sexta-feira, 19 de junho de 2009

Só como sempre

Sexta-feira, dia da…

Ele dorme ao meu lado, o braço dele livremente drapejado sobre mim como a sobrecapa de um livro. Sinto os pêlos do seu braço misturados com os do meu estômago, mistura que aumenta com cada respiração. Uma centena de vezes que isto aconteceu exactamente desta forma, eu a acordar antes dele, sentindo o seu hálito quente contra a parte de trás do meu pescoço. Ele está tão perto de mim, tão perto fisicamente.
No entanto, estou sozinho, como sempre.
O sentimento de isolamento provoca coisas estranhas em mim e, embora eu saiba isso, ainda sucumbo à minha própria loucura. Ele, especialmente nestes momentos de irrealidade no período da manhã, parece não existir. Ele é um simples fantasma de seu antigo eu, um holograma, uma lasca de madeira do homem por quem me apaixonei. Sempre, uma centena de vezes, pelo menos, eu na cama, sob o peso do seu braço.
Mas esta manhã é diferente. Eu posso sentir o outro corpo no quarto. Ela é uma forte presença, tão vigorosa quanto eu desejo. Fitada em mim, ela sabe que eu não estou a dormir, mas os meus olhos estão bem fechados. Ao abri-los ela está mais próxima, bem pé perto de mim, olhando-me. Como se o seu olhar pudesse confirmar a minha realidade, a prova de que eu preciso para saber que eu existo.
Ela curva-se para sussurrar alguma coisa no meu ouvido, ignorando a minha nudez. As suas unhas passeiam pelo meu queixo e estou estranhamente excitado.
– Temos de fazê-lo agora…
A sua respiração está quente como o seu leve toque. As suas palavras são minúsculas brisas sobre mim. Ele pode senti-la também? Antes de os ecos de sua voz terem morrido na minha cabeça, ela foi-se embora.
Ele desloca-se ao meu lado.
Hum - diz ele, esfregando os olhos. - Que horas são?
– Sete, oito horas - digo eu, mas não posso ter a certeza.
– Merda- diz ele.
Lança-se para fora do seu lado da cama, estica os braços e boceja.
– Levantas-te? - pede ele, correndo os dedos através do seu cabelo.
Não espera pela minha resposta. Anda à volta do meu lado na cama, encosta-se e beija-me na face. Pausando ligeiramente, com um olhar de piedade nos olhos, acrescenta:
– Fazes-me o pequeno-almoço? - e com uma palmada na minha coxa sai em direcção ao chuveiro.


Domingo de manhã. Cinco dias antes de…

Eu estava lá fora, quando ela chegou num automóvel branco, usando óculos escuros.
– Desculpe-me - chamou-me, mas eu sabia que ela era do tipo que nunca pede por favor nem com licença.
– Esta é a Rua Diogo Arruda?
– Não! - houve um ligeiro tremor na minha voz, como uma criança que é chamada à frente na sala de aula para responder a uma pergunta.
– Esta é a Gualdim Pais. A que deseja é aquela ali, só tem de contornar - apontei com o dedo.
– Depois deste edifício?
– Sim – disseram meus lábios, mas o meu coração gritou:
– Por favor, não vá!
Ela não ouviu. Num segundo, já se tinha ido embora.
Como se nunca ali tivesse estado.


Segunda. Tarde. Quatro dias antes de…

Era uma noite fria de Outono e eu estava enrolado no meu cobertor favorito com um livro, quando ouvi a campainha tocar. Instantaneamente meu coração disparou. Normalmente a campainha não despertava um tal sentimento de inquietação, mas eu estava sozinho. Fui até a porta e espreitei pela vigia.
– Quem é? – perguntei, desnecessariamente. Reconhecendo-a instantaneamente.
A voz dela soou lá fora. Reconheceu-me também.
– Conhecemo-nos ontem. Lembras-te?
Como poderia esquecer? Abri a porta, mas só um pouco.
– Lembro-me… – disse eu, e as minhas palavras timidamente escorregaram para fora de mim, por detrás da porta.
– Perdeu-se outra vez? – perguntei, lamentando a estupidez da questão, no instante em que as palavras passaram os meus lábios.
– Sempre – ela sorriu para mim e riu um pouco. – Na verdade eu só queria agradecer-te. Estava cheia de pressa ontem à tarde e não te agradeci.
– É fácil perder-se aqui. Ainda bem que pude ajudar. Já agora, chamo-me Sebastião.
– Carmo. Bem, eu deveria ir. Tenho de estar amanhã cedo em Sintra.
Ela era um tal mistério. Quem ou o quê esperava por ela na Diogo Arruda ontem e amanhã de manhã em Sintra?
– Tem certeza? Porque não entra e toma um café comigo? – perguntei. – Vai precisar de cafeína, para conduzir a noite toda.
Abri a porta, mas realmente estava a abrir muito mais. Ela sorriu e atravessou o limiar entrando na minha vida.
Chamando a sua atenção para o sofá, dirigi-me para a cozinha. Quando voltei com as duas chávenas de café, ela estava sentada confortavelmente.
– Interrompi a tua leitura – disse ela, quando viu o meu livro em cima do cobertor.
– Oh, não. Eu estava a ler a mesma página vezes sem conta.
Nossas mãos tocaram-se brevemente ao entregar-lhe o café, o frio da nossa pele contrastando com o calor das chávenas.
– Açúcar, Carmo? – foi a primeira vez que eu disse o nome dela e vi seu sorriso quando ele rolou na minha língua. Ela abanou a cabeça e sentei-me a seu lado.
– Vives sozinho, Sebastião? – ela disse meu nome, como se estivesse a retribuir um favor.
– Não. Com o meu namorado, mas… ele não está… saiu por uns dias.
Ela olhou para mim como se soubesse que minhas palavras significavam mais do que elas diziam.
De repente fiquei consciente do perigo de ter um estranho em minha casa e de lhe dizer que estava sozinho. Mas estranhamente não tive medo.
Uma pausa embaraçosa, durante a qual nervosamente cada um acariciou a sua chávena de café.
– Posso usar a casa de banho? – perguntou.
– Claro. Ao fim do corredor.
Ela levantou-se e dirigiu-se na direcção indicada, com os meus olhos a seguirem cada movimento seu.
Só podia estar louco, para pensar o que pensava naquele momento. No entanto, aquele pensamento aflorava cada vez mais vivo na minha mente.
Ao fim de algum tempo e como nunca mais voltava, comecei a duvidar da sua existência. Seria um sonho? Esperei o mais que pude e fui procurá-la. A caminho da casa de banho passei pela porta aberta do quarto. Mantenho a porta sempre fechada, mas o Jorge deve tê-la deixado aberta. Agarro a maçaneta da porta na intenção de a fechar e lá está ela, de pé, perto da minha cama, olhando a fotografia na minha mesa-de-cabeceira. Limpo a garganta para anunciar a minha presença. Depois do embaraço inicial e pegando na moldura com ambas as mãos, pergunta:
– É ele? É bonito. Um homem cheio de sorte…
– Obrigado – respondo, sem saber se me sentia invadido ou seduzido.
Avançando pego na moldura e mais uma vez as nossas mãos tocam-se. Os nossos olhares tocam-se e, sem mais para onde fugir, os meus lábios seguem os dela.


Terça. Manhã, três dias antes de…

Dormiu ao meu lado, o seu braço livremente drapejado sobre mim como a sobrecapa de um livro. Sinto os pêlos do seu braço misturados com os do meu estômago, mistura que aumenta com cada respiração. Uma centena de vezes que isto aconteceu exactamente desta forma, mas hoje é diferente. O seu braço parece mais leve. Suave. O seu corpo desloca-se ao meu lado, desperta e pergunta-me:
– Que horas são?
– Sete, oito horas… – digo eu, mas não posso ter certeza eu mesmo.
– Posso tomar um duche? – pergunta saindo completamente nua de debaixo dos lençóis.
Primeiro pensei que sonhava. Tinha de ser um sonho. Então tentei acordar, desta vez para a realidade da água a correr na casa de banho.
Entrei e, em vez do Jorge estava uma mulher, nua, nua no meu chuveiro. Uma mulher que rapidamente se aprumou, vestiu e me beijou.
– Não estou a fugir. Mas tenho mesmo de ir.
Ela percorre toda a casa como se fosse a sua casa.
– Deixei o meu número na mesa-de-cabeceira – mas antes que o pudesse confirmar, ela beijou-me de novo e saiu porta fora.
Tudo o que ficou foi o gosto dela na minha boca.


Sexta. Tarde, no dia de…

Hoje de manhã depois de fazer o pequeno-almoço, três torradas com manteiga sem sal, uma caneca de café com leite e um sumo de laranja acabado de espremer, sentei-me a assistir enquanto ele comia tranquilamente. Sei que não devia, mas não suportava fazer muito mais. Vi-o ir para o trabalho e fique de novo sozinho, só mais uma vez, com os meus pensamentos. Não me lembro de nenhum deles. De repente são horas, oiço a porta a abrir, é ele que chega. Corro para a casa de banho e ao inclinar-me para a gaveta do lavatório atinjo um vislumbre de mim mesmo no espelho, fico impressionado com o quão terrível me pareço. Mal me conheço. Há algo de familiar neste rosto, por baixo dos hematomas e das lesões, tudo me parece pior, os lábios cortados, o olho direito inchado, quase fechado. Abro a gaveta, no interior o brilho metálico de uma arma. Eu sei que é uma arma e não me importo. Encaixa perfeitamente na minha mão e isso é razão suficiente para pegar nela. Um gesto mecânico, familiar, como se já o tivesse repetido um milhão de vezes, embora não me lembre. E muito alto, bem dentro da minha cabeça, algo grita. Quero colocar o meu dedo no gatilho.
O homem no espelho observa-me. Ele também tem uma arma. Coloca o dedo no gatilho e eu também. Ele sorri.
– Estás em casa?
Silenciosamente conto os seus passos até ao quarto, vai despir-se e depois vem para aqui. Conheço a sua rotina sem sequer o ver. Tirou a gravata e atirou-a para cima da cama. Despiu a camisa e a caminho da cadeira onde a vai pendurar descalça os sapatos. Depois avança para aqui. O meu dedo ainda está no gatilho.


Terça-feira, três dias antes de…

Futebol na TV. Ele quer outra cerveja e eu vou buscar. O telefone toca no instante que abro o frigorífico.
– Sou eu – disse ela ao ouvir a minha voz. – Quero ir aí.
– Hoje não – sussurro no desespero de a querer ver de novo.
– Amanhã, então?
– Sim, ele vai para fora.
– Onde é que ele está agora?
– Na sala, a ver futebol.
– Quero-te agora.
– Eu já disse…
– Toca-te para mim.
Fiquei chocado, tanto pelo meu pudor como pela sua petulância.
– Carmo!
– Por favor, faz de conta que sou eu.
Abro as calças e deixo a minha mão percorrer o meu corpo.
– Já estás?
– Sim… – respondo, afogueado e embaraçado. A minha mão encontra o alvo, primeiro por fora dos «boxers», depois no interior.
– Preciso de te ver.
– Amanhã à noite – digo entre respirações ofegantes.
– Mais rápido – ela sussurra e eu obedeço, movendo a minha mão para a frente e para trás num movimento ritmado.
– O que diabo estás a fazer?
Largo o telefone. Ele avança pela cozinha com um sorriso nos lábios, ao ver-me seminu. Ao ver o telefone, o sorriso desaparece abruptamente. Apanha-o do chão.
– Está? Está? Quem fala? Está aí alguém? – a sua fúria vira-se para mim. – Mas que merda é esta? Com quem é que estavas ao telefone?
Eu não respondo. Eu não posso.
– Com quem é que estavas ao telefone?
Eu não respondo. Eu não me lembro. Eu já me esqueci. Esqueci ainda antes de o seu punho atingir o meu rosto pela primeira vez.


Quarta-feira, dois dias antes de…

Não vi o Jorge em todo o dia. Passei a manhã, passei a tarde, passei a hora em que o sol se põe, ocupado em fazer nada olhando o relógio de minuto a minuto, não porque não pudesse esperar por ela, mas porque cada vez se aproximava mais a sua chegada. Não que não a quisesse ver, mas sim porque não queria que ela me visse, não assim. Não neste estado.
O quarto estava quase totalmente escuro e silencioso, eu deitado, coberto até ao queixo e completamente vestido debaixo dos lençóis. A mensagem era contraditória mas eu não me importava. Ela chegou, abriu a porta, chegou ao quarto e acendeu a luz.
– Apaga por favor – obedeceu e deslizou até mim, até junto à cama.
– Que se passa? – a sua mão acariciou o meu rosto. – Pareces zangado, ou com medo.
– Estou confuso. Confuso sobre tudo o que aconteceu entre nós.
– Mas o que é que há de confuso entre nós? – a sua voz era seca e magoada.
– Não sei. Eu… Não me lembro.
Era verdade, eu não me lembrava. Tinha vagas recordações de ter feito amor com ela. Mas eu não me lembrava. Quando estava sozinho não me lembrava. Eu não me lembrava de nada.
– Não te lembras ou não te queres lembrar?
Eu não conseguia explicar. Nem para mim próprio eu conseguia explicar. Pareciam duas realidades. Quando ela não estava eu duvidava de tudo e com ela aqui eu não duvidava de nada. Era como se a minha mente não aceitasse o que o meu corpo sabia ser real.
– Desculpa… É como se tu não fosses real. Como se eu estivesse sonhando.
Ela arrancou o lençol.
– Eu sou real – começando a desabotoar-me a camisa. – Eu sou mais que real.
Eu senti as suas mãos enquanto ela me despia, a sua boca no meu corpo. Eu sentia o seu corpo no meu. Eu sentia o meu corpo dentro do seu. Eu sentia tudo. Eu sentia tudo com se fosse a primeira vez.


Quinta, um dia antes…

Quando acordei ela estava aos pés da cama. Olhava-me com os seus profundos olhos castanhos. Eu sorri. Levantei-me inclinando-me para a beijar. Impediu-me.
– Quando é que me ias dizer?
– Dizer o quê?!
– O que ele te fez – não percebo. Não percebo do que fala. Não percebo o que quer saber.
– O que ele fez à tua cara – diz ela calmamente.
Subitamente entendi, eu já não me lembrava. Habituámo-nos ao ponto de esquecermos. Esquecemos o porquê, o quando e o onde.
– Espanta-me que ainda se note!
Algo nas minhas palavras a enfureceu porque subitamente arrasta-me da cama em direcção à casa de banho, empurra-me contra o lavatório e eu fico ali, em frente ao espelho.
A primeira coisa que notei foi que estávamos ambos nus, mas não era isso que ela me queria mostrar. Colocou a mão debaixo do meu queixo e, levantando-o, fez-me olhar para mim. O meu maxilar estava inchado, o meu lábio inferior gordo e o olho direito brilhava em sedutoras tonalidades de roxo. Eu lembro-me. Lembro-me de ele me bater. Mas é como se olhasse para outra pessoa no espelho e não para a minha própria carne.
– Eu vou matar esse filho da puta – disse ela, mas eu não estava consciente da sua presença.
Estava ocupado a tentar lembrar-me de como tinha acontecido, de como o meu amante me tinha batido, de como o meu amor me tinha amassado, até o meu rosto se transformar numa massa na qual eu não reconhecia a minha fisionomia. Estava apenas consciente das suas mãos no meu baixo-ventre enquanto as minhas mãos exploravam a minha cara, rastreando as lesões como se traçassem um roteiro para memória futura. E então ela sussurrou ao meu ouvido esmagado:
– Nós vamos matar o desgraçado.


Sexta. Noite, o dia de…

– Whou, Sebastião. O que é que estás a fazer com isso?
A sua voz era irónica, como se o facto de eu explorar esta arma, esta arma na minha mão, não pudesse apresentar qualquer perigo. Depois eu vi o medo. Vi o medo nos seus olhos quando lha apontei.
– Poisa isso, amor, poisa isso, olha que isso pode disparar.
– Estou a contar com isso – disse-lhe numa voz que não parecia a minha. Avanço, ele recua. Parece uma dança, um jogo infantil.
– O que estás a fazer?
– Vou matar-te – o meu dedo acaricia o gatilho. – Matar-te por tudo o que me fizeste.
– Mas o que é que eu fiz?
Avanço.
– És cego, Jorge? Ou és apenas estúpido?
– O teu rosto? Queres dizer o teu rosto?
Agora ele está assustado, encurralado entre mim e a cama.
– T-tu a-a-a-chas que fui eu que fiz isso? – balbucia, é incrível como uma arma carregada faz um homem gaguejar.
– Sebastião, tu caíste na casa de banho. Não te lembras? Bateste com a cabeça no lavatório.
– Não mintas.
– Amor, lembra-te. Eu cheguei a casa e tu estavas no chão, cheio de sangue. Não te lembras?
A pistola treme na minha mão.
– Pára com isso. Eu não acredito em ti. Tu bateste-me depois de me teres apanhado ao telefone com ela.
– Quem?
– A Carmo.
– Quem é a Carmo?
– A mulher que te vai enterrar.
– Tu estás fora de ti, amor, eu não conheço ninguém chamado Carmo.
– Eu estava ao telefone com ela. Naquela noite, na cozinha. Ela… Eu dormi com ela.
Ele riu-se, mas foi uma gargalhada curta. Parou assim que aproximei a arma da sua cabeça.
– Sebastião, estás a dizer-me que me vais trocar por uma mulher?
– Não, Jorge, eu estou a dizer que te vou matar por uma mulher.
– Espera. Ouve. Não há nenhuma mulher. Não houve telefonema nenhum. Não há amante nenhuma. Tu bateste com a cabeça no lavatório e agora não sabes o que dizes. Tu precisas de um médico.
– E tu, tu precisas de um cangalheiro – respondo eu.
Mas as suas palavras incomodam-me. As suas palavras formam um círculo em redor da minha cabeça. Eu sei que não são verdadeiras. Eu sei que é apenas uma tentativa desesperada para salvar a sua vida.
– Mentira, Jorge. Mentira. Mentira. Mentira – digo e repito, e repito porque é a única palavra que faz sentido na minha cabeça. E cada vez que repito o meu dedo treme no gatilho.
– Sebastião, eu amo-te. Tu sabes que eu te amo.
Aperto o gatilho e uma bala rasga o seu peito. Aperto outra vez e o seu corpo roda no ar embatendo na parede. Não há som. Não há estrondo, nem grito. Aperto uma terceira vez e a luz deixa os seus olhos e o corpo, o seu corpo cai, inerte no chão. Não me lembro quantas vezes disparei. Só me lembro que a arma ficou sem balas. Há sangue por todo o lado. Principalmente na cama e na parede, mas também em mim. Estou coberto de sangue. Por todo o corpo tenho manchas, tenho salpicos do seu sangue.
Na casa de banho, o fluxo de água fria desperta-me para o mundo exterior. As minhas mãos lavam os meus braços e a água leva o sangue do meu amante morto.
Estou sozinho ao espelho. O inchaço está a desaparecer, o meu olho está quase normal. Quase me reconheço novamente.
– Acabou – digo em voz alta, para ninguém em particular. Momentos depois ela está junto a mim.
– Daqui a umas semanas vais à polícia e dá-lo como desaparecido. Quando perguntarem por que não foste mais cedo, diz que é habito ele desaparecer dias a fio. Irão suspeitar que tem outro amante e não te incomodarão mais.
– Sabes o que ele me disse antes de eu disparar? Que tu não existias.
– Mas eu existo – e a sua boca procura a minha e as suas mãos o meu corpo.
– Eu existo, e estou aqui.
Ela deita-me no chão, as suas mãos trabalham o meu baixo-ventre. Rasgando a minha camisa ainda manchada do sangue do Jorge, as suas mãos sobem e descem pelo meu peito, circundam o meu pescoço, enquanto ela lambe uma estrada em direcção ao meu estômago. O seu cabelo roça a minha pele. As minhas costas em arco. Eu gemo. Quase instintivamente meu corpo levanta-se e começa a subir e descer cada vez mais fundo, cada vez mais rápido. O orgasmo invade todo o meu corpo e ela mantém-me preso até me esgotar, até eu cair para trás no chão de azulejos, exausto, ofegante. Os meus olhos fechados.
É a luz que eu avisto em primeiro lugar, a luz brilhante no tecto da casa de banho. Estou deitado sobre o frio chão duro, o lavatório quase directamente sobre mim. Vejo uma linha escura, possivelmente sangue seco que tinha escorrido para baixo e fora da vista. Posso até tocar, mas não preciso. Eu sei que é meu. Levanto-me e olho-me no espelho. Sou eu, tudo bem. Nada foi alterado. O quarto está escuro e silencioso, mas não está vazio. Mesmo na sua quietude posso vislumbrar vagamente a forma do corpo em cima da cama. É um corpo que conheço bem, com curvas e ângulos. Se eu não respirar, quase posso ouvir os sussurros do seu respirar. Carmo dorme na minha cama.
Aproximo-me e deito-me. A minha roupa fica no chão enquanto me enrosco naquele corpo e nos lençóis. Plenamente consciente daquele braço em volta da minha cintura, suspenso entre o mundo e o sono, começo a sonhar. Nesse sonho, está alguém ao pé da porta, e fala para mim. Nesse sonho Jorge fala para mim.
– Temos de fazê-lo agora.
Pisco os olhos e ela está acordada, está a ir-se embora. Mas, em vez disso, ela fica, deitada a meu lado. De algum modo eu sei que ela se está a ir embora. Puxa-me para si e sussurra algo ao meu ouvido. Beija um lado da minha boca e carinhosamente toca minha bochecha. Meus olhos fecham-se novamente. Quando os abri, ela tinha desaparecido. Como se nunca ali tivesse estado. Os meus dedos tocam a minha boca, onde posso continuar a sentir os seus lábios.
«Agora estás livre… livre…», as palavras que ela sussurrou ainda ecoam na minha mente.
Quase não reconheço a minha própria voz quando digo: «Agora estou sozinho.»
Como sempre.

SER CAPAZ... 20 ANOS

Não sei se serei capaz, mas aqui vai…

Era uma vez um rapaz solitário, sensível e capaz das maiores atrocidades linguísticas.
É um desafio capaz de modificar a sua vida, não tanto pela veracidade dos factos, mas pela forma como os relata.
Sinto-me inseguro e pouco confiante para transmitir o meu «ser», a outra face, a minha vivência.
Mas acredito que libertarei alguns sentimentos e emoções.
Contar a nossa própria história é um desafio à nossa própria auto-estima. É o que vou tentar fazer.
Tenho saudades desses tempos, que revivo muitas vezes, pelas recordações sempre presentes.
Nasci na cidade do Porto, no ano de 1964, no Hospital de São João, e vivi durante os meus primeiros anos de vida numa rua perto do antigo Estádio das Antas. Nessa altura, enquanto bebé, tive uma doença no sangue, conhecida como «Púrpura».
Passados três anos, mudámos para Paranhos, perto do antigo campo do Salgueiros, conhecido por Estádio Vidal Pinheiro.
A minha meninice foi passada entre a minha casa e a casa dos meus avós maternos.
A casa dos meus avós fazia frente com a enorme Quinta do Covelo. Dois pisos, um de habitação, com uma cozinha enorme, onde sobressaía um fogão eléctrico, cujo forno era tão grande que cabia um peru inteiro para doze pessoas; e outro, de garagem, despensa e garrafeira.
Anexo à casa tinha uma fábrica e um jardim enorme e lindo, composto por uma vinha de uvas americanas, galinheiros, um lago com peixes, um grande poço e todo o tipo de hortaliças, flores e árvores de fruto. Tinha como vizinhos uns senhores que adoptaram uma menina de raça negra chamada Helena, com quem convivi e brinquei durante muitos anos. Hoje nada sei dela, como de tantas outras coisas que perdi o rasto. Ficaram as memórias de um tempo em que tudo era fantástico e grandioso.
O meu avô era um republicano de gema, desde o busto da República que tinha em casa ao içar da Bandeira Nacional naquele mastro gigante, todos os domingos e feriados nacionais.
Homem robusto, trabalhador, disciplinador e até ditador e com um feitio parecido com o meu, que fervia em pouca água, mas bondoso e amigo. Todos gostavam dele e respeitavam as suas vontades, Era um apaixonado da música sinfónica e filarmónica de tal forma que foi músico e tocou trompete durante muitos anos numa banda. A surdez afastou-o dessas lides musicais, nunca o vi nem ouvi a tocar, mas apanhei com ele a paixão do assobio. Lia «O Primeiro de Janeiro», «O Século» e «República» e tudo o que era informação.
Adorava as festas e os passeios com o meu avô, que não conduzia mas tinha carro - uma carrinha «Peugeot» muito antiga, mas muito bonita, de cor azul e de interiores em madeira. Todos os anos íamos buscar vinho verde tinto e algum branco, para engarrafar, a Paços de Ferreira. Era um ritual. Eu, o meu avô e o Sr. Acácio, que era motorista de táxi, parávamos para lanchar sempre numa adega rústica, onde eu comia para uma sandes de presunto e bebia o meu «sumol». O pior era engarrafar o vinho, era tudo tratado religiosamente, as garrafas eram lavadas com água e esferas de chumbo, depois eram passadas e lavadas com o próprio vinho.
Os passeios à semana e os lanches na Maria Rita e na Casa das Tortas. Ao sábado aqueles triângulos de pão de forma com fiambre e queijo, a acompanhar sempre o meu «sumol», para o meu avô era vinho branco «Três Marias» ou «Casal Garcia», na distinta Docemar. Os almoços em família, as idas a Famalicão, ao Tanoeiro e outras que tais que a memória vai apagando em mais de trinta anos decorridos.
As festas de Natal, a Páscoa, o São João, a passagem de ano, o meu avô adorava e tinha gosto nos présepios, nas cascatas, nas luzes que iluminavam o jardim, os balões, os foguetes, etc., sem falar nas comidas: o bacalhau, o cabrito e os bolos, que eram preparadas com afinco pela avó, tia e mãe. Embebedar o peru era outro motivo de excitação; o caramelo do pudim, que delícia!
Ouvia-se na noite de passagem de ano, antes ou depois da meia-noite, o hino da Maria da Fonte e o Hino Nacional e todos ficavam de pé. Também se ouvia noutras alturas muita música sinfónica, aqueles discos pesados de 78 rotações, Beethoven, Mozart e as valsas de John Strauss. As minhas primas e irmã eram mais os Beatles, José Afonso, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, entre outros, os espanhóis Água Viva e muita música anglo-saxónica, Cat Stevens, etc.
Os amigos de escola e vizinhos ainda hoje se reúnem num jantar –
-convívio anual. Os mais velhos, agora perto dos 45 anos, e os mais novos, pela casa dos 30 anos, revivem as histórias mais marcantes e os jogos «Trinca Cevada», «Disco Voador», «Cintinho», etc., que fizeram parte da infância.
Tive uma péssima instrução primária na Escola Primária de Paranhos. A turma só de rapazes, os ditados, as cópias e o respectivo desenho eram o prato do dia, enquanto o professor namorava a empregada da directora da Escola. Dois anos chegaram para nunca mais recuperar os meus dons pela literatura, sempre tive aversão à leitura. Cresci sem gosto para ler, só se fossem uns «Tio Patinhas». A partir dos 8 anos de idade passei a usar óculos.
O problema foi detectado num rastreio que se efectuava nas escolas e foi também uma dor de cabeça para os meus pais, pois não havia haste ou lente que resistisse.
Nesse ano comecei a jogar basquetebol, ou, mais propriamente, minibásquete, no Académico do Porto, na Rua de Costa Cabral, onde conheci o Baptista e o Paulo Américo, ainda hoje grande amigos, mas com os quais durante alguns anos perdi o contacto após ter abandonado o basquetebol
No dia 25 de Abril de 1974, estava na 4.ª classe e fomos enviados para casa sem saber porquê. Várias tiragens de «O Comércio do Porto» matavam a minha curiosidade, mas estava totalmente a leste do significado dessa revolução. Mas fiquei com medo!
As férias eram feitas na praia de Leça, fizesse nevoeiro ou frio, de Julho a Setembro. A barraca estava alugada à Emília Barbosa. O meu pai ia levar-nos às nove horas da manhã e buscar-nos às cinco da tarde. Nunca hei-de esquecer a ronca do farol, que nas manhãs de nevoeiro se ouvia por toda a praia, nem dos gelados, vendidos naquelas bicicletas com arca frigorífica, nem das línguas-de-sogra, que eram transportadas em cilindros de chapa, nem da vendedora com os biscoitinhos de Valongo. A partir das onze horas o nevoeiro desaparecia e naquele areal extenso jogava-se à bola. A nossa preferência era o jogo da sameira. Havia campeonatos e regras estipuladas. A construção da pista era feita com uma cadeira de madeira das barracas e até havia prémio da montanha - um monte de areia molhada em caracol onde só cabia uma sameira de cada vez. A largura era mínima. Houve um ano que ainda fomos passar quinze dias para a lagoa de Santo André e outro a São Pedro de Muel.


II

Veio o ciclo preparatório no Augusto Gil, as reformas do ensino, as convulsões políticas, os atentados nas sedes da CGTP, PSR e afins, que proliferavam à volta da escola, na Rua de Santa Catarina.
O que relembro sempre era o roubo da fruta na mercearia. Dava um gozo especial, porque o senhor ficava indignado por lhe roubarmos a fruta. Era tipo o rato e o gato. Não era para comer, era só para chatear, que prazer! A tabacaria e os chupas de caramelo, as bolas de futebol de plástico e os cigarros «Kentucky» e «Definitivos», os mata-ratos. Eu não fumava! As idas à gruta num terreno abandonado, as guerras de pedras entre os alunos do ciclo e os da escola normal. E nunca hei-de esquecer os meninos de calções no Inverno, os irmãos Rothes e os meus dois primos, que também eram da minha turma, um já tinha sido expulso do Colégio dos Carvalhos e o outro era tão traquina que a minha tia tinha conta aberta na Carcereira, hoje Hospital da Boavista.
A primeira vez que entrei num estádio de futebol foi no Bessa, o Boavista contra o Sporting. Fui com o meu tio Eduardo num sábado à tarde. A família do meu pai era toda boavisteira e academista através do hóquei em campo, onde foram jogadores o meu pai e os meus tios. Mais tarde cheguei a ver alguns jogos de veteranos no Campo da Constituição e no antigo campo da Belavista.


III

Depois veio o liceu, no António Nobre, agora mais perto de minha casa. Aquilo é que foi! Eram todos os dias ameaças de bombas, escola fechada a cadeado, as lutas associativas estudantis no polivalente em tempo de campanha eleitoral. Uma frase, que eu nunca esqueci, dos anarcas, «deitar o liceu abaixo, para construir um novo, onde o polivalente devia dar lugar a uma piscina», os guarda-chuvas e os ovos com tinta, os primeiros comícios e os bloqueios de entrada a certos estudantes do liceu, as idas à livraria do Avante para partir os vidros das montras, etc. Valia tudo!
Comecei a participar em tudo o que era política, estávamos no chamado «Verão Quente», filiei-me no PPD e comecei por colar cartazes e a participar nas brigadas de limpeza, que era retirar os placares dos outros partidos na antiga rotunda da Circunvalação. Tempos controversos e de bastante convulsão. As organizações de esquerda estavam muito bem estruturadas. Tinham os metalúrgicos, entre outros, nós tínhamos o MIRN e o CDS e meia dúzia de durões, provenientes dos Liceus de D. Manuel e de Garcia de Orta e do Colégio Helen Key, entre eles o conhecido e famigerado Manuel Serrão, o Berto Spínola, irmão do amigo e colega da escola primária, Fernando, entre outros.
O problema eram as aulas, os testes e os exames obrigatórios. A minha turma tinha excelentes alunos, mas eu era mais virado para as festas, portanto sempre fui um estudante médio. Tinha uma «paixão» pela Educação Visual, não conseguia fazer um desenho, era um desastre! Tinha a sorte de ter um tio que era desenhador na Litografia Maia, propriedade de uns familiares da minha avó, e que me ajudava, mas estive para chumbar no 9.º ano por causa do exame de desenho. A sorte foi ter pedido recurso e o enunciado da prova estar mal feito, tendo-me sido dado nota para passar. Esse ano também estive bastante doente com um foco infeccioso que me afectou os dois olhos. O primeiro contacto com o hospital, os exames clínicos, a penicilina e as injecções de «Penadur» passaram a fazer parte da minha vida durante bastantes meses, sem se saber realmente o que se passou.
Concluiu-se que seria reumatismo infeccioso, que até hoje não me abandonou.
Penso que nesse ano, nas férias grandes, tive que acompanhar a minha irmã para a praia de Miramar. Ela tinha acabado o antigo 7.º ano e teve que fazer um ano cívico de prestação de auxílio aos socorristas da praia; mais uma transição na educação da altura.
Com o encerramento dos jornais «O Século» e «República», passou-se a ler os jornais «O Diabo» e «A Barricada» em casa dos meus avós, bem como a revista «A Gaiola Aberta», mais tarde também o semanário «Tempo».
A fábrica do meu avô, de fabrico de formas para bolos e cortantes para a indústria hoteleira, também passou por maus momentos e a paciência do meu avô já não era muita e a idade não ajudava.
Nas férias grandes comecei a vender esteiras para a praia e mais tarde fui trabalhar com o meu pai num armazém de miudezas e confecção de vestidos de noiva, de que era proprietário, na Rua do Almada. Lá ia ganhando um dinheirão com a venda das esteiras, percorrendo os bancos da Avenida dos Aliados. Deu-me para os meus gastos nas férias. Nesse ano fomos até Fuengirola, perto de Torremolinos, no Mediterrâneo, Espanha. Foi o meu primeiro contacto com águas quentes e com o calor tórrido. Nos anos seguintes fomos para Benidorm. Relembro os ingleses com uns penteados da onda futurista, ouviam-se os Duran Duran, Soft Cell, Human League, Spandau Ballet, etc. Até aos dias de hoje os meus pais continuam a ir quinze dias para Benidorm, na companhia da minha irmã, do meu cunhado e do meu sobrinho.


IV

Nova vida e uma nova fase. Passei, por ordem dos meus pais, para a Lúmen, na Rua da Boavista, onde estive até perfazer o 12.º ano. E quem fui lá encontrar? Os meus dois primos rebeldes. Um deles andava sempre de táxi, da Marechal para o café Bom Dia e depois para a Marechal Gomes da Costa. Tinha acabado de mudar para a nova casa, mas ainda não se tinha habituado aos ares da Foz, portanto ia e vinha durante o dia diversas vezes às Antas. Era, e ainda é, completamente doido!
Acho que foi nesse externato que comecei a ter outras vivências diferentes das que estava habituado. Conheci outro tipo de pessoas, a maior parte oriundas da Foz e de outros locais da cidade do Porto.
Estávamos no final do ano de 1980, ano bastante marcante para a minha vida - a morte fatídica do Doutor Francisco Sá Carneiro, que ainda recordo como se fosse hoje. No Coliseu do Porto, eram 21 horas, ia haver o comício de encerramento para as presidenciais da Aliança Democrática, com a presença do general Soares Carneiro, de Francisco Sá Carneiro e de Amaro da Costa. Nas ruas ouviam-se gritos de «assassinos», a mágoa, a revolta, o inconformismo, tinha morrido o meu ídolo de juventude. Senti-me vazio e sem saber o que fazer e a onde ir. Fui para casa chorar!
A Lúmen, onde também andavam o Zé, o Pedro e a Maria, respectivamente filhos e sobrinha de Sá Carneiro, esteve encerrada durante os actos fúnebres, tendo o silêncio permanecido por algumas semanas naquela escola.
Em casa do meu avô, ao lado do busto da República, existia agora uma fotografia de Francisco Sá Carneiro, que aí permaneceu até à sua morte.
Desse dia em diante, a política e a filiação praticamente acabaram!
Conheci vários ilustres da nossa praça, mas o mais castiço foi o Zé Luís, ainda hoje entre os grandes amigos, o Pedro Placas, o Albano e a Mónica, que na altura foi confundida como sendo professora e que acabou anos mais tarde por casar com o Albano, vindo depois os dois a ser os meus padrinhos de casamento. Mas voltando ao Zé, rapaz bem disposto sempre com uma piada nova, hoje mais conhecido por «Zé Moura» ou «Queijo», por ser gordinho. Nunca conseguia chegar às aulas a tempo, tinha sempre histórias para contar! Porque as noites eram longas. Ia com os tios e amigos para as «boîtes» da cidade. Ainda recordo o director, Cordeiro dos Santos, dizer-lhe: «Eu já sei, não tem aulas nem nada para estudar!» Risada geral.
Arrastados por ele, fomos parar ao Marquês de Pombal e começámos a estacionar na esquina dos correios do Marquês e a parar no Café Imperador, onde também se juntavam o Baptista e o Paulinho, antigos conhecidos do básquete, entre outros. Era malta da Escola Aurélia de Sousa, do Oliveira Martins e do Helena Key.
Passados vinte e tal anos ainda recordamos os velhos tempos e as nossas histórias. Juntou-se a nós o Moisés, que vinha lá do meio dos «ciganos», e a orquestra ia ficando completa. Ao fim da tarde, sem exagero, reuniam-se entre 20 e 30 rapazes e algumas, poucas, raparigas. O ambiente por ali era pesado, não naquele local, mas em todo o Marquês, café dos índios, as casas de máquinas, havia muita droga e afins. Mas o mais importante era arranjar miúdas para fazer festas em casa da avó do Zé Luís, no Bonjardim, que praticamente estava sempre na casa de praia na Aguda. Era só apontar números de telefones e, claro, o cicerone era o Zé, que fazia os convites, etc., tratava de tudo, era o máximo! Às vezes nem música havia, mas o que interessava era estar escuro, e dar uns beijitos. Até ao som de um relato de futebol se faziam festas.
Estávamos na altura do «Saturday Night Fever» e do filme «Grease» dos Bee Gees.
Faziam-se muitas festas particulares e os sons eram muito variados, desde o «funky», à «new wave», ao «punk» e ao «rock»; claro que os «slows» nunca podiam faltar, era da praxe.
Aos sábados à noite havia corridas de motas à volta do Marquês, com polícia de choque à mistura. Era a confusão total! Tínhamos a mania das francesinhas e cachorros no Chamiço e outros pratos no Paju, até ao Big-Ben íamos parar, coisas do Zé!
Nessa altura só tinha permissão de saída até a meia-noite. Era complicado fazer algo mais. Uma educação sem grandes benesses e com pouco diálogo, mas lá ia equilibrando as coisas, claro não contando que eram três contra mim, até a minha irmã ajudava à missa. Teria na altura já 18 anos.
Muitas das tardes, às quartas e sextas, foram passadas no café Orfeu e na discoteca Glassy. Foi o meu primeiro contacto com discotecas.
Aos domingos fazíamos um almoço no Lopes, na Areosa, uma adega manhosa, coisas do Moisés Macedo, pela certa, mas era engraçado. Íamos de autocarro, o Moisés vestia a farda castanha (uma imitação dos proxenetas da época), fato de bombazina castanho, com golas até aos ombros, calças à boca-de-sino e sapatinho de tacão afiambrado, uma camisa às flores e, o mais importante, um medalhão e uma cabeleira comprida aos caracóis. Claro, ia sozinho na frente do autocarro e nós cá trás a rir como uns perdidos com a cara das pessoas que entravam no autocarro e que ficavam estupefactas e com receio de sentar-se por perto. Só faltava o «Ford Capri» ou o «BMW 2002».
Namoradas, poucas, nunca fui muito de ter compromissos. A primeira a sério chamava-se Paula Taborda, morava em Álvaro Castelões e depois mudou-se para Damião de Góis. Por culpa dela tornei-me sócio do Futebol Clube do Porto e comecei a ser visita regular dos bares do Shopping Dallas e a acompanhar a irmã, que era comunista ferrenha. Foi com ela, pela primeira e última vez, que entrei na sede do Partido Comunista, na Avenida da Boavista. Quase que me benzi, mas até achei graça no fim da visita e senti uma mistura enorme de sentimentos.
Por essa altura, a visita da Sua Santidade o Papa à cidade do Porto, onde fez a sua aparição na Praça Humberto Delgado, marcou-me pela positiva e deixou-me bastante emocionado, pela beleza, pela cor e pela fé transmitida.

Passaram mais de quarenta anos. Dedico este miniconto a todos os que já não se encontram fisicamente entre nós e que contribuíram para a pessoa que sou hoje!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Rodolfo

A vila de Marvão é um dos mais belos e preservados povoados medievais, cercada pelo seu castelo e muralhas a 862 m de altitude, em plena serra de São Mamede, a norte do distrito de Portalegre, da qual se desfruta uma bela vista sobre a planície alentejana, as serras da Estrela e da Gardunha e terras de Espanha.

Rodolfo era um homem de 49 anos e de aspecto um pouco taciturno. Talvez fruto de uma vida madrasta e que lhe dera aquele ar tão carregado.
Tinha nascido e crescera na pequena vila alentejana de Marvão junto à raia espanhola. A sua vida não fora propriamente um mar de rosas. O pai morrera ainda ele era um cachopo. Mal fizera a 4.ª classe e viu-se no meio de homens com uma foice nas mãos entre as searas de trigo. A vida roubara-lhe a adolescência que alguns dos seus companheiros tinham vivido.
Por força das circunstâncias passou a ser o suporte financeiro daquela família de cinco irmãos. A mãe trabalhava em casa de uns senhores ricos a fazer o serviço de lavadeira. Sobravam-lhe os domingos para folgar o corpo e o espírito. Ainda namoriscou algumas das moças da vila, mas aquele seu ar tímido e de «cara-fechada» acabou por não fazer sucesso junto do sexo oposto.
O tempo livre começou-o a passar mais nas tabernas a jogar à bisca ou ao dominó. Aí, sim, tinha sucesso. A sorte bafejava-o no jogo e como tal haviam sempre amigos para quererem ser o seu par.
O estar perto da raia espanhola fê-lo conviver com os negócios escondidos do contrabando. Ouvia-se «à boca calada» de pessoas que iam, de noite, passar a fronteira para comprar e vender produtos. Dos dois lados da fronteira haviam acordos tácitos sobre os negócios. A própria Guarda Civil espanhola e a GNR portuguesa fechavam os olhos. No fundo, também, alguns deles ganhavam com esse negócio transfronteiriço. No entanto ele nunca se metera “nessas confusões”.
Com a Guerra Civil espanhola veio gente fugida com medo e fome. Alguns foram ajudados por gente da terra. Ainda que a medo, escondiam-nos em suas casas e davam-lhes de comer. Tempos difíceis aqueles…
Depois de cumprido o serviço militar viera à aventura para Lisboa. Conseguira arranjar emprego num pequeno restaurante. Pontualmente enviava para a terra o dinheiro que conseguia juntar no fim de cada mês. Ficava com as «gorjas» que os fregueses mais simpáticos lhe deixavam nas mesas, o que lhe ia dando para os gastos com o tabaco e, uma vez por outra, uma ida ao cinema. Certo dia recebeu uma carta da mãe a dizer que a polícia tinha ido lá à aldeia, e, sem se saber porquê, tinham levado o Etelvino numa carrinha. O Etelvino era filho da “Tia Joana da Arnica” e tinha sido dos poucos amigos “a sério” que tivera. “Amigo do seu amigo” – era assim que pensava dele. Nunca chegou a saber o porquê dessa prisão. “Corria” na terra que tinha sido deportado para “fora”. Após “isto”, Rodolfo nunca mais foi o mesmo. Um dia, pensou: haver-se-ia de vingar, iria para um outro lugar e retornaria para resolver a questão.
Agora estava num país distante, longe dos seus, e sentia saudades dos tempos de menino de aldeia. Parecia que tinha na sua frente o campo coberto de searas, o cantar das cigarras, o sol, esse sol tão português estava agora bem longe. Vieram-lhe servir o prato que encomendara. Tinha resolvido que, pelo menos uma vez na vida, iria comer como um príncipe e agora deparava-se-lhe essa oportunidade. Queria lá bem saber do que viria depois: – É aproveitar agora!… – pensava de si para si. Desde que chegara era a primeira vez que tinha aquela sensação. Pareceu-lhe que, de repente, toda a gente o olhava de outra forma. Ainda se lembrava que ao desembarcar tinha dado de “trombas” com um agente que lhe pedira, mas que ele não entendera nada, “pelos documentos”. Os dias que se seguiram foram um martírio, não fosse a sua vontade de “levantar” cabeça e teria regressado de imediato. Bebeu um cálice de conhaque Napoleon e fumou uma “charutada”.
– Óh “garçon”, chegue aqui por favor – e riu-se dessa forma de dizer “garçon”.
– V. Ex.ª deseja mais alguma coisa? – perguntou solícito.
– Agora “prà acabar” quero a conta – iria regressar a Portugal! Olhava o bilhete do comboio… «23-Avril-1974 – 17.00 heures – Gare du Nord».
Por entre toda aquela “massa humana” em delírio, Rodolfo, com os olhos marejados de lágrimas, olhava os tanques, os cravos nas mãos dos soldados, as vozes que gritava: “Viva a liberdade!”
Na rádio ouvia os apelos que o MFA fazia para todos se manterem em suas casas. Mas naquele momento ninguém acatava os pedidos de quem quer que fosse. Havia uma alegria que atravessava a cidade de lés-a-lés. Lisboa “vestia-se” do verde da esperança e do vermelho de revolução. Finalmente chegara o dia da “vingança”… num Abril em Portugal!

Gravura de: José Bandeira

Orgulho lusitano

– Ó pai, ainda falta muito?
– Tem calma, filha, estamos quase a chegar.
– Mas pai, está tanto trânsito… quando chegarmos a piscina já vai estar cheia.
– Sossega, Andreia, deixa o teu pai conduzir descansado, já sabes como ele é, consegue sempre desenrascar-se. Ó Juvenal, vamos ter que ficar aqui na seca nesta fila enorme?
– Cambada de lesmas – praguejou o Juvenal, enquanto estendia o pescoço a tentar perceber até onde ia aquela imensa fila de carros. – São uns totós, não se mexem. Eu vou já resolver isto Natércia.
E de imediato o Juvenal concretizou o que disse. Saiu da fila a toda a velocidade, colocando-se na faixa de rodagem destinada a outras direcções, e foi ultrapassando aquela imensidão de carros que permaneciam imóveis. Chegado o momento de voltar à sua faixa, o Juvenal aproveitou uma brecha para aí se enfiar vitorioso, indiferente às incrédulas buzinadelas dos outros condutores que manifestavam o seu protesto.
– Boa! – exclamou o Gonçalo, o filho mais velho. – O pai é o maior, ficaram todos para trás. Quando tiver um carro, também vou passar todos – rejubilava ele enquanto bebia um pacote de sumo.
– Ó Gonçalo, dá-me um bocadinho do teu sumo – pedia o João, o filho mais novo.
– Já bebeste o teu todo – respondeu-lhe o Gonçalo. – Deixa-ma beber descansado.
– És mau – lamentava-se o João. – Quando me pedires alguma coisa também não te dou.
– Olha, já acabou, queres um bocado? – perguntava Gonçalo em tom de gozo.
– Ó pai, o Gonçalo atirou o pacote de sumo pela janela – gritou João indignado.
– E então qual é o problema? – perguntou o pai. – Nós não temos caixote do lixo no carro.
– Mas na escola a professora disse que nós devíamos…
– Está bem, esquece a professora – interrompeu o pai. – Aqui o professor sou eu.
– Ouve o que o teu pai diz, Joãozinho – disse a mãe. – Olha que ele tem muita experiência de vida. Mais até que a tua professora.
– Pronto, já chegámos – suspirou Juvenal. – Agora só falta arranjar um lugar para estacionar.
– Não vai ser fácil – disse Natércia roendo as unhas. – Está tudo cheio.
– Vai já ficar aqui – disse ele.
– Mas pai, aqui é uma linha amarela, não se pode – disse Joãozinho.
– Não vai ser uma linha amarela que me vai impedir de estacionar.
O Juvenal estacionou e todos saíram numa azáfama atropelada, esvaziando o carro de toda a tralha que os acompanhava. A geladeira era a peça mais preciosa do rol, cabendo a Juvenal a segurança do seu transporte.
A família dirigiu-se para a fila da bilheteira, arrastando com orgulho todo o seu precioso equipamento, enquanto Juvenal congeminava uma forma de se desenrascar dali rapidamente.
– Joãozinho, vai ao colo da tua mãe – ordenou ele. – Venham comigo.
– Eu não quero ir ao colo, não sou nenhum bebé – resmungava Joãozinho.
– Está calado, faz o que te disse.
Joãozinho acedeu contrariado. Dirigiram-se para o balcão da bilheteira e Juvenal, com um ar bastante aflito, abordou as primeiras pessoas da fila pedindo-lhes para passar à frente, porque o seu filho tinha ficado subitamente mal-disposto e tinha necessidade de entrar rapidamente para que pudesse ir à casa de banho. As pessoas, apanhadas de surpresa com aquela situação e com o ar apoquentado de Juvenal, concordaram em deixá-lo passar.
– Eu não estou doen… ai!
A mãe interrompeu o Joãozinho apertando-
-lhe um braço. Entraram triunfantes. Faltava escolher o lugar mais favorável para se instalarem confortavelmente e desfrutarem de uma tarde bem passada em família. Juvenal varreu o recinto com o seu olhar de lince e decidiu:
– Vamos para ali, estou a ver uma espreguiçadeira livre.
Esvaziaram sacos e mochilas e foram-se instalando numa grande agitação.
– Ó Juvenal, precisávamos de pelo menos mais uma espreguiçadeira – exclamou Natércia. – Vai ser difícil, parece estar tudo ocupado.
Juvenal não respondeu, ficou atento a analisar a vizinhança de ocasião. Dirigiu-se a uma série de espreguiçadeiras que se encontravam com as toalhas em cima e permaneceu aí alguns instantes observando disfarçadamente. Certificou-se que ninguém estava a ver e, de repente, arrastou uma espreguiçadeira consigo atirando a toalha para cima de umas mochilas.
– Pronto, já está – disse Juvenal. – Já temos outra.
– Mas a cama era daqueles meninos – disse o Joãozinho alarmado.
– Fala baixo – sussurrou a mãe. – Eles vão estar sempre na água, não vão precisar dela.
– Ó pai, podemos ir para a água? – perguntou o Gonçalo.
– Sim, vamos lá dar uns mergulhos, mas tu, Natércia, ficas aqui, não vá desaparecer nada, com esta gente nunca se sabe, mais vale prevenir.
E assim passaram a tarde felizes, entre mergulhos, merendas e comentários avulsos sobre os artigos das revistas cor-de-rosa que a Natércia ia folheando.
Esta família, como tantas outras, padecia de uma filosofia de vida violentamente marcada, quem sabe, por uma qualquer deficiente matriz lusitana traduzida numa dificuldade evolutiva, ou por uma mal-fadada herança de vários anos de repressão e ignorância cuja libertação se interpretou e assimilou de forma deturpada ou extrapolada, transformando-se numa correria imensa, numa competição tenaz, onde as regras, civismo e educação são constantemente invocadas por todos, mas endereçadas e aplicáveis somente aos outros.
Nesta família, como em tantas outras, a principal máxima é o “desenrascar”. Este princípio, fortemente enraizado na nossa sociedade e em todos os estratos sociais, partilha diligente o nosso dia-a-dia, engatilhado e pronto a disparar em qualquer ocasião de necessidade. Está presente em todas as profissões mas torna-se por vezes imperceptível, dissimulado, entre técnicas de esperteza ou habilmente encobertas por retóricas académicas. Toda a gente espera um país mais próspero e evoluído, mas contam sempre que haja alguém a trabalhar nesse sentido, esquecendo-se que a sua própria participação na construção de algo pode ir muito mais além do que o desfilar de queixumes e lamentações. Este espírito do “desenrasca” é um verdadeiro travão à evolução e desenvolvimento de uma sociedade.
Mas voltemos à piscina, onde se encontram todos. É já final de tarde.
– Juvenal – disse a mulher. – Antes de irmos para casa, preciso de passar no supermercado.
– Está bem – respondeu o Juvenal disfarçando o olhar que tinha pregado numa morena luzidia. – Meninos, vamo-nos secar para irmos embora.
Secaram-se, arrumaram as tralhas e saíram, dirigindo-se ao carro arrastando os chinelos, enquanto mastigavam o resto do farnel.
– Olha pai – disse a Andreia. – Tu foste o primeiro a estacionar ali e agora já estão lá tantos.
– Pois é – respondeu Juvenal fanfarrão. – Já diz o velho ditado… à terra onde fores ter faz como vires fazer. Aprende minha filha.
Meteram-se no carro e arrancaram, cantarolando a música do rádio, que gemia entre graves distorcidos, aflitos com o excesso de volume.
Mais à frente, uma fila de trânsito que se movimentava muito lentamente e muitas buzinadelas. Alguns minutos depois, Juvenal apercebeu-se da razão daquela fila.
– Já viste isto, Natércia – disse ele indignado. – Estes idiotas estacionam aqui em fila dupla para ir ao Multibanco, não há respeito nenhum. Tirem daqui as latas – dizia ele enquanto apitava violentamente. – Seus anormais.
– Que falta de civismo – suspirava Natércia.
Chegaram finalmente ao supermercado e, como havia falta de lugares de estacionamento, Juvenal meteu o carro num dos lugares reservados a deficientes.
– Ó pai, este lugar é para as pessoas doentes – explicou o Joãozinho.
– Olha, nem tinha reparado – disse Juvenal. – Mas vai ser rápido.
– Se precisarem, ainda têm ali outro lugar reservado – disse a mãe. – Vamos lá depressa.
Joãozinho olhava desolado para os irmãos que lhe faziam algumas caretas, aquelas situações confundiam-no e atormentavam-no bastante.
Existem felizmente ainda muitas pessoas esclarecidas que não partilham de todo este espírito tacanho, possuidoras de lucidez suficiente para evitar esta onda medíocre, enjeitam qualquer manifestação de «chico-espertismo».
Talvez o Joãozinho venha a ser uma delas, ou talvez não.
Dentro do supermercado, dirigem-se à frutaria. Enquanto Natércia escolhe a fruta, o Juvenal vai petiscando aqui e ali. O Gonçalo chega com um iogurte líquido, abre-o e começa a beber.
– Ó pai, também quero um, posso ir buscar? – pediu a Andreia.
– Está bem, vai lá e traz um para o João.
– Eu quero beber o meu em casa – disse Joãozinho.
– Porque não bebes aqui? – perguntou-lhe Juvenal.
– Porque não, prefiro beber em casa.
O iogurte do Joãozinho foi para dentro do carro de compras, os outros dois foram para o caixote do lixo do supermercado.
Deram mais umas voltas pelos corredores e dirigiram-se às caixas.
– Vamos para uma dessas caixas rápidas – disse Juvenal.
Chegaram à caixa e colocaram as coisas sobre o tapete rolante. A operadora alertou-os para o facto de aquela caixa estar destinada a um limite de dez artigos. Como excediam o estabelecido, Juvenal resolveu distribuir as compras.
– Estas são minhas, aquelas da minha mulher e as outras do meu filho – disse ele. – Eu pago todas.
A operadora concordou, ficando sem palavras. Desenrascado este Juvenal.
Chegaram finalmente a casa, uma bela vivenda construída pelo Juvenal. Era a sua profissão, a sua arte. Juvenal era empreiteiro, dedicava-se a construir vivendas e moradias com o seu cunhado irmão de Natércia. Ele e a mulher, beneficiários do rendimento mínimo, viviam em casa do Juvenal. Enquanto os maridos trabalhavam, as mulheres faziam companhia uma à outra, saíam juntas, iam ao cabeleireiro, faziam compras nos centros comerciais e organizavam uns lanches com as amigas.
Natércia há já muito tempo que se encontrava de baixa. Depois de três dias de suspensão do seu emprego, achou que não se encontrava bem psicologicamente para ir trabalhar. Era funcionária pública, trabalhava nas finanças, descobriram que, valendo-se da sua posição, dava uns jeitos nalgumas papeladas a troco de generosos presentes. Mandaram-na para casa três dias para reflectir.
Em casa os miúdos já estavam avisados de que se fosse lá alguém perguntar pelos tios eles responderiam que moravam lá porque eram pobres e não tinham casa para morar.
– Ó Juvenal, amanhã vai o fiscal à vivenda lá de cima do monte – disse Gustavo, o cunhado de Juvenal.
– Ah, pois vai, já sabes o que tens a fazer. Deixa-lo ver tudo o que quiser e depois… entregas-lhe o respectivo envelope, precisamos daquilo aprovado.
– Ok. E aquele assunto dos empregados? Eles dizem que se não lhes pagar, vão-se embora.
– Deixa-os ir, também não fazem nada de jeito, eu já estou a tratar de arranjar outros, tenho aí em vista uns trabalhadores de Leste, estão ilegais, esses são mais fáceis de controlar. Amanhã tenho que ir às finanças resolver aquele assunto. Os gajos não percebem como é que a empresa dá prejuízo todos os anos, devem pensar que eu ando para sustentar pançudos. Eu vou falar lá com um doutor conhecido da Natércia e vamos conseguir controlar o problema, tem sido sempre assim, eles que trabalhem, não vou eu pagar impostos, para suas excelências estarem alapadas na assembleia sem fazer nada.
– Então já decidiste qual é o jipe que vamos comprar para a empresa? – perguntou Gustavo.
– Olha, ainda não sei, ouvi falar aí de uns novos fundos de apoio a pequenas empresas, pode ser que se arranje qualquer coisa – respondeu Juvenal piscando o olho.
– Ah, lembrei-me agora – disse Gustavo batendo com a mão na cabeça. – Temos muito entulho para tirar da obra, para onde é que o levamos?
– Despejem-no lá para trás no meio do pinhal – disse Juvenal enquanto passava os olhos pelo jornal. – Alguém o há-de limpar mais tarde.
– Meninos, todos para a mesa, o jantar está pronto – anunciou Natércia.
Jantaram animadamente e depois dirigiram-se à salinha para tomar café e conversarem.
Os miúdos viam televisão.
– Ó pai, amanhã vou ter um teste – disse o Joãozinho. – Vou lá para dentro estudar um bocadinho.
– Estudar? – questionou Gonçalo em tom de gozo. – É preciso é fazer uns copianços…
– Está calado – irritou-se Joãozinho. – Eu não gosto de copiar.
– Pronto, não se zanguem – disse o Juvenal sorrindo. – Não gostas de copiar, não copias, eu só quero que vocês me tragam boas notas, agora se copiam ou não… o problema é vosso.
Mais tarde, todos se deitaram. Tinha terminado mais um dia de luta.
Este instinto de sobrevivência, quase selvagem, embora hiperbólico pelo seu teor cumulativo de episódios, alguns caricatos outros mais graves, acaba por retratar a predisposição de uma parte significativa da sociedade para recorrer a este tipo de técnicas. É claro que estas são situações perfeitamente identificáveis e conhecidas.
Mais grave ainda será o uso de técnicas semelhantes por alguns Juvenais com muito mais formação e poder em situações que a maior parte das pessoas não compreende nem domina. Nos restantes reside a esperança.
Esperemos que novas gerações surjam com um novo espírito mais empreendedor e construtivo, voltado para o desenvolvimento, para o futuro.
Passaram-se vinte anos.
Juvenal continuava a trabalhar mas já sem o seu cunhado, que tinha emigrado. Continuava com o seu jogo de cintura, sempre a fugir de alguém, sempre a esconder-se de um fornecedor, de um cliente ou das finanças.
A mulher conseguiu reformar-se mais cedo, já não estaria na posse de todas as suas faculdades mentais.
Andreia formou-se em Direito e era vereadora na câmara. Estava a braços com um processo por peculato, mas nada que lhe tirasse o sono.
Gonçalo interrompeu os estudos e seguiu as pisadas do pai. Ele e um amigo montaram a sua própria empresa de construção. Alguns anos depois, enganou o sócio e fugiu com o dinheiro da firma. Encontrava-se em parte incerta no estrangeiro.
Joãozinho era professor. Era um bom professor, sempre preocupado com a educação dos seus alunos e da sociedade em geral. Tinha poucos contactos com a sua família.
Anos mais tarde, Juvenal morreu e ascendeu a outra dimensão.
Algures, num majestoso palácio, andavam todos muito aflitos, nunca tinha acontecido nada assim.
Juvenal estava numa bela sala cintilante e imaculada, instalado numa faustosa poltrona que parecia feita de algodão.
– Como é possível teres entrado aqui? – perguntaram-lhe incrédulos. – Como conseguiste passar pelos nossos guardiães? Quem és tu afinal?
– Eu…ora, eu sou o Juvenal… e sou português.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

HEITOR


Naquele dia, cinzento como o eram todos por muito que o sol brilhasse, Luís entrou no prédio e dirigiu-se para o elevador, que repentinamente se abriu, surpreendendo-o. Lá dentro estavam o Heitor e o Sr. Afonso, que, com o braço esticado, segurava a porta para que ele entrasse:
– Ia subir, mas apercebi-me que alguém estava a chegar. Entre. Entre, ele não faz mal. Pode estar à vontade.
– Obrigado. É muito bonito o seu cão – sussurrou Luís, receoso.
– Chama-se Heitor. Pode tocar. Faça-lhe festas que ele não ferra. É muito brincalhão e estouvado, mas não faz mal a uma mosca.
– É melhor não – disse Luís, que, com as pernas trémulas e as mãos escondidas dentro dos bolsos, se encostou receoso a um canto do elevador.
– Não se atemorize, homem, já lhe disse que ele não faz mal e além disso eu estou aqui – a severidade no tom da voz denotava censura pelo medo que visivelmente se apoderara de Luís. – Vai para o terceiro não vai? Eu vou para o quarto, moro no andar por cima de si. O meu nome é Afonso.
– O meu é Luís – as palavras juntaram-se a custo num ciciar pálido e a pele branca da cara enrubesceu, salpicada pelos tons vermelhos do pavor.
Enquanto afagava tranquilo o suave dorso de Heitor, O Sr. Afonso fixou de soslaio o seu timorato vizinho, sem se preocupar em disfarçar um olhar de desprezo.
Os segundos que o elevador demorou a chegar ao terceiro andar pareceram uma eternidade.
Pequenas gotas de suor frio nasciam ao cimo da testa, envergonhadas, escondidas entre os primeiros cabelos. Sentia comichão, mas naquele instante estava paralisado. Luís temia que alguma mais atrevida descesse testa abaixo, expondo a tibieza do seu carácter, mas, apesar disso, não tirava as mãos dos bolsos. Esmagado entre os perturbadores olhos azuis – um azul gélido – com que aquele imponente animal o fitava e o esgar de desdém estampado no rosto do dono, Luís perdia forças, mingava, quase desfalecia, cedendo à força do medo. Martírio silencioso!
«Não, não posso. O que vai ele pensar de mim? Se já considera que sou um tremendo cobarde, um medricas sem coluna vertebral, o que não pensará se eu desmaiar aqui á sua frente. Amanhã toda gente do prédio saberá quão fraco e insignificante sou. Meu Deus, porque demora tanto! O elevador está parado ou sou eu que estou fora de mim? Que vergonha! Que nojo! Que nojo tenho de mim!»
Naquela cabina do desespero, as unhas das mãos cravavam-se nas coxas com tamanha força que provocavam dor. Era como se a sua sobrevivência dependesse daquela pressão. Os músculos doloridos sofriam subjugados por aquele doentio cérebro que lhe aprisionava o corpo e o escravizava. As costas, para que as costelas se mantivessem unidas e não se desarticulassem, forçava-as contra a parede, e o pescoço inerte, vergado pelo peso da cabeça, tombou para o lado como um peru bêbado.
– Já está no seu andar. Vá lá… desta safou-se com vida! – chacoteou o Sr. Afonso apontando o dedo para a luz com o número três.
Luís saiu apressado, balbuciando atabalhoado um imperceptível:
– Adeus… e bom dia.
Luís tinha 30 anos, o corpo magro, estatura média, olhos castanhos docemente lânguidos e encovados, cabelo escuro, pele clara, embora um pouco amarelada. Era frágil e não aparentava gozar de muita saúde. Estava casado há seis anos com Lúcia e tinham um filho de 4.
Era um indivíduo introvertido, inseguro, enclausurado nos seus pensamentos e medos. Chicoteado pela sua enorme falta de auto-estima, sentia cada dia da sua vida como um castigo divino; sempre que a atenção dos outros pousava em si – mesmo que casualmente – era porque o reputavam de imbecil, horroroso, palhaço. Tudo servia para se autoflagelar; considerava-se uma nódoa, alguém incapaz de despertar o interesse dos outros, uma nulidade. Um aborto. Apenas mais um erro da natureza.
Muitas vezes o assaltavam receios que lhe atormentavam o coração:
«Não entendo o que a Lúcia viu em mim! Não sou homem para ela. Sou feio, não tenho atributos físicos, salvo esta bela fileira de alvos dentes que brilha mais que a dentadura do Joly Jumper, não tenho dinheiro nem inteligência digna de realce. Não a trato bem! Não sou carinhoso. Sou amargo, amargurado, taciturno, capaz de passar o dia sem lhe dirigir palavra, como se ela não existisse! O mais provável é que venha a encontrar alguém que a mereça e me abandone. Também… com um marido assim, quem a poderá censurar? Eu não.»
Naquela época, Luís encontrava-se desempregado. Desde que casara já havia passado por três empregos. Em nenhum deles aguentou mais que um ano. Sempre que o despediam, entrava em casa com mal disfarçada tristeza e dizia:
– Acabou o contrato. Mandaram-me embora. Disseram que pretendem reduzir o numero de empregados, mas na realidade o que eles querem é alguém melhor que eu. Casaste com um falhado – sabia que os seus lamentos não comoviam a esposa. Sabia que lhe eram indiferentes, mas mesmo assim repetia-os como se de um ritual se tratasse.
– Só espero que não saias ao pai, meu filho – murmurava, enquanto afagava os caracóis castanhos do menino. – O mundo precisa de outro tipo de homens. Tu és bonito! Sais à tua mãe. As mulheres vão gostar de ti. Vais ser atraente e corajoso e não uma bosta como eu.
Lúcia já não suportava ouvir as suas lamúrias. Mantinha-se em silêncio, triste, cozinhando o casamento em lume brando e derramando todo o seu amor sobre o filho. Os dias aconteciam inexoráveis, só a alegria e as traquinices do pequeno Miguel aligeiravam o peso do fardo em que a sua vida se tornara. Para o menino canalizava todas as suas esperanças num futuro melhor.
O que Lúcia não sabia era que o Luís em todas as empresas onde trabalhara tudo fizera para que não lhe renovassem o contrato. Não porque fosse malandro ou incompetente, mas simplesmente porque não queria estar rodeado de outras pessoas! Não suportava os seus olhares! Acreditava que as pessoas o consideravam um bobo, um coitadinho digno de piedade. Embora não fosse gago, quando tinha que prestar contas a alguém ou sujeitar-se a qualquer tipo de avaliação, por vezes gaguejava um pouco.
Um dia, no último emprego, o seu chefe, irritado, dirigiu-se a ele num tom firme e severo:
– Porra, homem! Você parece que receia a própria sombra! Está com medo de quê? Despache-se lá, idiota. Faça o que lhe disse – fora a gota de água.
«Não sei se vou aguentar até o final do contrato. Neste momento já devem estar todos a falar de mim:
– Viste a cara dele? Além de palerma é dócil – dirá um.
– Mais parecia um cachorro, quando leva um raspanete do dono – comentará outro.
– Este gajo, além de cagarola, é mas é um complexado de alta competição – criticará um terceiro.
Se vou agora embora, a Lúcia não me perdoa. Meu Deus… faz com que os dias passem depressa! Tira-me daqui! Torna-me invisível.»
Suportar as oito horas de trabalho mortificava-o: directamente do ruído das máquinas para a sua cabeça viajavam adjectivos como cadavérico, desprezível, falhado, imbecil, e os seus colegas de trabalho eram pequenos monstros que por vezes se cruzavam com ele soltando um hálito quente da boca e faíscas do olhar.
Os dias sucederam-se penosos até a libertação final: o desemprego.
Todas as manhãs, por volta das 9 horas, levava o filho à avó e voltava a correr para casa. Se adivinhasse com quem iria partilhar aquela penosa viagem até o terceiro andar, jamais teria entrado, mas o destino não o quis retardar um minuto e assim teve que sofrer a humilhação de mostrar ao Sr. Afonso o seu lastimoso carácter.
Ainda não restabelecido do susto, dirigiu-se imediatamente para a secretária, que – estrategicamente colocada num canto do seu quarto – era onde melhor se sentia, o seu ninho, o seu pequeno mundo, o local em que sem constrangimentos podia dar asas ao seu verdadeiro eu.
Escrever era algo que gostava de fazer. Extenuado, sentou-se em frente de uma folha de papel branco, ligou o rádio e como habitualmente divagou por entre considerações diversas, flagelando-se com juízos de valor sobre si e sobre o mundo que aos poucos lhe dilaceravam o ser. Era na dor que encontrava a sensação de estar vivo; era da sua vontade de morrer, da sua incapacidade para suportar o ar que respirava, que retirava a certeza de existir. Sem a dor não era ninguém! Não passava de um pedaço de ar morno insípido a vaguear invisível pelo mundo, monotonamente escondido nas costas de alguém.
No dia anterior, ouvira José Rodrigues dos Santos noticiar:
«No Porto, um grupo de jovens, que habitualmente se dedica a perseguir e maltratar homossexuais que se prostituem na zona do Campo 24 de Agosto, espancou severamente um transexual. No dia seguinte, voltaram ao local do crime e, vendo que o homem estava morto, atiraram o corpo para um fosso. O mais velho dos jovens tem 16 anos.»
«Se em vez de brancos e do Porto, os jovens fossem negros e da Amadora, seriam, com certeza, anunciados como um bando ou um gangue.»
Fora o único pensamento que lhe ocorrera, enquanto saboreava um delicioso prato de bacalhau à espanhola que Lúcia havia preparado.
A insensibilidade com que recebera aquela grotesca notícia, a forma como o paladar do bacalhau se sobrepôs ao impacto de tão vil acto, fê-lo sentir-se fútil e abjecto. Ele que tantas vezes criticava o ser humano, que tantas vezes o sentenciava, afinal não passava de um falso pregador de monólogos sentimentalistas!
Apoderou-se de si uma sensação de sufoco, sentiu um nó na garganta e o coração começou a doer mais… mais que o habitual. Na sua cabeça, passou repetidamente uma frase que em tempos ouvira num disco de José Mário Branco:
«Mãe. Eu quero desnascer! Mãe. Eu quero desnascer!»
De imediato, como se de um acto redentor se tratasse, pegou na esferográfica e escreveu:

Queimam os pés no solo que pisam,
Ferem os ouvidos os sons do quotidiano,
Cegam os olhos pela luz e claridade,
Envelhecem os pulmões pelo ar que respiram.

Lateja o sangue nas veias,
Barragens prestes a transbordar.
Barragens são ideias
E o sangue não tem sol, terra, música e ar.

E a terra queima,
O som quotidiano fere,
A luz cega
O ar envelhece.

Olham para o espelho e ele reflecte
Um rosto nem triste, nem desfigurado. Amorfo.
Um corpo como seios descaídos. Inerte.
O espelho é um rio e a figura o lodo.

Meus irmãos!
Pedaços gémeos de mim.

Todos assim… sou Eu.

Quando de repente ouviu Heitor ladrar bem alto…

Heitor era um Husky siberiano de porte médio com uma pelagem acinzentada, macia e densa, mas que não ofuscava as suas linhas bem definidas. O pêlo na cauda e no peito era de um branco puro, que contrastava com o cinzento no resto do corpo, o que, em conjunto com uns fantásticos olhos azuis, lhe conferia uma aparência apelativa de rara beleza. O seu porte altivo, o seu olhar gelado e a sua semelhança com o lobo faziam ressaltar em si a necessidade de liberdade e de espaço onde pudesse exibir todo o seu fulgor e energia.
O som vinha de fora do quarto e não parava. Era persistente e incomodativo, no entanto, teve o condão de interromper temporariamente o seu sofrimento. Dirigiu-se até a varanda, onde se deparou com uma cena no mínimo preocupante. Heitor estava apoiado sobre duas patas, com o corpo debruçado sobre o parapeito da varanda do quarto andar e, apesar de não o estar a conseguir, fazia um enorme esforço no sentido de subir até o topo.
Luís olhou para o cão e, receoso que este caísse, disse-lhe aflito:
– Vai para dentro. Olha que ainda cais lá abaixo. Podes morrer, Heitor, podes morrer.
O animal pareceu ter entendido, porque deixou de estar à vista, no entanto, Luís ouvia-o caminhar energeticamente de um lado para o outro, como se estivesse irritado, e, por vezes, também escutava o ruído das patas a arranhar na persiana. Nervoso, voltou a ladrar insistentemente enquanto uma vez mais se esfarrapava todo para tentar subir ao parapeito.
– Não faças isso bichinho. Pára. Olha que te vais magoar. Vá, olha para mim. Fala comigo – Luís fazia o que podia para o distrair.
– Tu não és um pássaro. Não vais conseguir voar.
Entretanto, na rádio começara a tocar uma canção dos Coldplay, que, curiosamente, teve o condão de acalmar Heitor. Fez-se silêncio.
«Provavelmente adormeceu» – pensou o Luís com um leve sorriso nos lábios.
Não conseguia entender como é que o Sr. Afonso era capaz de deixar Heitor preso num espaço tão exíguo.
Extenuado, entrou no quarto, deitou-se na cama e adormeceu. Já não tinha forças para pensar.
Quando acordou, passava das duas horas da tarde. Levantou-se meio ensonado e dirigiu-se à varanda para verificar se Heitor ainda lá estava preso. Felizmente não. A persiana estava subida, o Sr. Afonso já tinha voltado.
Impressionou-o bastante que aquele fantástico animal estivesse decidido a atirar-se de um quarto andar para a rua só para ser livre. Sem dúvida que uma varanda com cerca de dois metros e meio de largura por um de comprimento não era um local digno de tão nobre cão.
Há muito tempo que Luís vinha cristalizando em si uma ideia perversa que a ânsia de liberdade de Heitor ajudara a catalisar. Detestava-se! Não conseguia conviver consigo próprio nem com os outros! Sentia-se asfixiar na teia que o cérebro lhe montara. Para quê viver? Pelo Miguel? Amava o filho, mas estava certo que um dia mais tarde ele viria a ter vergonha do pai, sentia horror por isso. Pela Lúcia? Não. Lúcia merecia ser feliz! Merecia alguém melhor.
Naquele momento, não era mais que o escravo submisso de um cérebro poderoso e doentio, capaz de absorver e transformar o exterior em finas lâminas incandescentes que o queimavam e empurravam rumo ao suicídio.
Eram já cinco horas da tarde, foi à sala, pegou numa garrafa de uísque, encheu um copo e depois outro e outro e outro…
«Lúcia, não faças de comer para mim. Hoje chego tarde.»
Deixou o recado em cima da mesa da cozinha. Assim… sem mais.
Vestiu o fato-de-treino, o blusão, calçou as sapatilhas, bebeu mais um copo e saiu. Dirigiu-se vagarosamente para a marginal do rio Douro. Ainda era cerca de uma hora a pé. Tinha que fazer o tempo passar, não estava suficientemente escuro. No caminho, entrou no Torrado e tomou um café e um bagaço. Adorava café! Pediu mais um e saboreou-o até a última gota.
Já estava escuro, mas àquela hora muita gente regressava dos seus empregos. Era melhor esperar um pouco mais. Nessa altura já estariam todos a jantar.
Desceu até a margem do rio, sentou-se na areia e olhou para o céu. A lua infantilmente pálida e redonda iluminou o seu rosto com um sorriso triste.
A água reflectia a luz dos candeeiros da estrada; colunas de luz, paralelas, iluminavam o rio, indicando a Luís o caminho a percorrer. O destino era já ali, o fim estava a meia dúzia de passos. O seu fim! Escolhido por si, exclusivamente seu: frio, molhado, negro!
Tirou o blusão, as sapatilhas, o fato de treino e toda roupa interior. Nu e com os olhos marejados em lágrimas, entrou na água decidido a caminhar até que esta lhe inundasse os pulmões. Passo atrás de passo, cadenciadamente, foi afundando o corpo rio adentro. Já com a água pelo pescoço deu mais dois passos, ficou tapado e sem respirar. Continuou a sua caminhada, firme e determinado. Mais um passo e engoliu o primeiro gole. Só mais um e seria o fim… finalmente! Avançou, porém, em vez de descer, subiu um montinho de areia e depois outro e outro, o fundo do rio não era regular, começava a subir, de repente encontrava-se de novo com a cabeça à superfície. Respirava fundo, ganhava coragem para um novo impulso, quando ouviu, vindo da margem, o som de um cão a ladrar.
Conhecia aquela latir! Voltou a cabeça e viu aqueles belos olhos azuis apontados para si. Heitor, sempre a ladrar, atirou-se e nadou na direcção do Luís, que caminhou ao seu encontro. Quando se encontraram, ficaram imóveis, olhando-se fixamente em silêncio como duas estátuas retiradas em segredo do fundo do rio. Pela primeira vez Luís não tinha medo!
Voltaram para a margem e sentaram-se na areia, esgotados. Ainda nu, Luís encostou o seu rosto no focinho molhado de Heitor e abraçou-o. Com as calças do fato-de-treino enxugou os seus corpos e depois seguiram para a estrada.
«Como é que ele veio aqui parar?»
– Estás sozinho? Que é feito do teu dono?
Não demorou muito tempo a encontrar a resposta. Ao longe, ouvia-se a voz do Sr. Afonso a chamar por Heitor, que de imediato correu em sua direcção.
Jovens casais costumavam namorar numa zona mais resguardada da marginal, cerca de quinhentos metros à frente do local onde se encontrava. Enquanto o Sr. Afonso asquerosamente espiava a intimidade dos outros, o instinto de liberdade de Heitor fizera-o galgar pela margem do rio até si.
Já era quase meia-noite, quando entrou em casa. Lúcia contemplou-o com um olhar inquiridor.
– Fui passear até a beira do rio, apareceu um cão que começou a rosnar e atirou-se a mim. Para fugir dele, atirei-me à água. Fiquei lá imenso tempo até que ele fosse embora.
– Não me digas que o cão pertencia a algum casal que estava a namorar – a resposta saiu curta, fria e cortante.
Lúcia sentia que, além do amor estar a desaparecer, também o respeito diminuía.
Na manhã seguinte, Luís foi tomar um café à confeitaria onde habitualmente comprava o pão. No canto do balcão, acompanhado por dois copos de Martini com cerveja, um vazio e outro meio, o Sr. Afonso resmungava entre dentes para o parceiro do lado:
– Vêm estes bêbados para aqui trabalhar por tuta-e-meia. Depois os portugueses ficam sem emprego. Se eu mandasse, iam todos para a Sibéria plantar batatas – referia-se a um indivíduo, alto, loiro, de olhos azuis, que atravessava a rua em direcção à confeitaria.
– Bom dia. Favor cope lete e bolo – pediu, com um sorriso afável.
Luís voltou para casa a pensar na simpatia do imigrante em contraste com o preconceito do Sr. Afonso. Ao chegar à entrada do prédio, viu Heitor debruçado sobre a varanda.
– Desce daí, Heitor. Sai daí. Não faças isso – pressentia o pior.
Colocou a chave na fechadura, abriu a porta apressado, olhou para os elevadores e verificou que estavam no quinto, não havia tempo. Subiu as escadas a correr com toda a força que tinha. Esbaforido, entrou dentro de casa e dirigiu-se imediatamente para a varanda. Preocupado, olhou para o cão, que incrivelmente já tinha todo o seu corpo balanceando sobre o parapeito.
– Não. Heitor, não. Por favor! – gritou Luís ofegante
Desta vez não o ouviu. Imponente, lançou-se no vazio tentando a sua sorte. Só queria ser livre. Recusava-se a estar preso.
Luís lançou-se numa louca correria escada abaixo, até chegar à estrada junto de Heitor, que já se encontrava rodeado de pessoas que presenciaram a sua queda. Estava imóvel, com as pernas partidas, os olhos abertos e um fio de sangue a escorrer do canto da boca. Minutos depois, chegava o Sr. Afonso, que se ajoelhou junto de Heitor. Este soltou um gemido e fechou os olhos definitivamente. Esperara o dono chegar para lançar o último suspiro.
Luís sentiu uma enorme tristeza, acompanhada de uma raiva surda que jamais sentira e o compelia a vingar a morte do seu querido amigo. Para si, o culpado tinha um nome: Afonso.
Naquela noite subiu um andar e tocou na campainha. Tremia de medo, mas estava determinado, não podia falhar. Sabia que ele estava em casa, tocou uma vez mais, enquanto repetia mentalmente o plano que havia delineado. A porta abriu-se e diante de si surgiu um homem triste e cansado.
– Eu sei que não é boa altura, mas acontece que está a pingar no tecto da minha cozinha e talvez tenha a ver com a sua máquina de lavar ou com a banca. Não sei ao certo. Posso entrar?
– Faça o favor de entrar, Sr. Luís. Penso que na minha cozinha está tudo bem, mas entre, entre.
Luís entrou… aterrorizado. Lembrou-se de Heitor no rio, do fio de sangue e da sua altivez. Seguiu em frente, a sua mão, como uma tenaz, apertava com força o cabo de uma faca serrilhada que levava no bolso.
«Está quase! Só tenho que o pôr a jeito e fazê-lo pagar pelo que fez.»
– Vê, não tenho água no chão. Está tudo seco.
– Para ter a certeza, devíamos arrastar a máquina – disse Luís, na esperança de que ele se virasse de costas e pegasse nela.
– Tudo bem. Pegue desse lado, que eu pego deste.
Ficaram lado a lado, conjugando a sua força para levantar a máquina. Logicamente estava tudo seco, esfumava-se a oportunidade e com ela a coragem que arranjara para cometer o crime que planeara.
Ao passar junto à porta da sala, viu colocado na chaminé da lareira alguns pequenos quadros com fotografias, que lhe despertaram a atenção.
– Posso ver? – perguntou apontando para a lareira.
– Entre. Faça o favor.
Numa fotografia, Heitor estava sentado ao lado de um belo menino com cabelo castanho encaracolado e uns enormes olhos verdes. Noutra, estavam os dois mais o Sr. Afonso – que nem parecia o mesmo de tão elegante e bem vestido – e uma linda mulher, que só podia ser a mãe do menino.
– Perdi-os num acidente de automóvel. Já passaram seis anos, mas parece que foi ontem – uma lágrima de tristeza deslizava abandonada pelo canto do olho –, só eu e Heitor sobrevivemos. Agora foi ele, nunca imaginei que isto fosse acontecer. A minha esposa era professora de História e eu de Educação Física. Demos-lhe o nome de Heitor em homenagem ao nobre guerreiro que comandava o exército de Tróia.
– Desculpe o incómodo, Sr. Afonso – disse Luís visivelmente comovido.
«Como a vida pode transformar um homem!» – pensou… envergonhado com a sua mesquinhez.
A dimensão da tragédia vivida pelo seu vizinho reduzia os seus traumas à insignificância. Se existia alguém com motivos para não querer viver era o Afonso, não ele. Ele tinha tudo para ser feliz, não podia destruir essa possibilidade.
Desceu as escadas, entrou em casa, beijou Lúcia carinhosamente e disse:
– Preciso de ajuda, antes que seja tarde de mais. Amanhã mesmo vou procurar um psicólogo que me livre desta angústia em que vivo. Vamos ser felizes, Lúcia!
Esta é a história de um paciente e amigo que muito estimo, que um dia irrompeu pelo meu consultório, dizendo desesperado:
– Sr. Doutor, sei que não tenho consulta marcada e que o senhor não me conhece, mas eu não quero morrer. Quero ser feliz! Viva Heitor!

A INSULA FRATINA

O dia estava simplesmente esplendoroso. André Calisto estacionou o seu jipe Terrano no parque de estacionamento junto à praia.
Decidiu passar o sábado sozinho, longe de tudo e de todos, depois de uma semana de trabalho para esquecer. A sua promoção a chefe do departamento de informática da empresa onde trabalha há dez anos, por nomeação da administração, tinha caído como uma bomba. Das felicitações sinceras de alguns colegas até aos sorrisos amarelos de outros, teve de tudo. Sabia que tinha uma longa tarefa pela frente – conseguir o apoio dos colegas para os projectos que a administração lhe propôs não ia ser fácil. Mas sobre isso pensaria na segunda-feira, hoje, o mar seria o único desafio a enfrentar. O windsurf era a sua paixão desde muito jovem e, apesar de já ter ultrapassado os 35 anos, continuava a ser a única coisa que verdadeiramente o descontraía. Estendeu a toalha na areia, longe das pessoas, e colocou a prancha de windsurf ao lado; ainda não estava na altura de entrar na água, o mar ainda não reunia as condições mínimas para a prática.
O vento batia na vela, afastando a prancha do areal. Com grande perícia e aproveitando a direcção do vento, conduzia-a ao longo da praia, passando por alguns colegas que denunciavam falta de experiência. Rumou em direcção a uns penedos, que a espaços eram lambidos pelas ondas, fazendo levantar em pequenos voos umas gaivotas que os povoavam. Passou-os a uma velocidade apreciável, dirigindo-se para o mar alto. Quando desejou fazer uma volta de retorno, a prancha incompreensivelmente não obedeceu. Fez uma nova tentativa que não resultou, largou as mãos da retranca, a vela caiu e a prancha parou, assim como o vento. O silêncio era a única coisa que se ouvia.
André Calisto olhou para o céu e uma névoa caía sobre o oceano. Num ápice foi absorvido por ela como se fosse um manto atirado do espaço infinito. Não conseguia ver um palmo à frente do nariz. De repente o vento voltou, tornando-se cada vez mais forte. André levantou a vela e a prancha disparou a alta velocidade em direcção desconhecida. No meio da névoa sentiu-se perdido. Não sabe quanto tempo permaneceu envolto nela. Lentamente ela foi desaparecendo e o sol reapareceu.
A paisagem que agora tinha diante dos olhos era diferente da praia de onde saíra. Era uma praia de areia branca de águas límpidas, via-se o fundo do mar recheado de corais e peixes coloridos de uma beleza indescritível. Várias modalidades aquáticas polvilhavam as águas junto à praia. No areal alguns corpos seminus bronzeavam-se e os bares de apoio impecavelmente bem arranjados tinham alguns clientes. As pessoas, distraídas no gozo daquele sensacional dia, não deram pela chegada dele. O local era paradisíaco. André estava estupefacto, nunca tinha ouvido falar da existência daquele local. Dirigiu-se para a praia, pegou na prancha e arrastou-a para a areia seca. Olhou à sua volta e apercebeu-se que falavam uma língua estranha. Falava fluentemente inglês e francês, arranhava o alemão e tinha conhecimentos, apesar de limitados, de italiano e, claro, de castelhano, mas não era nenhuma destas línguas. Nos locais que frequentava à beira-mar havia sempre muitos estrangeiros, mas existiam sempre portugueses, mas ali mesmo os empregados dos bares falavam aquela estranha língua.
Aproximou-se de um grupo de jovens e perguntou:
– You speak english?
Olharam para ele espantados e não responderam.
– Vous parlez français? – insistiu.
– Alilanda? – perguntaram num misto de curiosidade e medo.
– Sei lá! Falem numa língua que eu entenda – expressou-se em português, na esperança remota de uma resposta.
Mas a resposta foi um virar de costas e uns sorrisos pouco simpáticos.
André Calisto aproximou-se de uma avenida marginal que bordejava a praia e onde morria o areal.
– Can I help you? – perguntou um senhor, de boa aparência, elegantemente vestido e que aparentava ter uns 80 anos.
– Where am I? – perguntou André.
– What language do you speak? – respondeu o velho com uma pergunta.
– Português!
– Português? – disse numa correcta pronúncia da língua de Camões.
– Ainda bem que encontro alguém que me compreende. Mas onde é que eu estou?
– Na Insula Fratina, ou melhor, em português, a Ilha Fraternal.
– Nunca ouvi falar de tal sítio – respondeu admirado.
– Não duvido.
– Mas onde fica esta ilha? Que língua se fala aqui?
– Esta ilha fica algures num oceano, a latitude e longitude, não me lembro, se é que algum dia soube. A língua oficial é o esperanto, já ouviu falar dela?
– Sim, mas não como língua oficial. E como se chama este local? Esta praia? E esta avenida onde vai dar?
– Você está na capital, Prosperi. Esta praia é a plago Hundo, e esta avenida é a Aleo Apudamara, que vai dar ao centro da cidade – respondeu o velho prontamente.
– Desculpe, o senhor quem é?… Como se chama?
– Chamo-me Petro. Sou um zorgisto.
– Zorgisto?
– Traduzindo para português, zelador. É natural que tenha curiosidade de conhecer algo sobre este local extraordinário, ímpar no mundo, onde toda a gente gostaria de viver, mas infelizmente essa felicidade só é privilégio de alguns.
– Não será exagero o que está a dizer? – perguntou sarcasticamente.
– Vou-lhe fornecer alguns dados sobre a ilha e depois dirá se de onde veio se lhe compara.
– Estou mesmo curioso.
Petro convidou André a sentar-se num dos bancos existentes na praia. André ficou admirado pelo facto de o velho não lhe ter feito perguntas acerca de como é que ele foi ali parar, talvez já o soubesse ou não era ainda o momento oportuno, isso preocupou-o.
– Esta ilha tem mais ou menos as dimensões e a população da Irlanda, mas com características completamente diferentes. No norte temos montanhas, que são o nosso reservatório natural de água. No sul temos belas praias e nas suas águas reservas de peixe suficientes para alimentar a população da ilha. Rebanhos de gado bovino, ovino e caprino pastam nas belas planícies do centro. O sol brilha 300 dias por ano, com uma temperatura média de 25º. Politicamente somos uma república etocrática, os partioj politikoj, representados na Kunsido Nacia, assentam os seus programas políticos, essencial e quase exclusivamente, na fruição dos bens públicos e das melhores perspectivas do ócio. A economia e as finanças estão devidamente estabilizadas e programadas.
» De dez em dez anos, os partioj politikoj fazem uma plataforma de entendimento e escolhem um primo-ministro, que recruta dentro dos partidos as personalidades que entende serem as mais competentes para a formação de um regado de unidade nacional.
» Eu pertenço à Direktoro Eminentularo, ou seja, é uma entidade suprapartidária que preserva a integridade do país e zela para que a ordem e a segurança não sejam postas em causa por forças internas ou eventualmente externas; como lhe disse, eu sou um zorgisto.
» Os transportes são grátis, assim como a saúde, o ensino e os espectáculos. Temos 0% de desemprego, toda a gente tem habitação, não temos analfabetos, 50% da população tem curso superior e o crescimento económico é de 15%. Somos totalmente auto-suficientes, não necessitamos do mundo exterior. As energias são não poluentes, energias renováveis: eólica, solar, de marés, de hidrogénio e gás natural. Temos da melhor e da mais moderna tecnologia, estamos sempre actualizados com o melhor que se faz nos outros países, temos técnicos altamente qualificados.
» Na Insula Fratina não há roubos, não há droga, não há alcoolismo, o tabaco há muito que foi abolido e desconhece-se a palavra «sida». O trânsito automóvel é fluente, as transgressões de trânsito, quando existem, são denunciadas pelos próprios infractores, que pagam voluntariamente as coimas. Por tudo isto, os polícoj são funcionários que normalmente trabalham noutras funções na Komunumo. Curiosamente, este ano houve um caso em que a polico teve que intervir, por ordem do tribunalo, relativamente a um indivíduo que abusivamente se apossou de segredos de estado sabendo que colocava em causa a segurança dos seus concidadãos. Quando foi interceptado acusou que o Regado lhe estava a cercear a sua liberdade e direito ao conhecimento. O tribunalo verificou que não era disso que se tratava e o indivíduo, como estava a ser um caso problemático, foi, por ordem do mesmo, internado numa kliniko para ser submetido a um desmemoriamento, ou seja, estripar da memória o problema que o desestabilizava. Havia muito mais para lhe dizer, só que não o quero aborrecer, mas estou disponível para qualquer pergunta que queira fazer.

André ficou perplexo com o relato de Petro, não sabia se o relato fora pura publicidade ou era um aviso. Achou melhor não colocar qualquer questão. Não sabia qual era o seu estatuto: náufrago, espião, reaccionário ou um indivíduo predestinado a uma das tais kliniko.
– O senhor disse que eram uma república etocrática. Mas isso é uma forma de governação baseada nos usos, tradições e regras de conduta reconhecidos pela população, não passando de uma teoria académica.
– Que nós passámos à prática. O governo deste país rege-se por princípios definidos há muito tempo pelos nossos antepassados e que só podem ser alteradas pela Direktoro Eminentularo.
André pensou que estava a lidar com um louco. O velho leu-lhe o pensamento e disse:
– Não pense que sou louco. Vou demonstrar-lhe o que disse.
Dirigiram-se a uma tenda que vendia vestuário. Petro disse-lhe para escolher uma t-shirt, uns jeans e uns sapatos para se deslocarem até ao centro e pagou-lhe as compras com uma espécie de cartão de crédito. Entraram num moderno metro de superfície, que parara perto do sítio onde estavam; não pagaram bilhete. Foram até ao centro passando por diversos edifícios de um material semelhante ao vidro e que lhe pareceram públicos. Fixou os nomes de alguns deles: Malsanulejo, Kuriero, Pumpistejo, Benko Stata, Muzeo Nacia, Kinejo Mondo, podiam dar-lhe jeito no regresso.
A cidade era aberta, o centro situava-se na confluência de várias e bem delineadas avenidas, impecavelmente limpas. Vários gardenoj, baptizados com nomes curiosos como Felico, Harmonio e Paco, que Petro fez questão de ir traduzindo, estavam cheios de flores e de pessoas, especialmente crianças que brincavam vigiadas pelos pais ou avós. À volta destes jardins, proliferavam pequenas, mas várias, kafkruco, onde pessoas de todas as idades conversavam ou liam saboreando um café ou uma outra bebida. Encaminharam-se para um edifício de estilo avançado, que nunca tinha visto e que transbordava de gente. Na porta de entrada tinha uma placa com os dizeres: «Operejo». Um som melodioso anunciava que o espectáculo ia começar. Petro disse-me que o espectáculo era grátis. Do outro lado da Placo Zamenhof existia um outro edifício de linhas também muito avançadas com um formato que parecia indicar ser um pavilhão para prática desportiva; efectivamente era um Pavilono e decorria um jogo muito apreciado de piedpilko de salono, a entrada também era grátis. Depois percorreram uma avenida cheia de belas casas, com belos jardins e as portas, quando existiam, não tinham fechaduras. Durante este giro pela cidade, André não vislumbrou nenhuma autoridade.
Em seguida, foram a um edifício todo espelhado e com luzes de néon, que dizia tratar-se da Societo Filamentoro. Petro cumprimentou o porteiro e perguntou por alguém, e foi-lhe indicado o local onde o poderia encontrar. Numa sala esfuziante de beleza e bem-estar Petro encontrou a pessoa que pretendia. Era um jovem que lhe foi apresentado.
– Karlo, apresento-te o…
– André Calisto.
– Gostava que acompanhasses o André.
E, virando-se para o André, disse:
– Karlo também fala português.
O jovem Karlo sorriu e abanou a cabeça afirmativamente.
– Quando é que eu poderei regressar? – perguntou André.
– Não sei. Tenho que analisar com os meus superiores o seu caso. O André trabalha em quê? – perguntou Petro.
– Sou licenciado em Informática.
– Óptimo. É uma área que falta no país. Não quer ficar cá a trabalhar?
– Não sei se estou interessado – atreveu-se a responder.
– Com certeza. Eu vou tratar do seu assunto – disse Petro sorrindo.
A saída do velho da sala prendia-se com a solução a dar ao seu caso.
Karlo convidou André a sentar-se num sofá. Perguntou-lhe se queria beber alguma coisa, André disse que tomava um café. Foram servidos por um robot.
Sentiu-se mais à vontade com Karlo e dispôs-se a encetar uma conversa para saber algo mais da ilha.
– Para além da língua oficial, o esperanto, a população fala outra língua?
– Não. Alguns de nós falamos outras línguas mas estamos autorizados pela Direktoro Eminentularo.
– Qual a razão de vocês falarem esperanto? – perguntou.
– Os primeiros habitantes da ilha eram de várias nacionalidades que entraram em conflito por causa da língua, foi por isso que a Direktoro Eminentularo decidiu adoptar o esperanto como língua oficial por ser uma língua da fraternidade.
– Falando somente esperanto e não tendo acesso a outras línguas, a população não tem acesso a outros conhecimentos a não ser aqueles que vocês entenderem fornecer. O povo está nas vossas mãos. Não será assim? – questionou André.
– De modo algum. O povo é livre – disse Karlo, denunciando uma certa irritação.
André tinha um conhecimento muito elementar do esperanto, mas não tinha dúvidas que a língua inventada por Zamenhof fora construída com um objectivo de unir os povos e ali, naquela ilha, tinha sido pervertida ao ponto de ser um instrumento de opressão, ao serviço de uma cognominada «elite etocrática», disso já não lhe restavam dúvidas. Zamenhof fora traído nos seus propósitos.
André Calisto olhou à sua volta e apercebeu-se quanto aquele lugar era agradável. Karlo explicou que aquele edifício era inteligente. A climatização, a iluminação, a música ambiente, as persianas, os próprios sofás, eram geridos por computadores de modo a criarem um bem-estar aos seus utilizadores. Como estes edifícios há centenas espalhados pela ilha, explicou Karlo.
– O Karlo em que trabalha?
– Sou licenciado em Literatura. Dedico-me a traduzir para esperanto obras clássicas. A Ilíada e a Odisseia, de Homero, foram as minhas últimas traduções. Agora estou a traduzir…veja se reconhece?
Karlo passou a mão sobre o tampo da mesa que estava colocada à frente deles e um ecrã policromático acendeu. Apareceu um texto em esperanto e André começou a ler:

La farojn kaj la virojn multmeritajn,
El okcidenta plago luzitana,
La marojn ne ankorau navigitajn
Pasinte, transe ec de Trapobana;
En lukto kaj dangervenkintojn spitajn,
Kun forto superhoma kaj titana;
Kiuj Konstruis en la malproksimo
Reglandon, kondukitan al sublimo.

– Mas isto são Os Lusíadas, de Camões! – disse André admirado.
– Como vê, apesar de não saber esperanto, o André identificou o texto. Esta é a beleza da nossa língua. O escritor Tolstoi dizia que aprendeu a ler esperanto em duas horas. É uma língua que une as pessoas, como dizia o mestre Zamenhof.
– Mas como é possível a ilha não ser conhecida? – disse André.
– Efectivamente a ilha não é conhecida. A Direktoro Eminentularo decidiu que a ilha não devia ser conspurcada com os males do vosso mundo. Temos uma tecnologia de ponta que evita que satélites, meios áudios, aviões ou barcos se apercebam da sua existência; chamam-se «camufladores» e estão espalhados por toda a ilha.
– E quando alguém, como eu, casualmente, aporta à ilha? – perguntou André.
– Penso que o André foi o primeiro – disse Karlo.
André notou pela maneira que se referiu ao acontecimento que Karlo estava a fugir à verdade. André sentiu que algo ia correr menos bem, ou mesmo mal. Apesar das dúvidas que iam aumentando, André atreveu-se a perguntar:
– O Sr. Petro disse que era um zorgisto e que zelava pela segurança interna e externa da ilha, presumo que têm problemas.
– Alguns, mas muito poucos.
– E a contestação é política? – perguntou André.
– Não – disse categoricamente
– Não compreendo – reforçou André.
– Aqui na ilha, recebemos do exterior, via satélite, toda a comunicação do planeta. Há uma entidade, a Esteco Regulanta, que selecciona as notícias, e somente essas é que são divulgadas aos cidadãos, via rádio, imprensa ou televisão por cabo.
– E o Karlo diz que o povo é livre? Curioso! – atreveu-se a dizer.
Karlo ignorou a ironia e continuou:
– Contudo, há indivíduos ligados aos meios de recepção que, influenciados por notícias do exterior, contestam a entidade.
– E quando isso acontece? – afrontou André.
– Há males que têm de ser extirpados logo à nascença para o bem-estar do nosso povo. Esses indivíduos estão doentes, e, como tal, têm que ser tratados, por isso temos klinicoj para serem recuperados.
Mais uma vez a referência às clínicas de recuperação, pensou André.
– E você diz que há liberdade! Esta gente não é livre, está condicionada a um grupo bastante restrito que decide por eles o que é bom e o que é mau. Não tendo acesso ao mundo exterior, estão presos na ilha, que curiosamente se chama fraternal. Já conheci, num passado recente, sociedades semelhantes a esta e que o povo rejeitou. Não vos dou grande futuro, mais tarde ou mais cedo, vocês vão ter grandes problemas – disse André, consciente de que, com o que estava a dizer, a sua situação poderia piorar.
Karlo ficou pensativo por alguns momentos.
– A Direktoro Eminentularo prevê que o vosso mundo vai entrar numa guerra global e somente a Insula Fratina escapará ao morticínio – disse Karlo com uma voz já alterada, e em esperanto exprimiu o seu pensamento com uma frase plena de convicção: «La malbono faras doloron kaj ne la bono», que traduziu: «O mal faz a dor, e o bem não faz a dor».
Karlo convidou André a dar uma volta pela cidade. Utilizaram um pequeno veículo movido a energia solar de aspecto invulgar.
Na cabeça de André afloraram muitas questões, mas estava receoso de colocá-las a Karlo. A curiosidade sobrepôs-se irresistivelmente.
– Karlo, com o nível cultural que tem a população, é natural que sejam curiosos acerca do mundo exterior. Não acredito que pensem que estão sozinhos no planeta.
– Claro! Há uma quantidade de pessoas, mas é mínima, que questiona. Mas a vida que lhes é proporcionada ultrapassa de longe a curiosidade de conhecer esse mundo exterior.
– A curiosidade é inerente à raça humana, não acha?
– O André vive, de certeza, num local que lhe proporciona uma boa qualidade de vida e de que gosta?
– Sim.
– Se lhe mostrassem um local para onde o convidassem para ir viver em que a poluição, as guerras e a degradação humana fossem uma constante, o André que diria?
– Que não estava interessado, mas…
– É isso que fazemos ver aos poucos cidadãos quando levantam essas questões.
Karlo não deixou André replicar.
Karlo deixou André no Hotelo Karaktero no centro da cidade mesmo ao lado do rio Rivero Mildo. Disse-lhe que no dia seguinte voltaria de manhã cedo para o levar para a Societo.
No quarto que lhe foi destinado encontrou no armário roupa à sua medida. Enquanto esperava pela hora de jantar aproveitou para ver TV e percebeu, apesar de não saber esperanto, aquilo que lhe tinham dito: as notícias eram controladas, o mundo exterior pouco ou nada se falava, só se referiam ao que se passava na ilha. Desceu para jantar. Depois da refeição passou pela recepção e saiu para a rua. Um indivíduo estava sentado num banco do outro lado da rua a ler um jornal, numa situação típica de vigia. Pensou que se começasse a andar o indivíduo iria atrás dele; desistiu de criar mais problemas.
Regressou ao quarto e analisou a sua situação. Nunca se tinha interessado por política, considerava os políticos maquiavélicos, não olhavam a meios para atingir os fins, e curiosamente passou o dia a falar de política e a contestar o modelo político-social daquela ilha. Até falou de liberdade, e no seu pensamento desfilaram imagens dos seus ascendentes a falarem das perseguições políticas, das prisões e das torturas que alguns deles e amigos foram alvos no antigo regime, em defesa da liberdade. André nunca tinha pensado verdadeiramente nisso, mas agora, perante a situação que estava a viver, essa palavra tinha um significado que jamais pensara.
Por volta das 9 horas já Karlo o esperava no átrio do hotel; André não tinha dúvidas que estava a ser alvo de forte vigilância, a sua liberdade estava ameaçada. Tinha que tomar uma decisão, mas não sabia o quê. O reencontro com Petro previa-se de consequências imprevisíveis.
Perguntou a Karlo se era possível irem até à praia apanhar um pouco de sol. Karlo pegou num telemóvel e em esperanto perguntou a alguém se podia satisfazer pedido de André. A resposta foi positiva e Karlo levou-o até à praia no veículo que no dia anterior utilizaram.
O veículo parou no estacionamento, aproximaram-se da entrada da praia, a mesma que já conhecia, sentou-se no muro, despiu-se e ficou em calções, como quem tenciona deitar-se e apanhar um pouco de sol. Karlo não fez qualquer comentário e sentou-se num banco.
O areal não estava com muita gente, alguns surfistas exibiam as suas capacidades nas cristas das ondas, o mar estava brilhante e uma leve brisa percorria a praia. Um grupo de jovens falava animadamente junto à orla marítima com pranchas de windsurf repousadas na areia.
André olhou para um lado e para outro, levantou-se, dirigiu-se lentamente em direcção ao mar. Já relativamente perto da água começou a correr, dirigiu-se ao local onde estavam as pranchas, pegou numa e entrou no mar. Ultrapassou a rebentação, saltou para a prancha, levantou a vela e começou a velejar.
Perante o inesperado e o facto de não saberem o que era um roubo, os jovens não reagiram. Karlo percebeu, de imediato, que André ia tentar a fuga. Pegou no telemóvel e comunicou o sucedido. Gesticulou para uns indivíduos que se encontravam junto ao mar e devido à sinalética efectuada saltaram para umas motos de água, ali estacionadas, e saíram no seu encalço. Contudo, este espaço de tempo deu uma vantagem razoável a André.
André Calisto distanciou-se rapidamente da beira-mar em direcção ao mar alto. Passou por alguns barcos de recreio e procurava, desesperadamente, aquela névoa que o tinha atirado para aquelas paragens. Esta subitamente apareceu vinda do céu, como um manto caindo sobre ele com toda a sua espessura. André ouvia as motas de água aproximarem-se e continuou na sua fuga. A névoa espessou cada vez mais. O vento enchia a vela e a prancha a toda a brida dirigia-se com destino desconhecido. Só o barulho das motas chegava aos seus ouvidos, em sons entrecortados, o que significava que andavam aos ziguezagues à sua procura. Não sabe quanto tempo andou assim. André deixou de ouvir as motas de água, a névoa desapareceu quase instantaneamente e o sol ressurgiu com toda a sua pujança. André avistou uma embarcação e sentiu que era a sua salvação. Foi-se aproximando e cada vez melhor identificava a sua natureza; era uma traineira igual às muitas que enchem os portos piscatórios portugueses. Deus te Guie era o nome pintado toscamente a azul na proa.
– Ó da traineira! – gritou
– O amigo precisa de ajuda? – disse um homem vestido com uma camisa axadrezada.
– Sim, estou a fugir daquela ilha, estou a ser perseguido.
– Ilha? Mas que ilha? – perguntou o pescador.
– Aquela ali no horizonte – André apontou para o horizonte.
– Ilha? Ali o que você vê é Leça. O farol que vê à esquerda é o da Boa Nova e mais ao lado é a PETROGAL. Por aqui não existe ilha alguma, o amigo deve ter apanhado sol a mais. Mas suba que nós levamo-lo para terra. André subiu e os pescadores ajudaram a içar a prancha.
Encostado à cabina da traineira, observava o azul-escuro do mar e aquela costa recortada e foi identificando todos os locais. Mas como era possível ter saído de uma ilha que não existia? Falou com pessoas que se exprimiam em esperanto, participou da vida da ilha e, se não fosse as dúvidas sobre o que presenciou, até talvez tivesse ficado por lá. Agora, como por artes mágicas, a ilha desaparecera… ou nunca teria existido? Curioso é que a prancha de windsurf que roubou na praia era a sua prancha que tinha abandonado quando aportou à ilha.
Tudo isto teria sido fruto da sua imaginação de um sonho ou quiçá de uma experiência metafísica?
André Calisto voltou várias vezes à sua praia. Continuou a praticar o seu desporto favorito, mas nunca mais viu a tal névoa que um dia o levou para uma experiência inolvidável, assustadora?, maravilhosa?, no mínimo fantástica.


Glossário esperanto-português

Aleo – avenida.
Alilanda – estrangeiro.
Apudamara – marítima.
Benko Stata – Banco Nacional.
Direktoro Eminentularo – Suprema Elite.
Esteco Regulanta – Entidade Reguladora.
Felico – feliz.
Filamentoro – filantrópica.
Fratina – fraternal.
Gardenoj – jardins.
Harmonio – harmonia.
Hotelo – hotel.
Hundo – cão.
Insula – ilha.
Malsanulejo – hospital.
Mildo – manso.
Mondo – mundial.
Malsanulejo – hospital.
Mildo – manso.
Muzeo Nacia – Museu Nacional.
Operejo – ópera.
Paco – paz.
Partioj politikoj – partidos políticos.
Pavilono – pavilhão.
Piedpilko de salono – Futsal.
Placo – praça.
Plago – praia.
Polico – polícia.
Policoj –
polícias.
Primo-ministro – Primeiro Ministro.
Prosperi – prosperidade.
Pumpistejo – bombeiros.
Regado – governo.
Rivero – rio.
Salono – salão.
Societo – sociedade.
Kafkruco – cafeteria.
Karaktero – natureza.
Klinico – clínica.
klinicoj - Clínicas.
Komunumo – Câmara Municipal.
Kinejo – cinema.
Kuriero – Correio.
Tribunalo – tribunal.
Kunsido Nacia – Assembleia Nacional.
Zorgisto– Zelador.