoeira que vendia na loja, um barrote de madeira do travejamento da casa tinha-lhe aprisionado os dois pés e um outro tinha-lhe passado perto da cabeça e atravessado no peito, prendendo o braço esquerdo contra o que restava da porta das traseiras da casa. O outro braço tinha ficado debaixo do que restava da prateleira onde tentara, momentos antes, colocar as latas de tinta. Zé Zeferino estava imobilizado.
O soalho que fora do quarto de dormir tinha-o acompanhado intacto durante a queda da casa e ficou incrivelmente preso entre os escombros por cima da cabeça, escorando toda a terra desprendida das paredes da ravina, evitando que tivesse sido esmagado. O soalho, agora a fazer de tecto, encontrava-se a uma distância razoável, permitindo que permanecesse naquele local com ar suficiente aguardando salvamento. O lugar estava horrivelmente escuro.
As buscas à procura de sobreviventes começaram. Os bombeiros voluntários da vila que foram chamados ao local do sinistro chegaram com a rapidez habitual, mas não estavam preparados para uma situação do género. Costumavam apagar fogos e não resolver problemas de derrocadas, mas como estavam empenhados em fazer algo pelos seus conterrâneos soterrados, instalaram uns holofotes para iluminar o local e desceram pela ravina, para analisar a situação. Pouco podiam fazer, o amontoado de destroços era de tal maneira que era necessário a presença de uma grua. Começaram a chamar pelas pessoas na expectativa de identificar os locais onde pudessem estar sobreviventes. Algumas vozes ouviram-se mas Zé Zeferino, entretanto, desmaiara.


II

O dia estava despontar, a chuva tinha parado por completo e o sol começava timidamente a aparecer entre as nuvens, confirmando o velho ditado: «Depois da tempestade a bonança.»
Os bombeiros, com a ajuda dos habitantes, já tinham, durante a noite, resgatado dos escombros algumas pessoas, umas com vida, outras infelizmente sem a mesma sorte.
Zé Zeferino recuperou os sentidos, encontrava-se um pouco baralhado, o local onde continuava preso era de difícil acesso, mas apesar de tudo o ar estava a ser renovado e uma luminosidade estriada estava-lhe a chegar.
Não sabia por quanto tempo esteve inconsciente, o corpo estava tremendamente frio, tremia, tinha um sabor a sangue por causa de alguns dentes que se partiram na queda. Não conseguia gritar a pedir socorro, estava afónico, talvez de medo ou de alguma pancada que levara na cabeça quando da queda. Chamou, em silêncio, pela mãe, Maria, e pelo pai, José.
Meus pais, ajudai-me nesta aflição, não me deixem morrer, podia não ter sido bom filho, ter-vos abandonado quando vocês precisaram de mim, mas eu sou vosso filho, não me podem deixar neste desespero, neste túmulo, nesta escuridão, sem poder mexer-me, não é possível que vocês não façam nada para me tirarem deste sítio. E, sem as desejar, as lágrimas começaram a correr pelas faces.
E os meus vizinhos? Se calhar já foram salvos, e agora vão-me encontrar! Ou será que já desistiram? Não ouço barulho, será que estou também surdo? Tentou gritar, mas da sua boca não saiu nenhum som. Começou a chorar convulsivamente. Eu não mereço morrer, talvez tivesse feito muitas coisas erradas, mas se tenho que pagar os meus erros, que seja vivo e não morto.
Zé Zeferino não conseguia saber quanto tempo já tinha passado, se minutos, se horas, se dias. Ouvia o movimento dos bombeiros e dos seus conterrâneos na tentativa de retirar os destroços. Sentia o corpo todo dorido dos trambolhões que dera. Ouvia passos no tecto na sua actual alcova de desgraça. Era esquisito porque os sons que lhe chegavam não lhe pareciam de pás, sacholas ou outros utensílios habitualmente usados para remover terra ou destroços. Pareciam passos, como quando alguém está no andar superior de uma casa e ouvem-se as passadas no andar inferior. Eram passos estranhos, pesados, estereotipados e prenunciadores de algo que não se coadunava com a situação real. Ficou à escuta, os passos deixaram-se de ouvir.
Quem quer que fosse estava a deslocar uma tábua do soalho. Ia ser libertado? Ficou ansioso! A tábua deslocou-se e apareceu a cara de uma mulher de meia-idade, com contornos luminescentes, com uns rolos a enfeitar a cabeça, debaixo de uma rede de cabelo. Fixaram o olhar um no outro. A cara afivelou um sorriso. Ele conhecia aquela mulher; era Isaura, a falecida do seu também falecido patrão. Mas como era possível ela estar ali? Já tinha morrido há tantos anos, ele até tinha ajudado o marido a enterrá-la naquela noite fatídica! Estava ali para gozar com a sua desgraça ou vinha para se vingar, o estupor da velha. Eu não tive culpa nenhuma, relembrou-se. A cara deslizou para o local onde se encontrava Zé Zeferino, acompanhando-a um corpo desproporcionado, demasiado pequeno para tamanha cabeça, mas que se foi transformando na passagem para o outro lado, tornando-se num corpo de uma velha, pesado, gordo, todo vestido de preto. A velha já não sorria, ria-se talvez da situação em que se encontrava o seu antigo empregado. Sentou-se no barrote atravessado no peito, com todo o peso do seu avantajado corpo, isso apavorou-o. Isaura nada dizia e não era preciso. Zé Zeferino adivinhava os seus pensamentos.
Era já noite, mais uma vez Samuel chegava a casa bêbado, a discussão com a mulher mais uma vez ia acontecer. Zé Zeferino, no seu quarto, gozava o espectáculo, não gostava de Isaura. Ouvia tudo, insultos, gritos, pancada, pedidos de socorro e por fim choro e silêncio; todas as noites sempre a mesma cena. Mas naquela noite estava a ser diferente. Nem insultos, nem gritos, nem choro, Samuel só dizia que ia acabar com ela, não se ouvia Isaura. Zé Zeferino, perante o inesperado da situação, foi espreitar para ver o que realmente se passava. Samuel agarrava a esposa pelos cabelos e empunhava uma faca numa das mãos. Com os braços abertos, Isaura aguardava auxílio do seu empregado. Este, mudo e quedo, ficou estático à porta do quarto. O pedido de socorro não chegou a sair da garganta degolada de Isaura. Podia ter evitado o assassínio, mas não o fez, por medo, por pensar que o patrão era incapaz de o fazer, ou por não gostar de Isaura; nunca chegou a uma conclusão. O patrão, ébrio, diz que o ajude a levar o cadáver para o quintal. Hesita, fica confuso perante a inopinada situação, nunca tinha visto um morto, quanto mais transportá-lo. O patrão ameaça despedi-lo se não o ajudar. Zé Zeferino recua e prepara-se para fugir, não sabe para onde, nem porquê. Samuel diz para ele não se ir embora que não se ia arrepender. Não percebeu o sentido daquelas palavras, mas não foi preciso perguntar nada. O patrão promete que se ele se calar e o ajudar, quando morrer a loja será sua. Enrolam o corpo num cobertor e arrastam-no para o quintal. Samuel entrega-lhe uma pá para fazer uma cova, enquanto vigia. A cova foi escavada em três tempos. Não demorou muito para que Isaura repousasse na sua última morada. Por cima da campa, junto à laranjeira, pespegaram a casota do cão; o desgraçado uivou toda a noite inteira. Ninguém desconfiou do que se tinha passado naquela noite, mesmo no dia seguinte, quando perguntaram por Isaura, Samuel inventou a história que tinha a sogra muito doente e que ela a foi tratar. O tempo foi passando, dias, meses, e Isaura caiu no esquecimento.
Agora Isaura estava de volta para se vingar dele. Continuava sentada no barrote, todo o seu corpo brilhava, olhava sinistramente o seu ex-empregado. O corpo pesava cada vez mais, cada vez era maior. Isaura retirou o xaile que tinha à volta do pescoço e o que se via não era nada agradável. O pescoço, cortado, gotejava gotas brilhantes de sangue. Na mão de Isaura aparece uma faca. Zé Zeferino não quer assistir ao que se vai passar, fecha os olhos e quando Isaura espeta a faca no peito do cúmplice da sua morte, desaparece. A dor foi temível, mais moral que física. Quando abre os olhos, uma faca feita luz estava espetada no seu peito e, perante tal visão, desmaia.



III

Acordou do torpor que se encontrava e reparou que no seu peito não estava espetado qualquer objecto luminoso, tinha sido uma visão. Os seus pensamentos fervilhavam com tão estranho acontecimento. A claridade que lhe chegava dava para ver que a situação não se tinha modificado, continuava preso sem se puder mexer. À sua volta tudo se mantinha num equilíbrio instável.
Começou a sentir-se sonolento, até bocejou, os pés e as mãos estavam inchados, a cabeça, essa, continuava quente talvez pelo excesso de pensamentos dos mais variados que lhe ocorriam, mas o que lhe estava a incomodar mais era a boca, que continuava, por causa dos dentes partidos, com sabor a sangue e a dificultar-lhe a respiração. Foi por causa deste acre sabor que lhe veio à memória o Dr. Mário Peixoto, mais conhecido por Peixotinho, derivado à sua estatura. Nado e crescido na aldeia minhota que só abandonou quando foi estudar para a universidade, regressando mais tarde, já formado, médico dentista, estabelecendo consultório na vila perto da aldeia. Mas a sua verdadeira vocação era a política, na oposição, no «reviralho», como era conhecido na altura, intervindo como estudante em abaixo-assinados e protestos estudantis na «era marcelista», valendo-lhe alguns espancamentos e passagens pela PIDE / DGS.
Foram bons amigos, tinham aproximadamente a mesma idade, mais ano menos ano, e até jogaram futebol no clube da terra, ele a extremo-esquerdo e o Peixotinho a médio. Mas por causa da triste ideia do médico querer montar um supermercado na aldeia, foi motivo de uma zanga que os colocou de costas voltadas. O supermercado, segundo Zé Zeferino, ia fazer concorrência à sua loja que recentemente tinha recebido do seu patrão que fora encontrado morto em estranhas circunstâncias. Como tal tentou demover o médico das suas intenções, mas como este entendia que era um meio de se tornar mais conhecido e que politicamente o podia projectar para um dia vir a concorrer a um lugar político, quando a ditadura caísse e não demoraria muito, foi com a ideia para a frente.
Zé Zeferino, perante este desaforo, não esteve com meias medidas, denunciou-o a um «bufo» da PIDE que parava na barbearia da aldeia. Disse-lhe que o médico e mais uns quantos indivíduos comunistas reuniam-se todas as sextas-feiras no seu consultório, em reuniões clandestinas para conspirar contra o regime. Na sexta-feira seguinte três carros com agentes irromperam, já passava da meia-noite, pelo consultório e prenderam todos os hipotéticos conspiradores. Passados alguns meses, foram todos libertados, mas o Dr. Mário Peixoto nunca mais voltou à vila nem à aldeia, abandonando o país a salto.
Zé Zeferino esqueceu-se rapidamente deste acontecimento. Que foi aborrecido ele ter sido preso, talvez fosse, mas quem semeia ventos colhe tempestades. Estes acontecimentos passados há tantos anos e a situação presente misturavam-se estranhamente na sua cabeça, já não conseguia discernir se estava a viver o presente ou o passado, tudo estava muito confuso na sua febril cabeça.
Na sua mente desfilava aquele jogo de futebol em que estavam a derrotar a equipa da aldeia vizinha por um retumbante resultado. As costas estavam a atormentá-lo devido ao imobilismo do corpo.
O campo estava cheio de gente, a equipa estava em plena força. A assistência incitava as duas equipas, os treinadores davam instruções para dentro do campo. Ouve um barulho do seu lado esquerdo, parece que estão a escavar… afinal não é verdade, silêncio de novo. Mais um ataque da sua equipa, Peixotinho, num passe magistral, mete a bola em profundidade para o lado esquerdo para Zé Zeferino, que foge à marcação do defesa, tem meio campo para correr em direcção à baliza adversária; corre, corre, corre… a bola está a tornar-se incompreensivelmente cada vez mais pequena, até que desapareceu. A assistência pára de gritar, um silêncio de morte paira no campo, Zé Zeferino parou estupefacto, olha para os colegas, para os adversários e para a equipa de arbitragem, todos estão vestidos de negro com uns paus na mão, começaram a correr na sua direcção, Zé Zeferino também corre em direcção à baliza contrária, não tem bola mas corre, corre, corre… de uma corrida desenfreada passou a saltos, cada vez maiores, salta por cima da baliza adversária, a negra multidão ululante começa também a saltar por cima da baliza, é uma enorme vaga humana, Zé Zeferino salta o muro que veda o campo, continua a correr, salta valas, atravessa vinhedos, pomares, os frutos caem à sua passagem, rebentando, espargindo, um líquido vermelho pegajoso, chega à linha de caminho-de-ferro, olha para trás e vê a negra multidão a persegui-lo com os paus levantados, não percebe porquê, até estava a jogar bem, olha para a frente e depara com um comboio a alta velocidade a vir ao seu encontro, olha para trás e a negra multidão já ali não está, começa a correr desesperadamente em sentido contrário, o comboio apita, Zé Zeferino corre, corre, corre… a linha parece que vai acabar, olha para trás, o comboio desaparecera, mas a negra multidão voltou de novo ainda mais agressiva. Chegara ao fim da linha, aos seus pés tinha um enorme precipício, as nuvens estão a umas dezenas de metros abaixo, não se vislumbra o fundo, pairam aves de rapina sobre as nuvens, a negra multidão aproxima-se numa frente alargada de muitos metros, todos com os paus em riste, na frente o árbitro do jogo com o Peixotinho de um lado e do outro um indivíduo, cara chapada de Isaura, talvez irmão, param junto dele, agarram-no, faz-se silêncio… o árbitro apita e Zé Zeferino é lançado no abismo perante a multidão aos gritos, Zé Zeferino cai, cai, cai… e acorda com o corpo coberto de suor e o coração a bater desenfreadamente. A situação encontrava-se na mesma.


IV

O tempo passava, Zé Zeferino continuava preso há largas horas no seu cárcere de terra, madeira e pedras. Entre desmaios, consciência mal desperta, alucinações e pesadelos, vai passando o filme da sua vida, presente e passado, num frenesim de emoções, medos, remorsos e esperanças.
Meu Deus, porque me estais a abandonar, eu sei que não tenho sido bom cristão, que fiz muitas coisas erradas na vida, juro-Te que me vou emendar, irei novamente à missa e cumprirei todos os sacramentos da Vossa Santa Igreja. Ave-maria, cheia de graça, bendita sois vós… já não me lembro do resto da oração, que interessa isto agora, eu voltarei a aprender todas as orações: meu Deus, tirai-me daqui.
Ouve um estrondo por cima da sua cabeça, o barulho foi aumentando, as coisas à sua volta estavam-se a mover, o seu corpo estava a soltar-se, mas ao mesmo tempo deslizava, o terreno todo se movia. O corpo rodou sobre si, a cabeça passou à frente das pernas, tudo era movimento, acompanhado com toda a espécie de coisas que por ali se encontravam. Leva uma forte pancada na cabeça com o barrote que momentos antes lhe prendia os pés. Esta nova derrocada chamou a atenção dos bombeiros que por perto removiam destroços e, numa procura mais atenta, descobrem o corpo de Zé Zeferino, mal tratado, inconsciente mas com vida; rapidamente é transportado para o hospital da vila.
Tinha sobrevivido milagrosamente ao desastre, mas a verdade é que definhava a olhos vistos.


Epílogo

Sentado numa cadeira de rodas, Zé Zeferino olhava o horizonte através da janela do quarto. O quarto, pintado com cores de hospital, tresandava a desinfectante.
O seu estado de saúde piorava de dia para dia. Os médicos não conseguiam explicação plausível para o seu estado. Não lhe foi detectada qualquer lesão grave. A pancada que levou na cabeça não passava de um hematoma sem problemas. Não conseguiam diagnosticar qual o motivo da apatia revelada pelo doente. Tinha sobrevivido milagrosamente ao desastre, mas a verdade é que definhava a olhos vistos.
A enfermeira passou pelo doente e arranjou o cobertor que lhe cobria as pernas e ameaçava cair ao chão, mas este não manifestou qualquer reacção.
O seu olhar distante procurava recordações de um passado distante ou recente? Era indiferente, tanto um como outro não lhe traziam boas recordações. Poucos foram os momentos de felicidade, se é que os teve. Um infância sem carinho, uma juventude sem ilusões, e quando se tornou homem, só o trabalho foi a única coisa que lhe restou. Alguns acontecimentos da sua vida, durante o cativeiro forçado, e que lhe amarguravam a sua existência, foram revividos de uma forma muito intensa. Arranjou sempre justificações para os seus actos, mesmo os mais vis. Os pais, Maria e José, Isaura e Mário Peixoto, entre outros, talvez até o tivessem perdoado, cada a um a seu modo, mas a sua consciência tinha agora dificuldade em aceitar. Fosse na forma de visões ou de pesadelos ou mesmo numa semiconsciência, os factos que ocorreram despertaram em si uma severa crítica ao seu comportamento passado. Estaria a pagar o mal que fez aos outros? Os trágicos acontecimentos nada tinham a ver com o seu passado? Mesmo assumindo os seus erros, poderia ele viver em paz? As ressurgidas dúvidas estavam a consumir-lhe a sua existência.
Retira o cobertor que lhe cobre as pernas e do seu corpo algo o abandona. Zé Zeferino paira sobre o quarto, tudo era de cor branca. Vê-se na cadeira de rodas que abandonara momentos antes. A cabeça pendia sobre o peito. Todo o quarto é luz. Uma inexplicável paz interior acolhe-o. Zé Zeferino percorre um túnel de luz, incomensurável, intemporal e silencioso.